27/03/2015

Cogito, ergo sum

Todos conhecemos aquilo que se designa por método cartesiano: estabelecemos premissas básicas e evidentes, que dispensam "prova"; raciocinamos e colocamos hipóteses como base nas mesmas; tiramos as conclusões que sejam mais lógicas em função das premissas e hipóteses colocadas.

Vem este intróito a propósito da entrevista de BC publicada hoje no Record e de uma discussão que mantive sobre a mesma durante a manhã.

A entrevista é boa, na minha opinião. BC é forte neste tipo de formato. E de duas uma: ou revela que a experiência acrescentou algum bom senso a BC, ensinando-o a evitar (nesta fase) alguns temas mais complicados (fundos, empresários) ou a nova agência de comunicação está a fazer bem o seu trabalho.

Mas se é boa naquilo que vem escrito, transmite nas entrelinhas algumas sensações inquietantes. E era isso que discutia esta manhã, em diversos fóruns (dos quais vou aproveitar alguns dos argumentos aduzidos) e com variadíssimas e distintas opiniões.

Uma delas parte de um problema que o próprio Descartes ensina a resolver: a premissa deve ser "evidente". Ora, definir o que é "evidente", pelos vistos, tem muito que se lhe diga.

BC aborda o tema do "banco vs bancada" de uma forma que, à partida, não nos levaria a pensar mais do que 1 segundo sobre o tema. Diz BC:

- "Vou voltar ao banco! Isto tem a ver com uma forma de gerir, algo que já tenho há mais de 20 anos. Sempre geri muito próximo do negócio, pois acredito que o sucesso está aí. Podemos ter uma visão estratégica e implementá-la, podemos ter uma visão organizativa e implementá-la, mas depois, se os resultados não aparecem... Prefiro muito mais viver a "coisa", do que estar a receber inputs de vários lados que não sei se correspondem perfeitamente à verdade. Sabemos que, às vezes, estar no poder da informação certa pode ser a forma de tomar uma boa decisão. Continuo a acreditar que esta é a fórmula certa, pois é a forma que eu tenho de conseguir perceber aquilo que é o "negócio" Sporting, para poder intervir enquanto presidente, quando achar que é necessário."

E mais à frente:

- "Entenda-se: não me custa e as pessoas foram de uma simpatia total. Mas a nível de comportamento, o ambiente na tribuna é bem mais hipócrita. Não são as pessoas! É mesmo o comportamento, pois não podemos dar azo ao facto de estarmos chateados ou contentes."

À partida, tudo normal: (i) com o envolvimento que tem, e sendo o máximo responsável, BC quer estar próximo da equipa ao invés de confiar a terceiros a missão de lhe transmitir o que por ali se passa (faltou perguntar "mas não confia 100% em Inácio?" mas isso deixo para outra ocasião); (ii) não gosta de ir para a tribuna porque, num fenómeno que tem muito de emocional, ter que ir para a bancada e "controlar" as emoções é algo que lhe faz confusão (muito embora reforce que nunca sentiu qualquer desconsideração).

Qual o problema destas duas declarações? É que, a meu ver, falta colocar a questão mais importante: o que é melhor para a equipa e o treinador?

Repare-se:

- na primeira frase, BC centra o tema no exercício da sua função de presidente, que é obviamente essencial num clube, mas sempre com a lógica do "eu tenho que saber", "eu tenho que controlar", "eu tenho que perceber";

- a segunda frase, enfim, é puramente pessoal (é o tal adepto BC a prevalecer sobre o presidente BC).

Em nenhum momento é feito (ou não se indicia que seja feito) um exercício de prós e contras - o exercício de liderança, ao fim de 2 anos, ainda exige uma presença que, em certos momentos da época, causou evidente desconforto? a presença de um elemento que acabou de sancionar disciplinarmente um dos jogadores não será negativa, pelo menos para esse jogador? o conflito com o treinador, que certamente deixou marcas, não está latente quando os dois estão juntos? a autoridade do treinador (e mesmo do diretor desportivo) não é posta em causa pela presença de um elemento hierarquicamente superior?

E este exercício (que poderia ter dezenas de outras perguntas interessantes) não é feito porque o tema verdadeiramente importante nem parece estar na equação.

Este exemplo serve apenas para o seguinte: o que me deixa preocupado é ver que, nalguns temas (e este, enfim, poderá nem ser o mais relevante), BC parece não estar focado no que é verdadeiramente importante. Parte, aparentemente, de premissas erradas que, naturalmente, acabam por conduzir a conclusões erradas.

E isto acontece com diversos temas e não apenas os focados na entrevista. Dou outro exemplo, este mais relevante: na "guerra" contra os fundos, o que afinal quer BC? Enfraquecer os rivais, é isso? E BC já pensou se teríamos efetivamente melhores condições para disputar troféus com os rivais se eles não dispusessem dos fundos? Vejamos:

- O que nos garante que, sem fundos à mistura, teríamos chegado a Paulo Oliveira ou Jefferson, só para dar dois exemplos, antes dos rivais (que em circunstâncias normais conseguem oferecer mais, tanto aos clubes como aos jogadores)? No tempo em que não havia fundos, quantos jogadores conseguimos "ganhar" em disputa direta com os rivais? Recordo-me do Toñito e pouco mais...

- Considerando os indícios que resultam dos resultados das nossas camadas jovens (em contraponto com os dos rivais), será que não é imprudente apostar fichas aí? Ou seja, se aparentemente os outros, para dizer o mínimo, já aprenderam como se faz e estão, pelo menos, ao nosso nível, vamos, daqui a 2/3 anos ter uma vantagem competitiva pelo simples facto de eles se verem forçados a apostar nas suas camadas jovens (como nós fomos)?

- Será que não virá o dia, face ao que vemos hoje (penso em receitas, em particular patrocínio), em que até precisaremos mais dos fundos (ou outros mecanismos) do que os rivais? É que eu vejo as receitas dos outros e as nossas e faço o raciocínio (lógico) de que eles, à partida, mesmo sem fundos, conseguem ter uma capacidade financeira maior.

Eu sempre insisti na tríade "ideia de clube-objetivos-estratégia". Eu creio que a ideia BC tem; os objetivos, enfim, estão definidos; pergunto-me se efetivamente há uma estratégia sólida. Esta entrevista denuncia que BC cresceu enquanto presidente; mas não nos dá uma só pista sobre a sua estratégia. Parece que foi tudo bem feito até aqui (salvo erros de menor dimensão, segundo BC) e só temos que prosseguir. Eu gostava de ver mais.

Mas, repito, a entrevista é boa, considerando os temas que aborda. Fiquei preocupado com o que não aborda. Só isso.

11 comentários:

  1. Gostaria de dizer muita coisa sobre o que escreveste, mas não tenho muito tempo para estar agora a escrevê-lo

    Fica apenas aqui umas ideias.Tu focas-te no acessório e não pensas no essencial Dizes que o Presidente estar no banco destabiliza de várias formas, e uma delas é por em causa a autoridade do treinador por estar lá. Porquê? Não existe sempre no banco um delegado que seja superior a nível hierárquico a todo e qualquer treinador? O que vês tu no estádio que permita detectar essa perda de autoridade? O Presidente/Delegado obriga o treinador a fazer alguma coisa nos jogos?

    Fundos? Basicamente dizes que sem fundos não conseguimos ir buscar alguns jogadores, assumindo que a ideia do Sporting é acabar com os fundos. Uma autêntica falácia, o sporting quer regularização no sector, quer saber quem ganha e como, quer que tudo esteja às claras e não como se faz actualmente que não se sabe quem está por traz desses fundos, e as mesmas pessoas oferecem um jogador por metade do preço a A, do que tinham dito a B. Que pressionam jogadores que lhes pertencem em parte para tentarem sair. Uma autêntica rebaldaria. Quanto a não existirmos sem fundos é aquela velha máxima hitleriana "Uma mentira constantemente repetida torna-se uma realidade.

    Enfim só nesse dois pontos alarguei-me.

    SL

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    1. António,

      Talvez pelo facto de o post ser (excessivamente) longo, provavelmente não terei passado corretamente a minha ideia. Isto porque a tua primeira frase é precisamente o que estou a criticar em BC.

      A minha ideia foi apenas perguntar se o presidente do Sporting considera, quando toma as decisões, todas as variáveis e nomeadamente aquelas que são as mais importantes. E pergunto-o porque, nas declarações públicas que leio, em particular esta entrevista, passa a ideia de que não o faz. Eu nem sequer tomo posição, se releres o post vais verificar que não digo se é melhor A ou B. Apenas digo que nas declarações do presidente não vejo que esteja a considerar as questões da forma como eu entendo (e é só a minha opinião) que o devia fazer.

      No exemplo que dás, o que escrevi foi: "a autoridade do treinador (e mesmo do diretor desportivo) não é posta em causa pela presença de um elemento hierarquicamente superior?". É uma pergunta. A resposta até pode ser "não". O que me parece é que os argumentos do presidente são centrados nele próprio pelo que admito que nem se tenha colocado a questão.

      Agora o tema dos fundos. O que vejo é o Sporting a congratular-se com a (putativa) decisão da FIFA de acabar com os fundos. Mais os sportinguistas (alguns) do que o próprio Sporting, é verdade. A "batalha" começou, como dizes, e bem, com o objetivo de "regularização no sector, quer saber quem ganha e como, quer que tudo esteja às claras". Mas daí à "guerra" foi um saltinho. E não estou seguro que ganhemos alguma coisa com essa guerra.

      Por fim, não digo, em lado nenhum, que o Sporting não existiria sem fundos. Aliás, o que os últimos anos demonstram é que o Sporting só conseguiu transferir por valores decentes 1 jogador contratado com ajuda dos fundos (Rojo). O que entendo (e daí as perguntas que faço) é que está por provar que o Sporting teria mais condições de disputar troféus com os seus rivais se nenhum tivesse acesso aos fundos.

      SL

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    2. Só rectifico uma coisa, eu não digo que tu dizes, sou eu que faço uma afirmação " Quanto a não existirmos sem fundos é aquela velha máxima hitleriana "Uma mentira constantemente repetida torna-se uma realidade.""

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    3. "Aliás, o que os últimos anos demonstram é que o Sporting só conseguiu transferir por valores decentes 1 jogador"

      E a ter-se mantido os pressupostos inciais, que verba corresponderia ao Sorting no negócio Rojo? Bem feitas as continhas sobra quanto desse valor decente?

      Se calhar a coisa andaria perto dos valores do negócio Mauricio.

      Surreal.

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    4. FCS,

      Eu estou a dizer que os jogadores adquiridos com ajuda dos fundos até nem têm trazido rentabilidade ao Sporting, o que contradiz a afirmação (que o António entretanto esclareceu não me estar a imputar) de que não vivemos sem fundos.

      O que diz o FCS só reforçaria o argumento. Acho é que não devemos tomar nada por garantido (mas já discutimos muito o caso Doyen por aqui e por isso não me vou repetir).

      Só não estou a ver o que é surreal. O facto de o negócio Rojo ter sido um desastre não implica que só se façam negócios desastrosos com fundos. Por exemplo, por muito que achemos que o Benfica e o FCP não recebem nem metade do que aparece na imprensa, não ouvi falar, no negócio Witsel ou no negócio Hulk, de cláusulas sequer semelhantes às que existiam no negócio Rojo (em particular no que respeita aos benefícios do clube vendedor).

      SL

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  2. Estar preocupado com os sentimentos e conforto de um jogador que insulta o presidente é ridículo.

    Os treinadores do Porto durante 20 anos não sofreram essas crises existênciais com o pinto da costa no banco (apesar de eu não me importar que o BdC fosse para a tribuna).

    Por fim, não achar que o fim dos TPO como eles existem é uma vantagem competitiva e concorrencial em relação a benfica e porto é um absurdo.

    SÓ O FACTO DE PASSARMOS A COMPETIR PELOS MESMOS JOGADORES (IE - PAULO OLIVEIRA E JEFFERSON) EM VEZ DE ELES COMPRAREM ALEX SANDROS E DANILOS E NÓS COMPRARMOS MUITISSIMO MAIS BARATO É UMA VANTAGEM SIGNIFICATIVA.

    Geralmente gosto dos teus textos, mas esse argumento não faz sentido nenhum.

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    1. SportingSempre,

      Quanto ao primeiro tema: estou a colocar questões. Podia colocar outras tantas, mais interessantes até. O ponto é que os argumentos do presidente são exclusivamente centrados nele próprio. Podia ter falado do Carrillo, com quem o presidente discutira horas antes de um jogo a renovação (seria especulativo mas passaria a ideia que pretendia passar: está ali um elemento que, em certas circunstâncias, está "no outro lado da barricada", como sempre acontece numa negociação ou no exercício do poder disciplinar).

      No demais, vejo toda a gente a partir do pressuposto de que sem fundos estamos em melhores condições de disputar títulos com os rivais; não tenho certeza que assim seja. E o ponto é: com ou sem fundos, quem tiver melhores condições financeiras chega aos melhores. Quem tiver mais dificuldades, acaba por "precisar" mais dos fundos do que os outros.

      E digo-lhe que fico contente por estar a suscitar estas questões com o meu post.

      SL

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    2. Uma nota adicional que me esqueci de referir: todos sabemos porque PC ia para o banco nessa fase... Os treiandores agradeciam, em especial os incompetentes. Não comparemos, por favor.

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  3. Império dos Temakis27 de março de 2015 às 15:41

    Acho que o que se retira deste texto e dos comentários que se seguem é que tens de caprichar mais nos próximos textos...

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  4. Koba,

    A entrevista é apenas a primeira parte, julgo que amanhã há mais. Independentemente de se gostar ou não do estilo o conteúdo da mesma é exiguo porque fala pouco do futuro do clube - há muita coisa sobre as quais gostaria de saber a opinião do presidente - e está mais centrada no que o BdC quer para si e como avalia o seu próprio mandato até agora. Esperemos por amanhã então.

    Sobre os fundos há muita coisa a perceber, desde logo no percurso de BdC. Falarei nisso talvez na próxima semana. A este propósito escrevi ontem, em resposta a um leitor o seguinte:

    "O problema quando se fala de fundos é não atender que se está a falar não de uma mas de uma multiplicidade de meios que os clubes se podem socorrer quer para contratar ao exterior como para manter os seus melhores jogadores e que essas possibilidades não se esgotam no que é oferecido pela Doyen.

    Não sou dogmático nesta questão mas parece-me que BdC se tornou dogmático por razões que não consegui ainda perceber na totalidade. A minha questão é que ele é livre para escolher o seu caminho, que pode num momento interessar recorrer aos TPO's como não. O erro parece-me ser pedir a sua extinção, o que limitará as possibilidades. Quem sabe ele não tenha outras em vista.

    Sem alargar as suas possibilidades de recrutamento em campeonatos emergentes ou jogadores low-cost, o Sporting terá sempre muitas dificuldades em juntar-se aos da frente. E o Sporting, quanto a mim, até poderia estar à frente dos seus rivais porque não tem necessidade de depender tanto deste tipo ou de outros instrumentos para investir na qualidade do seu plantel, se souber gerir e potenciar convenientemente o plantel que actualmente dispõe."

    Quanto ao banco, enfim. Se o Belmiro de Azevedo entendesse da mesma forma teria passado grande parte dos seus dias entre as caixas registadoras e os armazéns. Vejo a presença ou ausência do banco como pouco significativa (ficam de fora as restantes modalidades...) para a definição dos resultados finais.

    Quanto à formação o maior é melhor esperar para ver mas é muito provável que os resultados obtidos nos últimos 10 anos dificilmente- se repitam por uma conjunção de factores:

    - A instabilidade que o clube viveu também se fará sentir nesta área. E sobre as medidas tomadas nos últimos 2 anos sobram dúvidas do seu acerto, podendo elas mesmas terem contribuído para o agravamento da situação. Teremos que esperar para ver mas os sinais não são bons.

    - Os adversários - e não apenas os rivais - perceberam a importância da formação ou foram obrigados a perceber por força das limitações impostas pela falta de capital e estão a trabalhar melhor.

    - Os rivais não só estão a trabalhar melhor do ponto de vista técnico como têm mais canais abertos quer para arranjar dinheiro como para escoar jogadores. Veja-se a quantidade de jogadores que renderam bons dividendos sem valor ainda confirmado. Então o negócio Bernardo Silva... Ora trabalhando melhor e tendo mais dinheiro para recrutar obriga-nos a sermos mesmo muito bons para ombrearmos com eles.

    Abraço

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    1. LdA, quanto aos fundos, vou reproduzir a sua frase porque é perfeita (o facto de ser prolixo dá.me cabo de alguns posts!): "Não sou dogmático nesta questão mas parece-me que BdC se tornou dogmático por razões que não consegui ainda perceber na totalidade." É isto.

      Eu até acho que percebo as razões mas não quero ser injusto...

      Os seus 3 pontos finais também são muito importantes. O que eu gostava - e pelos vistos esse objetivo o post atingiu (mesmo em jeito de testamento) - era de ver os sportinguistas a questionar e discutir todas as variáveis. Mais ainda: que o presidente as tivesse em consideração.

      Um abraço

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