11/07/2016

Por agora, só isto

Uma análise tentativamente fria virá mais tarde, acabo de vir da Alameda e ainda estou em "modo euforia".

Por agora, fica a foto de um jogador relativamente a quem eu próprio escrevi que levaria ao Euro só por não haver outro que pudesse fazer o seu papel. O futebol tem esta magia e esta imprevisibilidade.

O que nos aconteceu não acontece sempre... mas não podia estar mais feliz por nos ter acontecido desta vez (e, ainda mais, nestas circunstâncias) e se é verdade que tivemos sorte neste percurso, também é verdade que ontem fizemos por merecê-la.

Três palavras apenas, muito rápidas:

- a primeira, para Fernando Santos: um gigante na leitura de jogo nesta final. Adrien não estava a dar e a equipa melhorou muito com Moutinho; e Éder (ao contrário do que pensavam 10 milhões de portugueses quando entrou) veio fazer com que a equipa jogasse uns bons metros mais à frente (e a França tremeu quando isso aconteceu). Já o tinha elogiado muito como selecionador e já o tinha criticado muito como treinador. Na final, foi treinador como nenhum outro neste Euro.

- a segunda, para CR7. Ontem foi um verdadeiro capitão de equipa. Já o tinha sido noutras ocasiões (basta lembrar os penalties com a Polónia) mas ontem fica na nossa memória não como o enorme jogador que é, mas como o enorme capitão que não conhecíamos assim tão bem. Mereceu muito levantar aquela Taça.

- a última para Patrício: ninguém merecia tanto ganhar este Euro como ele. Nunca poderei dizer, porque seria mentira, que "sempre acreditei" que íamos à final (parece que era o único que não acreditava...) ou que "tinha uma fezada" relativamente à nossa vitória no Euro. Mas posso dizer que com a Polónia confiei que Patrício resolveria e que ontem, descrendo num golo nosso no prolongamento, estava a por as minhas fichas em Patrício para os penalties. a sua frieza e determinação, para além das qualidades como GR, deram-me tranquilidade durante todo o torneio.


6 comentários:

  1. Império dos Temakis11 de julho de 2016 às 22:27

    Difícil dizer o que jogo acabaria por dar tacticamente sem a lesão do Ronaldo, que levou à alteração imediata para o 4-3-3, com a passagem do Renato para o meio. Essa alteração deu mais controlo ao jogo, ainda que a colocação do Nani a 9 tenha retirado a profundidade.

    Mas o que me deu a sensação ontem foi que a entrada do Eder estava programada em caso de empate a partir dos 70min. Na tese do saudoso Oliveira, a partir daí ainda haveria 45min de jogo. Pareceu-me claro que a forma como a totalidade da equipa se libertou mais no ataque a partir da entrada do Eder foi também prevista antes do jogo, para aproveitar o cansaço e a intensidade do jogo com os alemães.

    Pareceu-me portanto que o plano de jogo passava por controlar durante a 1a parte, atacando pela certa, para depois poder explorar o espaço e mais caos no jogo. É nisso estrategicamente o Fernando Santos deu 10-0 ao Deschamps, que não me parece tenha mudado grande coisa na forma de atacar o adversário. Tanta malandrice so poderia vir de um treinador português ou italiano. O Fernando Santos em particular já viu demasiadas vezes os Paços, Rio Ave, Moreirense, etc. - assim como a 'verdade' que nos jogos entre grandes ganha o menos favorito com frequência - ter sucesso com este tipografia estratégia para que isso não tenha sido intencional.

    Por isso, em defesa do Adrien - sem prejuízo da excelente entrada do Moutinho, um dos jogadores mais menosprezamos por todos -, teve de levar com Matuidi, Pogba e Sissoko quando ainda estavam frescos (e fisicamente têm muito mais para dar do que qualquer centrocampista português no seu pico de forma). A saída do Renato enquadrou-se na mesma lógica, sendo a conjunção das alterações - com um 9 a dar mais profundidade, um elemento ultra-rotativo no meio-campo, o João Mário a fazer a ligação e o Quaresma na esquerda (onde deveria ter estado sempre!) - que permitiu ganhar algum ascendente sobre a França que antes não se tinha visto. Isto não me pareceu um acaso. Já as substituições do Deschamps demonstram a sua falta de compreensão de como o seu plano de jogo não servia.

    Grande união e grande personalidade de todos os jogadores. Grande Eder, não apenas pelo golo que marcou, mas pelo que permitiu à equipa respirar a jogar de costas para a baliza. Grande presente de casamento que me deram! :-)

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    1. Império,

      Excelente comentário, excelente análise.

      Não sei se a entrada do Éder estava nos planos ou não, mas admito que tenhas razão. A verdade é que naquele jogo e contra aquele adversário foi essencial, precisamente pelo que dizes no fim: permitiu à equipa respirar (e ganhar muitos metros) segurando a bola de costas para a baliza.

      Quanto ao Adrien: sou totalmente insuspeito porque venho dizendo já desde o mundial no Brasil que nestas competições (duras e exigentes mas realizadas no fim de épocas muito desgastantes, em particular para os jogadores que atuam em clubes de topo das principais ligas) há que privilegiar aqueles que fisicamente mais podem dar à equipa - obviamente não chegando ao ponto de convocar Fernandos Aguiares, estou a falar dentro de um certo nível de qualidade. Ontem ao rever o jogo, na RTP, pude aperceber-me dos comentários (a que obviamente não liguei quando vi em direto, nem os conseguia ouvir) e o Rui Costa dizia precisamente isto. Daí que defendesse, desde o início da competição, que o Moutinho (que me pareceu sempre com pouca dinâmica e algo "perro") não deveria ser titular (o André Gomes, fora da sua posição, ainda menos). Mas comentei ao intervalo do jogo com a França que o Adrien não estava a funcionar porque não conseguia segurar uma bola. O aspeto físico é importante nestas competições, mas as características dos jogadores não podem obviamente ser menosprezadas e as dos adversários menos ainda. Pedi, para supresa dos que comigo viam o jogo, a entrada de Moutinho, precisamente porque nos permitiria ganhar metros, segurando a bola com mais critério e qualidade no meio-campo. Fernando Santos leu bem o que a equipa precisou nos diversos momentos.

      Como dizes: grande presente de casamento, acredito que em B. tenham festejado rijamente.

      Um abraço

      PS: durante o jogo discutia com um amigo se estávamos em 4x3x3 como dizes ou 4x5x1. Como a defender os alas/extremos alinhavam om os médios interiores, eu dizia que era um 4x5x1 e não um 4x3x3. Sei que não tem grande relevância, mas mantens que era um 4x3x3?

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    2. Império dos Temakis12 de julho de 2016 às 13:47

      O mais interessante que me parece que podemos retirar é a ideia que fundamenta determinada decisão, porque sendo as substituições como os melões, têm sempre a possibilidade de não se traduzir em nada de especial ou mesmo num retrocesso exclusivamente dependente de um mau momento do jogador (menor aptidão intelectual, desconforto, pouca sorte, há imensos factores que podem influenciar).

      As (apenas duas porque uma foi forçada) substituições do Fernando Santos tiveram um propósito muito claro: refrescar o meio-campo (saíram duas das três unidades), procurar jogar um pouco mais vertical, aproveitar o espaço no duplo-pivot francês e procurar jogar "entre-linhas" (flectindo o João Mãrio para essa posição). Ao dar profundidade no eixo, a equipa ganhou espaço nas alas e imediatamente o Nani e o Quaresma ficaram com bola e espaço para jogar. Mais do que as características dos próprios jogadores (mas tamnbém), foi o tipo de jogo pretendido que alterou os equilíbrios do jogo.

      Já o Deschamps trocou dois jogadores pelo mesmo tipo de jogadores, não alterando em nada o seu modelo. Alterou ao minuto 111, quando já ninguém teria cabeça para que uma alteração táctica fosse capaz de ter um impacto.

      Estratégia também se faz de pequenas vitórias. A França estava convencida de que Portugal quereria levar o jogo para os nalties. Para a França, não ganhar nos 90', ou nos 120', ia colocando a pressão adicional de estar a ser incapaz de materializar uma certa superioridade. Já a selecção portuguesa foi cumprindo o seu plano de jogo. Aos 25' o plano de jogo levou um abalo, mas aos 45' a equipa estava dentro do que estaria delineado. Aos 60' continuava tudo a correr como previsto. Aos 80' continuava tudo a correr como previsto e já dava para sentir o adversário cansado e impaciente. O que se viu foi que a selecção esteve sempre muito confortável no jogo e isso é grande mérito do treinador (pois não são jogadores habituados a sofrer sem bola e tacticamente o comportamento não foi extraordinário). Poderia ter sofrido, claro, mas isso faz parte. Houve apenas dois momentos em que perdeu o controlo do adversário em 90min e só isso é susceptível de elevar muito a confiança.

      Quanto ao Éder, já o vimos fazer de tudo um pouco. Que tenha tido um aproveitamento tão forte não surpreende, porque já o vimos fazer igual. Que o tenha tido em jogo de tamanha responsabilidade, surpreende (e não pelo golo marcado, que é uma tentativa lógica de marcar quando se consegue libertar), é dedo do treinador e do grupo, mas também é sorte! A sorte que era necessária.

      Sobre o 4-5-1 ou o 4-3-3, não pretendo que saiba a diferença (parece-me discutir um pouco o sexo dos anjos). Ofensivamente os alas estavam numa linha superior aos médios-centro. Mas na saída em ataque organizado, com frequência baixava o William e um dos médios-centro, será que a equipa passava a um 3-4-3? O que registo é que começou com um 4-4-2 losango (em que Nani e CR7 baixavam com frequência mais do que o João Mário em fase defensiva) e rapidamente deixou de haver dois avançados. Se isso configura um 4-5-1 ou um 4-3-3 não sei.

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    3. sim, é um pouco o sexo dos anjos e remete para a discussão (também celestial) sobre se o 4x4x2 e o 4x3x3 e por a+i fora devem ser analisados com a equipa posicionada ofensiva ou defensivamente

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  2. MMS,

    Começo pelo fim: O Éder é a nossa última coca-cola do deserto, não há outra. Porém, entre limitações e dificuldades, nada justifica a perseguição generalizada de que foi alvo. Mesmo esquecendo o golo, o que a sua entrada significou para o nosso jogo permite pensar que poderia ter sido útil noutras ocasiões da competição.

    Concordando genericamente com os três pontos, comento apenas o que é mais caro: Patrício. O que temos visto nos últimos tempos seguramente que não é o mesmo que vimos em anos anteriores. Este Patricio, infelizmente para nós, é agora muito mais apelativo para quem precisa de um guarda-redes experiente e obviamente seguro.

    Já agora excelente análise do seu leitor que me precedeu nos comentários, em particular para a defesa, mais do que justa, do que foi o calvário de Adrien nesta final. Já agora, e atendendo à importância da data, deixo os votos de felicidade para o futuro.

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    1. Leão, sabe o que é irónico neste Euro? Se Fernando Santos tem feito certas alterações logo na fase de grupos, ou tem dado essas tais outras oportunidades a Éder (e admitindo que o resultado era positivo), teríamos tido uma campanha completamente diferente e porventura não estaríamos onde estamos...

      Quanto ao Adrien, faço notar que, sem prejuízo de todas as atenuantes que o Império referiu, não estava a ser um jogo para as suas melhores características. Não sei se concorda, mas há jogos e adversários em que o perfil de certos jogadores não encaixa de forma perfeita. O Adrien não é tão criterioso (e paciente) como o Moutinho e nós estávamos muito a precisar de mais tranquilidade na posse de bola. Nos restantes jogos, sentiu-se que fazia falta mais energia, mais velocidade, mais repentismo, daí que a entrada do Adrien pelo Moutinho tenha feito a equipa melhorar. Neste jogo não era isso que estava a faltar. E com isto não estou a criticar Fernando Santos, porque o meio-campo que jogou era o que eu defendia que jogasse. Estou a elogiar a leitura que fez após o decurso do jogo.

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