12/12/2016

Derby

Confesso que gosto de escrever estes posts sem ler primeiro os que já foram escritos nos (meus) blogs de referência.

Mas desta vez cometi o "erro" de ler primeiro o A Norte de Alvalade e o Cantinho do Morais. Não precisei de ler mais nada: está lá quase tudo o que penso, com algumas excepções (seja por discordância, seja por omissão).

Por isso mesmo, remeto para esses textos, limitando-me a acrescentar o seguinte:

1. Bryan Ruiz é um jogador a menos há muito tempo. Ainda não tinha tido coragem de o escrever aqui (creio) mas já o digo há muito tempo em trocas de impressões com outros sportinguistas. Não lhe negando as evidentes qualidades, reconheço que não sou apreciador do jogador e nem a vigorosa defesa dos experts o salva. É o estilo do jogador, e não o que ele produz (quando está inspirado), que não aprecio. Nem todos têm que ter a forma de jogar de um Slimani, mas o jogador que não consegue deixar de encarar todos os lances vendo como única solução o adorno ou o toque de primeira não será seguramente um modelo de "aproximação da equipa ao golo", ainda mais quando a intensidade colocada nos lances não está, em regra, à altura de um jogo como o de ontem (que me desculpem os experts). O BRuiz sabe muito do jogo, disso não duvido. Mas não consegue evitar (é mais forte do que ele) ligar o complicómetro quando às vezes o recomendado para a tal "aproximação ao golo" é, simplesmente, um simples passe para o lado, ou mesmo para trás. Continuo a dizer que pode ser um elemento importante na estrutura defensiva da equipa, jogando atrás do PL, mas em jogos com outros adversários. Ontem, a única coisa que justifica a sua permanência em campo, na comparação com Bruno César, é o cartão amarelo deste último. Parece-me insuficiente como critério.

2. Em ligeira discordância com o Leão de Alvalade, só há um lance de arbitragem em que (ainda assim com muito boa vontade) daria o benefício da dúvida a Jorge Sousa: o do Nélson Semedo. Essencialmente porque o lance é rápido e ele não conta que o colega falhe a intercepção; ele faz um movimento, ténue, em reacção à falha do colega e o braço toca na bola. Difícil configurar como intencional. Sucede que as leis do jogo se mantêm inalteradas, mas a interpretação das mesmas não. E as instruções para os árbitros, muito sucintamente e em legalês (com as minhas antecipadas desculpas), ordenam que os árbitros punam não apenas o dolo (em termos muito básicos, a intenção), mas também a negligência (em termos muito básicos, desleixo ou imprudência). Um dia farei um post desenvolvido sobre este tema mas, por ora, fiquem apenas com esta imagem: os defesas recolhem os braços nos cruzamentos, quando não o faziam há 15/20 anos, pelo simples motivo de que sabem que, hoje, ao saltar em oposição a um cruzamento com os braços estendidos, estão a ter um comportamento imprudente e passível de falta. Ora, o Nélson Semedo manteve o braço junto ao corpo. Não me parece suficiente para que o lance não seja punível, porque há um movimento que impede a progressão da bola, mas seria suficiente para dar o benefício da dúvida. Só não o dou de forma cabal porque vi o resto do jogo e, muito em particular, um lance escandaloso de falta sobre o Adrien, nas barbas do árbitro, com o jogo a acabar, que provavelmente não daria em nada (Bruno César não estava em campo, o livre seria à sua medida) mas tem que ser assinalado pelo simples motivo de que é falta.

3. Nada do que disse se aplica ao lance do Pizzi. Ou melhor, ao segundo toque, porque Pizzi tocou duas vezes com a mão na bola. O primeiro toque poderíamos desculpar por motivos semelhantes (proximidade de Lindelof quando toca a bola), mas o segundo toque é inquestionavelmente intencional.

4. Curioso como a psicologia se inverteu nos derbies: se nos primeiros parecia impensável que Rui Vitória conseguisse encontrar forma de derrotar JJ, agora parece que Rui Vitória encontrou uma fórmula com que JJ não se dá bem. O Benfica assume estes jogos em contra-ataque (quantos lances criou em jogo corrido?) porque sabe que JJ não vai hesitar em por a sua equipa a assumir o jogo. Rui Vitória sabe também que tem a melhor linha ofensiva em Portugal, que lhe permite jogar contra os "pequenos" e "médios" assumindo o jogo, e contra os grandes na expetativa. Curiosamente, as vezes em que não o fez, perdeu, justa ou injustamente. Assumiu o jogo com o Sporting, no ano passado, controlando os primeiros 20 minutos, e perdeu; assumiu o jogo com o Porto, também no ano passado, e até deu um banho de bola, mas perdeu. Quando jogou na expetativa, deu-se bem. A verdade é que tem jogadores para isso e o Sporting não tem. Jogar em contra ataque com Ruiz, Bruno César e Bas Dost seguramente não traria grandes resultados. Com Salvio, Rafa, Guedes e Jimenez a conversa é outra. Independentemente dos lances de arbitragem, o Benfica marcou-nos dois golos (o facto de o primeiro ser antecedido do lance do Pizzi não é chamado para esta análise). Foi eficaz porque os seus jogadores são bons. Salvio parecia perdido para o futebol, mas ainda mexe, e bem; Rafa é um grande jogador; Gonçalo Guedes não está ao nível dos demais, mas tem estado muito bem; e Jimenez pode não valer os 22M€ mas é um PL com muitas qualidades. E relembro que não estavam Jonas e Mitroglou.

5. Porque isto não pode passar em claro, queria só recordar aos sportinguistas que o Benfica tinha no banco aquela que seria a dupla de extremos que JJ queria este ano: Carrillo e Cervi. No banco. Isto para os que acham que o Sporting tem obrigação de ganhar porque isto ou por aquilo. Repito: o adversário de ontem tinha no banco aqueles que seriam os nossos titulares. Podemos até dizer que foi buscá-los para nos enfraquecer porque nem precisava assim tanto deles (modelo FCP anos 90 e 2000, a juntar aos Jorges Sousas). Mas o ponto é fundamentalmente este: os adversários ainda vão tendo melhores plantéis do que nós. O nosso 11 consegue andar ali taco-a-taco, mas a partir daí leiam o que dizem o Cantinho e o Leão de Alvalade. E nem vou comentar Alan Ruiz (continuámos a jogar com 10, quando devíamos estar desde o intervalo a jogar com 11). Não o digo em forma de crítica, e até o poderia fazer. Digo-o como constatação.

6. Enorme jogo de William Carvalho. Aquele de ontem é o William que os benfiquistas dizem que nunca viram. Acho que ontem só não viram se não quiseram.

13 comentários:

  1. Grande texto MMS,

    que pena que não escrevas mais vezes.
    Não há nada a acrescentar aos pontos. Isso foi o jogo e isso foi a nossa preparação para esta época.
    Como disse no "A Norte de Alvalade", apesar dos penaltis (para mim são os 2, mas compreendo a tua explicação), assisti ao jogo de forma serena (ou resignada?). Mas os últimos 5 a 10m tiraram-me do sério. Aí viu-se a velha arbitragem encomendada. Incrível. O canto assinalado ao Coates, o amarelo ao Marvin e a falta sobre o Adrien são de quem (também) merece ser campeão.
    A partir disto, importa pouco discutir futebol, porque (já) não é disso que se trata.

    O ponto 5 é claro. Temos 11 (assim JJ queira) para disputar todos os jogos. Mas não temos plantel para disputar competições.
    E por isso, esta época foi uma oportunidade perdida.

    um grande abraço e muito obrigado pela referência.

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    1. Cantinho,
      Muito obrigado. Quando me lembro de JJ dizer que este ano estávamos mais fortes no contra-ataque tento lembrar-me de quantos golos marcámos em contra-ataque e, talvez por andar chateado com tudo isto, não me consigo lembrar de nenhum...
      Veremos Janeiro, algo vai ser corrigido.
      Um abraço

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  2. MMS,

    1. O Bryan não é um jogador forte no 1 para 1 ou em velocidade. É um jogador que desequilibra através do passe. Não creio que a sua melhor posição seja no corredor central uma vez que tem dificuldade em jogar em espaços curtos para além de não decidir rápido. Para mim ele tem de jogar na ala e a titular. O problema é que o lateral com que temos jogado (o Evaldo holandês) não consegue dar o devido apoio porque não tem o mínimo de qualidade para jogar no Sporting. O Bruno César tem de ser o nosso lateral esquerdo porque é o único que dos que fazem aquela posição em que a bola não se perde sempre que lhe cai nos pés. Se é para continuar a jogar com o Marvin então mais vale não jogar com o Bryan uma vez que a única utilidade que ele terá será no momento defensivo. Em relação ao estilo, eu gosto mais deste estilo de jogador do que um como o Gélson que, embora muito seja forte no 1 para 1 (fruto da sua velocidade), não tem grande critério a jogar e acelera o jogo quando muitas vezes o jogo pede "pausa". Tivemos à pouco tempo um jogador de classe mundial que é um misto destes dois: Nani. Infelizmente, não o conseguimos aproveitar da melhor forma.

    4 e 5. No 11 com que o Benfica jogou (em que muitos são suplentes), os únicos jogadores do Sporting que lá entravam seriam: Coates, William e Dost. É difícil fazer melhor quando as armas dos rivais são muito superiores tanto em quantidade como em qualidade. Nos últimos anos, só me lembro de um em que tivemos uma qualidade semelhante: 2014-2015 (Nani e Carrillo). E lembro-me que isso só aconteceu porque o Benfica sofreu um decréscimo de qualidade após algumas vendas e só em Janeiro conseguiu equilibrar (com a vinda de Jonas).

    6. Benfiquistas e não só. Adeptos que acreditam que a função do médio defensivo (e todos os restantes membros da defesa) é única e exclusivamente defender. Se escolher o clube certo (espero que não faça como o João Mário...) terá um futuro brilhante.

    Cumps

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    1. RMSCP,
      BRuiz: tento ser "imparcial" nesta análise porque o que digo é que não é o estilo de jogador que eu aprecio, mas isso é subjetivo. Tenho amigos que idolatravam o Pedro Barbosa, a mim nunca me encantou. No extremo oposto, temos o Sá Pinto, idolatrado por muitos, que também nunca me encantou. Ou seja, falo mais do estilo do que de outra coisa. Isto dito, acho que dentro do estilo (que não aprecio) foi um jogador que teve um rendimento positivo no ano passado; este ano o rendimento tem sido pobre. A equipa não perderia equilíbrio com Gelson, Campbell e Dost, assumindo que BCésar estaria atrás de Dost (ou à frente de William e Adrien, como preferirem). E Ruiz seria a alternativa a BCésar, não digo que não tenha qualidade para ali estar, atenção, digo apenas que (independentemente de eu apreciar mais ou menos o estilo) tem emperrado o jogo da equipa e o rendimento ressente-se disso (e no ano passado o DL já era este na fase final do campeonato...).
      Abraço

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    2. MMS,

      Eu acho que aquilo a que chamas "emperrar o jogo" é o que permite à equipa subir em bloco. Quando o Gélson leva a bola, raramente a equipa consegue acompanhar. Também acho que é por isso que temos tido dificuldades a definir os lances. A pressa é tanta que se perde discernimento.

      Cumps

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    3. RMSCP
      É um bom ponto. Reconheço a utilidade de um jogador que sabe segurar a bola permitindo a subida da equipa. O tema é que ele faz essa parte bem, mas o que faz à bola depois disso tem saído invariavelmente mal. Pode ser só uma questão de forma, mas não tem estado particularmente feliz este ano.
      Abraço

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  3. MMS,
    Antes de mais obrigado pela referência, ainda por cima em tão boa companhia (Cantinho). E depois a satisfação pelo regresso.

    Relativamente à discordância até eu concordo com ela. Explico: quando escrevi o post não me tinha apercebido do segundo toque de Pizi, o que só aconteceu já ontem e por isso já nem alterei o post. Mas aquele lance do Nelson vi logo que era penalty sem repetição, daí o que escrevi.

    O ponto 4 é muito importante, concordo e senti precisamente o mesmo. Disse-o entre amigos, este Slb de Vitória não tem vergonha de recuar as linhas com equipas fortes (com as equipinhas do nosso campeonato é outra história...) e talvez nos tenha faltado isso nomeadamente nos jogos europeus, saber sofrer pode ser uma virtude especialmente com equipas com mais argumentos. Acresce que eles connosco ficam ainda mais confortáveis porque tudo lhes corre bem, como se viu no derby.

    5-Na mouche!

    Abraço

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    1. Um abraço LdA

      E que a encomenda que nos prepararam para hoje não chegue ao destino pretendido pelo remetente!

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  4. querido amigo,

    constato que continuam a enfiar a cabeça na areia.
    nos lances onde vêem a "mão" do árbitro. e na estratégia Vitória, como se fosse menor.
    por mim óptimo !

    abraço

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    1. Interpretaste mal na estratégia do Vitória. Não a qualifiquei de má ou de boa. Se ele tem equipa para jogar assim, e obtém resultados, é o JJ que tem que conseguir ultrapassar isso. O Vitória pode manter a estratégia, o JJ é que tem que pensar se vale a pena assumir o jogo desta forma quando o adversário se limita a esperar por ele e tem jogadores de grande qualidade que o atingem nos pontos fracos. Se releres vais ver que era isto que queria dizer.

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  5. Engraçado também como das mãos do Brian Ruiz e do Gelson nos lances que deram (ambos) golo no jogo contra o porto não tenham dito nada.

    Essas já não viram.

    Enfim, o costume. o chirivari vai continuar.

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    1. No lance do Gelson a bola vai ao peito, e não ao braço, convém não misturar lances em que é duvidoso sequer que tenha sido mão com outros em que estamos apenas a discutir se a mão foi intencional.

      O lance do Ruiz estaria no mesmo patamar do lance do Nélson Semedo (bola inesperada) ou do primeiro toque do Pizzi (bola muito próxima). Com a seguinte e muito relevante diferença para o lance do Semedo: o Ruiz não faz qualquer movimento, a bola bate-lhe simplesmente no braço. O Semedo faz um movimento. O tema (difícil, daí o benefício da dúvida) é se é um movimento que ele faz na direção da bola, ou simplesmente reativo à falha do colega.

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  6. Mas tu falas como se o árbitro tivesse o benefício das imagens a seu favor (e atenção que não estou a admitir que houve mão do Pizzi ou do Semedo) e, portanto, pudesse ter decidido eventualmente a vosso favor.

    Os lances de que falas são tão duvidosos que - apesar do recurso às imagens - houve jornais que disseram que houve mão e outros que não.

    Donde que deverias conceder ao árbitro, pelo menos, o benefício da dúvida, ou certeza, que certos jornais (e com recurso às imagens) tiveram.

    Não o fazer é estar a mascarar as vossas falhas com desculpas de avestruz. Perderam porque na primeira parte nem respiraram. Tinham sempre um jogador em cima.

    E porque, no final, marcámos mais um golo que vocês. Atirar para cima do árbitro é calimerico. é só o que digo.

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