24/08/2015

Muito a melhorar

Este vai ser longo, preparem-se...

Tentei escrever este post sem ler primeiro outros escritos sobre o jogo de Sábado, com o Paços de Ferreira. Mas a verdade é que não resisti. E o que li vai "obrigar-me" a fazer uma coisa que reconhecidamente não é o meu forte: armar-me em "expert".

Os experts são aqueles tipos que percebem infinitamente mais de futebol do que o comum dos mortais, entre os quais me incluo (nos comuns dos mortais, entenda-se!). Do "futebol-processos", como lhe chama um amigo meu. Às vezes, como já disse em  tempos, falta-lhes (conscientemente, diga-se, porque não se querem meter por aí) a parte do "futebol-manobras". Que também é importante mas agora nem vem ao caso.

Normalmente, aprendo com os experts. Eles costumam ver o que eu não vi e analisar aquilo que eu nem sequer percebi que aconteceu. Recordo-me de ler no Lateral Esquerdo uma análise a um golo que o Sporting sofreu (creio que com o FCP, em casa) em que o autor do texto concluía que o mau posicionamento defensivo de Slimani, ainda no MC adversário, tinha permitido o desequilíbrio que acabou por conduzir ao golo. As imagens demonstravam-no de uma forma clara e eu, no estádio, nem sequer tinha percebido que Slimani pudesse estar envolvido na jogada. Nestes momentos, ficamos com a noção de que o futebol é muito mais do que ver se o Montero é melhor do que o Teo Gutierrez (eu até acho que é, mas o jogo no Sábado foi miserável...); a análise de cada um dos movimentos de um e de outro (e do que esses movimentos oferecem à equipa) é o fator decisivo nas escolha do treinador. E os experts conseguem ver isso. Eu não.

Neste início de época, independentemente das "manobras" (já lá vamos...), tenho visto algumas coisas que, por muito disparatadas que pareçam, parecem indiciar que há muito trabalho por fazer no Sporting. E ainda não as vi analisadas por ninguém. Já as tinha referido, en passant, no jogo com o CSKA. Mas no campeonato, pensei eu, 80% dos adversários não tem qualidade para nos fazer aquilo. Enganei-me.

Como não sei (não sei mesmo...) fazer aquelas sucessões de imagens que sustentam uma análise decente, vou tentar fazer em texto. Não fica tão bonito, mas espero que ao menos fique claro. E começo por explicar o contexto do que vou dizer:

1. Por razões que já expliquei, vi 2 jogos (oficiais) completos do Sporting: o jogo com o CSKA e o jogo com o Paços. Da pré-época, vi o Sporting com o Ajax Cape Town e com o Crystal Palace. Com exceção deste último jogo, vivi os restantes em sobressalto. Mesmo com os esforçados sul-africanos, a sensação que ficou era a de que havia demasiado espaço para o adversário jogar.

2. Os relatos que recebi dos jogos com Benfica e Roma davam-me a ideia contrária: domínio do jogo e imposição do nosso futebol; jogos controlados quando a equipa estava em vantagem. E, do que vi com o Tondela, não me pareceu que o Patrício tivesse sequer passado por um momento de mínimo perigo, com exceção do golo (repito: já lá vamos às manobras!).

3. O que vi, então, que me preocupou nos últimos dois jogos?

a) Dois laterais deixados à sua sorte, com reduzido apoio dos extremos (sendo que nenhum dos laterais ganhou fama pelas suas capacidades defensivas...);

b) Um meio-campo a dar demasiado espaço ao adversário, sempre com tempo para executar;

c) Espaço entre o meio-campo e a defesa (mesmo que os sectores estejam aparentemente próximos e a defesa esteja subida, com o CSKA e o Paços houve sempre este espaço para receber);

d) Incapacidade para baixar o ritmo do jogo, mesmo em vantagem;

e) Inúmeras saídas de bola com passes de risco, alguns com perda de bola.

As causas poderão ser muitas que eu não consiga identificar, mas do que eu vejo o problema está no meio-campo. Este sistema de JJ é excelente para o campeonato nacional porque asfixia os adversários logo na saída da bola. Mas quando a bola ultrapassa essa primeira linha de pressão ou quando é perdida ainda numa fase "precoce" de construção (tem acontecido muitas vezes, mas já lá vou), depende de um 6 posicional que ocupe aquele espaço, saiba onde estar e o que fazer. O 8 de JJ, já o sabemos, é um box-to-box que corre riscos porque se envolve ofensivamente. O 6 tem que fazer as coberturas e, no sistema de JJ, "ocupar" uma imensidão de espaço.

Jesualdo Ferreira disse-o há tempos na SportTV - o grande obreiro do primeiro título de JJ não foi Aimar, nem Di Maria, nem Ramires, nem sequer a dupla Cardozo-Saviola: foi Javi Garcia, que parava todas as transições adversárias. Eu nem era fã de Javi (ou de Fejsa) mas este papel é essencial (muito mais bonito, ainda que talvez menos eficaz, quando feito por Matic).

Ora, Adrien (ensinaram os experts) nunca foi um jogador com grande aptidão para as coberturas defensivas. Aquilani chegou agora e tanto quanto sei nunca foi 6.

Por outro lado, quer Adrien quer Aquilani correm demasiados riscos nos momentos de saída de bola. Querem jogar rápido, muitas vezes de primeira, mas poderão não ter aquela sagacidade (que a experiência a 6 certamente traz) de saber decidir quando é que a bola tem que sair rápido, quando é que o jogo tem que pausar, quando é que não há outra hipótese que não seja lateralizar. Claro que podemos exclusivamente por a responsabilidade na execução - no fundo, pensar que havia sempre excelentes opções mas Adrien e/ou Aquilani executam mal. Honestamente, não acredito nisso. Mesmo que Adrien cometa de facto esse erro algumas vezes, tem estado em demasiadas situações deste género, considerando a qualidade que tem.

Ora, sem esse verdadeiro 6, o Sporting treme por todos os lados. Claro que tivemos azar - William seria perfeito e lesionou-se. Mas (desculpem a teimosia) Rosell faria melhor este papel do que Adrien e até Aquilani. Defensivamente, saberia onde estar; ofensivamente, poderia nem conseguir sair a jogar como Adrien ou Aquilani mas seguramente não falharia tantos passes na saída de bola e daria à equipa, quando precisasse, uma posse equilibrada e momentos de pausa. Eu também acho, olhando para os nomes, que aparentemente há boas opções no meio-campo; mas quando vejo os últimos dois jogos e (acho que) percebo o sistema de jogo, pergunto-me o que fazem Rosell na lista de dispensas e Martins em vias de ser emprestado ao Belém (!!!). Os dois jogadores que o Sporting TEM e que poderiam trazer à equipa aquilo que neste momento a equipa NÃO TEM.

Aquilani, a 3, esteve impecável. A 2 não gostei, sinceramente - foi um perigo a sair a jogar e permitiu que o Paços criasse vários lances no nosso meio-campo, mesmo saindo a jogar. Pode ser que melhore com o tempo - é aliás essa a minha esperança, acabou de chegar.

Mas o tema é mais abrangente - não gostei do comportamento defensivo da equipa. Ao contrário do que disse JJ, o Paços foi perigosíssimo em Alvalade. Aos 30 segundos, podia estar a ganhar (mas aí, enfim, num lançamento "à Maxi" - já vi que se tornou moda). Antes do golo, teve duas situações de 1x0 com o GR (numa salvou Patrício, noutra João Pereira ainda veio a tempo). Quantas teve o Sporting? O golo parecia inevitável, tanto o espaço dado ao Paços, com o Sporting em vantagem, recorde-se.

Em conclusão, de duas uma: ou o sistema vai demorar mais a "assimilar" do que nos venderam (o que até seria normal); ou os intérpretes terão que ser outros.

Isto é o que me preocupa mais. A sensação, permanente, de que podemos sofrer um golo (mesmo que exista também a sensação de que podemos marcar a qualquer momento).

Mas não é só. É que apesar de tudo isto, mais Patrício menos Patrício, mais meio-campo menos meio-campo, desde o jogo com o Ajax Cape Town só vi o Sporting sofrer 2 golos:

- Um deles, em fora-de-jogo, com a mão, resultante de uma falta que era ao contrário;
- O outro resultante de um penalty que só existiu na cabeça do árbitro.

E o seguinte momento sublime: aos 90+2, o Sporting troca a bola. Tinham sido dados 3 minutos de descontos, recordo. O jogador do Paços faz falta. O árbitro apita. A equipa do Sporting sobe para o último livre. O árbitro não deixa marcar a falta e apita para o fim do jogo. Ora, a falta, como sabemos, é penalizada com um livre direto. É a única consequência (não disciplinar) que pune a equipa que fez a falta. Se um jogador faz uma falta aos 90+2 e fica ali a discutir com o árbitro um bocadinho, sabendo que depois disso acaba o jogo, a falta compensa. Sai, portanto, sem punição. Isto é de uma estupidez tal que me custa a acreditar que seja só estupidez...

Mas não, não vou dar o discurso de que temos que estar preparados para isto. Para isto, não. Uma coisa é não marcarem um penalty a nosso favor e fazermos queixa disso. Isso acho ridículo, uma equipa como o Sporting não pode justificar um resultado com o facto de, num lance ofensivo, o árbitro ter errado. Tem que criar 10/12/14 lances por jogo, se o árbitro errar num, tem que ter armas para resolver o problema (se errar em 5, como já aconteceu, façamos o barulho possível). Não depende dos árbitros transformar o 0 em 1, depende de nós. Outra bem distinta é inventarem um penalty contra nós. Aí estamos definitivamente a transformar o 0 em 1...

Isto não invalida que tenhamos que preparar os jogos muito melhor. Porque a jogar assim estamos sujeitos a sofrer lances de perigo sucessivos, mesmo que os árbitros não estejam para aí virados. E se só percebermos o que está mal quando se acabarem as desculpas... vamos chegar tarde.

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