12/03/2015

Memórias (III - ou será IV?)


As frases são duas, mas podem ter inúmeras variáveis. Oiço-as desde que sou pequeno e habituei-me a reproduzi-las. Hoje, mais do que reproduzi-las, afirmo-as com a pretensa convicção da verdade. Mas não há verdade nenhuma nelas.

Todos sabem de que frases falo:
- "De facto, ao Sporting tudo acontece"
- "Isto só acontece mesmo ao Sporting".

Reparem que estas frases partem de uma premissa totalmente errada, a meu ver: a de que as pessoas coletivas têm um destino traçado. A lógica de que a personalidade (ou o ADN) de um clube o tornam mais atreito à derrota ou à vitória, ao sucesso ou ao fracasso, ao encolhimento ou à superação. O que não faz qualquer sentido.

Pensem noutra frase feita, esta dos nossos adversários. O Sporting "falha sempre nos momentos decisivos". A sério? E o que são momentos decisivos? O jogo de Vidal Pinheiro em 2000? E a final da Taça com o FCP? Uma meia-final na UEFA é um momento decisivo? Ou só a final? É que se falamos em finais, o Benfica, por exemplo, poderia cair também neste saco, porque supostamente (também) falha nos momentos decisivos há 50 anos. Mas não falhou nos igualmente decisivos momentos em que se disputava o acesso a essas finais.

Estas frases são absurdas. E eu próprio as profiro, atenção! Ainda ontem proferi uma, a propósito do FCP. "Aqueles tipos, quando é mesmo preciso, não falham". Mas "não falham" porque ao longo do tempo tiveram Mlynarczyk, Baía, Helton; João Pinto, Paulo Ferreira, Danilo; Inácio, Branco, Alex Sandro; Aloísio, Fernando Couto, Jorge Costa, Jorge Andrade, Ricardo Carvalho, Mangala; isto para falar só em defesas. Lembram-se, certamente, das dificuldades que tive em construir uma defesa de sonho no Sporting. Não foi por acaso. Foi porque no FCP, de há 30 anos para cá, as equipas têm sido sistematicamente melhores. E a qualidade, parecendo que não, dá jeito quando se quer ganhar.

As frases não fazem sentido. Simplesmente porque as pessoas coletivas, e os clubes em particular, são liderados por pessoas. Pessoas essas com diferentes personalidades, estratégias, formas de gerir. Não há, sequer, uma linha condutora. Não há clubes "destinados" a ganhar. O Sporting estava destinado a ganhar até à decada de 60 e depois deixou de estar? O FCP não estava até 1977 e passou a estar? O Parma parecia estar na década de 90 e agora, afinal, concluímos que estava destinado a desaparecer? E o Nottingham Forest? E o Chelsea, em contraponto? Podia dar 100 exemplos e não saíamos daqui.

Isto tudo a propósito de uma memória que me surgiu no último jogo. Reduzidos a 10 na primeira parte, ganhámos o jogo. Sim, ao Penafiel, último classificado, pernas-de-pau e tal, mas ganhámos. Lembro-me bem de isso ter sucedido quando voltámos a defrontar um assustador fantasma do nosso passado: o Rapid.

Em 95/96, com uma equipa incomparavelmente superior, conseguimos a proeza de levar 4 batatas em Viena e ir de vela quando tínhamos a suposta pretensão de vencer a Taça das Taças. Demos um banho de bola cá e descansámos ao 2-0. Lá, aconteceu tudo. "Tudo acontece ao Sporting". Mas obviamente quem vai à Áustria em 93 e em 95 com Costinha na baliza, arrisca-se a que aconteça "tudo"...

Em 2004/2005, quase 10 anos depois, foi com eles (sim, com eles!) que iniciámos a nossa caminhada para a final europeia tragicamente perdida para o CSKA.

E tudo começou com uma expulsão, se não estou em erro, de Anderson Polga. Com o fantasma a pairar em Alvalade, o silêncio era sepulcral. Até que Tinga (lembram-se?), a meio da segunda parte, faz o 1-0. E mais tarde Liedson, perto do fim, o 2-0. 10 para 11 mas assumíamos o jogo e éramos melhores. Claramente.

O problema é que ressuscitámos o fantasma: 2-0 tinha sido, como disse, o resultado da 1ª mão em 95/96. E em Viena deparámo-nos com a nossa grandeza: o Rapid, único clube austríaco a ganhar o campeonato da Alemanha, em plena II Guerra Mundial, celebrava a eliminação do Sporting em 95/96 como um feito épico, talvez o maior da sua história. Os jogadores foram homenageados, reviram-.se os golos de Didi Kühbauer, Stumpf e Jancker (esse que mais tarde jogou no Bayern - também o Elber tivemos o "azar" de apanhar no Grasshoppers antes de se juntar ao Bayern... "só ao Sporting"), a atmosfera era ensurdecedora. Sim, nesse ano de 95/96 o Rapid foi mesmo à final da Taça das Taças (que perdeu para o PSG), mas o que se homenageava não era essa campanha. Era a eliminação do Sporting.

À imagem de 95/96, levávamos na bagagem um Pedro Barbosa "com-vontade-de-brincar-na-areia", além de uma versão 2.0 de Costinha (com upgrade, apesar de tudo), o GR Ricardo. Por isso, sofri, a bom sofrer. Aos 80 minutos, com o resultado em 0-0, eu só pedia que marcássemos um golo. Mas a bola não entrava. E eu, como sinto que "tudo pode acontecer ao Sporting", mesmo que não seja verdade, achava ainda possível que aos 90+1 e aos 90+2 Ivanschitz, o único dos austríacos que sabia distinguir uma bola de futebol de uma pedra da calçada, disparasse duas bombas que pusessem Ricardo em sentido, o Sporting em terror e a minha TV no estado em que ficou aquela em que vi o jogo de 95/96 depois de levar umas murraças.

Mas Ricardo aguentou-se, o Sporting aguentou-se, manteve esse 0-0 (quantos mais nessa época, será que algum?) e depois foi o que se sabe: grupo com Sochaux, Panionios, Newcastle e Tbilisi, eliminatória com Feyenoord superada com classe (e que grande jogo no De Kuip), eliminatória com Middlesbrough "à Sporting" (com 3-0 fora e a eliminatória resolvida, oferecem-.se 2 golos para apenas resolver tudo, em definitivo, ao minuto 90 da segunda mão), reviravolta épica com Newcastle, com o estádio em ebulição, aquela meia-final imprópria para cardíacos com golão de Pinilla (vai ter post, um dia destes) em Alvalade e o milagre de Miguel Garcia em Alkmaar e, finalmente, a tragédia russa em Alvalade.

Acredito que o Sporting sairá, um dia, do coma em que se encontra e voltará a fazer grandes campanhas europeias. Mas, com tudo o que tem de bom e de mau, esta foi, indiscutivelmente, a melhor a que pudemos assistir nos últimos 30 anos. Houve vários momentos decisivos:
- com o Rapid, 10 para 11, 2-0 em casa (estava 0-0 11 para 11, recordo);
- o grupo, em que o Sporting precisava de empatar em Newcastle para se apurar, e conseguiu-o graças a um golo de Custódio;
- a vitória no de Kuip, com margem de erro igual a 0 depois de um golo encaixado em casa;
- a vitória sobre o Newcastle de Given, Nicky Butt, Kieron Dyer, Shearer e Kluivert, depois de derrota em Inglaterra e começar a perder em Alvalade;
- a meia-final com o AZ, que escuso de comentar.

É este o clube a que tudo acontece?

PS: O primeiro jogador a marcar um golo nessa caminhada? Tinga. Merece a foto. E merece que nos lembremos dele. Vá, de vez em quando...

8 comentários:

  1. Confesso que também me empolgou essa campanha. Ia jantar à 4a feira a casa do meu saudoso sogro e não lhe podia dizer para desligar a televisão. mas depois aconteceu o que só acontece ao sportem.

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    1. O que "só acontece ao Sporting" ("sportem" não pá!) também aconteceu, curiosamente, ao Bayern, quando perdeu na sua casa uma final da Champions com o Chelsea. Em condições, a meu ver, ainda mais dramáticas: marca aos 80, sofre aos 88 ou 89, e perde nos penalties. Se a nossa final tivesse sido assim nem quero imaginar o que se diria do nosso destino trágico...

      E há outro exemplos, como o da seleção nacional, com a Grécia. Ou do Brasil, na meia-final com a Alemanha (para nem falar da final de 50 que como se vê pelo posterior historial era tudo menos destino).

      O facto de a final ser em casa criou a obrigação de ganhar a um adversário que até era mais forte. Mas mesmo que não fosse seria igualmente errado porque uma final é um jogo, apenas um jogo em que tudo pode acontecer. Nos últimos 10 anos vi o Benfica perder finais com Setúbal e Guimarães e o Sporting com a Académica...

      Mas sendo honesto se a final não fosse em casa duvido que houvesse força, motivação, etc. para lá chegar.

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  2. Koba,

    boas recordações, entre outras menos boas. Infelizmente, além da campanha de 64 não temos tido nem sorte umas vezes, nem competências noutras nas provas europeias. Expresso desde já as minhas dúvidas relativamente a novas grandes campanhas europeias. A nível de CL é cada vez mais dificil furar o bloqueio do Eixo Germânico/Espanhol/Inglês. Na Liga Europa ficaremos muito dependentes da possibilidade de manter os melhores e adquirir alguns como eles. Muita da competitividade da nossa equipa vai-se decidir na sequência desta época e da próxima. Não estou particularmente optimista, atendendo ao que vai percebendo.

    Abraço

    Só um apontamento em relação

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    1. LdA, isto dá muitas voltas. São ciclos. O que sustenta um clube é a sua força social e essa o Sporting vai tendo. Não digo que se dê a volta de um dia para o outro. Mas um clube que tem, contas por baixo, 1/4 do mercado em que está, não pode achar que está condenado ao insucesso. Preocupante seria se o Sporting estivesse a perder força social. Mas isso, graças a nós e exclusivamente a nós, adeptos, por enquanto não vai acontecendo. Vai levar tempo e provavelmente precisaremos de outro contexto. Mas acabará por acontecer.

      Um abraço

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  3. Fogo Koba, tanta coisa e bem escrita que fica difícil comentar.

    Eu sou um pessimista e fatalista por natureza. Acredito na nossa falta de sorte mas também acredito que nós somos responsáveis a 90% dessa mesma falta de sorte.
    Custa-me acreditar que vamos ter ciclos positivos, ou pelo menos daqueles que nos levam a vitórias (títulos, entenda-se). No entanto, continuo a ir ao estádio e a consumir e sofrer pelo Sporting (logo, é uma contradição, pois, no fundo, devo acreditar em sucesso, ou então sou masoquista e doente - o que também não deve estar longe da verdade).

    Defesas do Porto: 100% de acordo. Sempre foram fortes e sempre foi por aí (no campo) que construíram os seus sucessos. Reforço essa lista com mais nomes: Pepe, José Carlos, Paulo Pereira e Lula (porra, eu gostava deste gajo - consegui um autógrafo dele nos poucos treinos que fez pelo Sporting).

    Caminhadas Europeias:
    de facto, não há muitas. Para mim, das que assisti, a que teve mais impacto foi a do Marinho Peres e companhia, travada pelo Inter, um árbitro manhoso, um Douglas parvo e um Oceano perdulário.
    Mas essa que nos levou à final também teve que ser memorável, só travada por um Peseiro anormal que cometeu o erro parvo de colocar um dos melhores defesas-direitos de sempre do Sporting no meio-campo, deixando Custódio no banco e soltando o Daniel Car(v)alho. Enfim... o que eu me lembro das asneiras que disse no carro, a caminho do estádio, quando anunciaram o 11 inicial.
    Só uma pequena nota: sabem qual foi a equipa que o CSKA derrotou na mesma eliminatória em que nós eliminámos o Feyenoord? O futuro campeão nacional, treinado por Trapattoni.

    Mas já não me lembrava dessa eliminatória com o Rapid (essa de 2004/2005, a outra... mas pior foi a de 93/94, essa sim, muito traumatizante. Lembro-me de, no estádio, após a 1ª mão, o meu pai ser a pessoa mais triste ali. Fiquei bravo com ele. Ele depois disse-me "já tinha falado com a mãe, se a vitória fosse por mais de 2 golos, íamos à Áustria ver a 2ª mão". Além do lamento de não ir à Áustria, aquilo que mais me entristeceu foi ele não considerar 2-0 um bom resultado e suficiente. Porra, como ele tinha razão...).
    Voltando ao Rapid de 2004. Agora já me recordo. E lembro-me de ver a 2ª mão na tv e ficar bravo com as constantes referências ao jogo de 1995 por parte dos comentadores tugas. Lembro-me de, ao intervalo, ainda dizerem: "está 0-0, mas em 1995, também estava 0-0 ao intervalo". Um wishful thinking constante.

    Tenho pena que o jogo de Middlesbrough não tenha um lugar mais destacado na história do Sporting e até nessa caminhada, engolido pela 2ª mão com Newcastle, em Roterdão e, obviamente, Alkmaar. Essa sim, é como dizes, foi "à Sporting" (ainda me lembro da jogada do Barbosa em Alvalade, na 2ª mão, para oferecer o golo ao Douala).

    um abraço

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    1. Cantinho, só uma correção: com o Salzburg, em 93, estava 0-0 ao intervalo; com o Rapid, em 95, já perdíamos 1-0, golo do Kühbauer (mau alívio do Nelson, de calcanhar, dentro da área).

      Dizer que o Rapid de 95 tinha uma equipa razoável, com Ivanov no centro da defesa, Kühbauer e Stöger no meio, Jancker na frente, ao passo que o Casino de 93 era pouco acima de sofrível. Mas a nossa equipa, em qualquer dos casos, era incomparavelmente superior...

      Enfim, duas décadas europeias com duas caminhadas decentes. De resto, ficam marcadas por Grasshoppers, Casinos, Rapids, Metzs, Bolognas, Vikings, Partizans, Gençlerbirligis e Halmstads. Uma tristeza.

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    2. Koba,

      obrigado pela correcção (é que isto é só de cabeça e não dá para guardar tudo).

      Do Casino não reza a história. Não ficou nada. Acho que ainda foram longe na UEFA, sendo eliminados pelo Inter.

      Grasshoppers... que tristeza. Uma 1ª mão enorme e uma 2ª mão que até deu para falhar um penalty no prolongamento (Valckx). Mau demais. Estavam lá Sutter, Elber, Turkyilmaz, bons jogadores. Mais uma desgraça vivida ao vivo em Alvalade, com Sérgio na baliza (para jogarem os estrangeiros Valckx, Balakov e Juskowiak).
      Metz de Lang e Robert Pires.
      Bologna da lesão gravíssima de Quiroga.
      Viking da anormalidade de Marcos na 1ª mão (agarra a bola na área) mas que ajudou à saída de Materazzi.
      Partizan (outra besta negra) que levou a uma excelente remontada (1-3) mas à queda no prolongamento.
      Esses turcos... Jogo em Alvalade foi uma twilight zone autêntica.
      Halmastad... se eu já odiava o Peseiro... O frango do Nelson que nos leva ao prolongamento. Eliminação aos pés de amadores...

      Tristeza? Não, sina.

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    3. Cantinho, tanto o Casino como o Rapid foram à final. O boost de moral decorrente de eliminarem um históorico resulta nestes fenómenos :)

      É a tal "sina" em que não quero acreditar!

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