30/04/2015

O clássico

Depois de uma vantagem bastante confortável ter sido desperdiçada, o Benfica chegou ao clássico sabendo que só um resultado era proibido, perder, e que só um resultado interessava ao adversário, ganhar. Depois do jogo, arrisco dizer que quem não precisava de ganhar, fez tudo para não perder e quem precisava de ganhar, preferiu jogar para também não perder. 

Se, dentro da estratégia definida de não perder, o Benfica não jogou da melhor forma na primeira parte (foi mesmo embaraçoso e absolutamente desolador) mas manteve o perigo quase sempre longe da sua baliza (excepção ao remate de Jackson), já na segunda parte esteve muito melhor, mas sólido defensivamente e não deixando de causar perigo na baliza do adversário. É certo que o Porto vinha fragilizado física e psicologicamente da goleada europeia, mas tantas cautelas defensivas a meio campo e a saída de Quaresma, deram claramente sinais de que não queria uma equipa a jogar ao ataque. Já o Benfica também não quis procurar a vitória quando as pernas começaram a faltar aos homens do Porto pois não estava disposto a arriscar na defesa.


Principais notas:
- Talisca, para mim, nunca teve lugar no onze do Benfica. A jogar junto à linha, nem no banco tem lugar. Esta aposta sistemática de Jesus, é apenas mais uma teimosia à Jesus. A minha aposta passaria por Amorim na direita;
- a correcção do posicionamento dos jogadores do Benfica por Jesus ao intervalo, é de treinador. Foi notória a diferença, especialmente a forma de defender de Jonas e Lima;
- Fejsa é o reforço que já não esperava. Não conhecendo bem a sua condição física atual, apostava nele para Barcelos com Samaris à frente, nem que fosse apenas para os primeiros 60 minutos;
- Jardel foi o melhor jogador do Benfica em campo. Limpou praticamente tudo!

O Benfica está agora numa fase decisiva e em excelente posição. Só que este Benfica sofre de um problema que é, no mínimo estranho. Eu já vi o Benfica, por exemplo na primeira volta desta época, jogar mal em casa e jogar mal fora de portas. Em épocas anteriores, a jogar bem dentro e fora de casa. Jogar de forma fenomenal em casa e péssima fora, é que já é uma novidade! Desde o jogo com o Marítimo (final da 1ª volta) que não me recordo de um bom jogo fora! Não consigo perceber, de forma clara, qual a razão, mas é o que acontece. Grandes jogos em casa, jogos miseráveis fora. Poderá passar por uma dificuldade deste 11 se adaptar a campos mais pequenos e mais lentos (relvados mal tratados e com erva que chega quase aos joelhos). Jogadores como Pizzi e Jonas que brilham na Luz, ficam ofuscados fora. Menor poder de choque que é bastante necessário nestes campos mais pequenos? Não sei, confesso que tenho alguma dificuldade em perceber. No entanto, já não tenho dificuldade em perceber que um meio campo reforçado resolveria grande parte do problema. Basta ver como se alterou o jogo em Belém com as entradas de Fejsa e Amorim e era algo que Jesus devia ter visto quando ganhava por um zero em Vila do Conde e o Rio Ave não parava de crescer. É por esta razão que gostava de ver Fejsa juntar-se a Samaris e Pizzi em Barcelos e deixar Jonas para a segunda parte (sim, por muito que goste do Jonas, o trabalho invisível de Lima é essencial).

Por isso, se o clássico podia ser o jogo do título, acredito que o jogo de Barcelos é o mais importante dos últimos quatro que faltam para o final deste campeonato. Isto porque tendo o Benfica um cartucho para gastar (empate ou derrota), fazê-lo já em Barcelos, transformaria o jogo de Guimarães num jogo de alta pressão que tenho muitas dúvidas que o Benfica aguentasse. Porque uma vitória agora e com o Penafiel em casa depois, deixava o Benfica bem mais tranquilo para Guimarães, podendo inclusivamente jogar de forma mais conservadora e expondo-se menos, e teria sempre o último jogo em casa para resolver o campeonato. E em casa, não tem havido problemas. Por fim, uma vitória talvez desmoralizasse este Porto que já se percebeu que tem pouco do ADN que caracterizou o Porto de um passado recente.

Vamos embora Benfica! Já tive a minha dose de desperdícios na recta final de campeonatos! Este é para ganhar!
    

28/04/2015

Marco(s)

1. Jogo agradável ontem. Tenho dúvidas de que possa servir de exemplo para alguma coisa, porque a grande dificuldade deste Sporting não está neste tipo de jogos contra equipas que até nem se importam de jogar futebol (por estranho que isso pareça), mais a mais quando estão claramente safas da descida de divisão. Mas que fizemos um bom jogo, isso fizemos.

2. Convém, no entanto, reconhecer que o início do jogo não poderia ter corrido melhor: podíamos ter levado um golo aos 20 segundos por estar tudo a dormir, o jogador do Moreirense desperdiça apenas por demérito próprio porque ninguém fez grande coisa para lhe causar problemas; marcámos 1 minuto depois num remate falhado que, por acaso, foi acompanhado por alguém que, por acaso, até estava fora-de-jogo mas, por acaso, o fiscal-de-linha não viu. O lance foi muito rápido (e também temos direito ao erro que nos favorece) mas há ali uma irregularidade. Correu tudo bem.

3. Depois disso, dois golos de rajada em lances que têm tanto de meritório como de feliz: no segundo golo, muita gente na área (mérito nosso, sem dúvida), bola a bater em todo o lado (mérito dos outros, talvez), golo à terceira tentativa, num remate à meia-volta com a bola a entrar no único sítio onde poderia mesmo passar (na repetição vê-se isso); no terceiro, domínio de bola mal conseguido mas vai redondinha para os pés de Tanaka. O mérito está lá, sem dúvida. Mas a sorte acompanhou e continuou tudo a correr bem.

4. Claro que depois nos abandonou, naquele que é mais um golo que entra diretamente para o anedotário, depois do de Maribor e dos que sofremos em casa contra Penafiel e Guimarães. Alguém já se lembrou de ir ao Guinness registar o maios número de golos absurdos sofridos numa época? Eu lembro-me destes 4, mas deve haver mais...

5. Na segunda parte, algum regresso à "normalidade", com o GR do Moreirense a defender tudo e o último passe a sair menos bem. 10/15 minutos com o Moreirense por cima, alguma correções, o próprio Moreirense deixou de acreditar e o jogo ficou resolvido. Mais um para Montero, end of story.

6. Dá jeito ter um jogador, como Montero, em que até os domínios de bola menos felizes não representam, automaticamente, a bola para o adversário. Veja-se o lance do golo de Tanaka, ou o primeiro lance de perigo do Sporting na 2ª parte. Este último lance, em particular, Slimani só faria na playstation. Não quero que com isto se entenda que não gosto de Slimani - quero que se entenda que, com os jogadores que o Sporting tem do meio-campo para a frente, não ter Montero é ter menos uma opção para se fazerem algumas das jogadas que ontem se fizeram. Slimani é um bom jogador para outro tipo de futebol.

7. Gosto do Moreirense, gosto do treinador do Moreirense, gosto da equipa do Moreirense e gosto ainda mais do São Gião. Quando uma equipa joga num estádio que fica mesmo ao lado do São Gião, não merece levar 4-1. E ontem não merecia mesmo. Mas custa-me ver aquele discurso no final do "podia estar 2-3 se não fosse mal anulado o golo ao Moreirense". Vejamos: o golo anulado é ao minuto 40 ou 41, o golo que valeu aos 43 ou 44. É certo que este Sporting é algo instável mas convém pelo menos entender que sofrendo um golo aos 41 o jogo seria diferente até aos 45. Como diferente seria, claro, se a ordem fosse a inversa - golo válido aos 41 e golo anulado aos 44. Aí sim, a história do jogo poderia ter mudado e o Moreirense teria legítimas razões de queixa.

8. Independentemente de o jogo ter corrido muito bem, de não servir de exemplo, de o Moreirense ser o adversário que é nesta fase da época, dos erros de casting de Marco Silva (Montero vs Slimani em particular) e de tudo o que acima referi, pergunto-vos (e sei que tenho muitos críticos do Marco Silva entre os meus leitores): à jornada 30 da época passada, o Sporting jogava sequer um futebol parecido com o que jogou ontem em Moreira de Cónegos? É ou não expectável que, com uma pré-temporada mais estável, em particular com um sector defensivo estabilizado, possamos evoluir na próxima temporada?

9. 66 pontos. Veremos como terminamos a época. Mas registem isto: se fizermos os 12 pontos que falta disputar, fazemos 78 pontos. Quando fomos campeões, em 99/2000 e 2001/2002, fizemos, respetivamente, 77 e 75 pontos. Acho que, nestes casos, ninguém vai argumentar que "ah e tal, o plantel do Marco é melhor"...

21/04/2015

Breves notas

1. Criei aqui, em tempos, a figura da "vitória sem direito a foto". No fundo, vitórias sem brilho, que não merecem o trabalho de encontrar uma foto que as acompanhe. Poderia criar a figura da "vitória sem direito a post". Mas não. A história do Sporting faz-se de vitórias, mesmo aquelas de Setúbal ou do último Domingo.

2. Uma vitória, no momento, é uma vitória. Andámos anos e anos a lamentar-nos de que o Sporting quando jogava mal, não ganhava. Este ano, ganhou vários jogos jogando mal. E ganhou vários jogos jogando 10 x11. O problema, nestas duas frases, é a palavra "vários" na primeira...

3. E é um problema porque apesar dos 3 pontos, os adeptos começam a deixar de acreditar. Os jogadores começam a ter dúvidas. O treinador começa a ficar inseguro. E ao primeiro resultado vai aparecer o inevitável (e tão tipicamente sportinguista - tanto que já o usei uma série de vezes, mesmo tentando evitar) "estava-se mesmo a ver".

4. Já perceberam que sou um defensor de Marco Silva. Por isso, sou suspeito nesta análise. Mas não consigo deixar de associar a tudo isto a enorme instabilidade gerada a partir de dezembro. Será que BC e MS já reuniram para planificar a próxima época? Duvido. Como se sente um treinador que, a 21 de abril, não sabe se conta para o próximo ano? E que depende do resultado de um jogo? Pensem nisto. Pensem que o afecta a ele, à equipa técnica, aos jogadores e a toda a gente que ali anda à volta. E o que sentem os jogadores, todos ou quase todos "à venda" na imprensa desde janeiro?

5. Lembro-me de discutir com um amigo um post do blog Lateral Esquerdo sobre o Marcos Rojo, publicado naquele annus horribilis em que a Lei de Murphy aparecia a cada esquina e em todas as competições. O post era devastador. Mas eu dizia, e mantenho, que analisar futebol só olhando para o rendimento dos jogadores (ainda para mais, de um deles) no relvado, é redutor. Nunca irei perceber de futebol o que percebem os "experts". Mas uma coisa eu sei: quando há algo na nossa vida que é estrutural e não está resolvido, é impossível que isso não não nos afecte. No caso, o Sporting era um clube em convulsão. Esquecer isso era esquecer, a meu ver, o mais importante.

6. Claro que um profissional tem que dar o seu máximo e impedir que o rendimento do seu trabalho seja afetado, bla, bla, bla. Eu não digo aos meus clientes "pois, o contrato ficou mau, tem razão, mas sabe que o Sporting ontem deixou-se empatar estupidamente em Maribor e isso afectou-me profundamente". Mas daí a achar que não tem influência...

7. Isto dito: sim, a equipa anda a jogar muito mal; mas eu o que vejo nos outros é estabilidade. Se compararamos, em escala, o que fizeram Lopetegui e Marco Silva até dezembro, pergunto - onde seria mais normal haver problemas? Pois... E se compararmos o que fizeram Tello e Nani? Ou, mais uma vez em escala, o que fizeram Jonathan e Loris Benito? Podia ficar aqui o dia todo...

8. Tiro as conclusões definitivas no dia em que no Sporting houver estabilidade para trabalhar (de que me lembre, só Paulo Bento a teve - e demasiado tempo, se me permitem a opinião!). Até lá, continuo a valorizar os bons indícios que fui vendo nesta temporada e que, reconheço, não se têm visto no último mês.

9. Temos 63 pontos em 29 jogos; ganhando o próximo jogo, fazemos 66 pontos em 30 jogos, apenas menos 1 do que no ano passado em 30 jogos (ano em que não houve competições europeias - e sabemos bem que não foi por Marco Silva que ficámos de fora da Champions, ou foi?). Mas mesmo que percamos em Moreira de Cónegos e nos mantenhamos nos 63 pontos, notem que, se o FCP estivesse ao nível que esteve no ano passado, estaríamos, à 30ª jornada, à frente do FCP (que terminou o campeonato do ano passado com 61 pontos!). Aí, Marco Silva já seria um grande treinador?

16/04/2015

Totalmente off-topic: Sporting B vs Benfica B

Sei que a agenda desportiva está ocupada com outros temas mais interessantes. Mas ontem, quando procurava saber o resultado do Sporting B (sim, tem um pouco menos de mediatismo do que o Porto-Bayern) deparei-me com o que vão ver mais abaixo e não queria acreditar.

Trata-se de uma pequena peça de um puzzle, como vão perceber. Mas demonstra, essencialmente, três coisas:

- o jornalismo desportivo português, quando pode (ou quando parece que ninguém daria por isso), faz o que quer do Sporting;
- o Benfica anda a mexer-se (e faz muito bem, nada contra) na promoção do produto "made in Seixal", não descurando qualquer detalhe (isto de não descurar detalhes faz lembrar qualquer coisa, não faz?);
- o Sporting anda muito mais a dormir do que muitos pensam.

Há pequenos detalhes, muito pequenos mesmo, aliás insuficientes para fazer a diferença, mas que demonstram bem o quão difícil é a missão de quem gere o Sporting e o quão importante é estar atento a todo o tipo de... entrelinhas.

Reparem que isto não é um exercício de calimerismo, mas uma chamada de atenção. Se há coisa que não suporto é o calimerismo vigente no Sporting. Daí que por vezes passe horas a discutir arbitragens neste blog, mesmo em situações em que os críticos têm mais razão do que eu... Contudo, o exercício que faço abaixo é factual, não é subjetivo como vão perceber.

Mas vejamos, então (por facilidade, reproduzo, mais palavra menos palavra, o e-mail que enviei com esta análise a um amigo sportinguista).

Tudo começa com este link: http://www.abola.pt/clubes/tema.aspx?t=1035.

São as noticias relativas ao Sporting B que tiveram destaque no site do jornal A Bola. Estava à procura do resultado de ontem com o Feirense, como disse. Mas o jogo tinha acabado há pouco tempo e o site ainda não tinha atualizado o resultado (entretanto sei que ficou 2-2, estivemos a perder 0-2 e empatámos com golos do Nuno Reis e do Podence - vejam se puderem o 1º golo e perguntem-se como foi possível Naby Sarr ter sido titular do Sporting em jogos da Champions...).

Mas não é esse o ponto.

O ponto é este: a jornada atual é a 39, as últimas noticias da equipa B que foram puxadas para o site foram das jornadas 38 (Covilhã, derrota), 31 (Freamunde, empate), 27 (Aves, derrota com goleada), 23 (Braga B,
empate) e 21 (Benfica B, derrota).

O que há de comum a todos estes jogos? O Sporting B não ganhou nem um.

Dei-me ao trabalho de ir ver o percurso da equipa B desde a jornada 21:
 -       Na 22 há uma derrota com o Marítimo B, nem sei como escapou ao jornal;
 -       Entre a 24 e a 26, 3 vitórias;
 -       Entre a 28 e a 30, 2 vitórias e 1 empate com o líder nessa altura (Chaves);
 -       Entre a 32 e a 37, 5 vitórias e 1 empate fora.

Entre as jornadas 28 e 37, 10 jogos sem perder, 7 vitórias, 3 empates, 2 deles com candidatos à subida. Nada (pelos vistos) mereceu destaque.

Mas o critério poderia ser outro. O critério poderia ser este: "normal é o Sporting B ganhar; só é notícia quando não ganha". OK, seria "aceitável".

Pensando nesta possibilidade, fui, por curiosidade, ver a equivalente página do Benfica B http://www.abola.pt/clubes/tema.aspx?t=1031. Nas notícias que conseguimos apanhar do Benfica B, temos referências a vitórias, ao empate com o favorito Chaves (mas em que estiveram a perder 0-2…) e a declarações do Hélder sobre futebol espetáculo e sobre a grande visão de Vieira. Andamos entre as jornadas 20 (vitória por 3-0 "a que JJ assistiu") e 39.

Sabe-se lá porquê, neste período, "escapou" ao site a goleada em Guimarães na jornada 23 (1-4), a derrota em casa com o Leixões na jornada 25 (1-2), duas derrotas, uma com goleada, nas deslocações a Viseu e Covilhã nas jornadas 26 e 28 (0-2 e 0-3; imaginem o que seria o título “jovens leões não se dão bem com os ares da beira”, ui, um fartote), nova derrota em casa, desta feita com o União da Madeira, na jornada 31 (1-3), seguida de empate nos Açores (1-1) e 3ª derrota em casa em 5 jogos no Seixal, desta feita com o Feirense (0-1).


Se isto não é um criterio (claríssimo) que consiste em fazer parangonas das derrotas de uns e das vitórias dos outros... então não sei o que é.

Reparem que estamos a falar de equipas B. A importância desta análise será, porventura, muito reduzida. Mas demonstra, a meu ver, que há efetivamente quem trabalhe a comunicação de forma estruturada. E também haverá quem nem se aperceba que isto está a acontecer... 

13/04/2015

Notas soltas sobre a falta de (noção da falta de) qualidade(s)

Como habitualmente, enervei-me a ver um jogo do Sporting e perdi mais alguns dias de vida. Pelo que vi na TV, acho que o Marco Silva viveu igual experiência. É que há coisas que não dá para explicar. Já outras têm explicações aparentemente simples (pelo menos aos meus olhos).

1. Miguel Lopes, Jefferson, Adrien, Carlos Mané. Todos estes jogadores, se olharmos ao que valem tecnicamente, têm lugar no plantel do Sporting, isso não discuto. Têm, todos eles, um problema que já aqui apontei a Adrien, mas não é justo que "viva" sozinho com esse peso: todos pensam que valem mais do que realmente valem. Lopes acha que pode sempre fintar o seu opositor direto ou trocar a bola de primeira. Jefferson acha que o seu cruzamento vai sempre direito à cabeça de um PL imaginário que ontem nem estava em campo. Mané acha que consegue ultrpassar qualquer adversário em 1x1, sejam quais forem as circunstâncias (mas não o vejo ultrapassar nenum!). Adrien tem um momento muito bonito na 2ª parte, que desperdiça porque, com o PL a entrar para o meio, vindo da direita, e sendo ele (PL) canhoto, resolve fazer um passe picado para a sua direita ao invés do passe mais simples, rasteiro, para apanhar o melhor pé do colega. As bolas que se perdem com a falta de noção das limitações destes 4 são incontáveis.

2. Ewerton e Tanaka. Dois jogadores que ainda não perceberam o que representa o Sporting no atual panorama. O primeiro não percebeu que seria expulso à primeira oportunidade, o segundo teve sorte - o Setúbal ainda jogava com 11 na altura em que resolveu tentar chegar a uma bola com um golpe de karaté. Faltou dizer a Ewerton que não fizesse faltas até o árbitro se esquecer da necessidade de compensar Venâncio (mas nem culpo o Marco Silva - não houve sequer tempo para passar a mensagem). Falta um Manel, um Oceano, um Rui Jorge, um Pedro Barbosa, um líder em campo que perceba o futebol português. Sim, o árbitro isto e aquilo. Mas qualquer tipo com o mínimo de conhecimento da realidade percebeu que aquilo ia acontecer à primeira oportunidade.

3. Paulo Oliveira e Rosell. Dois jogadores que dão o que têm e sabem o que não podem dar. Rosell poderá não ser tão vertical quanto William mas ontem foi muito mais seguro se compraramos com o William dos últimos jogos. Era dos poucos que me fazia respirar quando a bola lhe chegava aos pés. Não tinha relvado, nem jogo, nem colegas para grandes obras-de-arte. Esteve bem. Assim como Oliveira. Convence-me mais com um jogo como o de ontem do que com aqueles cortes fabulosos que indiciam que alguém não estava no sítio certo.

4. João Mário e Carrillo. Obrigado aos dois por darem qualquer coisa de qualidade ao jogo de ontem. Não deve ser fácil quando os restantes 20, por mais que queiram, não conseguem. Falta-lhes companhia. Não renovar com Carrillo será um erro que viremos a pagar tarde demais. Creio que BC, Inácio e Marco Silva o sabem.

5. Slimani. Depois do jogo que fez contra o Nacional, é inacreditável que saia do banco e jogue sequer 15 minutos. Memorizei dois lances, aos 73 e 76, não estou seguro da ordem. Num deles, completamente sozinho, falha o tempo de salto e cabeceia para trás. Num outro, consegue (e bem!) segurar a bola perto da linha de fundo. Perante a chegada do colega para o remate, faz um passe miserável, a bola sai aos repelões e o remate (de Rosell) acaba nas nuvens. Os gestos técnicos mais simples, mais básicos, podem ser comprometidos por um jogador fora de forma. Quando esse jogador nem sequer é um prodígio, tê-lo em campo é ter 1 a menos.

6. Setúbal. Não percebo como ao fim de anos e anos continuam a ter lugar na I Liga alguns jogadores deste Setúbal. A sua especialidade é ganhar lançamentos laterais e pontapés de baliza chutando a bola contra os adversários. Nisso, os setubalenses são fortíssimos. Nisso e nos lançamentos laterais. No resto, não jogam nada. Marcam um golo porque o nosso central daquele lado está no chão, o segundo vem compensar e o lateral (Miguel Lopes) não percebeu que tinha que vir mais dentro (ok, acontece, mas "só ao Sporting", já sabemos). E podiam ter empatado porque o Sporting, em posse, a ganhar pela margem mínima, consegue levar um contra-ataque aos 90+2. Nem num sketch dos Monty Pithon se lembrariam desta...

7. Arbitragem. Péssima, como habitualmente com Olegário Benquerença (outro que acha mais do que é). Não percebo a surpresa. Ainda assim, ontem não foi por aí, não foi mesmo. O jogo deveria estar mais do que resolvido antes disso, considerando as duas equipas. E Ewerton avisado. Que sirva de lição.

09/04/2015

Fundos

Gostava de perceber os argumentos que levam um sportinguista a ter uma posição a favor da abolição dos fundos.

Percebo, claro que sim, as reservas iniciais (só iniciais?) de Bruno de Carvalho e com essas estou totalmente de acordo porque estão relacionadas com a indispensável transparência de qualquer competição. Quem quiser constituir um fundo para investir, tem que clarificar quem são os detentores do fundo. Tudo normal, até aqui estou com BC.

A partir daqui, partiu-se para uma posição anti-fundos que só tem uma explicação razoável: o caso Doyen. Porque só a partir daí o discurso radicalizou.

Repare-se que ainda há pouco tempo BC se referia aos "fundos bons", os tais que estariam dispostos a cumprir com as regras. Parece-me (digo eu) que admite que os fundos podem fazer o seu papel, desde que no cumprimento de algumas regras. Mas depois diz, igualmente, que os fundos "não têm qualquer interesse". Fico na dúvida.

É que se o tema é o acesso aos fundos... eu só vejo o Sporting a perder acesso aos fundos devido ao caso Doyen. Antes disso, sempre lá andámos.  E conseguimos bons jogadores graças aos fundos. Quando uns foram buscar, com ajuda dos fundos, o Witsel, e outros o Danilo, o Alex Sandro e o Iturbe... o Sporting foi buscar, também com ajuda dos fundos:
- Wolfswinkel, que-goste-se-ou-não tem as melhores estatísticas de um PL do Sporting desde Liedson e foi vendido por um valor considerável;
- Carrillo, que me dispenso de comentar;
- Elias, que sempre considerei sobre-valorizado mas era, e ainda é, internacional brasileiro;
- Insua, o melhor DE a passar pelo Sporting desde Rui Jorge.

Depois como cada clube aproveitou e rentabilizou estes jogadores... enfim, só se enfiarmos a cabeça na areia é que não percebemos o que foi acontecendo.

Também fizemos maus negócios com fundos, claro. Fizemos maus negócios porque tínhamos dirigentes incompetentes. Também fizemos maus negócios com empresários, com clubes, com treinadores e com jogadores. A história dos últimos 30 anos do Sporting está recheadinha de barretes, com fundos e sem fundos. Ainda ninguém se lembrava dos fundos, já o Sporting estoirava milhões em Gimenez, Kmet e Hanuch, só para dar 3 exemplos.

Se o tema é o equilíbrio de forças, também não percebo bem o argumento. Queremos ter fundos para que os outros não possam ter Danilos... enfim, gostava de perceber, com toda a certeza, se não seria possível, em certas condições, que os Danilos viessem também para nós, como já aconteceu. Claro que se pensarmos no exemplo do Elias, paramos logo aí. O ordenado do Elias era incomportável. Mas isso é outra questão totalmente diferente, que não tem a ver com fundos, mas com a nossa capacidade de atrair jogadores (e os salários que podemos pagar). "Ah mas está tudo relacionado". Pois está. Mas não é por eu ter gerido a minha empresa com os pés durante 30 anos que devo impedir o meu concorrente de contratar os melhores só porque ele consegue e eu não (e reitero que nem está provado que eu não consiga - posso não conseguir Witsels ou Danilos, mas pelos vistos consegui Carrilllos e Rojos, a quem paguei os salários durante vários anos, sem que tenha sido público, até hoje, que ganhassem o que o clube não conseguiria pagar).

Isto para não dizer que, em igualdade de circunstâncias com os demais, continuamos, ainda assim, a não poder oferecer as mesmas condições. Noutro dia, perante este argumento, alguém comentou aqui no blog algo como isto: "se eles não forem buscar Danilos o desequilíbrio não é tão grande". Entendo o argumento. Mas parece que estamos a acreditar que, sem ajuda dos fundos, os nossos rivais não vão chegar a jogadores tão bons como os que conseguem hoje. Mas, vejamos:

a) isto é mesmo assim? o Porto não teria conseguido pagar a totalidade do passe do Falcão, logo à cabeça? Ou conseguia, simplesmente limitou-se a repartir o risco do investimento porque assim o quis fazer? É que o Falcão valia aproximadamente 6M€, em 2009. Isto é incomportável? Nem para o Sporting seria, já que nessa mesma época, por sinal, pagou mais até pelo Pongolle... Claro que obriga o FCP a gerir melhor os seus recursos, aí concedo. Mas não vejo que vantagem isso nos traz.

b) quantas vezes é que ganhámos aos rivais a "corrida" a um jogador? Não me refiro aos Marçais, manobras para acelerar processos e aproveitar para debochar o Sporting... nem ligo. Refiro-me àqueles que até queríamos e foi assumido que queríamos (há os clássicos de Sousa Cintra, temos também o Paulo Assunção ou o Ruben Micael, há muitos exemplos). Estaríamos sempre num lugar difícil. Menos difícil? Talvez. Mas, que me lembre, ganhámos 2 campeonatos em 20, não havendo fundos...

O desequilíbrio estrutural, entendam isto, está na gestão e, muito em particular, nas receitas ordinárias. É por aí que o Benfica e o FCP começam a garantir aos financiadores que podem pagar mais do que nós. É por isso que liderar o Sporting é extremamente complicado. Mas isto nada tem a ver com fundos.

A questão dos fundos (tema da transparência à parte) resume-se a saber se podem, ou não constituir um mecanismo válido para contratar jogadores que nos façam falta. Não vejo por que não possam sê-lo.

Mas estou disposto a ouvir os argumentos...

06/04/2015

Memórias (V) e Irritações

4 de janeiro de 2005. Na altura, era Janeiro, e não janeiro. Mas pouco importa. Aliás, tive que ir ver a data ao Google.

Importa que esse dia me trouxe mais uma das muitas lições que o futebol me ensinou. Nesse dia, aliás noite (ou seria fim de tarde?), o Sporting defrontou o modesto Pampilhosa. Numa primeira parte naturalmente fácil, o Sporting chegou ao 2-0. O Pampilhosa, bem apoiado em Alvalade (se não me engano, os adeptos vieram a expensas do Sporting, que adiara ou antecipara o jogo para Liedson poder cumprir castigo e defrontar o Benfica), nada podia fazer a não ser despejar bolas na área. Normal.

Mas numa delas a bola cai num local onde ninguém do Pampilhosa se atrevera a estar. Paíto, defesa esquerdo nesse jogo, perante a facilidade do lance, escusa-se a, simplesmente, deixá-la passar. Tiago, na baliza nesse jogo, entende que pode arriscar a saída a uma bola que nem cai assim tão perto da pequena área (afinal, reitera-se, o lance era inofensivo). Paíto tenta dar de peito para Tiago, a bola sai alta, Tiago estava a meio caminho e a bola passa-lhe por cima.

Golo. Do Pampilhosa. Em Alvalade. Vindo do nada.

Lição: 1 golo é 1 golo. Qualquer equipa pode marcar 1 golo, em qualquer momento do jogo. Daí que fique a pergunta: perante uma vantagem de 1 golo, o que fazer? Gerir ou tentar ampliar?

Idealmente, deve-se gerir tentando ampliar (digo eu). No Sábado, o Sporting tentou ampliar em contra-ataques, mas dificilmente podemos considerar que geriu. Porque ficou sempre a sensação de que o Paços podia fazer algo. Não fez nada de especial, mas fez 1 golo. Podemos falar de ineficácia mas podemos também falar de inação do banco perante aquilo que se adivinhava. Mas ainda estou irritado.

Por isso mesmo, e também perante o que já foi escrito no Cantinho do Morais e no A Norte de Alvalade, prefiro ficar por aqui.

Sei que o interesse do jogo era relativo (nisto discordo do Cantinho - precisamente pelas razões que o Cantinho invoca no texto para argumentar que o 3º lugar não está garantido, acho que seria extremamente difícil alcançar o Porto); mas ainda estou irritado (não sei se já tinha dito isto). Irrita-me não ganhar. Mesmo que saiba, como sei, que "estamos a crescer". Sei que temos que viver com isso. Mas não vejo o fim do ciclo assim tão próximo. E isso irrita-me ainda mais.

PS: Para alternar um pouco com o tom cinzento do post... Noutro dia, ouvi esta no Irritações da SIC Radical (o título levou-me até lá): quando é que os americanos começaram a comer carne? Quando chegou o Cristóvão Co'lombo. Não tem nada a ver com nada. Mas é o tipo de piada que acho brilhante.