25/06/2015

Um plantel difícil de antecipar

Vamos lá, então, pensar no plantel do Sporting para a próxima temporada.

O circo já começou: já há nomes pelos jornais, jogadores contentes com o interesse do Sporting e dois rumores que duram há várias semanas - Danilo Pereira e Bryan Ruiz. Mas de concreto, só mesmo a saída de Cedric, a confirmação (esperada) de Ewerton e a contratação de um GR desconhecido.

No entanto, como abaixo explicarei, não consigo fazer sequer um exercício sobre o que temos e o que falta. Consigo, apenas, assumir o que poderia ser o plantel no pressuposto de que não sai ninguém.

Se assim for, se o Sporting mantiver os jogadores que quer (o que é bem diferente de manter os que pode), creio que ao dia de hoje andaríamos longe disto:

GR: Patrício, Boeck (Jug provavelmente jogará pela equipa B)

DD: não acredito que Miguel Lopes fique (ordenado excessivo para o que rende), creio que o Sporting ficará com Ricardo Esgaio e irá ao mercado contratar um jogador

DE: não acredito que Jefferson fique (conflito com BC foi complicado...), teremos Jonathan e um novo DE

DC: para além de Ewerton e Paulo Oliveira, o Sporting terá também Tobias e Ruben Semedo (um deles na A, o outro emprestado ou na B). Mas acredito que JJ queira mais um central, com mais quilómetros nas pernas, para acompanhar Ewerton

MD: William e Rosell. Só faria sentido Danilo se William saísse, na minha opinião; e quanto a Rosell eu considero-o uma alternativa de qualidade (investir em alternativas quando temos satisfatórias, mais uma equipa B, parecer-me-ia um enorme disparate)

MC/MO: Adrien, João Mário, André Martins, Wallyson (ver abaixo comentário sobre sistema de jogo)

EE/ED: Carrillo, Capel (JJ sempre gostou dele), Mané, Iuri

AV/PL: Montero, Slimani, Tanaka, Viola, Labyad (ver abaixo comentário sobre alternativas a Slimani)

Sendo contratados um DD, um DE e um DC, teríamos aqui 25 jogadores. Agora, os pontos a discutir são os seguintes:

(i) ambição: olhar para este plantel e assumir uma candidatura clara ao título é confiar na capacidade do treinador. Porque, substancialmente, do MC para a frente, temos basicamente o mesmo plantel, com o regresso de um ou outro emprestado e a promoção de alguns jogadores da B (o que pode até fazer a diferença mas, no imediato, não é muito provável). Se o Sporting quiser ficar mais forte, terá que ponderar seriamente o empréstimo de alguns jogadores. Por exemplo, ainda que eu entenda a vontade em ver Wallyson e Iuri na equipa A, pergunto-me se não faria bem, a ambos, um empréstimo a um clube da Liga (Iuri teria que subir de patamar, de um Arouca para, por exemplo, um Marítimo - isto assumindo que o tema Danilo não gera mau ambiente entre as partes). Isto aplicar-se-ia a outros jogadores, como Tobias ou Ruben Semedo. E há outros jogadores, como os AV/PL, em que o Sporting teria que ponderar o que pretende: há opções para 2º AV, mas para um PL mais fixo só há Slimani.

(ii) sistema(s) de jogo: JJ no Benfica tinha condições para um sistema de jogo com apenas 2 jogadores no MC. Mas recordo que no seu primeiro ano não foi bem assim. Tinha Javi Garcia com Aimar à sua frente, Di Maria na esquerda, mais Saviola e Cardozo. Mas tinha Ramires, que equilibrava tudo isto. Será que JJ consegue uma equipa equilibrada se fizer um Sporting que tenha, por exemplo, William, João Mário, Carrillo, Capel, Montero e Slimani? Duvido, sinceramente. Por isso mesmo, JJ terá que definir o que pretende implementar e a partir daí veremos que outros ajustamentos deverão ser feitos no plantel. No meio-campo, por exemplo, há opções de qualidade para um sistema a 2, com um Montero ou um Labyad mais recuados. Mas se quisermos juntar um 3º elemento, parece que falta ali qualquer coisa.

Enfim, creio que só conseguirei ter uma ideia do que se pretende, e do que se poderá ajustar, ao primeiro jogo amigável. Até lá, teremos que confiar em JJ e em BC. Mas uma coisa me parece certa: se os ajustes forem "cirúrgicos" (mesmo, e não como no ano passado), as fichas estão a ser apostadas no trabalho de JJ. Porque não mudando substancialmente, terá que ser ele a trazer o que nos falta para efetivamente disputarmos o título.

17/06/2015

Três notas rápidas quanto à Seleção

A primeira, para referir que obviamente vejo que a seleção continua a não jogar grande coisa. Não seria justo para com Paulo Bento, que tanto critiquei, afirmar aqui "estava-se mesmo a ver que bastava mudar de selecionador e logo ganharíamos à Itália e à Argentina". Não. A seleção, com Fernando Santos, ainda não fez um só jogo convincente. Mesmo na Dinamarca, limitou-se a cumprir os mínimos (o que, com a Dinamarca, pode chegar, como se viu). Tal como sucedia antes, anda às costas de Cristiano Ronaldo. Fernando Santos até tem um sistema de jogo original, mas não me parece que os artistas sejam aqueles. A meu ver, Coentrão é essencial na defesa e o lugar dele no meio-campo pode ser ocupado por um Nani um pouco mais adiantado no terreno (recordo que jogou em posição semelhante no Sporting de... Paulo Bento). Resta saber quem acompanha Ronaldo na frente, neste sistema. Percebo que Quaresma não seja a solução ideal, mas o que vejo, e já o irei reforçar de seguida, é que o selecionador faz o que (aqui sim) Paulo Bento não fazia: procura e experimenta alternativas, muitas vezes onde nós próprios entendemos que elas não existem.

A segunda nota diz precisamente respeito a uma mudança que considero muito importante e que se reflete não só na solidez que a equipa ainda vai revelando (na Arménia menos do que nos restantes jogos), como também na motivação dos jogadores: é que, agora, os jogadores que merecem têm efetivas oportunidades, joguem eles onde jogarem. Já o disse antes e repito-o agora. É uma diferença fundamental para o passado, não apenas por uma questão de pura justiça, mas também porque quem joga está menos acomodado e sabe que, não estando bem no clube ou na seleção, pode perder o lugar. O substituto está mesmo ali, no banco ou na bancada, e não é aquele tipo porreiraço chamado só para preencher quotas, é mesmo um jogador que merece ir à seleção. Parece quase irrelevante, mas não é. Assim, quando vemos Vieirinha a DD, ou José Fonte como 3ª opção para central, ou Adrien (em boa forma tem obviamente lugar nos convocados) a ter oportunidades, ou as estreias de Danilo e Daniel Carriço, e vemos tudo isto como positivo, percebemos que o selecionador não está a dormir e os jogadores também o percebem. Hoje, porventura, seremos incapazes de simular uma convocatória para o Euro 2016, pelas melhores razões.

A terceira nota diz respeito ao apuramento, quase consumado, para o Euro 2016. Como sabem, quando tudo isto começou, revelei grande preocupação com o apuramento. Mesmo que as atuais circunstâncias o facilitassem (2 apurados diretos + 1 no play-off), Portugal tinha não apenas o grupo de apuramento mais equilibrado, como também uma derrota contra uma das seleções teoricamente mais fracas. Por outro lado, sempre o disse, não há pontos garantidos neste grupo, como se viu na Arménia (onde aliás nunca tínhamos ganho). Não há San Marinos nem Liechtensteins nem Gibraltars. Há 4 seleções difíceis, em casa e fora (sim, a Dinamarca é difícil - não é o papão que Paulo Bento pensava que era, mas está regularmente em fases finais). Mas, entretanto, três factores alteraram radicalmente este panorama:
- a vitória na Dinamarca, com muita sorte à mistura;
- a "perda de pontos" de duas seleções num só jogo, o Sérvia-Albânia;
- a miserável campanha da Sérvia a partir daí.

Aliás, acredito que não vamos sequer precisar de pontuar na Sérvia. Se, como será normal, a Dinamarca, jogando em casa, ganhar ou empatar o seu jogo com a Albânia, iremos manter uma vantagem de 4 ou 5 pontos sobre o 3º classificado, jogando ainda em Tirana. Se com esta vantagem acabarmos atrás da Albânia, compro um retrato do Enver Hoxha e penduro no meu quarto, em homenagem à proeza...

15/06/2015

As últimas semanas em 3 ou 4 pontos

A contratação de Jorge Jesus pelo Sporting, ainda não oficial mas já tornada pública, merece que a ela voltemos para uma análise sob três perspetivas: a desportiva, a financeira e a estratégica. Dificilmente estas perspetivas podem ser dissociadas umas das outras. Mas creio que faz sentido abordar estas três vertentes separadamente.

1. A perspetiva desportiva para mim é relativamente simples: o Sporting contratou o melhor treinador disponível em Portugal.

Ao contrário do que dizem muitos benfiquistas e portistas, creio que são muito poucos os sportinguistas que não o diziam já abertamente. A vantagem de ter um blog, no meu caso pessoal, facilita-me a tarefa - sempre elogiei JJ e sempre gostei dele. Aliás, escrevi, em tempos, que JJ estava no lado negro da força mas um dia voltaria a ser apenas Anakin Skywalker (e assim foi!). E até a forma como ele fala foi elogiada e adotada por mim. Basta ver que, sem qualquer ponta de deboche, o Man Utd neste blog passou a ser Naite.

Mas adiante que isto não é sobre mim - é sobre JJ. Sendo um incondicional adepto de Marco Silva e do seu trabalho, como ainda sou, estava genuinamente preocupado com o facto de irmos largar um treinador de grande qualidade e fazer uma aposta sabe-se lá em quem (eu achava que seria Paulo Fonseca, um bom treinador mas que falhou no FCP). Há meses que digo que o Marco Silva, infelizmente, não ficaria no Sporting, ainda que ganhasse a Taça. Os sinais eram demasiado evidentes. Perante o facto consumado, creio que o Sporting contratou um treinador que do ponto de vista desportivo me deixa, por agora, sossegado: a qualidade e consistência do futebol do Benfica nos últimos anos foi reconhecida por todos.

2. A perspetiva financeira gera ainda algumas dúvidas. Colocaram-se, inicialmente, dois cenários:

(i) reforço da posição da Holdimo (que poderia até implicar um reforço do controlo da SAD);
(ii) abertura do capital a um terceiro investidor (chegou a falar-se da Guiné Equatorial, algo que o Sporting prontamente desmentiu).

Mais tarde, ainda que um pouco "a talhe de foice", o Sporting veio dizer (através de BC e Carlos Vieira) que a contratação de JJ era possível com fundos próprios. Chegou a referir-se que bastaria não contratar um jogador que valesse o equivalente ao ordenado acordado com JJ. Muito embora isto pareça uma lógica de contas de merceeiro, a verdade é que a confirmação deste ponto depende da análise do orçamento para a próxima temporada. E essa, por sua vez, depende de conhecermos a expetativa quanto às receitas, em particular as correspondentes aos patrocínios, e depende, claro, de saber quem são os jogadores a transferir, uma vez que os respetivos custos deixam de ser suportados pelo Sporting (isto sem referir o encaixe, que creio que apenas será realizado no próximo exercício, uma vez que neste BC já assegurou o resultado que queria).

Sumariando para não complicar o texto: se o orçamento for o mesmo da época anterior, esta jogada só é sustentável se encontramos um patrocinador que pague o que pagava a PT e, ainda assim, desinvestirmos na massa salarial dos jogadores (leia-se, vendas); se o orçamento aumentar, temos que perceber de onde vem esse aumento e se o mesmo permite manter os melhores jogadores e, ainda assim, contratar um treinador como JJ.

Assumindo que o Sporting está efetivamente a usar os seus próprios recursos, queria salientar um ponto: já tenho tido algumas desilusões quanto aos benefícios da dúvida que dou a BC, mas volto a dar-lhe este, do plano financeiro, porque não acredito que BC, considerando o passado recente do clube, fizesse esta jogada, mesmo que arriscada, se não tivesse "chão" e ainda por outros dois motivos:
- porque a SAD do Sporting tem um efetivo controlo de investidores, que detêm importantes parcelas de capital, e que dificilmente deixariam passar uma jogada destas sem a questionar (ou sem avalizar eventuais parceiros de capital);
- porque a gestão do Sporting tem sido feita de braço dado com os credores e não acredito que nos permitissem fazer isto (o ordenado de JJ tem mesmo que ser pago, como calculam - e existe, supostamente, uma garantia bancária para o primeiro ano) se não houvesse folga orçamental (ou dinheiro de terceiros, claro).

Ou seja: ainda não tenho a certeza que sejam efetivamente fundos próprios; mas tenho a convicção de que há alguma racionalidade nesta opção. BC é um presidente adepto, mas não creio que toda a SAD e todos os membros dos órãos sociais ficassem em silêncio e inamovíveis se esta opção fosse um salto em frente à beira do precipício.

3. Resta o tema estratégico. Quanto a este ponto, compreendo os que entendem que é uma grande golpada no Benfica, mas não concordo a 100%.

É um golpe, claro que sim, porque nunca passou pela cabeça de Vieira e dos dirigentes (e adeptos) do Benfica que o Sporting conseguisse contratar JJ. Mas a verdade é que o Benfica já não queria JJ. O Sporting não roubou o treinador ao Benfica, limitou-se a ficar com um treinador que o Benfica não queria.

Pelo que o golpe, essencialmente, terá a ver com as expetativas: na Luz, pensava-se que o Sporting teria mais um ano a começar do 0 (era evidente que Marco Silva sairia) e sabia-se que o FCP não conseguiria fazer outro ano de investimento como o que fez em 14/15. Pelo que era o ano perfeito para desinvestir.

Ora bem - sendo certo que o Sporting começa efetivamente do 0, a verdade é que começa do 0 com um treinador que foi campeão no seu primeiro ano na Luz. E demonstra algum pulmão, o que obviamente assusta os adversários (se não perde com o Benfica e até elimina o FCP da Taça com as limitações que teve em 14/15, é normal que os adversários temam que o Sporting se aproxime um pouco mais).

Há também o suposto golpe em PC, que terá tentado inúmeras vezes contratar JJ e foi ultrapassado nesse objetivo por um rapaz acabado de chegar ao futebol português. Mas este, enfim, está por comprovar.

Isto dito, obviamente que o Sporting fez uma jogada que os rivais não esperavam e vamos ter 2/3 do país contra nós. Mas para isso o Sporting tem que estar preparado. É quase sempre assim, digam eles o que disserem.

Mais importante do que a estratégia perante os rivais é a implicação estratégica para o próprio BC - é que BC está a jogar as fichas todas. O Sporting, digo-o eu desde já, com esta jogada, e tenha o plantel que tiver, tem que ser candidato ao título. Ninguém contrata um treinador a 3M€/época (sem prémios) para "crescer" ou para se "aproximar dos rivais". O Sporting contratou este treinador para ganhar. E para ganhar já. Pode até nem ganhar o campeonato no primeiro ano, mas tem que andar muito próximo disso e ganhar um troféu. Caso contrário, duvido que não renasça o fantasma de Marco Silva, que ganhou uma Taça com vacas muito magras.

Por isso, arrisco dizer - BC está a por também o pescoço dele nesta jogada. Se falhar, não poderá dizer que JJ não estava alinhado com projetos e tretas desse género. Não há cá projetos quando se contrata um treinador como JJ. Há expetativa de vitórias. O Sporting tem que disputar o título (ganhá-lo já depende de muitas outras coisas). E BC não só o sabe muito bem como, aliás, fez esta jogada plenamente consciente de todas as suas implicações.

PS: Voltarei a falar de Marco Silva, mais tarde. Continuo a agradecer-lhe e a achar que ele merecia ter ficado. Mas não vale a pena fingir que não percebemos que Marco Silva ia sair. Eu já tinha percebido há muito tempo. Quanto ao procedimento, não é bonito. E não gosto. E não me revejo. Mas também não me revejo na campanha de indignação que se levantou neste país por causa disto, própria de uma mentalidade tacanha muitas vezes prevalecente, em que podemos escolher os vilões que são mais vilões e esquecer os que, enfim, são um pouquinho menos vilões (ou mais espertalhões, ou mais discretos, ou mais protegidos pela imprensa). O Sporting foi, certamente, o primeiro clube a querer despedir um treinador que não queria sair, só pode. Ver o país comovido com isto, ver toda esta hipocrisia, como se isto não fosse uma campanha mediática destinada a descredibilizar o Sporting (só porque contratou JJ, não tenhamos ilusões) enfim... fez-me lembrar a história das nádegas. Sim, foi muito feio. Mas daí às virgens púdicas Anas Lourenços... Façam-me lá o favor de terem um pingo de vergonha na cara. O próprio Marco Silva não merece esta vitimização - e beneficiaria mais se tudo isto fosse um pouco mais credível e menos choramingoso.

04/06/2015

Jesus e Marco

Ponto prévio: só acredito que Jesus será treinador do Sporting quando for comunicado à CMVM e apresentado em Alvalade.

Ainda assim, não queria deixar de dizer algumas palavras sobre o tema. Como sabem, defendo o princípio de que, quando todos os OCS dizem o mesmo, é provavelmente verdade. Aqui o tema não é saber se o Sporting contactou JJ ou não, essa parte dou de barato: aconteceu. O ponto é saber se JJ efetivamente está disposto a aceitar a proposta do Sporting (seja ela qual for) ou está a usar essa possibilidade para manter o principesco salário que recebe no Benfica (técnica negocial que podemos não considerar muito bonita mas que é usada todos os dias no futebol). É aí que tenho as minhas dúvidas.

Assumindo, porém, que é tudo verdade (JJ foi contactado e JJ aceitou), queria recuperar o diálogo que mantive aqui com o leitor RMSCP:


Respostas

  1. Koba,

    Por alguma razão andamos em jejum de títulos. Enquanto os nossos rivais evoluíram, nós fomos regredindo nos últimos anos e só agora parecemos estar mais estáveis mas precisamos ainda de melhorar para chegarmos ao título. Falta subir um degrau que todos os anos parece impossível de subir. Falta competência. A meu ver, esse patamar só pode ser atingido se tivermos um treinador de qualidade. Basta olhar para o Benfica antes e depois de JJ.

    Com isto não estou a dizer que o nosso plantel é perfeito. Mas, nas condições em que nos encontramos, acha que algum dia será possível termos um plantel como o do Porto? Na minha opinião, não. Por isso é que apostava as fichas no treinador.

    Cumps
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  2. RMSCP, se o JJ estivesse disponível, eu trocava já (com toda a consideração que o Marco Silva me merece)

    Mas ao nosso alcance não vejo ninguém que me ofereça mais garantias do que o Marco Silva. Funcionam os dois elementos: a (minha) convicção e a exclusão de partes.

    Porque se houvesse alternativas... Basta pensar (noutro nível) no Bayern. Eles tinham um treinador em que acreditavam, ganhou tudo. Mas havia um melhor disponível (Guardiola). Aí funcionou a lógica do "sim, temos um bom, mas podemos ter um ainda melhor".
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Tenho que ser honesto: quando afirmei que "se o JJ estivesse disponível, eu trocava já", estava longe de imaginar que fosse efetivamente possível. Disse JJ como poderia ter dito Mourinho ou Guardiola. Quis, apenas, dar um exemplo realista, para não descredibilizar totalmente o argumento.

O que queria eu dizer, então?

1. Gosto de Marco Silva: é um bom treinador e, mais do que isso, é treinador para o Sporting (o que é muito mais difícil do que ser um bom treinador).

2. Acho que Marco Silva fez um bom trabalho no Sporting. Conquistou 76 pontos, fez uma Champions meritória e ganhou a Taça de Portugal (na altura os 76 pontos estavam por conquistar e a Taça também - mas acreditava que ambos seriam possíveis, como foram).

3. É evidente que Marco Silva e Bruno de Carvalho não se entendem. Mas sendo Marco Silva um bom treinador e tendo feito um bom trabalho, cabia a Bruno de Carvalho fazer um juízo muito simples (que um presidente do Sporting é OBRIGADO a fazer independentemente dos seus juízos estritamente pessoais): consigo encontrar um treinador tão bom ou melhor do que este?

4. Se a resposta fosse NÃO (como eu achava que era), Bruno de Carvalho teria que engolir os sapos que tivesse que engolir e manter Marco Silva. Marco Silva teria também que ceder, como é evidente.

5. Se a resposta fosse SIM (como parece, afinal, ser possível), Bruno de Carvalho teria toda a legitimidade para fazer o raciocínio que fez o presidente do Bayern "sim, temos um bom, mas podemos ter um ainda melhor".

6. Legitimidade essa "reforçada" pelo facto de a relação com o treinador não ser a melhor, o que não seria nunca argumento se BC não conseguisse identificar no mercado um treinador que, pelo menos em teoria, oferecesse mais garantias.

Ou seja, e resumindo: BC tem toda a legitimidade para tomar essa decisão (aliás já a tinha antes). Eu, em teoria, discordaria da decisão. Mais: eu nem sequer ponderaria JJ porque eu estou contente com Marco Silva. Mas, confirmando-se a substituição de Marco por Jesus, há que dizer que BC teve a ousadia de tentar e a capacidade de contratar um treinador que é o mais desejado em Portugal (e que a generalidade da crítica considera melhor do que o que tem hoje). Quando falo de capacidade, deixo para outras núpcias os temas financeiros e, como dizia hoje um amigo de outras guerras sportinguistas, o "jurídico subjacente".

Mas nada disto, mesmo nada, valida o comportamente miserável que tem sido adotado relativamente a Marco Silva desde dezembro de 2014. Fazer sair notícias do seu despedimento nas vésperas do Natal, "autorizar" as declarações de José Eduardo, dar entrevistas em que deixa subliminarmente a mensagem de culpabilização do treinador pelo 3º lugar (e pela indefinição do orçamento), fazer conferências de imprensa sobre Marco e os macaquinhos, apresentar o treinador na festa da Taça como se fosse mais um da equipa técnica (com tanto "tempo de antena" quanto qualquer adjunto) e fazer sair (no Record e no CM, antes marionetas do Grande Satã) cinco motivos pífios para a perda de confiança em Marco Silva. Isto não sei se conseguirei perdoar.

Isto dito - o Sporting tem muito a agradecer a Marco Silva. E tem que resolver esta situação com dignidade. Tem toda a legitimidade para procurar um melhor treinador; não tem para pisar na dignidade de Marco Silva. Quanto à exigência sobre BC e JJ, deixo para um próximo post.

E se for tudo verdade, da minha parte só digo: obrigado Marco. Espero que voltes um dia. 

01/06/2015

Obrigado Pai (por tudo e pela "Taça dos Jogadores")


Sei que não é o meu estilo e desculpem lá o post emocionado. Mas também tenho direito, de vez em quando...

Eu não queria ir ao Jamor. Nada a ver com o Sporting, ou o Braga, ou fezadas de qualquer espécie (independentemente de ontem estar particularmente pessimista, nem sei bem porquê, mesmo antes de o jogo começar). Tinha tudo a ver com o Jamor. Na última vez que lá tinha estado, passei por um inferno: a chegada, o estacionamento, a entrada no estádio, o jogo, a saída, o regresso, um tormento. Não queria repetir.

Mas o meu Pai queria. E no que toca ao Sporting, faço tudo pelo meu Pai. É a ele que devo este imenso orgulho e esta imensa alegria. Não, não me refiro à Taça. Não me refiro, aliás, a nenhum troféu, qualquer que seja. Refiro-me apenas ao imenso orgulho e à imensa alegria de ser sportinguista. De partilhar esta inconsciência, esta loucura, esta paixão com milhões de pessoas. De festejar um golo (importante ou não) saltando para cima do tipo da frente e abraçando o tipo que está ao lado, sem os conhecer de parte nenhuma. De viver esta emoção sabendo que não somos os mais prováveis vencedores mas vivendo cada minuto de um jogo e cada golo (nosso e dos adversários) no limite da adrenalina. De alimentar tudo isto sabendo, uma vez mais, que provavelmente pouco nos vai sorrir. Mas vivendo orgulhoso e feliz assim. Isso devo ao meu Pai.

Por isso, disse-lhe que ia com ele. Por ele e só por ele.

Combinámos às 13h, fomos para o Parque 3 (cheio), voltámos para trás para o Parque 2 (à pinha), estacionámos onde o Judas perdeu as botas, e saímos do carro às 14h15 (por aí). Andámos 30 a 45 minutos (!) até chegar a uma roulotte e comer uma bifana (das grandes) e beber uma imperial de 0.5l.
Faltavam 2 horas para o jogo começar e disse ao meu pai que devíamos ir andando (há 3 anos demorei mais de 1 hora até chegar ao meu lugar, isto a contar do 1º controlo de entrada...). Mas demorámos apenas 15 minutos. Resultado? Quase 2 horas ao sol à espera que o jogo começasse. Eu ainda usei uma t-shirt para tapar a cabeça; o meu Pai aguentou o sol durante 2 horas e tal.

Mas lá começou. E começou como sabemos e poderão ler, certamente com melhores palavras, noutros locais. Disse para o meu Pai "não acredito nisto, vamos passar outra vergonha aqui". O meu Pai dizia que em Alvalade também tinha começado assim. "Mas ficámos com 10?" "O quê, quem foi expulso? O Cedric? Eh pá, fica mais difícil, mas se marcarmos rapidamente." Mas depois veio o 2-0... Ao intervalo nem falámos: entre a senhora que à nossa frente se sentiu mal (o tempo que a maca demorou a chegar...) e a lamentável cena de pancadaria ao nosso lado, pouco falámos do jogo. O meu Pai não queria falar. Depois percebi porquê.

Segunda parte, o Braga a fazer o que fazia sentido: controlar o jogo no nosso meio-campo. Todos os clubes têm adeptos palermas e o nosso não é exceção. Eu próprio já terei sido palerma, todos já fomos. Mas gritar a meio do jogo coisas como "este Carrillo não vale nada" ou "endeusaram o deus Marco, está aqui o resultado" sinceramente não vejo no que possa ajudar.

Ao minuto 75, começa a debandada. Não, não vou criticar os que se foram embora. A esses, o Sporting devia também dedicar a vitória porque a descrença que deles se apoderou não vem do nada: vem dos muitos momentos em que eles acreditaram, ficaram, gritaram e o Sporting falhou. São tão sportinguistas quanto eu, que me "quis" vir embora também e só não fui porque achei que seria uma tremenda injustiça para aqueles jogadores, a jogar 10 contra 11 desde o minuto 15, ver a debandada geral. Seria demasiado egoísta. E na verdade, desde o minuto 60, mais coisa menos coisa, eles estavam a fazer pela vida. Como podiam, nem sempre bem, mas estavam. "Pai, ficamos para aplaudir os jogadores, eles não merecem isto."

Com o golo de Slimani, tudo mudou. Ao contrário do que é habitual em mim, comecei a puxar pela equipa mesmo quando parecia que estava a cantar sozinho. Não sei o que me deu. Nem era o caso de estar especialmente confiante, achei, isso sim, que aqueles jogadores mereciam. Não mereciam o meu (nosso) "silêncio" dos minutos que antecederam o golo de Slimani. Gritei e cantei até ficar rouco e festejei o golo de Montero como se tivesse sido o golo mais importante de sempre.

No prolongamento ainda sofri, nos penalties já estava confiante. Adivinhei a defesa de Patrício e o falhanço de Éder. Vi o de Adrien quase fora e receei o de Nani. Depois, enfim, depois de tudo, daquela tarde, daquele sofrimento, abracei-me ao meu Pai e agradeci-lhe. E foi aí que ele me disse: "da última vez que falaste de ir embora a meio do jogo, estávamos a perder 2-0 ao intervalo e ganhámos 5-3; tive um feeling que ia acontecer novamente. E aconteceu mesmo: 2-2 + 3 penalties para nós e 1 para eles. 5-3". Grande Pai!!

No campo, os jogadores exultavam, na bancada (lá está!) abraçávamos o gajo ao nosso lado só porque estava ali connosco. A sofrer connosco. Mas no campo estavam os verdeiros heróis da festa: Patrício grande campeão, até coxo defendeu tudo, Mané foi defesa direito, médio direito e extremo-direito, Ewerton foi estóico até ao limite, Paulo Oliveira sempre solidário com os colegas, Jefferson o menos forte mas ainda com pernas ao minuto 120, William cresceu com os minutos, tivemos o melhor Adrien do ano, um Montero que mudou o jogo, um Nani que estava sempre lá quando os colegas precisavam e um Slimani, há que dizê-lo, a dar 100% sempre e a um nível muito forte. Não foi o Bruno, nem o Marco, nem foram sequer os adeptos. Todos mereceram, Bruno como líder máximo, Marco como treinador, os adeptos pelo sofrimento. Mas esta foi dos jogadores. Foram uns heróis e uns campeões. Mereceram porque acreditaram quando mais ninguém acreditava. Acreditaram eles. E o meu Pai.

PS: A foto mostra o ambiente antes do jogo começar. O ambiente no final dos 90 minutos e já depois dos penalties não é reproduzível em foto, nem em video. Tirei várias e fiz vários. Mas o que guardo na memória, esse é o grande registo da tarde de ontem.

PS2: No meio disto tudo, puxei e puxei pela cabeça e... descobri que sou um fala-barato. Nunca saí a meio de um jogo. Aliás, nunca saí antes de um jogo terminar, Nem sequer 1 minuto antes. Vontade até tenho, às vezes. Mas nunca o faço. Espero que assim continue porque isso também é ser Sporting. Mesmo que a cabeça, nalguns momentos, nos diga o contrário.