01/06/2015

Obrigado Pai (por tudo e pela "Taça dos Jogadores")


Sei que não é o meu estilo e desculpem lá o post emocionado. Mas também tenho direito, de vez em quando...

Eu não queria ir ao Jamor. Nada a ver com o Sporting, ou o Braga, ou fezadas de qualquer espécie (independentemente de ontem estar particularmente pessimista, nem sei bem porquê, mesmo antes de o jogo começar). Tinha tudo a ver com o Jamor. Na última vez que lá tinha estado, passei por um inferno: a chegada, o estacionamento, a entrada no estádio, o jogo, a saída, o regresso, um tormento. Não queria repetir.

Mas o meu Pai queria. E no que toca ao Sporting, faço tudo pelo meu Pai. É a ele que devo este imenso orgulho e esta imensa alegria. Não, não me refiro à Taça. Não me refiro, aliás, a nenhum troféu, qualquer que seja. Refiro-me apenas ao imenso orgulho e à imensa alegria de ser sportinguista. De partilhar esta inconsciência, esta loucura, esta paixão com milhões de pessoas. De festejar um golo (importante ou não) saltando para cima do tipo da frente e abraçando o tipo que está ao lado, sem os conhecer de parte nenhuma. De viver esta emoção sabendo que não somos os mais prováveis vencedores mas vivendo cada minuto de um jogo e cada golo (nosso e dos adversários) no limite da adrenalina. De alimentar tudo isto sabendo, uma vez mais, que provavelmente pouco nos vai sorrir. Mas vivendo orgulhoso e feliz assim. Isso devo ao meu Pai.

Por isso, disse-lhe que ia com ele. Por ele e só por ele.

Combinámos às 13h, fomos para o Parque 3 (cheio), voltámos para trás para o Parque 2 (à pinha), estacionámos onde o Judas perdeu as botas, e saímos do carro às 14h15 (por aí). Andámos 30 a 45 minutos (!) até chegar a uma roulotte e comer uma bifana (das grandes) e beber uma imperial de 0.5l.
Faltavam 2 horas para o jogo começar e disse ao meu pai que devíamos ir andando (há 3 anos demorei mais de 1 hora até chegar ao meu lugar, isto a contar do 1º controlo de entrada...). Mas demorámos apenas 15 minutos. Resultado? Quase 2 horas ao sol à espera que o jogo começasse. Eu ainda usei uma t-shirt para tapar a cabeça; o meu Pai aguentou o sol durante 2 horas e tal.

Mas lá começou. E começou como sabemos e poderão ler, certamente com melhores palavras, noutros locais. Disse para o meu Pai "não acredito nisto, vamos passar outra vergonha aqui". O meu Pai dizia que em Alvalade também tinha começado assim. "Mas ficámos com 10?" "O quê, quem foi expulso? O Cedric? Eh pá, fica mais difícil, mas se marcarmos rapidamente." Mas depois veio o 2-0... Ao intervalo nem falámos: entre a senhora que à nossa frente se sentiu mal (o tempo que a maca demorou a chegar...) e a lamentável cena de pancadaria ao nosso lado, pouco falámos do jogo. O meu Pai não queria falar. Depois percebi porquê.

Segunda parte, o Braga a fazer o que fazia sentido: controlar o jogo no nosso meio-campo. Todos os clubes têm adeptos palermas e o nosso não é exceção. Eu próprio já terei sido palerma, todos já fomos. Mas gritar a meio do jogo coisas como "este Carrillo não vale nada" ou "endeusaram o deus Marco, está aqui o resultado" sinceramente não vejo no que possa ajudar.

Ao minuto 75, começa a debandada. Não, não vou criticar os que se foram embora. A esses, o Sporting devia também dedicar a vitória porque a descrença que deles se apoderou não vem do nada: vem dos muitos momentos em que eles acreditaram, ficaram, gritaram e o Sporting falhou. São tão sportinguistas quanto eu, que me "quis" vir embora também e só não fui porque achei que seria uma tremenda injustiça para aqueles jogadores, a jogar 10 contra 11 desde o minuto 15, ver a debandada geral. Seria demasiado egoísta. E na verdade, desde o minuto 60, mais coisa menos coisa, eles estavam a fazer pela vida. Como podiam, nem sempre bem, mas estavam. "Pai, ficamos para aplaudir os jogadores, eles não merecem isto."

Com o golo de Slimani, tudo mudou. Ao contrário do que é habitual em mim, comecei a puxar pela equipa mesmo quando parecia que estava a cantar sozinho. Não sei o que me deu. Nem era o caso de estar especialmente confiante, achei, isso sim, que aqueles jogadores mereciam. Não mereciam o meu (nosso) "silêncio" dos minutos que antecederam o golo de Slimani. Gritei e cantei até ficar rouco e festejei o golo de Montero como se tivesse sido o golo mais importante de sempre.

No prolongamento ainda sofri, nos penalties já estava confiante. Adivinhei a defesa de Patrício e o falhanço de Éder. Vi o de Adrien quase fora e receei o de Nani. Depois, enfim, depois de tudo, daquela tarde, daquele sofrimento, abracei-me ao meu Pai e agradeci-lhe. E foi aí que ele me disse: "da última vez que falaste de ir embora a meio do jogo, estávamos a perder 2-0 ao intervalo e ganhámos 5-3; tive um feeling que ia acontecer novamente. E aconteceu mesmo: 2-2 + 3 penalties para nós e 1 para eles. 5-3". Grande Pai!!

No campo, os jogadores exultavam, na bancada (lá está!) abraçávamos o gajo ao nosso lado só porque estava ali connosco. A sofrer connosco. Mas no campo estavam os verdeiros heróis da festa: Patrício grande campeão, até coxo defendeu tudo, Mané foi defesa direito, médio direito e extremo-direito, Ewerton foi estóico até ao limite, Paulo Oliveira sempre solidário com os colegas, Jefferson o menos forte mas ainda com pernas ao minuto 120, William cresceu com os minutos, tivemos o melhor Adrien do ano, um Montero que mudou o jogo, um Nani que estava sempre lá quando os colegas precisavam e um Slimani, há que dizê-lo, a dar 100% sempre e a um nível muito forte. Não foi o Bruno, nem o Marco, nem foram sequer os adeptos. Todos mereceram, Bruno como líder máximo, Marco como treinador, os adeptos pelo sofrimento. Mas esta foi dos jogadores. Foram uns heróis e uns campeões. Mereceram porque acreditaram quando mais ninguém acreditava. Acreditaram eles. E o meu Pai.

PS: A foto mostra o ambiente antes do jogo começar. O ambiente no final dos 90 minutos e já depois dos penalties não é reproduzível em foto, nem em video. Tirei várias e fiz vários. Mas o que guardo na memória, esse é o grande registo da tarde de ontem.

PS2: No meio disto tudo, puxei e puxei pela cabeça e... descobri que sou um fala-barato. Nunca saí a meio de um jogo. Aliás, nunca saí antes de um jogo terminar, Nem sequer 1 minuto antes. Vontade até tenho, às vezes. Mas nunca o faço. Espero que assim continue porque isso também é ser Sporting. Mesmo que a cabeça, nalguns momentos, nos diga o contrário.

11 comentários:

  1. Koba,

    a descrição de "Ser do Sporting" é isso mesmo. Tal como todo o post, é Grande!

    Calma de Pai é sempre fundamental. Também vi o jogo junto ao meu pai. Decidi não ir ao Jamor e ir ter com ele e ver na TV. Esteve sempre calmo (até ao golo do Montero e ao penalty do Agra).

    Também me lembrei muito dos 5-3 (ao intervalo, principalmente, quando estava com esse pensamento que mencionas: "não acredito nisto, vamos passar outra vergonha aqui"). Só que nunca me lembraria dessa equação que o teu Pai fez. Genial.

    Tem de existir sempre Emoção e, também por isso, este teu texto reflecte muito bem esse estado.
    Foi brutal, épico, sofrido e muito, mas muito merecido.

    grande abraço (para o teu Pai também)!!


    ps: percebo os adeptos que sairam (naquelas condições eu também não o faria); e creio que a tua explicação para a saída deles é bastante lúcida e ainda bem que existe alguém a escrever isso. São Sporting, como nós, e sabemos lá (sabemos, sabemos...) por quantas dores já passaram.

    ps2: só saí uma vez antes do jogo acabar; no tempo do Carvalhal (que achava que tinha sido o mais baixo onde se tinha chegado; estava tão enganado...); num Sporting-Setúbal; disse para mim mesmo "se estivermos a perder ao intervalo contra um Setúbal vou-me embora"; e assim foi, ao intervalo estava 0-1; quando cheguei a casa percebi que tinhamos vencido por 2-1; não me arrependi mas também não repeti); até nos 3-6 estive até ao fim, à chuva...

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    1. Cantinho,

      Dou por mim muitas vezes a pensar no quão irracional e inconsciente isto é. No fundo isto é uma paixão de adolescência mulltiplicada por todos os dias da nossa vida. Não há explicação para esta adrenalina. Quando vejo os jogos da NBA e os americanos a fazer o teatro deles nas bancadas, sinto um misto de inveja e pena. Inveja porque eles têm uma competição fabulosamente organizada, de tal forma que dois dos clubes mais miseráveis dos últimos 10/20 anos disputam agora o título; mas também pena, porque este sentimento irracional que ultrapassa uma cidade e um franchise eles não o poderão nunca sentir.

      Foi tudo o que dizes: brutal, épico, sofrido e merecido.

      Foi ainda outra coisa: contra tudo e contra todos. Desta vez eu próprio, sempre tão tolerante com arbitragens, dei por mim a gritar "gatuno" quando o Marco Ferreira não expulsou o Baiano. Não o disse no post porque não queria focar esse tema, mas digo-o agora. E que bem fica ao Sporting não falar disso. Recomendo a leitura do grande portista que escreve no "Sou Portista Com Muito Orgulho", a propósito.

      Um grande abraço para ti, para o teu pai, e para o teu tio!

      só mais uma nota: nesse jogo do Carvalhal com o Setúbal, acho que perdemos mesmo 0-1...

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    2. Nunca teremos uma competição organizada e honesta (justa, pelo menos).

      E foi mesmo contra todos. Eu que tinha em boa conta o Marco Ferreira (o Benfica foge dele) perdi isso. É incrível como não expulsa Baiano e como não amarela Pardo e Micael nos primeiros 15 minutos. E digo-te, apesar da burrice do Cédric, atrevo-me a questionar se é justo o vermelho. E não tenho duvidas que, naquele contexo [final: 0-0] se fosse Maxi ou Danilo a cor seria amarela (será que seria penalty?).
      Também leio esse blogue e já tinha visto o último post. Creio que é o único portista passível de ser lido. Até me questiono se é mesmo do Porto...

      Ganhámos mesmo esse jogo. Empate por Moutinho e o golo da vitória foi do Postiga (incrível, não é?). Vinhamos de uma derrota por 2-0 na Luz. Jogámos com 10 portugueses no 11 titular (Izmailov como o único estrangeiro).

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    3. toda a razão: perdemos 0-1 no ano seguinte, com Couceiro

      quanto ao marco ferreira, idem aspas

      nunca pensei que não expulsasse o Baiano nesse lance - teve mais preocupação em ser acusado, pelo Braga, de estar a compensar do que em ser acusado, pelo Sporting, de nos estar a prejudicar. Por aqui também se vê a força que (não) temos.

      um abraço

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    4. "teve mais preocupação em ser acusado, pelo Braga, de estar a compensar do que em ser acusado, pelo Sporting, de nos estar a prejudicar. Por aqui também se vê a força que (não) temos."

      bem verdade.

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    5. Miguel

      discordo totalmente da referência à NBA e às "equipas mais miseráveis dos últimos 10/20 anos disputam agora o título".

      Não é assim. Sigo desde a juventude e agora ainda mais até porque tenho o canal NBA. e o que te posso dizer é que, não se tratando de equipas históricas como Lakers, Celtics, ou consagradas como os Bulls ou os novos Spurs/Heat, tenho vindo a constatar que são as melhores deste ano.

      Apoiadas - os Cavs - num dos melhores jogadores da competição de sempre (LeBron James, pela 5ª vez consecutiva numas finais, o que é inédito. Nem Magic, Bird ou Jordan o fizeram) e os Warriors que têm para mim o MVP deste ano (Stephen Curry), um excitante e mortífero atirador de 3 pontos. Aliás toda a equipa tem jogadores que matam dos 3 pontos. Excepção ao poste, claro.

      Vão ser umas finais interessantíssimas, acredita.

      No fundo, citando Gabriel Alves, vai ser a técnica da força contra a força da técnica. O Facto de os Cavs nunca terem ganho um título e os Warriors só terem 1 campeonato (e faz agora 40 anos) só torna tudo mais aliciante.

      competição do cacete !

      abç

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    6. André, reli e de facto expressei-me mal: não queria dizer que estas equipas são miseráveis, o que queria dizer é que vão à final as equipas com os mais miseráveis resultados dos últimos 10/20 anos (exceção feita aos anos em que os Cavs tinham LeBron), o que demonstra o quão bem pensada está a competição. A forma como organizam os drafts permite que as equipas com os piores resultados recebam os melhores jogadores a sair dos campeonatos universitários, o que permite que essas equipas se aproximem sempre do topo. Em termos de competitividade, é brutal.

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  2. Quem tem Pai tem tudo !

    E mais não digo.

    grande abraço

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  3. Koba,

    em relação aos sportinguistas que abandonaram o estádio antes do fim, aqui vai uma interessante reportagem (não é que eu goste deste site):

    http://www.maisfutebol.iol.pt/reportagem/sporting/as-historias-por-detras-dos-adeptos-que-sairam-mais-cedo-do-jamor

    talvez assim se perceba essa "fuga". eu compreendi e aceito. São muitas dores.

    grande abraço

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    1. Cantinho,
      Goste-se ou não do site, está aí uma grande reportagem que ninguém se lembrou de fazer.
      Se o grande Manel (vénia) saiu antes...
      Um abraço

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  4. Ainda estou rouco... Esta vitória foi minha, desculpem-me todos. É que não me calei o jogo todo, sempre mas sempre inconformado com o que se estava a passar no relvado. ( benditos canecos que bebi antes do jogo ). :)))
    Se me filmassem naquela central, teria vergonha das figuras que fiz, até pedi desculpa a um adepto que estava lá com o filho, tal o excesso. Aquelas cadeiras a minha frente levaram porradas que sei lá. Enfim, o Sporting deixa-me louco!
    Mane és o melhor lateral do mundo :))))

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