12/12/2016

Derby

Confesso que gosto de escrever estes posts sem ler primeiro os que já foram escritos nos (meus) blogs de referência.

Mas desta vez cometi o "erro" de ler primeiro o A Norte de Alvalade e o Cantinho do Morais. Não precisei de ler mais nada: está lá quase tudo o que penso, com algumas excepções (seja por discordância, seja por omissão).

Por isso mesmo, remeto para esses textos, limitando-me a acrescentar o seguinte:

1. Bryan Ruiz é um jogador a menos há muito tempo. Ainda não tinha tido coragem de o escrever aqui (creio) mas já o digo há muito tempo em trocas de impressões com outros sportinguistas. Não lhe negando as evidentes qualidades, reconheço que não sou apreciador do jogador e nem a vigorosa defesa dos experts o salva. É o estilo do jogador, e não o que ele produz (quando está inspirado), que não aprecio. Nem todos têm que ter a forma de jogar de um Slimani, mas o jogador que não consegue deixar de encarar todos os lances vendo como única solução o adorno ou o toque de primeira não será seguramente um modelo de "aproximação da equipa ao golo", ainda mais quando a intensidade colocada nos lances não está, em regra, à altura de um jogo como o de ontem (que me desculpem os experts). O BRuiz sabe muito do jogo, disso não duvido. Mas não consegue evitar (é mais forte do que ele) ligar o complicómetro quando às vezes o recomendado para a tal "aproximação ao golo" é, simplesmente, um simples passe para o lado, ou mesmo para trás. Continuo a dizer que pode ser um elemento importante na estrutura defensiva da equipa, jogando atrás do PL, mas em jogos com outros adversários. Ontem, a única coisa que justifica a sua permanência em campo, na comparação com Bruno César, é o cartão amarelo deste último. Parece-me insuficiente como critério.

2. Em ligeira discordância com o Leão de Alvalade, só há um lance de arbitragem em que (ainda assim com muito boa vontade) daria o benefício da dúvida a Jorge Sousa: o do Nélson Semedo. Essencialmente porque o lance é rápido e ele não conta que o colega falhe a intercepção; ele faz um movimento, ténue, em reacção à falha do colega e o braço toca na bola. Difícil configurar como intencional. Sucede que as leis do jogo se mantêm inalteradas, mas a interpretação das mesmas não. E as instruções para os árbitros, muito sucintamente e em legalês (com as minhas antecipadas desculpas), ordenam que os árbitros punam não apenas o dolo (em termos muito básicos, a intenção), mas também a negligência (em termos muito básicos, desleixo ou imprudência). Um dia farei um post desenvolvido sobre este tema mas, por ora, fiquem apenas com esta imagem: os defesas recolhem os braços nos cruzamentos, quando não o faziam há 15/20 anos, pelo simples motivo de que sabem que, hoje, ao saltar em oposição a um cruzamento com os braços estendidos, estão a ter um comportamento imprudente e passível de falta. Ora, o Nélson Semedo manteve o braço junto ao corpo. Não me parece suficiente para que o lance não seja punível, porque há um movimento que impede a progressão da bola, mas seria suficiente para dar o benefício da dúvida. Só não o dou de forma cabal porque vi o resto do jogo e, muito em particular, um lance escandaloso de falta sobre o Adrien, nas barbas do árbitro, com o jogo a acabar, que provavelmente não daria em nada (Bruno César não estava em campo, o livre seria à sua medida) mas tem que ser assinalado pelo simples motivo de que é falta.

3. Nada do que disse se aplica ao lance do Pizzi. Ou melhor, ao segundo toque, porque Pizzi tocou duas vezes com a mão na bola. O primeiro toque poderíamos desculpar por motivos semelhantes (proximidade de Lindelof quando toca a bola), mas o segundo toque é inquestionavelmente intencional.

4. Curioso como a psicologia se inverteu nos derbies: se nos primeiros parecia impensável que Rui Vitória conseguisse encontrar forma de derrotar JJ, agora parece que Rui Vitória encontrou uma fórmula com que JJ não se dá bem. O Benfica assume estes jogos em contra-ataque (quantos lances criou em jogo corrido?) porque sabe que JJ não vai hesitar em por a sua equipa a assumir o jogo. Rui Vitória sabe também que tem a melhor linha ofensiva em Portugal, que lhe permite jogar contra os "pequenos" e "médios" assumindo o jogo, e contra os grandes na expetativa. Curiosamente, as vezes em que não o fez, perdeu, justa ou injustamente. Assumiu o jogo com o Sporting, no ano passado, controlando os primeiros 20 minutos, e perdeu; assumiu o jogo com o Porto, também no ano passado, e até deu um banho de bola, mas perdeu. Quando jogou na expetativa, deu-se bem. A verdade é que tem jogadores para isso e o Sporting não tem. Jogar em contra ataque com Ruiz, Bruno César e Bas Dost seguramente não traria grandes resultados. Com Salvio, Rafa, Guedes e Jimenez a conversa é outra. Independentemente dos lances de arbitragem, o Benfica marcou-nos dois golos (o facto de o primeiro ser antecedido do lance do Pizzi não é chamado para esta análise). Foi eficaz porque os seus jogadores são bons. Salvio parecia perdido para o futebol, mas ainda mexe, e bem; Rafa é um grande jogador; Gonçalo Guedes não está ao nível dos demais, mas tem estado muito bem; e Jimenez pode não valer os 22M€ mas é um PL com muitas qualidades. E relembro que não estavam Jonas e Mitroglou.

5. Porque isto não pode passar em claro, queria só recordar aos sportinguistas que o Benfica tinha no banco aquela que seria a dupla de extremos que JJ queria este ano: Carrillo e Cervi. No banco. Isto para os que acham que o Sporting tem obrigação de ganhar porque isto ou por aquilo. Repito: o adversário de ontem tinha no banco aqueles que seriam os nossos titulares. Podemos até dizer que foi buscá-los para nos enfraquecer porque nem precisava assim tanto deles (modelo FCP anos 90 e 2000, a juntar aos Jorges Sousas). Mas o ponto é fundamentalmente este: os adversários ainda vão tendo melhores plantéis do que nós. O nosso 11 consegue andar ali taco-a-taco, mas a partir daí leiam o que dizem o Cantinho e o Leão de Alvalade. E nem vou comentar Alan Ruiz (continuámos a jogar com 10, quando devíamos estar desde o intervalo a jogar com 11). Não o digo em forma de crítica, e até o poderia fazer. Digo-o como constatação.

6. Enorme jogo de William Carvalho. Aquele de ontem é o William que os benfiquistas dizem que nunca viram. Acho que ontem só não viram se não quiseram.

07/11/2016

Tira-teimas?

Há uns anos era recorrente a conversa da "atitude". Quem não se lembra daquela miserável época de 97/98 em que garantimos o apuramento para a UEFA com uma vitória sofrida sobre o já despromovido Belenenses (golo de Vidigal)? Durante essa época, falou-se sobretudo de atitude. Com Octávio e com Carlos Manuel, que a referia constantemente. Até a Juve Leo fez uma tarja "Pela vossa atitude, o nosso silêncio" num jogo em casa com a Académica que até hoje estou para perceber como conseguimos ganhar (golo de Marco Almeida - merece um post, não me posso esquecer dele!).

Entretanto não só o jogo evoluiu como evoluiu (ainda mais?) a capacidade de o analisar. Podemos não gostar de Freitas Lobo (não sou fã), Pedro Henriques (gosto mais) e tantos outros, mas é evidente o contraste com um passado não muito distante em que os jogos eram comentados pelo António Fidalgo (grande campeão pelo Sporting mas um comentador que só dizia banalidades).

Obviamente que este fenómeno acabou também por chegar aos blogs. Há 10/15 anos, não me lembro (mas posso ser só eu) de existir um só blog em que se tentasse fazer uma leitura rigorosa do jogo (aquilo a que eu e os meus amigos chamamos "futebol-processos"). Analisavam-se plantéis, equipas, lances, mas sem qualquer profundidade. Um bom jogador era bom porque fazia o que lhe competia. Nas análises de há 10/15 anos, Jonas era melhor do que Slimani porque marcava mais golos e fazia mais assistências. O seu papel no resto do jogo não era considerado.

Desde então, o aparecimento de blogs como o Lateral Esquerdo, o Posse de Bola, o Entre Dez, o Domínio Táctico (e já não está activo aquele que, para mim, era o melhor de todos: o Bancada Nova, do PLF) mudou a forma como os frequentadores de blogs olham para o jogo. Eu brinco muitas vezes com estes bloggers, chamando-os de experts, mas tenho que reconhecer que fui (e sou) influenciado por eles. Porque o que escrevem faz sentido. Muitas vezes discordo, por motivos que já expliquei noutros posts e que não vale a pena repisar (basta seguir o tag se estiverem interessados nisso). Mas são opiniões que têm fundamentos que vão para além do "não corre", "é um fussão", "não sabe rematar", "não tem cabedal" e isso faz com que os leia atentamente. Acima de tudo, o cliché da "atitude" foi caindo porque, regra geral, todas as equipas entram com a mesma atitude para dentro do campo e o que as distingue são, essencialmente, duas coisas: a qualidade coletiva e a qualidade individual dos jogadores.

Como referi, obviamente não foram os blogs que iniciaram o movimento, limitaram-se a acompanhá-lo. Aquela geração de treinadores que salvava clubes da despromoção (um deles, Jaime Pacheco, fez bem mais do que isso - foi campeão!) graças à "atitude" que incutia nos jogadores, deu lugar a uma outra geração (fortemente influenciada pelo papel de José Mourinho no Porto) que se preocupa com o futebol-processos e sabe que o "bora lá crl" não deve chegar para ganhar muitos jogos (há muitos exemplos, para todos os gostos: Paulo Fonseca, Marco Silva, Jorge Simão, Miguel Leal, etc.).

Isto tudo para dizer o quê?

Em primeiro lugar: sem prejuízo de tudo o que disse acima, no último jogo e m Alvalade com o Tondela, senti pela primeira vez em muitos anos (e incluo a época de 12/13 neste lote, vejam bem!) que os jogadores do Sporting não encararam o jogo com a atitude certa. Aquele jogo era para ganhar, sim ou sim, desde o primeiro minuto. E o Sporting pareceu entrar em ritmo de passeio.

Em segundo lugar: ontem senti que a equipa entrou com a atitude certa, em cima do adversário, a disputar cada lance sabendo que aquela vitória não podia mesmo fugir. E a vitória caiu naturalmente para o nosso lado.

Mas será que esta sensação relativa à atitude dos jogadores faz algum sentido? Ou será que efetivamente a colocação de BRuiz nas costas de Bas Dost, como referi no post anterior, era o detalhe que estava a faltar?

Honestamente: não dá ainda para tirar as teimas. Este jogo foi obviamente melhor, o Sporting entrou mais agressivo e mais pressionante, mas um exercício de honestidade deve levar-me a dizer que marcar num lançamento lateral às três tabelas aos 10 minutos de jogo muda muita coisa. Com o Tondela, Gelson Martins rematou ao poste, logo no início do jogo, e nunca saberemos como seria o jogo se essa bola entrasse.

Mesmo sem tirar todas as teimas, tenho que dizer que, a ganhar 1-0, vi a "atitude defensiva" de BRuiz que já antecipava. Juntamente com Dost e com Adrien cobriam o corredor central por onde o Arouca nunca conseguiu sair a jogar. Mais atrás, Campbell (belo jogo mas sempre melhor à direita e no meio do que à esquerda) e Gelson, mais William como homem mais recuado para uma segunda linha de pressão. Pressão coletiva, seguramente treinada há já muito tempo, mas a que faltavam duas peças: Adrien, que joga com William há mais de 3 anos, e é treinado por JJ desde o ano passado (e antes foi treinado por Jardim, Marco Silva, bons treinadores...); e um segundo elemento que fizesse companhia a Bas Dost e que conheça e entenda o que JJ pede (teria que ser, como disse, BCésar ou BRuiz).

Não podemos ter certezas, mas diria que, pelo menos, foi claro que o jogo estava controlado e que o Arouca só de bola parada criaria perigo (e tanta bola parada houve ontem, para um lado e para o outro, graças ao festival do apito de um dos grandes baluartes do Xistrema). Obviamente que, depois de 3 empates de rajada, Alvalade só descansou com o 2-0, mas o Arouca nunca fez nada que nos incomodasse. É um passo positivo.

PS: Sou totalmente insuspeito na apreciação do Elias. É um jogador que sempre considerei sobrevalorizado pelas chamadas a uma seleção que atravessa de há 10 anos para cá um incompreensível fenómeno de vulgaridade que o atual selecionador está a tentar corrigir a pouco e pouco (basta lembrar quem por lá andou neste período para perceber que Tite está mesmo a mudar alguma coisa). Mas dizer que é sobrevalorizado não significa dizer que é mau. O Juan Mata e o Roberto Soldado são altamente sobrevalorizados; dizer isto significa que são maus? Não, significa apenas que mesmo sendo ótimos jogadores não lhes vejo qualidades para andar em clubes de topo (comparemos com Payet que anda pelo West Ham ou com Kevin Gameiro, tanto tempo suplente no Sevilla e que só agora chegou ao Atletico Madrid). O Elias é um bom jogador e é perfeitamente capaz de desempenhar o papel que lhe está destinado no atual Sporting: ser alternativa a Adrien. Na ausência de Adrien, foi uma das vítimas dos erros coletivos que foram sendo cometidos porque o seu estilo de jogo o põe nos holofotes dos adeptos que querem carrinhos e correrias. Mas não foi seguramente pelo Elias que o Sporting perdeu em Vila do Conde, porque o Elias nem saiu do banco. E essa foi a única derrota no campeonato neste período (e bem expressiva por sinal). Por isto, mas acima de tudo por ser profissional do Sporting, vai sempre contar com o meu vibrante aplauso por cada vez que se levantar um coro de assobios como aconteceu quando entrou em campo com o Arouca.

03/11/2016

Falemos de futebol - os problemas de que se fala

Depois de uma longa ausência, apetece-me voltar a escrever para falar de algo que parece interessar pouco nesta fase (ou pelo menos parece interessar bastante menos do que os 823 textos anti-Benfica que se publicam um pouco por todo o lado, desde logo em páginas ligadas ao Sporting): os problemas que parecem existir na nossa equipa de futebol.

Faço-o depois de um jogo que, a meu ver, foi bem conseguido do ponto de vista coletivo mas que revelou, de alguma forma, em virtude de algumas alterações, parte do que não tem estado bem nesta equipa (pelo impacto positivo dessas alterações nalguns jogadores, como Schelotto e Marvin). Mas o sistema de ontem não serve para resolver todos os problemas, simplesmente porque aquele sistema não ajuda a ganhar ao Arouca em casa. Mais: aquele sistema não impede o Arouca de ser perigoso em Alvalade. Porquê? Porque a meu ver não resolve o maior problema do Sporting nesta fase: o espaço concedido a qualquer adversário para construir jogo pela zona central. Esse espaço expõe a equipa, que fica desequilibrada e desposicionada, e obriga os jogadores do meio-campo não só a correr mais do que era suposto mas também a construir a partir de uma zona mais recuada (porque a equipa dificilmente recupera a bola em zonas altas do campo).

Mas começo por dizer o que tenho ouvido por aí para depois dar a minha opinião:
- "o grande problema está nas laterais, não nos reforçámos"
- "o grande problema foi a lesão de Adrien, Elias não está à altura"
- "o grande problema foram os reforços, não estão à altura dos jogadores que saíram".

Quanto aos laterais, queria recordar que são os mesmos que fizeram a série de vitórias do ano passado. Todos sabemos que têm algumas limitações, mas convenhamos que já as tinham antes e que estão bastante acima da média do campeonato português. O treinador é o mesmo (logo a forma de defender também), os centrais também são os mesmos, o sistema no meio-campo defensivo é idêntico. Eu não iria por aqui. Podemos questionar jogo a jogo se as escolhas são as mais adequadas e acima de tudo questionar se, não tendo Jefferson saído (como parecia ser pretendido por treinador e SAD), não será ainda assim melhor opção do que, por exemplo, Bruno César. Mas mais importante do que isso, a meu ver, é perceber se os laterais este ano estão mais expostos do que no ano passado. Eu acho que estão mas não tem a ver com os bonecos que colocamos a jogar: tem a ver com a forma como a equipa está a jogar. Ontem a equipa protegeu melhor os seus laterais e a verdade é que vimos Marvin fazer mais subidas num jogo do que no resto da temporada.

Quanto a Adrien vs Elias, o problema não é especificamente esse. O problema seria Adrien (ou William) vs qualquer outro jogador do mundo que (i) não conheça o parceiro de sector e (ii) não seja treinado por JJ há pelo menos um ano. Desde a primeira hora o digo aqui, este sistema de JJ é um sistema que, quando está a carburar, dá muitos pontos; quando não está a carburar, é um pesadelo para o meio-campo. No ano passado eu dizia que com Aquilani e Adrien ia ser complicado e teríamos que jogar com meio-campo a 3. Mesmo com Adrien e JMário a equipa não estava a ser segura (e acho que poucos colocarão em causa a qualidade de JMário). Neste sistema, a rotina entre os jogadores do meio-campo é fundamental. Basta pensar no tempo que levou até que jogadores como Matic e Enzo Pérez se afirmassem definitivamente no Benfica de JJ. Por isso mesmo, eu que nunca fui fã de Elias e que considero que o rapaz parece sempre jogar em "modo caipirinha", defendo que não é por Elias que a coisa corre pior mas pelo sistema de jogo, que não foi adaptado à inexistência de rotinas entre os jogadores.

Quanto aos substitutos dos jogadores que saíram: é evidente que nem Dost nem Castaignos são Slimani, mas convém perceber que não estamos a falar da saída de um fora-de-série e que tanto Dost como Castaignos oferecem à equipa algumas coisas que Slimani não oferecia; e a saída de JMário tem sido disfarçada por um início de época fantástico de Gelson Martins (nunca pensei!). Não custa reconhecer que os reforços ainda não encaixaram (alguns vinham de grandes paragens competitivas) e antecipo mesmo uma vida difícil para alguns deles: Campbell chegou porque nem JJ acreditou que Gelson tivesse esta afirmação tão evidente (não terá oportunidades tão cedo); Douglas chegou porque JJ achava que RSemedo não tomaria conta do lugar (mas tomou); Meli viria fazer papel de JMário (naquela posição em que não era extremo nem médio interior) e foi também prejudicado pela afirmação de Gelson. Mas os demais terão o seu lugar e a sua função: Beto veio para ser suplente; Petrovic é alternativa a William; Elias é alternativa a Adrien (mas o sistema não o favorece); Dost será o titular e Castaignos a alternativa; Markovic seria segundo PL e André a alternativa (ainda há Alan Ruiz, mas é um caso à parte de que falarei noutra altura). Não são jogadores sem qualidade ou sequer sem experiência, estamos a falar de jogadores internacionais por Portugal, Sérvia, Brasil e Holanda. São, sim, jogadores com longos períodos sem competir (como disse acima) e "vítimas" de uma dinâmica coletiva que está numa fase menos boa. E o que está a correr menos bem coletivamente está a atrasar aquilo que já seria difícil por si mesmo.

Não estando o problema nos laterais, em Elias ou na qualidade dos reforços, onde está o problema? Como disse, no sistema de jogo e, muito em particular, no espaço que é dado ao adversário. O meio-campo corre mais mas corre pior. Recupera a bola mais atrás e quando inicia a construção tem 9, 10, 11 adversários pela frente. Qualquer equipa constrói em Alvalade, até o Tondela o fez. Os primeiros 45 minutos com o Dortmund, em Alvalade, foram penosos. À imagem do que fez no ano passado quando ficou sem William, JJ não adaptou a equipa à ausência de Adrien. Elias e Markovic têm sido jogadores sujeitos a verdadeiros massacres ao ego em Alvalade sem qualquer necessidade. Bastaria que, na ausência de um dos jogadores que há 3 anos jogam juntos, o treinador tivesse colocado Bruno César ou mesmo Bryan Ruiz nas costas do PL e a equipa teria logo outra dinâmica porque estes jogadores cumpririam um papel defensivo que é impossível pedir a Markovic ou André (nem se fale de Alan Ruiz). Como estamos, há metros e metros para construir. A dupla Slimani-Téo ajudava a mitigar isto, claro que sim. Mas não vale a pena dizer que sem Teo deixámos de defender ou que Slimani corria mais para pressionar do que Bas Dost. O que vale a pena dizer é que com jogadores diferentes temos que nos adaptar, ao invés de exigir a Dost que seja Slimani e a Elias que seja Adrien.

Entretanto este texto parece extemporâneo porque Adrien voltou. Mas não o é. Não o é porque eu entendo que, mesmo com Adrien, a equipa seria mais segura e mais forte tendo Bruno César à frente dos dois do meio-campo (não será por acaso que foi assim que o Sporting fez 80 minutos de enorme qualidade em Madrid). Adicionalmente, tendo regressado Adrien, vamos ver se continuaremos a ouvir queixas dos laterais e dos reforços do ataque. Posso estar enganado mas se JJ fizer regressar Adrien ao 11 com Bruno César ou mesmo Bryan Ruiz entre o meio-campo e o PL, a tranquilidade vai regressar. Poderá não ser imediato, porque o Sporting atravessa (não há que escondê-lo) uma crise de confiança, mas vai acontecer mais dia menos dia. Espero que até lá as vitórias, mesmo que menos tranquilas, nos ajudem a ficar relativamente perto do topo.

26/07/2016

"Pibe" Valderrama



[A propósito de um post que acabo de comentar no "A Norte de Alvalade"]

Sempre olhei para Valderrama como um fenómeno de marketing sul-americano, que tinha uma imagem poderosa mas pouco futebol nos pés.

Mas os anos passam e hoje existe o youtube. E por vezes, quase sem querer, deparamo-nos com coisas que nos deixam a pensar "Espera lá, eu na altura não reparei nisto?".


Não, não reparei, nem podia reparar. Desde logo porque no Mundial de 90 estava a torcer pela Alemanha (é uma longa história e fica para outro dia).

Mas este lance do Valderrama é de sonho. E o relato é brutal.

11/07/2016

Por agora, só isto

Uma análise tentativamente fria virá mais tarde, acabo de vir da Alameda e ainda estou em "modo euforia".

Por agora, fica a foto de um jogador relativamente a quem eu próprio escrevi que levaria ao Euro só por não haver outro que pudesse fazer o seu papel. O futebol tem esta magia e esta imprevisibilidade.

O que nos aconteceu não acontece sempre... mas não podia estar mais feliz por nos ter acontecido desta vez (e, ainda mais, nestas circunstâncias) e se é verdade que tivemos sorte neste percurso, também é verdade que ontem fizemos por merecê-la.

Três palavras apenas, muito rápidas:

- a primeira, para Fernando Santos: um gigante na leitura de jogo nesta final. Adrien não estava a dar e a equipa melhorou muito com Moutinho; e Éder (ao contrário do que pensavam 10 milhões de portugueses quando entrou) veio fazer com que a equipa jogasse uns bons metros mais à frente (e a França tremeu quando isso aconteceu). Já o tinha elogiado muito como selecionador e já o tinha criticado muito como treinador. Na final, foi treinador como nenhum outro neste Euro.

- a segunda, para CR7. Ontem foi um verdadeiro capitão de equipa. Já o tinha sido noutras ocasiões (basta lembrar os penalties com a Polónia) mas ontem fica na nossa memória não como o enorme jogador que é, mas como o enorme capitão que não conhecíamos assim tão bem. Mereceu muito levantar aquela Taça.

- a última para Patrício: ninguém merecia tanto ganhar este Euro como ele. Nunca poderei dizer, porque seria mentira, que "sempre acreditei" que íamos à final (parece que era o único que não acreditava...) ou que "tinha uma fezada" relativamente à nossa vitória no Euro. Mas posso dizer que com a Polónia confiei que Patrício resolveria e que ontem, descrendo num golo nosso no prolongamento, estava a por as minhas fichas em Patrício para os penalties. a sua frieza e determinação, para além das qualidades como GR, deram-me tranquilidade durante todo o torneio.


23/06/2016

Teimosia 3 - Alma e Coração 3 (com apuramento graças à Albânia e à Turquia)

Começo por dizer que a Albânia e a Turquia facilitaram a vida a Portugal. Sendo terceiros nos respetivos grupos com diferenças de golos negativas (ainda para mais de dois golos), permitiram autênticos passeios a todos os terceiros classificados. A partir daí, qualquer terceiro com diferença de golos nula ou de apenas 1 golo negativo sabia que estava apurado desde que fizesse 3 pontos. Portugal tinha dois empates e as contas eram simples: bastava empatar. Aliás, o empate podia chegar para ser segundo, se a Islândia também empatasse e o nosso número de golos fosse superior (o que aconteceu até aos 90+3 do Islândia-Áustria, quando um islandês deu o golpe de misericórdia nos pobres austríacos, que saem do Euro com derrotas com duas das seleções mais fracas da competição, o que diz muito do seu valor).

O não apuramento dependia, pois, de uma derrota com a Hungria. A acontecer, convém dizer que teria sido tão humilhante quanto a derrota com Marrocos em 86. Mas não aconteceu e agora, à boa moda lusitana, festeja-se o facto de estarmos na parte mais fraca da grelha, como se os resultados até agora indiciassem que limpamos sem problemas as Croácias, as Polónias (das seleções que mais gostei de ver, esta Polónia, grande joga com a Alemanha) e por aí fora. Enfim, somos mesmo assim.

Ontem não pude ver o jogo, por motivos profissionais. Uma reunião marcada por espanhóis insensíveis ao nosso jogo deu-me cabo do esquema. Espanhóis que, diga-se, estão verdadeiramente aterrorizados com a Itália. Era o pior adversário que lhes podia calhar. Dizem eles que os italianos vão querer vingar a tareia da final do Euro 2012. Eu lá lhes disse que que a Itália é sempre a Itália mas em condições normais a Espanha passa. Não ficaram muito otimistas...

Como dizia, não vi o jogo em direto, mas fui acompanhando, incrédulo, a marcha do resultado. Vi-o à noite, com calma, já sem emoção. E reconhecendo eu que obviamente vejo as coisas com lentes verdes, outros verão com lentes vermelhas e outros ainda com lentes azuis, queria dizer que isso pode afetar discussões como Renato vs Adrien, por exemplo, mas há coisas demasiado evidentes que uma lente de qualquer cor permite ver de forma muito clara.

Por isso mesmo, vou deixar de lado que considero que o Adrien devia jogar; que acho que as rotinas defensivas de Cedric serão seguramente superiores às de Vieirinha; que entendo que o Nani podia jogar no meio-campo, na ala esquerda, com o João Mário do lado contrário; que o Rafa devia ser titular ao lado do Ronaldo; que o Quaresma deve de facto entrar no decurso do jogo, para trazer algo diferente à equipa, mas dificilmente pode ser titular.

Agora, é impossível deixar de lado duas coisas que, permitam-me a imodéstia, já aqui escrevi há quase 3 meses:

- uma, que João Moutinho só deve jogar se estiver em forma, porque ao contrário do que nos tentava vender Paulo Bento, há opções para o seu lugar (e agora ainda há mais do que havia quando PB era selecionador). Custa acreditar que João Moutinho seja titular por outra razão que não o seu estatuto no grupo e o seu percurso na seleção. Mas as seleções não podem viver destes fenómenos, porque nestas competições curtas quem facilita num jogo, pode ficar fora (e tão perto que ficámos disso...);

- a segunda, que André Gomes na posição em que está colocado é totalmente inútil à equipa. Eu até poderia aceitar que André Gomes jogasse no lugar de Moutinho (acho que devia jogar o Adrien ou o Renato, mas adiante, aceitaria...). Agora, não vejo nada nada que o recomende para uma "ala", seja em losango ou noutro modelo, ainda para mais quando não me parece em grande forma.

Numa equipa que joga com 4 jogadores naquela zona, ter metade do meio-campo em modo "Taça-de-Portugal-contra-clube-do-CNS", quando do outro lado estão jogadores cheios de alma e coração, a viver o melhor momento das suas vidas, com um público entusiasta e vibrante (confesso: sinto inveja dos adeptos irlandeses e dos húngaros, como senti dos gregos na final do Euro 2004), é meio caminho andado para ter problemas. Se a isso se junta alguma nabice e algum azar (dois golos às três tabelas quase de rajada), podem acontecer resultados como o de ontem.

Sucede que, como todos tínhamos antecipado, Ronaldo fartou-se e resolveu. A exasperante reação ao terceiro golo dos húngaros diz tudo: "****-**, ando eu aqui com isto às costas e estes broncos nem conseguem evitar que a Hungria nos meta 3 batatas". É o que ele pensa, não duvidem. Continuou, como se viu várias vezes na segunda parte, a tentar chutar de todo o lado, estragando algumas jogadas. Mas apareceu, resolveu e até ia mesmo marcado de livre direto, ainda na primeira parte.

Outro destaque: João Mário. Bastou ter Renato em campo, e não Moutinho, para render o que se espera dele. Com este João Mário, com a inteligência de Nani, com um Ronaldo minimamente motivado e focado, com jogadores com energia no meio-campo, acredito que seja possível ganhar à Croácia. Com Moutinho e André Gomes a passar para o lado e para trás, desculpem-me mas não acredito.

PS: Ouvi um pouco do fórum TSF esta manhã. Primeira intervenção, o insuspeito Pedro Marques Lopes, fanático tripeiro. Pensei que fosse trazer à baila o William (para defender o Danilo), mas nem ele teve esse despudor. Limitou-se a dizer que o Moutinho joga a passo e que o André Gomes está fora da posição dele. Enfim, é por demais evidente.

19/06/2016

Tiro ao Boneco 0 - Catenaccio Tirolês 0

Cristiano Ronaldo é um enorme jogador de futebol. Um super-homem, super atleta, exímio rematador, cabeceador, etc. Um jogador de sonho, com um super-rendimento e que sozinho, por exemplo, levou Portugal ao Mundial do Brasil. Sem ele, ou com ele a meio-gás, foi o que se viu.

Não consigo ver o mundo pelos olhos dos experts que dizem que "tirando os golos, não dá nada à equipa". Desde logo, porque não é verdade, essencialmente por dois motivos:
- condiciona obviamente a atuação do adversário, e só isso já dá imenso à equipa;
- no Real Madrid Ronaldo envolve-se no jogo da equipa como qualquer outro jogador.

Mas ainda que fosse verdade, haveria sempre que perceber se o Real marcaria tantos golos sem ele em campo e com outros protagonistas no seu lugar, o que constitui um exercício impossível de realizar. Fala-se da seca de títulos do Real, como se não tivesse acontecido já noutras fases da história, esquecendo que o adversário é, apenas, o Barcelona de Messi.

Os factos são estes: CR tem batido todos os recordes de golos no Real, mas é verdade que o Real tem ganho menos do que era suposto ganhar (ainda assim, CR tem mais champions no bucho do que o Sr. Luís Figo, esse enorme desayunero, desculpem, patriota); e tem batido todos os recordes na seleção sem que a seleção, sob o seu "comando" tenha atingido algo de muito diferente do que sucedia no passado (tem as "meias" do Euro 12, mas já lá tínhamos chegado em 84, 2000 e 2004 - numa seleção a que ele pertencia mas de que não era líder e capitão).

Ora, na seleção, diz-se que Ronaldo decide sempre mal e estraga inúmeras jogadas da equipa. Eu aqui já posso ser tentado a concordar. Não concordo é com a conclusão "lá está, sem golos não vale nada". Isto não é verdade: Ronaldo já levou a seleção às costas inúmeras vezes, como disse acima. Mas é verdade que CR parece aquele miúdo que, por ser o mais forte do grupo ou o dono da bola, pode fazer o que quer. Não apenas marcar penalties, livres e até pontapés de baliza se for preciso, mas também chutar de qualquer zona do campo.

Creio que isto sucede porque Ronaldo assume alguma sobranceria na seleção portuguesa e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de fazer sozinho o que o coletivo não consegue. No Real ele sente que tem uma equipa ao nível dele; na seleção, deixaram-no assumir um estatuto tal, que Ronaldo crê (num misto de sobranceria e excesso de responsabilidade, como disse), que tem que ser ele a resolver tudo.

O que é importante que perceba é que isso nunca vai acontecer - Ronaldo na seleção nunca vai conquistar nada sozinho. Os experts podem dizer o que quiserem de Messi, mas nem Messi é capaz de o fazer, e numa seleção muitos furos acima da portuguesa em termos de soluções de qualidade. O único que foi capaz de o fazer, e é por isso o melhor de sempre na história do futebol, foi Diego Armando Maradona. Não apenas na seleção argentina, mas também no Napoli, que conduziu ao título por duas vezes. Esse sim era de outro planeta, os outros têm que se contentar em disputar o título de melhor deste planeta.

Isto dito: não sei que tipo de discurso é possível adotar com Ronaldo relativamente à sua postura em campo. Provavelmente, nenhum. O selecionador que abra a boca para falar da sua sobranceria está condenado ao conflito com o melhor jogador português; o discurso do excesso de responsabilidade não funciona, como se viu noutras ocasiões.

Resta pois a Ronaldo fazer o que pode e sabe, marcando golos decisivos à Hungria e fazendo esquecer todo o post até aqui. É o que acho que vai acontecer. Digo mais: um vai ser de livre direto. E o país volta a venerá-lo e a esquecer tudo o resto. E é assim que vamos até à próxima fase, rezando para que o próximo adversário abra um pouco mais e deixe Portugal jogar em contra-ataque, como supostamente será melhor para Ronaldo. Mas sabendo que não vai dar para muito mais do que isso, se a seleção continuar a jogar desta forma.

No meio disto, vai ficando no banco João Mário. Nem comento. Fernando Santos tem feito os mesmíssimos erros que às tantas fazia Paulo Bento. Dá que pensar se é ele que os comete ou alguém que decide por ele(s).

Uma última palavra para Raphael Guerreiro: Fernando Santos tem o enorme mérito de o ter chamado, depois de uma fase em que iam sempre os mesmos. Mas a dada altura estávamos no ridículo de ter meia Europa a querer o jogador, e o rapaz estar sentado no banco a ver o Eliseu, com quem o Benfica hesitava em renovar. Felizmente que apareceu o Dortmund e foi possível convencer o selecionador de que o rapaz deveria ser titular. Quando fiz aqui os meus convocados, pus Guerreiro à frente de Eliseu (que só seria chamado na ausência de Coentrão). Mas ainda ontem alguém me dizia, e provavelmente com razão, que se o Coentrão estivesse em forma, Raphael nem teria sido convocado. Temo que seja verdade. Estes fenómenos verdadeiramente bimbos não consigo mesmo compreender ("esse Guerreiro não pá, não tem estaleca... ah o Dortmund anda atrás dele? eh pá, então se calhar é bom"). E em Fernando Santos são uma verdadeira desilusão porque, como já disse 100 vezes, começou por dar a impressão contrária, de que ia limpar as teias de aranha e arejar a casa...

15/06/2016

Estatuto 1 - Seriedade 1

Disse aqui em posts anteriores que ir passear estatuto normalmente dá mau resultado. Referia-me a jogadores, mas aplica-se também a equipas. Portugal marcou e achou, como tantas vezes acham os grandes em Portugal, que o mais difícil estava feito. Descansou e pagou caro.

As seleções de nível médio aproximaram-se das grandes por um simples motivo: definem uma estratégia para os jogos e trabalham-na, ao passo que as grandes se vão fiando no estatuto e o jogo coletivo é quase inexistente (as exceções são Alemanha e Espanha, que efetivamente têm um futebol que vale a pena ver  e que é difícil de contrariar- na altura disse que também a Bélgica o tinha, pelos vistos nessa parte estava enganado).

Daí que o resultado mais desnivelado da 1ª jornada do Euro seja 2-0, em 3 jogos, sendo que apenas num deles (o Alemanha-Ucrânia) o resultado foi o "normal". O Hungria-Áustria foi um jogo entre seleções de nível semelhante, assim como o Itália-Bélgica (nunca se menospreza a Itália, há malta que não aprende...).

Mas não foi só o estatuto da equipa que a seleção foi passear. Foi também passear o estatuto de alguns jogadores, em particular Moutinho, que claramente não tem lugar. A dúvida neste momento é entre Adrien e Renato Sanches. Outros, como André Gomes e Danilo, não rendem mais porque não podem: André Gomes naquela posição nunca achei que valesse a pena (porque não recuar Nani para aquele papel, como peço há meses?); e quanto a Danilo, que sempre considerei um jogador interessante para suplente do William, como se recordarão os que me acompanham há mais tempo, tem vindo a provar que deveria ser isso mesmo, suplente do William (e, já agora, suplente do Ruben Neves no Porto, mas aí felizmente que ninguém me dá ouvidos).

Para que não pareça um 11 faccioso, deixo à escolha do freguês Adrien ou Renato. Mas de resto no próximo jogo seria Patrício, Cedric, Guerreiro, Pepe, Carvalho, William, Adrien/Renato, João Mário (péssimo jogo mas não tem alternativa à altura), Nani, Rafa, Ronaldo.

Isto assumindo que a ideia é obter o apuramento sem ser pela via do 3º lugar no grupo, claro... Porque caso o empate chegue, não vale de facto a pena ter João Mário de um lado e Nani do outro. Mantenha-se lá o André Gomes, num papel ingrato para o próprio (e até poderia jogar, também ele, no lugar do Moutinho), que lá rendeu a assistência para o golo, é verdade, mas pouco ou nada mais.

Teimosamente, acho que o selecionador vai jogar com o mesmíssimo 11, tirando Vieirinha por Cedric. Não deixa de fazer pena que um selecionador que, mesmo com tão pouco futebol, tinha mostrado ideias arejadas nas convocações, chegue ao Euro e faça o mesmo que todos antes dele fizeram: cria o 11 ideal e só os tira quando o INEM os leva ou, pior, quando um viking sai da crio-preservação para nos marcar um golo num Euro.


25/05/2016

Memórias (VI)


Vivíamos uma época de (injustificada) euforia. O Sporting tinha discutido o campeonato 93/94, com uma grande equipa, mas perdeu para o Benfica; tinha discutido o campeonato 94/95, com uma equipa ainda melhor, mas perdeu para o Porto; tinha de facto conquistado a Taça de Portugal em 94/95, depois de um jejum de 8 anos sem títulos, mas o facto de o adversário ser o Marítimo gerava a dúvida sobre a efetiva capacidade de bater os rivais.

Eis que chegamos a 95/96. Carlos Queiroz ao leme, depois de uma renovação que esteve tremida devido a motivo$ pe$$oai$. Na altura, Santana Lopes insistiu na renovação. E perante as saídas de Peixe, Figo, Balakov, Juskowiak (enfim, perante a destruição de uma equipa), fez chegar Pedro Martins, Pedro Barbosa, Assis e ... Ahmed Ouattara.

Pedro Martins durou três épocas. Não duvidando do seu profissionalismo, nunca lhe vi qualidade para representar o Sporting (o que a carreira pós-Sporting sobejamente demonstrou). Pedro Barbosa era daqueles enervantes jogadores cujo talento estava muito acima do rendimento. Acredito que não fosse apenas um problema dele. Nas mãos de um JJ, acredito que se tivesse tornado um jogador estratosférico. Mas os treinadores do Sporting naquela altura foram os que foram...

Quanto a Assis e Ouattara, terão sido supostamente roubados ao Porto. Na altura o Sporting tinha de facto dinheiro (o que não impediu que tivesse que dar Capucho a Pimenta Machado para ficar com Barbosa, ainda assim...). Davam-se os primeiros passos do que hoje se designa por "Projeto Roquette" e falava-se de "reestruturação", "profissionalização", etc. mas, quanto aos artistas do Sion, a verdade é que ninguém os conhecia. Assis tinha marcado um livre ao Porto, pelo Sion, uns anos antes. Ouattara era um perfeito desconhecido.

Mas enfim, o Sporting vinha de um período em que perdia tudo para os rivais - jogos e jogadores. Quando se fez passar a mensagem de que tínhamos ultrapassado o Porto nesta corrida aos dois "craques", ficámos convictos de que tínhamos dado grande golpada. Quando os jogadores chegaram, percebemos que não era bem assim...

Quanto a Assis, revelou-se um brasileiro do estilo "brinca-na-areia", que nunca rendeu no Sporting o que se poderia esperar dele (em 97/98 marcou um grande golo ao Porto, de livre direto, mas considerando que na baliza estava o Rui Correia, dou algum desconto). Já Ouattara, pese embora tenha tido um percurso sofrível, merece umas palavras honrosas.

Porquê? Explica-se facilmente. Tendo o Sporting vencido a Taça 94/95, ganhou o direito a disputar a Supertaça. Na altura, o troféu era disputado a duas mãos. Na primeira mão, no início de Agosto, Sporting e Porto empataram a 0, em Alvalade. Na segunda mão, 2-2 nas Antas. E o Sporting fez um jogão nas Antas, merecia claramente ter ganho o jogo, mas contou com uma arbitragem "à Porto", com direito a expulsão do GR Costinha por nada de especial e a terminar o jogo com Oceano na baliza (OK, o Oceano a GR não era muito pior do que o Costinha, mas é bom lembrar que lhe faltava rotina na posição).

Aqui fica o video com o resumo do jogo: https://www.youtube.com/watch?v=oglm90jAOiU.

No início do jogo, 1-0 para o Porto, por Domingos. Remate que bate no poste, depois no corpo de Costinha e pimba lá para dentro. "Só ao Sporting"... Mas o Sporting, com grande personalidade, empata com uma enorme jogada de futebol: Naybet vem com pezinhos de lã desde o nosso meio-campo, combina com Dominguez, que toca para Ouattara e aparece Naybet na área para um toque de classe sobre Vitor Baía.

Segunda parte, penalty para o Porto (e foi mesmo, há que dizer). Domingos, novamente, sendo que nesta altura o Porto já não praticava a modalidade "ora-defende-lá-esta-enquanto-levas-com-um-foguete-na-baliza" (https://www.youtube.com/watch?v=3uDS-fy5Qx4).

Mas a 15 minutos do fim, meus amigos, dá-se um daqueles momentos que põe qualquer sportinguista a saltar da cadeira e a venerar um jogador. Jogada pela direita, Ouattara desmarca-se, livra-se de um central, galopa para a área (é mesmo o termo, "galopa", vejam o video), Baía sai, Ahmed tira Baía do caminho com o pé direito, ajeita com o esquerdo e empurra para a baliza, perante o desespero de um adversário que ainda tenta impedir que uma obra de arte se conclua (um tipo sem carácter, obviamente, e culturalmente pouco evoluído). Um golo de antologia. Em pleno Estádio das Antas.

Tudo empatado novamente e assim ficou até ao fim (Oceano na baliza deu mais segurança do que Costinha), sendo que na Supertaça os golos fora não davam vantagem. Acabámos por ganhar o troféu, numa finalíssima disputada em Paris, já no final da época, com Octávio Machado no comando. Dois golos de Sá Pinto e um de Carlos Xavier. E para a história o que fica é esse jogo, ganho por 3-0.

Mas no imaginário sportinguista, a Supertaça foi ganha naquele momento em que Ouattara desprezou por completo o estádio das Antas e todo o sistema do futebol português, borrifando-se para o estatuto de um Baía estendido no chão, tratando-o como se não fosse ninguém e dando-lhe um nó cego, de pé para pé, que seguramente traumatizou por muitos anos o então GR do Porto (e assim se explica o seu desastroso percurso em Barcelona, para os que ainda não tinham percebido).

Claro que a veneração não terá durado assim tanto, porque Ouattara, nas épocas em que representou o Sporting, não deve ter feito mais do que 4 ou 5 golos (a wikipedia refere 5, vale o que vale), sendo que metade deles foram feito ao Porto e nas Antas (marcou um na primeira jornada do campeonato, precisamente o de 95/96).

Mas aquele momento perdura. Aquele momento em que, talvez por ignorância, talvez por ingenuidade, Ouattara ousou galopar nas Antas, deitar Baía e levar a decisão para a finalíssima.

Nesse dia, Ouattara foi gigante; Ouattara foi Sporting.

20/05/2016

2016/2017 - O meu palpite

Seguros:
GR: R Patrício, A Jug
DD: E Schelotto
DE: M Zeegelaar, B César
DC: S Coates, R Semedo
MC: William, Adrien
EXT: B Ruiz, G Martins, A Ruiz, Iuri (há ainda B César)
AV: L Spalvis

Indefinições:
- Creio que J Pereira será dispensado; quanto a R Esgaio renovou agora, mas face às opções de JJ durante a época, pode ser emprestado.
- Jefferson ficou marcado pelo lance com o Tondela (onde em minha opinião reparte responsabilidades com Ewerton, mas adiante) e pouco mais jogou desde aí (creio que será transferido); não creio que Jonathan venha a integrar o plantel em Julho
- Seria excelente se Naldo aceitasse ficar a disputar o lugar de titular (mas admito que prefira ser opção regular e não suplente), pelo que pode ser transferido; Ewerton é grande jogador, mas a condição física não permite que se assuma como opção no Sporting (será transferido); P Oliveira é um bom jogador (não sendo um craque) e creio que JJ o terá como opção, ainda que não seja o mais evidente para titular; T Figueiredo precisa de jogar mais e será emprestado.
- Aquilani tem mercado em Itália, será transferido e A Martins, com grande pena minha, será dispensado; B Paulista foi uma das desilusões da época (as lesões não ajudaram) e vai integrar a equipa B; Palhinha fez boa época no Moreirense e creio que fica no plantel, mas JJ pode querer que rode mais 1 ano; Wallyson duvido que faça parte das opções de JJ; pelo perfil físico, não me parece que F Geraldes seja um jogador que encante JJ (será emprestado).
- J Mário fez uma época brilhante e será provavelmente transferido; creio que C Mané será emprestado ou transferido.
- I Slimani será provavelmente transferido; T Gutierrez está supostamente no mercado; H Barcos desiludiu (não teve grandes oportunidades, diga-se) e pode também ser transferido (tem mercado no Brasil, supostamente).

Contratações:
- Creio que JJ vai querer + 1 GR;
- Se Esgaio for emprestado, será contratado 1 DD;
- Se JJ mantiver a aposta em B César a DE, creio que não virá ninguém; mas se JJ considerar que B César foi aposta circunstancial, o Sporting vai contratar 1 DE;
- Nos centrais, tudo pode acontecer: ficando Naldo e P Oliveira, temos um bom quarteto de centrais (o melhor de que me lembro no Sporting); mas se JJ quiser um jogador mais experiente, R Semedo ficaria como 3º central, provavelmente com P Oliveira; não acho impossível contratar 1 DC (acho desnecessário, mas não impossível);
- William dificilmente sai (a menos que faça um Euro ao nível da sua performance em 13/14), mas não estou seguro que JJ aposte em Palhinha. Com a saída de Aquilani, o Sporting precisa de mais opções no MC. Podem ser contratados 2 jogadores.
- Nos extremos, veremos como corre a integração de A Ruiz. Iuri e Gelson são boas opções, mas JJ vai querer um titular indiscutível. Creio que o Sporting vai contratar 1 EXT.
- No ataque, se Teo sair, o Sporting vai contratar pelo menos 2 AV.

Tudo somado, eu diria que o Sporting não precisa de mais do que 5 reforços (GR, DE, MC, 2 AV), para além dos que já chegaram (1 AV, 1 EXT). Mas BC e JJ este ano vão fazer o "all in". Por isso acredito que o número de novos jogadores pode facilmente passar de 5 para 9.

Vai ser uma pré-época muito longa...

18/05/2016

Os 23 convocados para o Euro 2016

Os esperados:

GR: Patrício e Lopes
D: Vieirinha, Cedric, Eliseu, Guerreiro, Pepe, Carvalho, Fonte
M: William, Danilo, André Gomes, João Mário
A: Rafa, Nani, Ronaldo

Os duvidosos:
Eduardo - não me choca, preferia o Marafona, mas o 3º GR é indiferente (podia também ter sido o Beto).
Bruno Alves - se era para levar 4 centrais, preferia o Neto. Na realidade acho que o lugar será do Ruben Semedo mais cedo ou mais tarde, mas agora não se justifica.
João Moutinho - a dúvida era só pela condição física, se estiver em forma acho que merece. Se for só pelo estatuto, acho mal, mas também acontece. Aguardemos.
Adrien - por mim não havia grandes dúvidas, mas falou-se dele como sendo dúvida. Merece claramente.
Renato Sanches - não me choca minimamente, só acho que não faz falta face às opções que temos para a posição. Preferia ter levado o Pizzi, fazia mais falta e dava outra versatilidade às opções do banco.
Quaresma - considerando a lesão de Bernardo Silva, não me choca particularmente. Mas não vejo o que pode trazer à equipa no sistema de jogo que o selecionador usa.
Éder - o argumento é que não há outro. Eu por acaso acho que há, não necessariamente com as mesmas características, mas há. Sucede que não são de facto muitos. Penso em Diogo Jota, por exemplo, mas, segundo parece, está lesionado. Fora do lote dos evidentes, apareceriam outros nomes, como Hugo Vieira, mas já parece um bocadinho "rebuscado".  A solução poderia passar pela brigada do reumático (Almeida ou Postiga) mas convenhamos que não faria sentido. Eu teria testado todas as soluções antes de chegar ao ponto em que teria que convocar Éder. Mas o facto é que, neste momento, com as lesões (Danny, Bernardo, Jota) e alguma rigidez nas apostas no ataque, sobra... Éder.

Apreciação geral: convocatória relativamente pacífica, o único jogador que acho que faria falta e não vai é o Pizzi, no demais aceitam-se as opções.

16/05/2016

A época que acabou e a época que aí vem

1. A época que acabou

É normal que um clube termine um campeonato em que fez 86 pontos e se pergunte "mas, afinal, o que podíamos ter feito mais?".

As respostas a esta pergunta têm inúmeras sub-variáveis, mas todas se iniciam com uma primeira variável: há os que entendem que podíamos ter feito mais e melhor; e os que entendem que o que fizemos devia ter chegado e não é legítimo exigir a (quase) perfeição.

A partir daqui as sub-variáveis são muitas e conduzem a diversas conclusões, sendo que invariavelmente os do segundo grupo acabam por concluir que se não era possível exigir mais, então algo de anormal se passou. Eu até poderia ser deste grupo, mas neste "anormal", mais do que o sistema ou as arbitragens, tenderia a incluir o rendimento do adversário.

Como sabem os que aqui me acompanham há vários anos, eu tendo a evitar a conversa do sistema. Não porque ela não seja verdadeira - parece-me evidente que o Porto se distraiu e o poder mudou de mãos - mas porque durante muitos (demasiados!) anos foi esta conversa que nos impediu de crescer. E mesmo correndo o risco de cair no erro oposto ao de alguns calimeros (estes queixam-se por tudo e por nada, eu às tantas não duvido que deixe passar demais), essa atitude permite-me não deixar de olhar para dentro.

Obviamente há cenários que roçam o absurdo e o deste ano anda lá perto. Exagerando um pouco mais o que aconteceu este ano, qualquer dia daremos por nós a analisar um cenário em que um adversário faz 99 pontos (só perde um jogo, contra nós, por 3-0), nós fazemos 97 (perdemos um jogo contra eles, por 1-0, e empatamos outro, em casa com o último classificado), e acabamos a época a tentar explicar porque não deveríamos ter empatado esse jogo. É absurdo.

Mas é tão absurdo isso, como será absurdo dizer que é possível fazer 86 pontos empatando em casa com o Tondela, concluindo que a prestação desportiva foi muito boa (e foi mesmo), mas só é possível fazer 88 pontos com "colinho" porque se joga muito mal. Em que ficamos, afinal?

Ficamos nisto: o Benfica foi mais eficaz nos momentos em que esteve menos bem. Para ser preciso, a gestão dos maus momentos de forma permitiu ao Benfica, com sorte em alguns momentos decisivos (sorte que também faz parte e também caiu para o nosso lado nalguns momentos), perder menos 2 pontos do que nós. Para mim foi objetivamente isto.

Como aqui escrevi em janeiro, os jogos decisivos para nós seriam Tondela, Académica e Rio Ave em casa. Empatámos dois desses jogos e o outro ganhámos com o jogo a acabar. Os decisivos do Benfica foram ganhos, com maior ou menor sorte. E aqui esteve a diferença.

Também de forma objetiva, acho que os clássicos não fizeram a diferença, porque aí ficámos iguais. Aliás, até ficámos com vantagem. Claro que o derby foi a nossa última derrota e todos olhamos para esse jogo como o momento da viragem. Porque se tivéssemos empatado esse jogo seríamos supostamente campeões. Mas pergunto-me se o Sporting sacudiria a pressão mantendo-se em primeiro nessa fase (em que não estava a jogar bem); e pergunto-me também se o Benfica jogaria tão pouco como jogou na fase final (Bessa, Coimbra, Vila do Conde, mesmo os jogos com Guimarães e Setúbal em casa) se porventura essa pressão do 1º lugar estivesse no Sporting. Nunca o saberemos.

Outro tema, diferente, é o de saber o que permitiu ao Benfica estar sequer perto de nós para poder fazer a campanha que fez. Aí entram tipicamente na discussão destes dias dois fatores (necessariamente mais atreitos à subjectividade) que me custaria particularmente desenvolver nesta fase, por motivos diferentes:

(i) o primeiro, que venho dizendo desde Janeiro e aqui escrevi, respeitante à nossa estratégia de comunicação, que conseguiu revitalizar um rival moribundo (e de que não quero falar porque só serve para chover no molhado - esperando que a lição esteja aprendida);

(ii) o segundo, o controlo do sistema que, sendo evidente e notório nos pormenores (basta ver a diferença do número de amarelos entre Adrien e Renato, pensando em jogadores que jogam na mesma zona do campo), não teve em campo manifestações que nos possam levar, em consciência, a dizer que houve uma diferença clara de tratamento (e deste factor não quero falar porque, como já expliquei, tem o condão de adormecer a análise do que se podia ter feito melhor não no campo, onde continuo a achar que a nossa campanha esteve perto de ser brilhante, mas fora dele).

Ainda assim, pergunto: se o primeiro não tem entrado em cena, falar-se-ia sequer do segundo?

Sei que não é esta a linha oficial do clube. Sei também que nalguns momentos o discurso tem que ser mais duro do que realista. Mas neste momento acho que seria contra-producente insistir nessa linha de raciocínio. Até porque se há mérito que reconheço a BC, é o de hoje sentir que um árbitro não vai a Alvalade gozar com a nossa cara. O que significa que não estamos na posição dos desgraçados sempre prejudicados. E ainda bem!

2. A época que aí vem

Na época que aí vem, antecipo que o Sporting não consiga segurar dois jogadores: João Mário e Slimani.

Tornei-me slimanista após a final da Taça do ano passado. Mas mesmo os que ainda não se tornaram slimanistas não poderão deixar de reconhecer a época brutal deste jogador. 27 golos no campeonato é obra. Acho possível que saia pela tal cláusula de 30 milhões, em particular se envolvermos bifes nesta equação. E se assim for teremos um problema para resolver (porque Slimani no campeonato nacional era um jogador que fazia muita diferença), mas convenhamos que a compensação não deixa de ser fantástica (mesmo que fique um pouco abaixo desse valor...).

Quanto a João Mário, impossível não perceber que, neste momento, é o melhor jogador português a jogar em Portugal. Faz tudo bem, tem atributos técnicos de exceção e inteligência acima da média. Pode jogar no meio ou em qualquer ala. Não sei se vale os 60 milhões da cláusula porque, enfim, depois de ver o que o Naite pagou pelo Martial chego à conclusão de que não percebo nada disto. Mas acho normal que surjam propostas irrecusáveis, ainda que não necessariamente no valor da cláusula.

Os restantes gostaria de manter (há exceções, mas hioje não é dia de falar delas...). Se mantiver a agenda equilibrada, conseguirei num próximo post explicar como tentaria construir o plantel da próxima época. Para lutar pelo título, pois claro: este ano escapou por detalhes, se mantivermos o treinador e a base da equipa, tem tudo para cair para nós no próximo ano.

01/04/2016

Dois temas depois de longa ausência (e nenhum é Sporting)

1. Comprei ontem a caderneta da Panini e estou indignado. Desde o Euro 88 que me vejo "da cor dos gatos" para montar aquele quarteto de cromos que constituem uma foto da equipa completa, sabem quais são? Colava-se o primeiro, o segundo parecia perfeito, o terceiro já tinha que se sobrepor ao segundo, o quarto para entrar era um pesadelo. Mas era um pesadelo mítico. A Panini não só acabou com isso como introduziu a figura do meio-cromo. Inaceitável...

2. Ao ver os cromos escolhidos pela Panini dei por mim a pensar nos 23 para o Euro. Na caderneta, por exemplo, não consta Adrien, que me parece um indiscutível. E consta Miguel Veloso que dificilmente irá ao Euro.

Para se fazer uma lista há que olhar para o esquema em que joga Fernando Santos. Creio que Fernando Santos tem o modelo que de facto mais potencia os jogadores que tem à disposição; mas creio também que anda a desperdiçar alguns recursos, nomeadamente Nani (e a não convocação de Pizzi não se compreende). Por exemplo, André Gomes naquela posição não tem lugar, mas no meio seria outra conversa. Naquele 4x4x2 em que no meio-campo há dois médios no centro e dois alas (não extremos), João Mário é indiscutível numa ala, eu creio que a outra deveria ser de Nani (começou como médio interior e é um jogador que taticamente oferece garantias) tendo Pizzi como alternativa para qualquer das vagas. A frente ficaria para CR com Danny ou Rafa (sabendo que Danny tem rendido muito pouco na seleção, provavelmente o lugar seria de Rafa, por muito surpreendente que isto possa parecer).

A minha lista, neste esquema, seria a seguinte:

GR: Patrício, Anthony Lopes, Marafona (se Beto não estiver disponível, acho que Marafona merece mais do que Ventura ou Eduardo, por exemplo)

DD: Cedric, Vieirinha (tem feito grande época a lateral e pode ser alternativa mais ofensiva)

DE: Coentrão, Guerreiro (creio ser opção mais válida do que Eliseu, mas se Coentrão não estiver em forma, entre Eliseu)

DC: Ricardo Carvalho, Pepe, José Fonte, Neto (Bruno Alves ficaria de fora)

MD/MC: levaria 5 jogadores - William, Danilo, Adrien, André Gomes, Renato Sanches e, se Moutinho acabar a época a jogar futebol, então entra Moutinho e sai Renato Sanches (mas Moutinho tem mesmo que estar a jogar futebol, já deu para ver em 2002 e 2014 o que dá levar estatuto em vez de jogadores de futebol...). Ficam de fora André André (muito irregular no Porto) e Miguel Veloso (porque há melhores do que ele). Tiago teve um percurso atribulado e sinceramente nunca fui fã (sei que os experts ficaram sem ar neste momento).

MI/ALA: João Mário, Nani, Pizzi (não percebo como neste esquema um jogador como Pizzi não é convocado, seria perfeito para o lugar). Podem parecer poucas opções mas recordo que há Coentrão (ou Eliseu) e Vieirinha e pelos vistos André Gomes pode também fazer a posição. Há também Bernardo Silva, que estou a incluir como avançado (v. abaixo), mas até tem jogado mais nas alas do que no meio (mal, a meu ver). Quaresma é que não tem lugar neste esquema de jogo. E não faz sentido, havendo outros tão bons ou melhores, que se convoque Quaresma só para um plano B que implicaria outro jogador, Éder, que também só serve o plano B. Ainda por cima quando o plano B é francamente mau...

AV: onde temos as maiores dificuldades, como sempre - CR, Danny, Rafa, Bernardo Silva (Nani seria alternativa, jogando como o fez com a Bélgica, mas eu preferiria vê-lo a fazer o mesmo papel que João Mário, ainda que sejam jogadores completamente diferentes).

Poder-se-á dizer que isto não prevê um esquema alternativo, com um PL fixo, que permita sabe-se-lá-o-quê. Mas considerando que o Éder se tem revelado um fiasco, pergunto-me se vale a pena levá-lo. Mesmo o Danny, enfim... não sei se não seria de levar o miúdo do Paços de Ferreira, Diogo Jota.

E de qualquer forma o esquema alternativo está lá: em vez de 2 homens na frente, podem jogar 3 (CR, Rafa, Nani), deixando o meio-campo com 3 e João Mário (ou Bernardo Silva), à frente da dupla do meio-campo (que pode nem ser uma verdadeira dupla, se ficar, por exemplo, Danilo, João Mário, Bernardo). É seguramente mais periogoso para um adversário do que o Éder preso aos centrais contrários...

PS: Quanto ao Sporting, vou ao Restelo na segunda apoiar. Continuo a acreditar que é possível e serei mais um a torcer pelo Benfica em Munique!

19/01/2016

Quem é, agora, o principal candidato?

Face à posição na Liga, o Sporting. Mantém uma vantagem de 2 pontos e recebe o rival direto em casa. Num cenário em que ambos fazem todos os pontos em disputa contra não-candidatos e o Sporting bate o Benfica em casa, até pode perder no Dragão. Mantém o problema dos autocarros. Detesto ser o Zandinga das horas más, mas tal como antecipei este ciclo é decisivo para o Sporting: até ao jogo com o Nacional (mesma jornada do Benfica-Porto), o Sporting pode perfeitamente fazer todos os pontos em disputa, mas estará perante adversários e circunstâncias que lhe têm sido difíceis de ultrapassar. Se fizer esses pontos, creio que se manterá na frente aconteça o que acontecer porque o mesmo ciclo de jogos, no Benfica, pode importar a perda de alguns pontos. E quanto ao clássico, será a última oportunidade para o FCP se manter na corrida (e noto que se o FCP perder aí a corrida, perde também, com grande probabilidade, o acesso direto à Champions) pelo que não acredito que o Benfica ganhe (mas enfim, vamos ver o que faz Peseiro no FCP).

Face ao calendário, o Benfica, como tinha dito aqui no último post. O futebol de Rui Vitória continua sem convencer, mas o Benfica já fez as deslocações onde é teoricamente maior a probabilidade de perda de pontos. Claro que tem sido com Aroucas, Moreirenses, Boavistas, Uniões e Tondelas que os candidatos têm perdido pontos. Não obstante, o Benfica continua a ter grandes jogadores no seu 11, que vão resolvendo os jogos. Afastado que foi um jogador que, não sendo de menosprezar face à idade, sempre disse que não tinha lugar no atual Benfica (Gonçalo Guedes - ainda não lhe vi nada que justificasse a euforia à sua volta), e estabilizado o meio-campo, em particular com a entrada de Renato Sanches (primeiro jogador formado na Luz e lançado - na verdadeira aceção da palavra - na equipa principal do Benfica que me impressiona em muitos, muitos anos), a verdade é que o Benfica tem ganho os seus jogos. O que continuo a achar é que, defensivamente, é uma equipa instável e que vai tendo a sorte do jogo principalmente nos jogos em casa, o que não vai durar sempre (como também não era suposto durar para sempre aquela conversa de o Sporting marcar nos últimos minutos, diga-se!).

Quanto ao FCP, depende dos outros dois. Se o Benfica for o que eu espero que seja até finais de Fevereiro, e o Sporting continuar a desperdiçar pontos onde não é suposto, o FCP poderá assistir ao derby de cadeirão, na 25ª jornada. Caso aconteça apenas a primeira, vai depender de um clássico na Luz para se aproximar e renascer; caso aconteça apenas a segunda, vou-me tornar portista por alturas da 22ª jornada. Caso não aconteça nenhuma das duas, está fora. Quanto a Peseiro: sempre foi um treinador preocupado em jogar um futebol de qualidade; mas nunca o vi estabilizar essa qualidade em lado nenhum. Veremos se a famosa estrutura portista é assim tão decisiva.

PS: Críticas públicas a Rui Vitória desde que JJ se pegou com ele? Zero. Não sei quem se lembrou desta estratégia de comunicação que permitiu silenciar os criíticos dos nossos adversários...

PSII: Não retiro uma vírgula do que disse sobre Rui Vitória quando dele se falava para vir para o Sporting. Dou-lhe o mérito de ter conseguido estabilizar um 11 base e de ter evitado a radicalização do discurso, mas aquele futebol não chegaria para o Sporting, como todos sabemos, e tem chegado para o Benfica porque tem tido um Super-Jonas: 18 golos em 18 jogos, sendo que ele, Jonas, não os terá disputado todos (se continuar a este ritmo, e terminar com 36, será preciso recuar até Mário Jardel para vermos números parecidos... acho que isto diz tudo!). Isto dito: se for campeão, cá estarei para lhe reconhecer esse mérito. Mas convenhamos que se este futebol ganhar o campeonato, estaremos perante o campeão de pior qualidade desde Trapattoni (isto não querendo comparar os dois porque apesar de tudo acho que o futebol de Vitória fica uns bons furos acima).

12/01/2016

Final da 1ª volta: de duas, uma

Esta 1ª volta demonstra que, na Liga Portuguesa, e salvo raríssimas exceções (e já nem enquadro aqui o Braga, que está um nível acima dos demais), só os autocarros tiram pontos. Os que fazem o louvável esforço de tentar jogar "de igual para igual" têm sido atropelados. Aconteceu ao Setúbal, com Sporting e Benfica. Aconteceu ao Nacional, ainda ontem.

Com isto, temos o seguinte: um Benfica que passou 3 meses em sobressalto está a 4 pontos da liderança com o melhor calendário de entre os candidatos; um Porto que não acreditava no seu próprio treinador, está também a essa distância.

Claro que se tratam de clubes com uma estaleca diferente do Sporting, o Porto em particular. Recordo o último campeonato conquistado por Vítor Pereira, em que o Porto andou sempre atrás mas manteve sempre a distância que ainda alimentava a esperança do título (creio que seria impensável com este Sporting dos últimos 10/12 anos). A "gestão de danos" no Porto e no Benfica é completamente diferente da que se faz em Alvalade, por regra. O impacto psicológico da perda de pontos quando já se vai atrás é completamente diferente: no Sporting, os braços normalmente viriam abaixo; no Benfica sempre foi um pouco melhor, mas confesso que me surpreende como conseguiram aguentar ter estado a 7 pontos e ter conseguido diminuir o fosso depois de visitas a Guimarães e Nacional; no Porto, mesmo com Couceiros e Lopeteguis, a verdade é que vão aguentando sempre até às últimas jornadas.

O próximo mês, não sendo naturalmente decisivo, vai deixar indicações importantíssimas uanto ao comportamento dos três:

- no Sporting, as receções a Tondela, Académica e Rio Ave (recordo que são estes os jogos em que o Sporting tem sentido mais dificuldade) indicarão se efetivamente o Sporting consegue desbloquear autocarros (pelo meio, uma difícil deslocação a Paços de Ferreira, mas antevejo, apesar de tudo, um jogo em que o Paços não usará o autocarro);

- no Porto, a escolha do treinador. O calendário é acessível até à Luz e jogos com Dortmund, ainda mais se o treinador contratado for Conceição (único jogo de grau de dificuldade médio é a deslocação a Guimarães, mas se lhes ficarem com o treinador creio que o caminho fica facilitado);

- no Benfica (que, reconheça-se, tem sido o que tem ultrapassado os autocarros com resultados mais convincentes), três deslocações até receber o Porto e defrontar o Zenit. Tenho dito desde o início que este mês de Janeiro e a fase das eliminatórias da Champions vão ser decisivos para o Benfica. Não acredito que Vitória consiga manter o Benfica na corrida nessa fase. Mas também não acreditava que depois de ser enxovalhado com o Sporting em casa e pouco depois perder também para a Taça os adeptos não lhe saltassem em cima (três derrotas com o Sporting na mesma época é demais para qualquer benfiquista...). E a verdade é que se aguentou. Mérito dele, sim senhor, mas convém não esquecer a ajudinha comunicacional dada nos últimos tempos por Jorge Jesus que, num erro de palmatória (basta pensar o quão bem estava a funcionar com Lotapeg), atacou fortemente um treinador fragilizado pelos próprios adeptos. Hoje o que vemos nos OCS e nos blogs são declarações de apoio em lugar dos anteriores pedidos de imediata substituição. E agora é tarde para rever esta estratégia,

Aliás, quanto ao Benfica, atendendo ao que foi o último mês, devo dizer que vejo duas hipóteses:

- ou o Benfica, ao contrário do que diz JJ, de facto tem "estrutura" e voltou àquela fase em que seja quem for o treinador, e sejam quem forem os jogadores, é sempre o Benfica (obviamente que o "seja quem for" tem limites, mas para que percebam a ideia é um pouco equivalente ao Porto anos 90).

- ou o Rui Vitória é de facto melhor treinador do que tinha demonstrado até agorano seu percurso.

Uma coisa é certa: se o Benfica no próximo mês mantiver esta distância, ou não se afastar muito, vai correr até ao fim. Nem digo se se aproximar: aí, face ao calendário, passa mesmo a ser o principal favorito. Ao contrário do que a lógica poderia indicar, o que demonstra(ria) que, no futebol, a lógica não é mesmo muito mais do que uma batata...

04/01/2016

O reencontro com o Zatopek

1. Quis o destino que reencontrasse o meu companheiro de blog Zatopek em Alvalade, no passado Sábado. Andava por ali, pelo sector dos cativos e lugares de leão, com o seu ar bem-disposto de sempre, cachecol do Porto bem visível, como se estivesse em pleno Dragão. Tanto quanto sei, não teve nenhum problema mesmo sendo claramente minoritário naquela bancada. Ainda bem que assim é. Fico contente por perceber que, em Alvalade, é possível a um adepto do Porto assistir a um jogo no meio de milhares de adeptos do Sporting, perfeitamente identificado, sem que algo de estúpido aconteça.

2. Ao intervalo o Zatopek estava pessimista, e com razão. O Porto já perdia mas, mais do que isso, jogava muito pouco. Ou posse inconsequente ou bolas longas em Brahimi. Este último lá conseguia invariavelmente livrar-se de dois, por vezes três, adversários, partindo da ala para o meio. Mas depois deparava-se com um deserto: ou Corona do outro lado a kms de distância; ou Aboubakar preso entre os nossos centrais; ou uma série de jogadores presos cá atrás e sem grande capacidade para desequilibrar. Quando Danilo apareceu e cometeu a proeza de não estragar, o Porto criou o único lance perigoso em todo o jogo. Continuo a achar que falta ousadia e criatividade ao meio-campo do Porto. Há quem entenda que Brahimi devia jogar no meio, com Tello e Corona nas alas. Nem seria preciso tanto. Bastaria deixar Ruben Neves como trinco, jogar com André André a 8 (e nem sou dos que acham o jogador fabuloso, mas considero-o competente) e Evandro mais adiantado. O facto de não haver outros para jogar nestas posições (Herrera continua a pagar a fatura do que custou e parece que Imbula não conta...) já não será responsabilidade de Lopetegui (ou apenas dele).

3. O Sporting fez um jogo competente. Coletivamente a equipa esteve invariavelmente bem. Destaques inidividuais: Patrício fez bem a mancha a Aboubakar e com exceção de uma bola fácil que largou esteve sempre seguro; Naldo fez o primeiro grande jogo desde que representa o Sporting; João Mário esteve em todo o lado; Ruiz perdeu algumas bolas por excesso de adorno, mas a grande maioria das suas intervenções fazia progredir a equipa; Slimani resolveu o jogo (embora não se possa falhar aquele lance por volta do minuto 64...).

4. Pela negativa, William estava nitidamente sem ritmo (perdeu vários duelos em velocidade); e Matheus parecia algo tímido, talvez devido à importância do jogo. Coletivamente, apenas uma nota: Jefferson defende "como mandam os experts", com o poste como referência quando a bola está no flanco contrário. Quando Corona alargava, ficava com espaço para receber, controlar e avançar para o meio, e a equipa demorava a bascular. Jefferson nunca perdeu o duelo individual mas se o perdesse... Admito que a disponibilidade física de William possa ter condicionado, mas é um aspeto a rever.

5. Parece que efetivamente temos o coletivo mais forte de Portugal. Mas enquanto os outros tiverem Brahimis e Gaitáns não fico sossegado. Além de que perdemos com o União e recordo pelo menos 4 jogos que só desbloqueámos nos últimos minutos. O Sporting para ser campeão tem que ser dominador e incisivo nesses jogos. Temo mais esses do que outros.

6. Agora, ganhar em Setúbal na quarta-feira e continuar o trajeto. Parece-me claro que JJ queria Ruiz ali, onde jogou no Sábado, e que a contratação de Bruno César não vem despromover Matheus nem tirar espaço a Gelson - JJ quer Ruiz com Slimani, quando não haja Slimani com Teo ou com Montero, mantendo-se como opções para as alas João Mário, Gelson, Matheus e, agora, Bruno César. Marvin vem para rodar com Jefferson, Schelotto é que ainda não percebi se implica o empréstimo de Esgaio.