23/01/2017

Os emprestados

Ponto prévio: Markovic está de volta ao Liverpool.

Há que reconhecer que foi um falhanço total, para nós e para o próprio jogador. Não deixa de ser curioso, como aqui abordei, que Markovic tenha falhado no Sporting e Carrillo não esteja a impressionar no Benfica. As "golpadas" nos rivais já não são o que eram...

Esta introdução serve apenas para puxar o tema dos "emprestados". Faz sentido um clube como o Sporting ter jogadores emprestados de outros clubes, sim ou não?

Tenho vários amigos que entendem que não, de todo. Abririam exceções para situações muito particulares, como foi o caso de Nani, mas fora isso não admitiriam nenhum empréstimo.

Eu percebo a ideia: um clube com a qualidade que o Sporting tem na formação, e que precisa de dar continuidade e estabilidade aos seus plantéis e projetos desportivos, que devem ter também uma componente forte de comprometimento (até porque dificilmente seremos os mais fortes à partida), não ganha muito em trazer jogadores que não se enquadrem totalmente neste perfil. No fundo, são elementos estranhos à lógica prevalecente e necessariamente para o curto prazo, o que num clube que pretende (?) potenciar os jogadores que constantemente forma parece até contraditório.

Ainda assim, eu não sou tão radical porque pode haver situações em que a formação não produziu (ou produziu mas falta potenciar) e as soluções no mercado são demasiado dispendiosas. Um exemplo claro é a posição de GR; nós temos tido Rui Patrício mas se RP quiser sair, a solução para n.º 1 não é óbvia. Havendo uma solução boa por empréstimo, até que seja encontrada uma solução definitiva, não me parece má ideia. Pensando noutro exemplo, há uns anos, a contratação de De Franceschi fez sentido (independentemente de muitos, hoje, considerarem o jogador fraco) porque para aquela posição simplesmente não havia mais ninguém.

Mas concordo genericamente que num clube como o Sporting os empréstimos, por princípio, não fazem sentido.

Olhando ao plantel que tínhamos em julho de 2016, as contratações de Campbell e Markovic, ainda assim, não eram propriamente aberrações. Não era claro que Gelson ia ser aposta a titular e além de Gelson existiam "apenas" BRuiz e Iuri para extremos. Considerando que tanto Markovic como Campbell poderiam também jogar na posição de segundo avançado, tudo parecia aceitável.

Como uma das contratações falhou claramente (Markovic) e a outra (Campbell) ficou prejudicada pela afirmação de Gelson, ambos deverão ser devolvidos. Não me parece mal: se Campbell (com maior ou menor perfil) fosse um titular indiscutível, era de manter até final da época. Sendo suplente, e estando o campeonato perdido, não faz sentido - é preferível fazer subir Matheus Pereira e dar minutos a um jogador promissor.

Quanto ao futuro: tratar o empréstimo como algo de anormal e puramente circunstancial.

09/01/2017

Bryan Ruiz

"Até ao final do jogo, vivemos com o coração nas mãos. O Bryan Ruiz teimava em concluir as jogadas em grande estilo. Ou acabava a passar a bola ao guarda-redes, ou tentava um chapéu ou um qualquer centro envolvendo um toque na bola completamente improvável."

Retirado daqui.

É a isto que me refiro quando falo de Bryan Ruiz.

Não me refiro à sua qualidade técnica, que é inegável.

Não me refiro à sua capacidade de segurar a bola, cuja utilidade é inquestionável.

Não me refiro à sua inteligência e visão de jogo, acima da média.

Nem me poderia referir ao papel que desempenha taticamente, onde é dos melhores que temos do meio-campo para a frente.

E nem sequer me refiro ao que os experts designam de "tomada de decisão". A tomada de decisão de Bryan Ruiz (reter ou passar? avançar ou recuar? rematar ou entregar?) é certa na grande maioria das ocasiões.

Refiro-me ao facto de Bryan Ruiz estar numa fase em que invariavelmente complica lances que são simples. Pensem num exemplo retirado do jogo de ontem: Ruiz faz a desmarcação perfeita, controla bem a bola, progride sozinho (porque não tem colegas a acompanhar o lance), ou seja, toma todas as decisões corretas, tudo impecável; quando se aproxima da baliza o defesa fecha dentro e só lhe dá ângulo para o seu pior pé, o direito. A partir daqui, não estando em causa "o que faz", entra a análise do "como faz": um jogador relativamente cego do pé direito, ao invés de optar pela solução mais simples (remate seco) tenta um toque em habilidade (chapéu), quando o GR ainda não foi ao chão e nem sequer está particularmente adiantado. E a bola foi parar ao mesmo local onde iria parar caso a solução simples corresse mal...

Repare-se que é um jogador muito útil à equipa. Ontem a sua entrada permitiu voltar a entrar num jogo que (pasme-se) o Feirense estava a controlar desde o intervalo. Foi fundamental. Mas depois tem estes momentos que, sinceramente, gostaria de atribuir à fase que a equipa atravessa, mas, em boa verdade, não o posso fazer.

BRuiz é um dos paradoxos deste Sporting: se não joga no meio, o coletivo fica mais frágil; se joga no meio, a sua falta de objetividade deixa-nos mais longe do golo. E se pensarmos que no ano passado a fase em que perdemos mais pontos foi com BRuiz atrás do PL (Teo estava a banhos), chegamos rapidamente à conclusão de que ele, a jogar, terá que o fazer numa das alas, ajudando a fechar dentro quando o Sporting não tiver a bola. Mas aí teria que sair Gelson ou Campbell.

Cabe a JJ trabalhar este aspeto. Ou a BRuiz entender que terá sido esse o motivo do seu percurso menos famoso em Inglaterra.