07/11/2016

Tira-teimas?

Há uns anos era recorrente a conversa da "atitude". Quem não se lembra daquela miserável época de 97/98 em que garantimos o apuramento para a UEFA com uma vitória sofrida sobre o já despromovido Belenenses (golo de Vidigal)? Durante essa época, falou-se sobretudo de atitude. Com Octávio e com Carlos Manuel, que a referia constantemente. Até a Juve Leo fez uma tarja "Pela vossa atitude, o nosso silêncio" num jogo em casa com a Académica que até hoje estou para perceber como conseguimos ganhar (golo de Marco Almeida - merece um post, não me posso esquecer dele!).

Entretanto não só o jogo evoluiu como evoluiu (ainda mais?) a capacidade de o analisar. Podemos não gostar de Freitas Lobo (não sou fã), Pedro Henriques (gosto mais) e tantos outros, mas é evidente o contraste com um passado não muito distante em que os jogos eram comentados pelo António Fidalgo (grande campeão pelo Sporting mas um comentador que só dizia banalidades).

Obviamente que este fenómeno acabou também por chegar aos blogs. Há 10/15 anos, não me lembro (mas posso ser só eu) de existir um só blog em que se tentasse fazer uma leitura rigorosa do jogo (aquilo a que eu e os meus amigos chamamos "futebol-processos"). Analisavam-se plantéis, equipas, lances, mas sem qualquer profundidade. Um bom jogador era bom porque fazia o que lhe competia. Nas análises de há 10/15 anos, Jonas era melhor do que Slimani porque marcava mais golos e fazia mais assistências. O seu papel no resto do jogo não era considerado.

Desde então, o aparecimento de blogs como o Lateral Esquerdo, o Posse de Bola, o Entre Dez, o Domínio Táctico (e já não está activo aquele que, para mim, era o melhor de todos: o Bancada Nova, do PLF) mudou a forma como os frequentadores de blogs olham para o jogo. Eu brinco muitas vezes com estes bloggers, chamando-os de experts, mas tenho que reconhecer que fui (e sou) influenciado por eles. Porque o que escrevem faz sentido. Muitas vezes discordo, por motivos que já expliquei noutros posts e que não vale a pena repisar (basta seguir o tag se estiverem interessados nisso). Mas são opiniões que têm fundamentos que vão para além do "não corre", "é um fussão", "não sabe rematar", "não tem cabedal" e isso faz com que os leia atentamente. Acima de tudo, o cliché da "atitude" foi caindo porque, regra geral, todas as equipas entram com a mesma atitude para dentro do campo e o que as distingue são, essencialmente, duas coisas: a qualidade coletiva e a qualidade individual dos jogadores.

Como referi, obviamente não foram os blogs que iniciaram o movimento, limitaram-se a acompanhá-lo. Aquela geração de treinadores que salvava clubes da despromoção (um deles, Jaime Pacheco, fez bem mais do que isso - foi campeão!) graças à "atitude" que incutia nos jogadores, deu lugar a uma outra geração (fortemente influenciada pelo papel de José Mourinho no Porto) que se preocupa com o futebol-processos e sabe que o "bora lá crl" não deve chegar para ganhar muitos jogos (há muitos exemplos, para todos os gostos: Paulo Fonseca, Marco Silva, Jorge Simão, Miguel Leal, etc.).

Isto tudo para dizer o quê?

Em primeiro lugar: sem prejuízo de tudo o que disse acima, no último jogo e m Alvalade com o Tondela, senti pela primeira vez em muitos anos (e incluo a época de 12/13 neste lote, vejam bem!) que os jogadores do Sporting não encararam o jogo com a atitude certa. Aquele jogo era para ganhar, sim ou sim, desde o primeiro minuto. E o Sporting pareceu entrar em ritmo de passeio.

Em segundo lugar: ontem senti que a equipa entrou com a atitude certa, em cima do adversário, a disputar cada lance sabendo que aquela vitória não podia mesmo fugir. E a vitória caiu naturalmente para o nosso lado.

Mas será que esta sensação relativa à atitude dos jogadores faz algum sentido? Ou será que efetivamente a colocação de BRuiz nas costas de Bas Dost, como referi no post anterior, era o detalhe que estava a faltar?

Honestamente: não dá ainda para tirar as teimas. Este jogo foi obviamente melhor, o Sporting entrou mais agressivo e mais pressionante, mas um exercício de honestidade deve levar-me a dizer que marcar num lançamento lateral às três tabelas aos 10 minutos de jogo muda muita coisa. Com o Tondela, Gelson Martins rematou ao poste, logo no início do jogo, e nunca saberemos como seria o jogo se essa bola entrasse.

Mesmo sem tirar todas as teimas, tenho que dizer que, a ganhar 1-0, vi a "atitude defensiva" de BRuiz que já antecipava. Juntamente com Dost e com Adrien cobriam o corredor central por onde o Arouca nunca conseguiu sair a jogar. Mais atrás, Campbell (belo jogo mas sempre melhor à direita e no meio do que à esquerda) e Gelson, mais William como homem mais recuado para uma segunda linha de pressão. Pressão coletiva, seguramente treinada há já muito tempo, mas a que faltavam duas peças: Adrien, que joga com William há mais de 3 anos, e é treinado por JJ desde o ano passado (e antes foi treinado por Jardim, Marco Silva, bons treinadores...); e um segundo elemento que fizesse companhia a Bas Dost e que conheça e entenda o que JJ pede (teria que ser, como disse, BCésar ou BRuiz).

Não podemos ter certezas, mas diria que, pelo menos, foi claro que o jogo estava controlado e que o Arouca só de bola parada criaria perigo (e tanta bola parada houve ontem, para um lado e para o outro, graças ao festival do apito de um dos grandes baluartes do Xistrema). Obviamente que, depois de 3 empates de rajada, Alvalade só descansou com o 2-0, mas o Arouca nunca fez nada que nos incomodasse. É um passo positivo.

PS: Sou totalmente insuspeito na apreciação do Elias. É um jogador que sempre considerei sobrevalorizado pelas chamadas a uma seleção que atravessa de há 10 anos para cá um incompreensível fenómeno de vulgaridade que o atual selecionador está a tentar corrigir a pouco e pouco (basta lembrar quem por lá andou neste período para perceber que Tite está mesmo a mudar alguma coisa). Mas dizer que é sobrevalorizado não significa dizer que é mau. O Juan Mata e o Roberto Soldado são altamente sobrevalorizados; dizer isto significa que são maus? Não, significa apenas que mesmo sendo ótimos jogadores não lhes vejo qualidades para andar em clubes de topo (comparemos com Payet que anda pelo West Ham ou com Kevin Gameiro, tanto tempo suplente no Sevilla e que só agora chegou ao Atletico Madrid). O Elias é um bom jogador e é perfeitamente capaz de desempenhar o papel que lhe está destinado no atual Sporting: ser alternativa a Adrien. Na ausência de Adrien, foi uma das vítimas dos erros coletivos que foram sendo cometidos porque o seu estilo de jogo o põe nos holofotes dos adeptos que querem carrinhos e correrias. Mas não foi seguramente pelo Elias que o Sporting perdeu em Vila do Conde, porque o Elias nem saiu do banco. E essa foi a única derrota no campeonato neste período (e bem expressiva por sinal). Por isto, mas acima de tudo por ser profissional do Sporting, vai sempre contar com o meu vibrante aplauso por cada vez que se levantar um coro de assobios como aconteceu quando entrou em campo com o Arouca.

03/11/2016

Falemos de futebol - os problemas de que se fala

Depois de uma longa ausência, apetece-me voltar a escrever para falar de algo que parece interessar pouco nesta fase (ou pelo menos parece interessar bastante menos do que os 823 textos anti-Benfica que se publicam um pouco por todo o lado, desde logo em páginas ligadas ao Sporting): os problemas que parecem existir na nossa equipa de futebol.

Faço-o depois de um jogo que, a meu ver, foi bem conseguido do ponto de vista coletivo mas que revelou, de alguma forma, em virtude de algumas alterações, parte do que não tem estado bem nesta equipa (pelo impacto positivo dessas alterações nalguns jogadores, como Schelotto e Marvin). Mas o sistema de ontem não serve para resolver todos os problemas, simplesmente porque aquele sistema não ajuda a ganhar ao Arouca em casa. Mais: aquele sistema não impede o Arouca de ser perigoso em Alvalade. Porquê? Porque a meu ver não resolve o maior problema do Sporting nesta fase: o espaço concedido a qualquer adversário para construir jogo pela zona central. Esse espaço expõe a equipa, que fica desequilibrada e desposicionada, e obriga os jogadores do meio-campo não só a correr mais do que era suposto mas também a construir a partir de uma zona mais recuada (porque a equipa dificilmente recupera a bola em zonas altas do campo).

Mas começo por dizer o que tenho ouvido por aí para depois dar a minha opinião:
- "o grande problema está nas laterais, não nos reforçámos"
- "o grande problema foi a lesão de Adrien, Elias não está à altura"
- "o grande problema foram os reforços, não estão à altura dos jogadores que saíram".

Quanto aos laterais, queria recordar que são os mesmos que fizeram a série de vitórias do ano passado. Todos sabemos que têm algumas limitações, mas convenhamos que já as tinham antes e que estão bastante acima da média do campeonato português. O treinador é o mesmo (logo a forma de defender também), os centrais também são os mesmos, o sistema no meio-campo defensivo é idêntico. Eu não iria por aqui. Podemos questionar jogo a jogo se as escolhas são as mais adequadas e acima de tudo questionar se, não tendo Jefferson saído (como parecia ser pretendido por treinador e SAD), não será ainda assim melhor opção do que, por exemplo, Bruno César. Mas mais importante do que isso, a meu ver, é perceber se os laterais este ano estão mais expostos do que no ano passado. Eu acho que estão mas não tem a ver com os bonecos que colocamos a jogar: tem a ver com a forma como a equipa está a jogar. Ontem a equipa protegeu melhor os seus laterais e a verdade é que vimos Marvin fazer mais subidas num jogo do que no resto da temporada.

Quanto a Adrien vs Elias, o problema não é especificamente esse. O problema seria Adrien (ou William) vs qualquer outro jogador do mundo que (i) não conheça o parceiro de sector e (ii) não seja treinado por JJ há pelo menos um ano. Desde a primeira hora o digo aqui, este sistema de JJ é um sistema que, quando está a carburar, dá muitos pontos; quando não está a carburar, é um pesadelo para o meio-campo. No ano passado eu dizia que com Aquilani e Adrien ia ser complicado e teríamos que jogar com meio-campo a 3. Mesmo com Adrien e JMário a equipa não estava a ser segura (e acho que poucos colocarão em causa a qualidade de JMário). Neste sistema, a rotina entre os jogadores do meio-campo é fundamental. Basta pensar no tempo que levou até que jogadores como Matic e Enzo Pérez se afirmassem definitivamente no Benfica de JJ. Por isso mesmo, eu que nunca fui fã de Elias e que considero que o rapaz parece sempre jogar em "modo caipirinha", defendo que não é por Elias que a coisa corre pior mas pelo sistema de jogo, que não foi adaptado à inexistência de rotinas entre os jogadores.

Quanto aos substitutos dos jogadores que saíram: é evidente que nem Dost nem Castaignos são Slimani, mas convém perceber que não estamos a falar da saída de um fora-de-série e que tanto Dost como Castaignos oferecem à equipa algumas coisas que Slimani não oferecia; e a saída de JMário tem sido disfarçada por um início de época fantástico de Gelson Martins (nunca pensei!). Não custa reconhecer que os reforços ainda não encaixaram (alguns vinham de grandes paragens competitivas) e antecipo mesmo uma vida difícil para alguns deles: Campbell chegou porque nem JJ acreditou que Gelson tivesse esta afirmação tão evidente (não terá oportunidades tão cedo); Douglas chegou porque JJ achava que RSemedo não tomaria conta do lugar (mas tomou); Meli viria fazer papel de JMário (naquela posição em que não era extremo nem médio interior) e foi também prejudicado pela afirmação de Gelson. Mas os demais terão o seu lugar e a sua função: Beto veio para ser suplente; Petrovic é alternativa a William; Elias é alternativa a Adrien (mas o sistema não o favorece); Dost será o titular e Castaignos a alternativa; Markovic seria segundo PL e André a alternativa (ainda há Alan Ruiz, mas é um caso à parte de que falarei noutra altura). Não são jogadores sem qualidade ou sequer sem experiência, estamos a falar de jogadores internacionais por Portugal, Sérvia, Brasil e Holanda. São, sim, jogadores com longos períodos sem competir (como disse acima) e "vítimas" de uma dinâmica coletiva que está numa fase menos boa. E o que está a correr menos bem coletivamente está a atrasar aquilo que já seria difícil por si mesmo.

Não estando o problema nos laterais, em Elias ou na qualidade dos reforços, onde está o problema? Como disse, no sistema de jogo e, muito em particular, no espaço que é dado ao adversário. O meio-campo corre mais mas corre pior. Recupera a bola mais atrás e quando inicia a construção tem 9, 10, 11 adversários pela frente. Qualquer equipa constrói em Alvalade, até o Tondela o fez. Os primeiros 45 minutos com o Dortmund, em Alvalade, foram penosos. À imagem do que fez no ano passado quando ficou sem William, JJ não adaptou a equipa à ausência de Adrien. Elias e Markovic têm sido jogadores sujeitos a verdadeiros massacres ao ego em Alvalade sem qualquer necessidade. Bastaria que, na ausência de um dos jogadores que há 3 anos jogam juntos, o treinador tivesse colocado Bruno César ou mesmo Bryan Ruiz nas costas do PL e a equipa teria logo outra dinâmica porque estes jogadores cumpririam um papel defensivo que é impossível pedir a Markovic ou André (nem se fale de Alan Ruiz). Como estamos, há metros e metros para construir. A dupla Slimani-Téo ajudava a mitigar isto, claro que sim. Mas não vale a pena dizer que sem Teo deixámos de defender ou que Slimani corria mais para pressionar do que Bas Dost. O que vale a pena dizer é que com jogadores diferentes temos que nos adaptar, ao invés de exigir a Dost que seja Slimani e a Elias que seja Adrien.

Entretanto este texto parece extemporâneo porque Adrien voltou. Mas não o é. Não o é porque eu entendo que, mesmo com Adrien, a equipa seria mais segura e mais forte tendo Bruno César à frente dos dois do meio-campo (não será por acaso que foi assim que o Sporting fez 80 minutos de enorme qualidade em Madrid). Adicionalmente, tendo regressado Adrien, vamos ver se continuaremos a ouvir queixas dos laterais e dos reforços do ataque. Posso estar enganado mas se JJ fizer regressar Adrien ao 11 com Bruno César ou mesmo Bryan Ruiz entre o meio-campo e o PL, a tranquilidade vai regressar. Poderá não ser imediato, porque o Sporting atravessa (não há que escondê-lo) uma crise de confiança, mas vai acontecer mais dia menos dia. Espero que até lá as vitórias, mesmo que menos tranquilas, nos ajudem a ficar relativamente perto do topo.