19/06/2016

Tiro ao Boneco 0 - Catenaccio Tirolês 0

Cristiano Ronaldo é um enorme jogador de futebol. Um super-homem, super atleta, exímio rematador, cabeceador, etc. Um jogador de sonho, com um super-rendimento e que sozinho, por exemplo, levou Portugal ao Mundial do Brasil. Sem ele, ou com ele a meio-gás, foi o que se viu.

Não consigo ver o mundo pelos olhos dos experts que dizem que "tirando os golos, não dá nada à equipa". Desde logo, porque não é verdade, essencialmente por dois motivos:
- condiciona obviamente a atuação do adversário, e só isso já dá imenso à equipa;
- no Real Madrid Ronaldo envolve-se no jogo da equipa como qualquer outro jogador.

Mas ainda que fosse verdade, haveria sempre que perceber se o Real marcaria tantos golos sem ele em campo e com outros protagonistas no seu lugar, o que constitui um exercício impossível de realizar. Fala-se da seca de títulos do Real, como se não tivesse acontecido já noutras fases da história, esquecendo que o adversário é, apenas, o Barcelona de Messi.

Os factos são estes: CR tem batido todos os recordes de golos no Real, mas é verdade que o Real tem ganho menos do que era suposto ganhar (ainda assim, CR tem mais champions no bucho do que o Sr. Luís Figo, esse enorme desayunero, desculpem, patriota); e tem batido todos os recordes na seleção sem que a seleção, sob o seu "comando" tenha atingido algo de muito diferente do que sucedia no passado (tem as "meias" do Euro 12, mas já lá tínhamos chegado em 84, 2000 e 2004 - numa seleção a que ele pertencia mas de que não era líder e capitão).

Ora, na seleção, diz-se que Ronaldo decide sempre mal e estraga inúmeras jogadas da equipa. Eu aqui já posso ser tentado a concordar. Não concordo é com a conclusão "lá está, sem golos não vale nada". Isto não é verdade: Ronaldo já levou a seleção às costas inúmeras vezes, como disse acima. Mas é verdade que CR parece aquele miúdo que, por ser o mais forte do grupo ou o dono da bola, pode fazer o que quer. Não apenas marcar penalties, livres e até pontapés de baliza se for preciso, mas também chutar de qualquer zona do campo.

Creio que isto sucede porque Ronaldo assume alguma sobranceria na seleção portuguesa e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de fazer sozinho o que o coletivo não consegue. No Real ele sente que tem uma equipa ao nível dele; na seleção, deixaram-no assumir um estatuto tal, que Ronaldo crê (num misto de sobranceria e excesso de responsabilidade, como disse), que tem que ser ele a resolver tudo.

O que é importante que perceba é que isso nunca vai acontecer - Ronaldo na seleção nunca vai conquistar nada sozinho. Os experts podem dizer o que quiserem de Messi, mas nem Messi é capaz de o fazer, e numa seleção muitos furos acima da portuguesa em termos de soluções de qualidade. O único que foi capaz de o fazer, e é por isso o melhor de sempre na história do futebol, foi Diego Armando Maradona. Não apenas na seleção argentina, mas também no Napoli, que conduziu ao título por duas vezes. Esse sim era de outro planeta, os outros têm que se contentar em disputar o título de melhor deste planeta.

Isto dito: não sei que tipo de discurso é possível adotar com Ronaldo relativamente à sua postura em campo. Provavelmente, nenhum. O selecionador que abra a boca para falar da sua sobranceria está condenado ao conflito com o melhor jogador português; o discurso do excesso de responsabilidade não funciona, como se viu noutras ocasiões.

Resta pois a Ronaldo fazer o que pode e sabe, marcando golos decisivos à Hungria e fazendo esquecer todo o post até aqui. É o que acho que vai acontecer. Digo mais: um vai ser de livre direto. E o país volta a venerá-lo e a esquecer tudo o resto. E é assim que vamos até à próxima fase, rezando para que o próximo adversário abra um pouco mais e deixe Portugal jogar em contra-ataque, como supostamente será melhor para Ronaldo. Mas sabendo que não vai dar para muito mais do que isso, se a seleção continuar a jogar desta forma.

No meio disto, vai ficando no banco João Mário. Nem comento. Fernando Santos tem feito os mesmíssimos erros que às tantas fazia Paulo Bento. Dá que pensar se é ele que os comete ou alguém que decide por ele(s).

Uma última palavra para Raphael Guerreiro: Fernando Santos tem o enorme mérito de o ter chamado, depois de uma fase em que iam sempre os mesmos. Mas a dada altura estávamos no ridículo de ter meia Europa a querer o jogador, e o rapaz estar sentado no banco a ver o Eliseu, com quem o Benfica hesitava em renovar. Felizmente que apareceu o Dortmund e foi possível convencer o selecionador de que o rapaz deveria ser titular. Quando fiz aqui os meus convocados, pus Guerreiro à frente de Eliseu (que só seria chamado na ausência de Coentrão). Mas ainda ontem alguém me dizia, e provavelmente com razão, que se o Coentrão estivesse em forma, Raphael nem teria sido convocado. Temo que seja verdade. Estes fenómenos verdadeiramente bimbos não consigo mesmo compreender ("esse Guerreiro não pá, não tem estaleca... ah o Dortmund anda atrás dele? eh pá, então se calhar é bom"). E em Fernando Santos são uma verdadeira desilusão porque, como já disse 100 vezes, começou por dar a impressão contrária, de que ia limpar as teias de aranha e arejar a casa...

6 comentários:

  1. crónica fraquinha , a tender para a teoria da conspiração do costume, o Benfica domina a seleção e o Mendes escolhe a equipa , enfim

    a última parte é inqualificável , já pensaste que face a cancelo ou a almeida é 10 mil vezes mais injusto o que se passa do outro lado sendo que não sei que força tenebrosa é essa de Mendes e do Benfica que o deixam suceder ? Sendo que estás a escrever sobre a injustiça de ser titular o que é notável

    quanto a Eliseu , pergunta ao Jay Jay , ele logo te explica

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    1. Calheiros man, além de comentares como anónimo não percebeste nada do post, vai lá reler onde falei do Benfica ou de Mendes

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  2. MMS,

    grande texto, onde concordo com praticamente tudo.
    A parte do Raphael Guerreiro é excelente. É isso mesmo. Com Coentrão, ficava em casa. Incrível. Como incrível é o J. Mário fora do 11, ainda mais que deu a ideia que teve uma exibição ao nível do Danilo, na 1ª jornada. Enfim... mas para entrar o William, tinha de sair o J. Mário (o Patrício ainda é intocável), pois corria-se o risco da equipa ficar demasiado "verde". E isso não pode ser, pois não corresponde à cor do país.
    Duvido que os 11 usados até agora, alguma vez tenham sido usados num jogo da selecção. Isso diz muito do (não) trabalho desta equipa técnica.

    Fazia só uma referência ao Ricardo Carvalho. Que espectáculo. Com 38 anos foi, para mim, o melhor destes 2 jogos. Que nível. Andou demasiado tempo longe da selecção, numa altura em que se achava que Alves e Rolando eram melhor que ele (até eu me ia embora).


    Patrício
    Cédric; Pepe; Carvalho; Guerreiro
    William
    J. Mário; Adrien
    Nani; Ronaldo; Rafa

    um abraço

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    1. Cantinho,
      Muito bom o detalhe do Ricardo Carvalho "até eu me ia embora".
      Sinceramente acho que nos vamos apurar jogue o 11 que jogar porque o CR, mesmo que esteja em dia de jogar só para ele, é de tal forma superior aos demais que provavelmente resolve a coisa (como digo no post, até de livre direto vai entrar). Mas os bons trajetos da seleção foram feitos com coletivos a carburar e não apenas grandes jogadores (exceção talvez o Euro 2012, em que Ronaldo levou a equipa às costas até onde pôde). Se o Eusébio chegasse não tinha ido só a 1 mundial, se o Messi chegasse a Argentina teria já sido campeão do mundo (e a Argentina, ao contrário de Portugal, não é só Messi). Hoje em dia as equipas preparam-se e batem-se bem.
      Quanto ao teu 11, seria adaptável ao esquema que o FSantos usa, recuando um pouco o Nani. Esse seria também o meu 11, com exceção do Cedric vs Vieirinha porque acho que o Vieirinha esteve bem com a Áustria (se tivesse saído após o jogo com a Islândia era outra conversa). Até o Toni diz que ganharíamos com as rotinas entre William, Adrien e JMário (esse seria também o meu 11, com exceção do Cedric vs Vieirinha porque acho que o Vieirinha esteve bem com a Áustria), mas se no lugar do Adrien (repito: do Adrien!) jogar o André Gomes não me choca. Agora, o André Gomes a jogar naquela posição, não se percebe. Faz o que pode, mas claramente não é ali que rende mais.
      Um abraço

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    2. MMS,

      também acho que passamos, independentemente do 11. Não esquecer que o treinador é o Eng. e isto está a correr como ele gosta.
      E para colectivos, é preciso entrosamento entre os jogadores. Patrício, Cédric, William, Adrien, J. Mário e Nani jogavam juntos há cerca de 1 ano. Só aqui, estariam 6 jogadores (em 11).

      Para um 11 mais ofensivo, no lugar do Adrien, por mim, jogava o J.Mário. O problema é na frente, onde Nani, Quaresma, Ronaldo e Rafa já era muito. E aqui, Santos falhou pois podia ter vindo o Pizzi (jogava no lugar de J. Mário, caso este jogasse no lugar do Adrien), que sempre equilibrava mais a equipa, dando-lhe ao mesmo tempo, qualidade na recepção e passe para o ataque.

      um abraço

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    3. concordo, não levar o Pizzi é talvez um dos poucos erros da convocatória

      o outro o Bruno Alves tratou de demonstrar cabalmente contra a Inglaterra

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