25/05/2016

Memórias (VI)


Vivíamos uma época de (injustificada) euforia. O Sporting tinha discutido o campeonato 93/94, com uma grande equipa, mas perdeu para o Benfica; tinha discutido o campeonato 94/95, com uma equipa ainda melhor, mas perdeu para o Porto; tinha de facto conquistado a Taça de Portugal em 94/95, depois de um jejum de 8 anos sem títulos, mas o facto de o adversário ser o Marítimo gerava a dúvida sobre a efetiva capacidade de bater os rivais.

Eis que chegamos a 95/96. Carlos Queiroz ao leme, depois de uma renovação que esteve tremida devido a motivo$ pe$$oai$. Na altura, Santana Lopes insistiu na renovação. E perante as saídas de Peixe, Figo, Balakov, Juskowiak (enfim, perante a destruição de uma equipa), fez chegar Pedro Martins, Pedro Barbosa, Assis e ... Ahmed Ouattara.

Pedro Martins durou três épocas. Não duvidando do seu profissionalismo, nunca lhe vi qualidade para representar o Sporting (o que a carreira pós-Sporting sobejamente demonstrou). Pedro Barbosa era daqueles enervantes jogadores cujo talento estava muito acima do rendimento. Acredito que não fosse apenas um problema dele. Nas mãos de um JJ, acredito que se tivesse tornado um jogador estratosférico. Mas os treinadores do Sporting naquela altura foram os que foram...

Quanto a Assis e Ouattara, terão sido supostamente roubados ao Porto. Na altura o Sporting tinha de facto dinheiro (o que não impediu que tivesse que dar Capucho a Pimenta Machado para ficar com Barbosa, ainda assim...). Davam-se os primeiros passos do que hoje se designa por "Projeto Roquette" e falava-se de "reestruturação", "profissionalização", etc. mas, quanto aos artistas do Sion, a verdade é que ninguém os conhecia. Assis tinha marcado um livre ao Porto, pelo Sion, uns anos antes. Ouattara era um perfeito desconhecido.

Mas enfim, o Sporting vinha de um período em que perdia tudo para os rivais - jogos e jogadores. Quando se fez passar a mensagem de que tínhamos ultrapassado o Porto nesta corrida aos dois "craques", ficámos convictos de que tínhamos dado grande golpada. Quando os jogadores chegaram, percebemos que não era bem assim...

Quanto a Assis, revelou-se um brasileiro do estilo "brinca-na-areia", que nunca rendeu no Sporting o que se poderia esperar dele (em 97/98 marcou um grande golo ao Porto, de livre direto, mas considerando que na baliza estava o Rui Correia, dou algum desconto). Já Ouattara, pese embora tenha tido um percurso sofrível, merece umas palavras honrosas.

Porquê? Explica-se facilmente. Tendo o Sporting vencido a Taça 94/95, ganhou o direito a disputar a Supertaça. Na altura, o troféu era disputado a duas mãos. Na primeira mão, no início de Agosto, Sporting e Porto empataram a 0, em Alvalade. Na segunda mão, 2-2 nas Antas. E o Sporting fez um jogão nas Antas, merecia claramente ter ganho o jogo, mas contou com uma arbitragem "à Porto", com direito a expulsão do GR Costinha por nada de especial e a terminar o jogo com Oceano na baliza (OK, o Oceano a GR não era muito pior do que o Costinha, mas é bom lembrar que lhe faltava rotina na posição).

Aqui fica o video com o resumo do jogo: https://www.youtube.com/watch?v=oglm90jAOiU.

No início do jogo, 1-0 para o Porto, por Domingos. Remate que bate no poste, depois no corpo de Costinha e pimba lá para dentro. "Só ao Sporting"... Mas o Sporting, com grande personalidade, empata com uma enorme jogada de futebol: Naybet vem com pezinhos de lã desde o nosso meio-campo, combina com Dominguez, que toca para Ouattara e aparece Naybet na área para um toque de classe sobre Vitor Baía.

Segunda parte, penalty para o Porto (e foi mesmo, há que dizer). Domingos, novamente, sendo que nesta altura o Porto já não praticava a modalidade "ora-defende-lá-esta-enquanto-levas-com-um-foguete-na-baliza" (https://www.youtube.com/watch?v=3uDS-fy5Qx4).

Mas a 15 minutos do fim, meus amigos, dá-se um daqueles momentos que põe qualquer sportinguista a saltar da cadeira e a venerar um jogador. Jogada pela direita, Ouattara desmarca-se, livra-se de um central, galopa para a área (é mesmo o termo, "galopa", vejam o video), Baía sai, Ahmed tira Baía do caminho com o pé direito, ajeita com o esquerdo e empurra para a baliza, perante o desespero de um adversário que ainda tenta impedir que uma obra de arte se conclua (um tipo sem carácter, obviamente, e culturalmente pouco evoluído). Um golo de antologia. Em pleno Estádio das Antas.

Tudo empatado novamente e assim ficou até ao fim (Oceano na baliza deu mais segurança do que Costinha), sendo que na Supertaça os golos fora não davam vantagem. Acabámos por ganhar o troféu, numa finalíssima disputada em Paris, já no final da época, com Octávio Machado no comando. Dois golos de Sá Pinto e um de Carlos Xavier. E para a história o que fica é esse jogo, ganho por 3-0.

Mas no imaginário sportinguista, a Supertaça foi ganha naquele momento em que Ouattara desprezou por completo o estádio das Antas e todo o sistema do futebol português, borrifando-se para o estatuto de um Baía estendido no chão, tratando-o como se não fosse ninguém e dando-lhe um nó cego, de pé para pé, que seguramente traumatizou por muitos anos o então GR do Porto (e assim se explica o seu desastroso percurso em Barcelona, para os que ainda não tinham percebido).

Claro que a veneração não terá durado assim tanto, porque Ouattara, nas épocas em que representou o Sporting, não deve ter feito mais do que 4 ou 5 golos (a wikipedia refere 5, vale o que vale), sendo que metade deles foram feito ao Porto e nas Antas (marcou um na primeira jornada do campeonato, precisamente o de 95/96).

Mas aquele momento perdura. Aquele momento em que, talvez por ignorância, talvez por ingenuidade, Ouattara ousou galopar nas Antas, deitar Baía e levar a decisão para a finalíssima.

Nesse dia, Ouattara foi gigante; Ouattara foi Sporting.

20/05/2016

2016/2017 - O meu palpite

Seguros:
GR: R Patrício, A Jug
DD: E Schelotto
DE: M Zeegelaar, B César
DC: S Coates, R Semedo
MC: William, Adrien
EXT: B Ruiz, G Martins, A Ruiz, Iuri (há ainda B César)
AV: L Spalvis

Indefinições:
- Creio que J Pereira será dispensado; quanto a R Esgaio renovou agora, mas face às opções de JJ durante a época, pode ser emprestado.
- Jefferson ficou marcado pelo lance com o Tondela (onde em minha opinião reparte responsabilidades com Ewerton, mas adiante) e pouco mais jogou desde aí (creio que será transferido); não creio que Jonathan venha a integrar o plantel em Julho
- Seria excelente se Naldo aceitasse ficar a disputar o lugar de titular (mas admito que prefira ser opção regular e não suplente), pelo que pode ser transferido; Ewerton é grande jogador, mas a condição física não permite que se assuma como opção no Sporting (será transferido); P Oliveira é um bom jogador (não sendo um craque) e creio que JJ o terá como opção, ainda que não seja o mais evidente para titular; T Figueiredo precisa de jogar mais e será emprestado.
- Aquilani tem mercado em Itália, será transferido e A Martins, com grande pena minha, será dispensado; B Paulista foi uma das desilusões da época (as lesões não ajudaram) e vai integrar a equipa B; Palhinha fez boa época no Moreirense e creio que fica no plantel, mas JJ pode querer que rode mais 1 ano; Wallyson duvido que faça parte das opções de JJ; pelo perfil físico, não me parece que F Geraldes seja um jogador que encante JJ (será emprestado).
- J Mário fez uma época brilhante e será provavelmente transferido; creio que C Mané será emprestado ou transferido.
- I Slimani será provavelmente transferido; T Gutierrez está supostamente no mercado; H Barcos desiludiu (não teve grandes oportunidades, diga-se) e pode também ser transferido (tem mercado no Brasil, supostamente).

Contratações:
- Creio que JJ vai querer + 1 GR;
- Se Esgaio for emprestado, será contratado 1 DD;
- Se JJ mantiver a aposta em B César a DE, creio que não virá ninguém; mas se JJ considerar que B César foi aposta circunstancial, o Sporting vai contratar 1 DE;
- Nos centrais, tudo pode acontecer: ficando Naldo e P Oliveira, temos um bom quarteto de centrais (o melhor de que me lembro no Sporting); mas se JJ quiser um jogador mais experiente, R Semedo ficaria como 3º central, provavelmente com P Oliveira; não acho impossível contratar 1 DC (acho desnecessário, mas não impossível);
- William dificilmente sai (a menos que faça um Euro ao nível da sua performance em 13/14), mas não estou seguro que JJ aposte em Palhinha. Com a saída de Aquilani, o Sporting precisa de mais opções no MC. Podem ser contratados 2 jogadores.
- Nos extremos, veremos como corre a integração de A Ruiz. Iuri e Gelson são boas opções, mas JJ vai querer um titular indiscutível. Creio que o Sporting vai contratar 1 EXT.
- No ataque, se Teo sair, o Sporting vai contratar pelo menos 2 AV.

Tudo somado, eu diria que o Sporting não precisa de mais do que 5 reforços (GR, DE, MC, 2 AV), para além dos que já chegaram (1 AV, 1 EXT). Mas BC e JJ este ano vão fazer o "all in". Por isso acredito que o número de novos jogadores pode facilmente passar de 5 para 9.

Vai ser uma pré-época muito longa...

18/05/2016

Os 23 convocados para o Euro 2016

Os esperados:

GR: Patrício e Lopes
D: Vieirinha, Cedric, Eliseu, Guerreiro, Pepe, Carvalho, Fonte
M: William, Danilo, André Gomes, João Mário
A: Rafa, Nani, Ronaldo

Os duvidosos:
Eduardo - não me choca, preferia o Marafona, mas o 3º GR é indiferente (podia também ter sido o Beto).
Bruno Alves - se era para levar 4 centrais, preferia o Neto. Na realidade acho que o lugar será do Ruben Semedo mais cedo ou mais tarde, mas agora não se justifica.
João Moutinho - a dúvida era só pela condição física, se estiver em forma acho que merece. Se for só pelo estatuto, acho mal, mas também acontece. Aguardemos.
Adrien - por mim não havia grandes dúvidas, mas falou-se dele como sendo dúvida. Merece claramente.
Renato Sanches - não me choca minimamente, só acho que não faz falta face às opções que temos para a posição. Preferia ter levado o Pizzi, fazia mais falta e dava outra versatilidade às opções do banco.
Quaresma - considerando a lesão de Bernardo Silva, não me choca particularmente. Mas não vejo o que pode trazer à equipa no sistema de jogo que o selecionador usa.
Éder - o argumento é que não há outro. Eu por acaso acho que há, não necessariamente com as mesmas características, mas há. Sucede que não são de facto muitos. Penso em Diogo Jota, por exemplo, mas, segundo parece, está lesionado. Fora do lote dos evidentes, apareceriam outros nomes, como Hugo Vieira, mas já parece um bocadinho "rebuscado".  A solução poderia passar pela brigada do reumático (Almeida ou Postiga) mas convenhamos que não faria sentido. Eu teria testado todas as soluções antes de chegar ao ponto em que teria que convocar Éder. Mas o facto é que, neste momento, com as lesões (Danny, Bernardo, Jota) e alguma rigidez nas apostas no ataque, sobra... Éder.

Apreciação geral: convocatória relativamente pacífica, o único jogador que acho que faria falta e não vai é o Pizzi, no demais aceitam-se as opções.

16/05/2016

A época que acabou e a época que aí vem

1. A época que acabou

É normal que um clube termine um campeonato em que fez 86 pontos e se pergunte "mas, afinal, o que podíamos ter feito mais?".

As respostas a esta pergunta têm inúmeras sub-variáveis, mas todas se iniciam com uma primeira variável: há os que entendem que podíamos ter feito mais e melhor; e os que entendem que o que fizemos devia ter chegado e não é legítimo exigir a (quase) perfeição.

A partir daqui as sub-variáveis são muitas e conduzem a diversas conclusões, sendo que invariavelmente os do segundo grupo acabam por concluir que se não era possível exigir mais, então algo de anormal se passou. Eu até poderia ser deste grupo, mas neste "anormal", mais do que o sistema ou as arbitragens, tenderia a incluir o rendimento do adversário.

Como sabem os que aqui me acompanham há vários anos, eu tendo a evitar a conversa do sistema. Não porque ela não seja verdadeira - parece-me evidente que o Porto se distraiu e o poder mudou de mãos - mas porque durante muitos (demasiados!) anos foi esta conversa que nos impediu de crescer. E mesmo correndo o risco de cair no erro oposto ao de alguns calimeros (estes queixam-se por tudo e por nada, eu às tantas não duvido que deixe passar demais), essa atitude permite-me não deixar de olhar para dentro.

Obviamente há cenários que roçam o absurdo e o deste ano anda lá perto. Exagerando um pouco mais o que aconteceu este ano, qualquer dia daremos por nós a analisar um cenário em que um adversário faz 99 pontos (só perde um jogo, contra nós, por 3-0), nós fazemos 97 (perdemos um jogo contra eles, por 1-0, e empatamos outro, em casa com o último classificado), e acabamos a época a tentar explicar porque não deveríamos ter empatado esse jogo. É absurdo.

Mas é tão absurdo isso, como será absurdo dizer que é possível fazer 86 pontos empatando em casa com o Tondela, concluindo que a prestação desportiva foi muito boa (e foi mesmo), mas só é possível fazer 88 pontos com "colinho" porque se joga muito mal. Em que ficamos, afinal?

Ficamos nisto: o Benfica foi mais eficaz nos momentos em que esteve menos bem. Para ser preciso, a gestão dos maus momentos de forma permitiu ao Benfica, com sorte em alguns momentos decisivos (sorte que também faz parte e também caiu para o nosso lado nalguns momentos), perder menos 2 pontos do que nós. Para mim foi objetivamente isto.

Como aqui escrevi em janeiro, os jogos decisivos para nós seriam Tondela, Académica e Rio Ave em casa. Empatámos dois desses jogos e o outro ganhámos com o jogo a acabar. Os decisivos do Benfica foram ganhos, com maior ou menor sorte. E aqui esteve a diferença.

Também de forma objetiva, acho que os clássicos não fizeram a diferença, porque aí ficámos iguais. Aliás, até ficámos com vantagem. Claro que o derby foi a nossa última derrota e todos olhamos para esse jogo como o momento da viragem. Porque se tivéssemos empatado esse jogo seríamos supostamente campeões. Mas pergunto-me se o Sporting sacudiria a pressão mantendo-se em primeiro nessa fase (em que não estava a jogar bem); e pergunto-me também se o Benfica jogaria tão pouco como jogou na fase final (Bessa, Coimbra, Vila do Conde, mesmo os jogos com Guimarães e Setúbal em casa) se porventura essa pressão do 1º lugar estivesse no Sporting. Nunca o saberemos.

Outro tema, diferente, é o de saber o que permitiu ao Benfica estar sequer perto de nós para poder fazer a campanha que fez. Aí entram tipicamente na discussão destes dias dois fatores (necessariamente mais atreitos à subjectividade) que me custaria particularmente desenvolver nesta fase, por motivos diferentes:

(i) o primeiro, que venho dizendo desde Janeiro e aqui escrevi, respeitante à nossa estratégia de comunicação, que conseguiu revitalizar um rival moribundo (e de que não quero falar porque só serve para chover no molhado - esperando que a lição esteja aprendida);

(ii) o segundo, o controlo do sistema que, sendo evidente e notório nos pormenores (basta ver a diferença do número de amarelos entre Adrien e Renato, pensando em jogadores que jogam na mesma zona do campo), não teve em campo manifestações que nos possam levar, em consciência, a dizer que houve uma diferença clara de tratamento (e deste factor não quero falar porque, como já expliquei, tem o condão de adormecer a análise do que se podia ter feito melhor não no campo, onde continuo a achar que a nossa campanha esteve perto de ser brilhante, mas fora dele).

Ainda assim, pergunto: se o primeiro não tem entrado em cena, falar-se-ia sequer do segundo?

Sei que não é esta a linha oficial do clube. Sei também que nalguns momentos o discurso tem que ser mais duro do que realista. Mas neste momento acho que seria contra-producente insistir nessa linha de raciocínio. Até porque se há mérito que reconheço a BC, é o de hoje sentir que um árbitro não vai a Alvalade gozar com a nossa cara. O que significa que não estamos na posição dos desgraçados sempre prejudicados. E ainda bem!

2. A época que aí vem

Na época que aí vem, antecipo que o Sporting não consiga segurar dois jogadores: João Mário e Slimani.

Tornei-me slimanista após a final da Taça do ano passado. Mas mesmo os que ainda não se tornaram slimanistas não poderão deixar de reconhecer a época brutal deste jogador. 27 golos no campeonato é obra. Acho possível que saia pela tal cláusula de 30 milhões, em particular se envolvermos bifes nesta equação. E se assim for teremos um problema para resolver (porque Slimani no campeonato nacional era um jogador que fazia muita diferença), mas convenhamos que a compensação não deixa de ser fantástica (mesmo que fique um pouco abaixo desse valor...).

Quanto a João Mário, impossível não perceber que, neste momento, é o melhor jogador português a jogar em Portugal. Faz tudo bem, tem atributos técnicos de exceção e inteligência acima da média. Pode jogar no meio ou em qualquer ala. Não sei se vale os 60 milhões da cláusula porque, enfim, depois de ver o que o Naite pagou pelo Martial chego à conclusão de que não percebo nada disto. Mas acho normal que surjam propostas irrecusáveis, ainda que não necessariamente no valor da cláusula.

Os restantes gostaria de manter (há exceções, mas hioje não é dia de falar delas...). Se mantiver a agenda equilibrada, conseguirei num próximo post explicar como tentaria construir o plantel da próxima época. Para lutar pelo título, pois claro: este ano escapou por detalhes, se mantivermos o treinador e a base da equipa, tem tudo para cair para nós no próximo ano.