16/05/2016

A época que acabou e a época que aí vem

1. A época que acabou

É normal que um clube termine um campeonato em que fez 86 pontos e se pergunte "mas, afinal, o que podíamos ter feito mais?".

As respostas a esta pergunta têm inúmeras sub-variáveis, mas todas se iniciam com uma primeira variável: há os que entendem que podíamos ter feito mais e melhor; e os que entendem que o que fizemos devia ter chegado e não é legítimo exigir a (quase) perfeição.

A partir daqui as sub-variáveis são muitas e conduzem a diversas conclusões, sendo que invariavelmente os do segundo grupo acabam por concluir que se não era possível exigir mais, então algo de anormal se passou. Eu até poderia ser deste grupo, mas neste "anormal", mais do que o sistema ou as arbitragens, tenderia a incluir o rendimento do adversário.

Como sabem os que aqui me acompanham há vários anos, eu tendo a evitar a conversa do sistema. Não porque ela não seja verdadeira - parece-me evidente que o Porto se distraiu e o poder mudou de mãos - mas porque durante muitos (demasiados!) anos foi esta conversa que nos impediu de crescer. E mesmo correndo o risco de cair no erro oposto ao de alguns calimeros (estes queixam-se por tudo e por nada, eu às tantas não duvido que deixe passar demais), essa atitude permite-me não deixar de olhar para dentro.

Obviamente há cenários que roçam o absurdo e o deste ano anda lá perto. Exagerando um pouco mais o que aconteceu este ano, qualquer dia daremos por nós a analisar um cenário em que um adversário faz 99 pontos (só perde um jogo, contra nós, por 3-0), nós fazemos 97 (perdemos um jogo contra eles, por 1-0, e empatamos outro, em casa com o último classificado), e acabamos a época a tentar explicar porque não deveríamos ter empatado esse jogo. É absurdo.

Mas é tão absurdo isso, como será absurdo dizer que é possível fazer 86 pontos empatando em casa com o Tondela, concluindo que a prestação desportiva foi muito boa (e foi mesmo), mas só é possível fazer 88 pontos com "colinho" porque se joga muito mal. Em que ficamos, afinal?

Ficamos nisto: o Benfica foi mais eficaz nos momentos em que esteve menos bem. Para ser preciso, a gestão dos maus momentos de forma permitiu ao Benfica, com sorte em alguns momentos decisivos (sorte que também faz parte e também caiu para o nosso lado nalguns momentos), perder menos 2 pontos do que nós. Para mim foi objetivamente isto.

Como aqui escrevi em janeiro, os jogos decisivos para nós seriam Tondela, Académica e Rio Ave em casa. Empatámos dois desses jogos e o outro ganhámos com o jogo a acabar. Os decisivos do Benfica foram ganhos, com maior ou menor sorte. E aqui esteve a diferença.

Também de forma objetiva, acho que os clássicos não fizeram a diferença, porque aí ficámos iguais. Aliás, até ficámos com vantagem. Claro que o derby foi a nossa última derrota e todos olhamos para esse jogo como o momento da viragem. Porque se tivéssemos empatado esse jogo seríamos supostamente campeões. Mas pergunto-me se o Sporting sacudiria a pressão mantendo-se em primeiro nessa fase (em que não estava a jogar bem); e pergunto-me também se o Benfica jogaria tão pouco como jogou na fase final (Bessa, Coimbra, Vila do Conde, mesmo os jogos com Guimarães e Setúbal em casa) se porventura essa pressão do 1º lugar estivesse no Sporting. Nunca o saberemos.

Outro tema, diferente, é o de saber o que permitiu ao Benfica estar sequer perto de nós para poder fazer a campanha que fez. Aí entram tipicamente na discussão destes dias dois fatores (necessariamente mais atreitos à subjectividade) que me custaria particularmente desenvolver nesta fase, por motivos diferentes:

(i) o primeiro, que venho dizendo desde Janeiro e aqui escrevi, respeitante à nossa estratégia de comunicação, que conseguiu revitalizar um rival moribundo (e de que não quero falar porque só serve para chover no molhado - esperando que a lição esteja aprendida);

(ii) o segundo, o controlo do sistema que, sendo evidente e notório nos pormenores (basta ver a diferença do número de amarelos entre Adrien e Renato, pensando em jogadores que jogam na mesma zona do campo), não teve em campo manifestações que nos possam levar, em consciência, a dizer que houve uma diferença clara de tratamento (e deste factor não quero falar porque, como já expliquei, tem o condão de adormecer a análise do que se podia ter feito melhor não no campo, onde continuo a achar que a nossa campanha esteve perto de ser brilhante, mas fora dele).

Ainda assim, pergunto: se o primeiro não tem entrado em cena, falar-se-ia sequer do segundo?

Sei que não é esta a linha oficial do clube. Sei também que nalguns momentos o discurso tem que ser mais duro do que realista. Mas neste momento acho que seria contra-producente insistir nessa linha de raciocínio. Até porque se há mérito que reconheço a BC, é o de hoje sentir que um árbitro não vai a Alvalade gozar com a nossa cara. O que significa que não estamos na posição dos desgraçados sempre prejudicados. E ainda bem!

2. A época que aí vem

Na época que aí vem, antecipo que o Sporting não consiga segurar dois jogadores: João Mário e Slimani.

Tornei-me slimanista após a final da Taça do ano passado. Mas mesmo os que ainda não se tornaram slimanistas não poderão deixar de reconhecer a época brutal deste jogador. 27 golos no campeonato é obra. Acho possível que saia pela tal cláusula de 30 milhões, em particular se envolvermos bifes nesta equação. E se assim for teremos um problema para resolver (porque Slimani no campeonato nacional era um jogador que fazia muita diferença), mas convenhamos que a compensação não deixa de ser fantástica (mesmo que fique um pouco abaixo desse valor...).

Quanto a João Mário, impossível não perceber que, neste momento, é o melhor jogador português a jogar em Portugal. Faz tudo bem, tem atributos técnicos de exceção e inteligência acima da média. Pode jogar no meio ou em qualquer ala. Não sei se vale os 60 milhões da cláusula porque, enfim, depois de ver o que o Naite pagou pelo Martial chego à conclusão de que não percebo nada disto. Mas acho normal que surjam propostas irrecusáveis, ainda que não necessariamente no valor da cláusula.

Os restantes gostaria de manter (há exceções, mas hioje não é dia de falar delas...). Se mantiver a agenda equilibrada, conseguirei num próximo post explicar como tentaria construir o plantel da próxima época. Para lutar pelo título, pois claro: este ano escapou por detalhes, se mantivermos o treinador e a base da equipa, tem tudo para cair para nós no próximo ano.

3 comentários:

  1. Ora aí está um post de uma lucidez e equilíbrio tremendos, ainda por cima bem escrito. Parabéns!
    Saudações leoninas

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  2. Ora quem é vivo sempre aparece :) bem vindo de volta MMS.

    Não lhe peço para escrever mais vezes porque já explicou há uns tempos que não tem a mesma disponibilidade de antigamente.

    Concordo que a eficácia demonstrada pelos lamps foi fundamental numa altura que não jogavam nada (e para mim continuam a não jogar) ter um incrivel jonas, um mitra um gaitas e um pizzi na frente de ataque porpociona isso mesmo. Têm realmente uma frente de ataque muito forte e acima de tudo inteligente a jogar.

    Agora não posso deixar de puxar a brasa... quantos jogos com o resultado incerto é que foi sonegado um penalti aos seus adversários que talvez os fizesse tremer mais, alguns.... Trabalhar sem rede é muito mais complicado, agora trabalhar com uma manta por baixo para aparar as piores quedas (guimaraes e paços) dá outra tranquilidade. Quando eram 7 pontos de diferença com uma tendência gritante para aumentar existiu sempre aquele "jeitinho" só para não afundar...

    Como diz e bem os nossos resultados e 86pontos feitos foram muito bons e corresponde a desempenho de quem é campeão no final da época, mesmo os empates e 2 derrotas foram normais num percurso longo e para quem tem noção da realidade e sabe que é quase impossível fazer um campeonato perfeito.

    Agora na minha opinião, dizer que a sorte sorriu mais ao outro quando todos vimos o que se passou em alguns jogos (incluíndo o ultimo com 2 penaltis por marcar com 0-0) é redutor e apesar de dar-lhes mérito pelo que conseguiram fazer sozinhos, este campeonato português é uma lamaçal de favores (adiamentos de jogos sem razão para isso, compras de jogadores ou juniores adversários em vesperas de jogos) e corrupção (vouchers, se não é corrupção porque não os oferecem nos jogos internacionais?) o triunfo deles não é limpo. Porra não me lixem o slb não joga um caracol e faz 88pontos?!!?!

    Cometemos para mim um grande erro que foi quando eles estavam no lodo a basófia/gozo de JJ (que toda a gente sabe que vem sempre de atrelado com a enorme capacidade como treinador e até certo ponto compreensível pela maneira como foi tratado tratado após a saída) e a do presidente (está a fazer um bom trabalho mas excede-se em muitas situações) foram dar forças a moribundos que também poderão ter estado na recuperação.

    Enfim... Muda o disco para 16/17. MMS acho que a JMario e Sli (sou 75% slimanista) podemos talvez juntar WCarvalho que com a sua subida de forma e se fsantos não borrar a cueca, poderá estar em grande forma no Europeu e atrair também ele alguns tubarões.

    Se por um lado acho que o sucessor de JMario poderá ser o Xico Geraldes (mesmo contando que tem muita experiência ainda por acumular para sequer chegar ao pé do 1º) a substituição de Sli é que é realmente problemática pelas características inatas deste não é fácil arranjar um ponta de lança assim com valores comportáveis para a nossa carteira.

    Se vir o Geraldes (acho dificil) e o Iuri no plantel para o ano já vou ficar um pouco mais tranquilo relativo a um possível perda do JM, mas que a diferença se vai notar, ninguem dúvide.

    Saudações Leoninas

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  3. Caros, obrigado pelos comentários

    Por pontos:

    1. Ricardo, eu nem discuto que o tratamento é diferente. O que digo é que há lances de parte a parte que podem ser metidos nessa discussão (eles falam, com ou sem razão, dos jogos com o Arouca, Braga, Guimarães, etc). É uma discussão com uma forte carga subjetiva e que é interminável. Daí que o desenvolvimento do tema não nos leve muito longe. Isto não encontra paralelo, por exemplo, no ano em que o Maicon marcou em fora-de-jogo num jogo decisivo. Ou no ano em que o Hulk ficou 6 meses de castigo. Isto para dar um exemplo de cada um dos rivais. Há uma discussão para ter sobre isto? Sim. Há um evidente benefício do Benfica relativamente a nós? Não me parece.

    2. 16/17: acho que William pode valer mais do que vale atualmente. A lesão e a tardia renovação do contrato contribuíram para só termos o verdadeiro William nos últimos 3 meses. A menos que, como diz, faça um Euro enorme e saia depois. Mas, por ora, se pudéssemos limitar as saídas a Slimani (inevitável) e JMário (irrecusáveis os valores de que se fala por aí), eu tentaria manter os restantes.

    3. Geraldes é um jogador de que gosto mas que não encaixa no perfil (físico) de JJ. Não me parece que venha a ser opção (mas gostava que fosse). Por outro lado, o Sporting mantém B Ruiz, Bruno César (tem feito boa figura a DE mas duvido que seja uma aposta definitiva nessa posição), tem Gelson a crescer (grande surpresa nos últimos dois jogos!), já contratou o A Ruiz e vai ficar com Iuri. Não duvido que se note a diferença porque J Mário é excecional, mas há opções (isto assumindo que o A Ruiz vem de facto acrescentar algo).

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