27/03/2015

Cogito, ergo sum

Todos conhecemos aquilo que se designa por método cartesiano: estabelecemos premissas básicas e evidentes, que dispensam "prova"; raciocinamos e colocamos hipóteses como base nas mesmas; tiramos as conclusões que sejam mais lógicas em função das premissas e hipóteses colocadas.

Vem este intróito a propósito da entrevista de BC publicada hoje no Record e de uma discussão que mantive sobre a mesma durante a manhã.

A entrevista é boa, na minha opinião. BC é forte neste tipo de formato. E de duas uma: ou revela que a experiência acrescentou algum bom senso a BC, ensinando-o a evitar (nesta fase) alguns temas mais complicados (fundos, empresários) ou a nova agência de comunicação está a fazer bem o seu trabalho.

Mas se é boa naquilo que vem escrito, transmite nas entrelinhas algumas sensações inquietantes. E era isso que discutia esta manhã, em diversos fóruns (dos quais vou aproveitar alguns dos argumentos aduzidos) e com variadíssimas e distintas opiniões.

Uma delas parte de um problema que o próprio Descartes ensina a resolver: a premissa deve ser "evidente". Ora, definir o que é "evidente", pelos vistos, tem muito que se lhe diga.

BC aborda o tema do "banco vs bancada" de uma forma que, à partida, não nos levaria a pensar mais do que 1 segundo sobre o tema. Diz BC:

- "Vou voltar ao banco! Isto tem a ver com uma forma de gerir, algo que já tenho há mais de 20 anos. Sempre geri muito próximo do negócio, pois acredito que o sucesso está aí. Podemos ter uma visão estratégica e implementá-la, podemos ter uma visão organizativa e implementá-la, mas depois, se os resultados não aparecem... Prefiro muito mais viver a "coisa", do que estar a receber inputs de vários lados que não sei se correspondem perfeitamente à verdade. Sabemos que, às vezes, estar no poder da informação certa pode ser a forma de tomar uma boa decisão. Continuo a acreditar que esta é a fórmula certa, pois é a forma que eu tenho de conseguir perceber aquilo que é o "negócio" Sporting, para poder intervir enquanto presidente, quando achar que é necessário."

E mais à frente:

- "Entenda-se: não me custa e as pessoas foram de uma simpatia total. Mas a nível de comportamento, o ambiente na tribuna é bem mais hipócrita. Não são as pessoas! É mesmo o comportamento, pois não podemos dar azo ao facto de estarmos chateados ou contentes."

À partida, tudo normal: (i) com o envolvimento que tem, e sendo o máximo responsável, BC quer estar próximo da equipa ao invés de confiar a terceiros a missão de lhe transmitir o que por ali se passa (faltou perguntar "mas não confia 100% em Inácio?" mas isso deixo para outra ocasião); (ii) não gosta de ir para a tribuna porque, num fenómeno que tem muito de emocional, ter que ir para a bancada e "controlar" as emoções é algo que lhe faz confusão (muito embora reforce que nunca sentiu qualquer desconsideração).

Qual o problema destas duas declarações? É que, a meu ver, falta colocar a questão mais importante: o que é melhor para a equipa e o treinador?

Repare-se:

- na primeira frase, BC centra o tema no exercício da sua função de presidente, que é obviamente essencial num clube, mas sempre com a lógica do "eu tenho que saber", "eu tenho que controlar", "eu tenho que perceber";

- a segunda frase, enfim, é puramente pessoal (é o tal adepto BC a prevalecer sobre o presidente BC).

Em nenhum momento é feito (ou não se indicia que seja feito) um exercício de prós e contras - o exercício de liderança, ao fim de 2 anos, ainda exige uma presença que, em certos momentos da época, causou evidente desconforto? a presença de um elemento que acabou de sancionar disciplinarmente um dos jogadores não será negativa, pelo menos para esse jogador? o conflito com o treinador, que certamente deixou marcas, não está latente quando os dois estão juntos? a autoridade do treinador (e mesmo do diretor desportivo) não é posta em causa pela presença de um elemento hierarquicamente superior?

E este exercício (que poderia ter dezenas de outras perguntas interessantes) não é feito porque o tema verdadeiramente importante nem parece estar na equação.

Este exemplo serve apenas para o seguinte: o que me deixa preocupado é ver que, nalguns temas (e este, enfim, poderá nem ser o mais relevante), BC parece não estar focado no que é verdadeiramente importante. Parte, aparentemente, de premissas erradas que, naturalmente, acabam por conduzir a conclusões erradas.

E isto acontece com diversos temas e não apenas os focados na entrevista. Dou outro exemplo, este mais relevante: na "guerra" contra os fundos, o que afinal quer BC? Enfraquecer os rivais, é isso? E BC já pensou se teríamos efetivamente melhores condições para disputar troféus com os rivais se eles não dispusessem dos fundos? Vejamos:

- O que nos garante que, sem fundos à mistura, teríamos chegado a Paulo Oliveira ou Jefferson, só para dar dois exemplos, antes dos rivais (que em circunstâncias normais conseguem oferecer mais, tanto aos clubes como aos jogadores)? No tempo em que não havia fundos, quantos jogadores conseguimos "ganhar" em disputa direta com os rivais? Recordo-me do Toñito e pouco mais...

- Considerando os indícios que resultam dos resultados das nossas camadas jovens (em contraponto com os dos rivais), será que não é imprudente apostar fichas aí? Ou seja, se aparentemente os outros, para dizer o mínimo, já aprenderam como se faz e estão, pelo menos, ao nosso nível, vamos, daqui a 2/3 anos ter uma vantagem competitiva pelo simples facto de eles se verem forçados a apostar nas suas camadas jovens (como nós fomos)?

- Será que não virá o dia, face ao que vemos hoje (penso em receitas, em particular patrocínio), em que até precisaremos mais dos fundos (ou outros mecanismos) do que os rivais? É que eu vejo as receitas dos outros e as nossas e faço o raciocínio (lógico) de que eles, à partida, mesmo sem fundos, conseguem ter uma capacidade financeira maior.

Eu sempre insisti na tríade "ideia de clube-objetivos-estratégia". Eu creio que a ideia BC tem; os objetivos, enfim, estão definidos; pergunto-me se efetivamente há uma estratégia sólida. Esta entrevista denuncia que BC cresceu enquanto presidente; mas não nos dá uma só pista sobre a sua estratégia. Parece que foi tudo bem feito até aqui (salvo erros de menor dimensão, segundo BC) e só temos que prosseguir. Eu gostava de ver mais.

Mas, repito, a entrevista é boa, considerando os temas que aborda. Fiquei preocupado com o que não aborda. Só isso.

23/03/2015

Jornada positiva


Já o tinha dito aquando do jogo da primeira volta: fomos, na altura, derrubados por duas bolas paradas e não tivemos capacidade de reação (porque estávamos a "descansar" para resolver o jogo na segunda parte). Mas o Vitória, este Vitória, não é nada de especial. Nem nos deu, na 1ª volta, o banho de bola que se vendeu por aí. Marcou golos em dois cantos e soube gerir o jogo contra uma equipa que fez, nesse dia, a pior exibição da época. Ontem o Vitória também teve vários cantos perigosos nos primeiros minutos e não foi por isso que não acabou goleado.

A primeira parte do Sporting foi muito boa, a partir do primeiro golo (o "desbloqueador da pressão"). Porque antes do 1º golo já estávamos a ouvir os habituais assobios a Nani por temporizar. Mas depois foi uma demonstração clara daquilo que esta equipa pode fazer: futebol paciente mas objectivo; jogo ao primeiro toque; constante procura do jogador em melhor posição; jogo variado entre o centro e as faixas. Certo que o fizemos contra uma equipa que, repito, não é nada de especial. Ainda assim, é a 5ª ou 6ª melhor do campeonato que temos.

Uma palavra especial para Adrien Silva - fez, a meu ver, o melhor jogo desta temporada. Vi-o perder uma ou outra bola em "rodriguinhos"mas, em geral, esteve muito bem, simplificando todos os lances, rodando a bola, procurando sempre o colega em melhores condições para receber. Este Adrien, que já no ano passado tinha estado na maioria os jogos, merece ir à seleção. Mas a convocatória saiu antes deste jogo. E de qualquer forma não seria por um jogo que o selecionador passaria a contar com ele.

Aliás, deixando Adrien de lado, repare-se como uma exibição coletiva pode ser positiva mesmo que individualmente não haja quem se destaque. William está (definitivamente?) de volta, mas João Mário ontem esteve mais discreto do que, por exemplo, na Madeira (onde a exibição coletiva foi o que vimos). Slimani continua a dar pouca continuidade às jogadas, mas de facto tem mais "feeling" para os lances do que Montero, por muito que me custe reconhecer (embora continue a achar que seria possível, com Montero, ter um futebol ainda melhor, ainda que necessariamente diferente). Carrillo e Nani estiveram desinspirados nas suas iniciativas individuais, mas deram continuidade a quase todos os lances com inteligência. Na defesa, Ewerton talvez o mais seguro e menos dado a ligar o complicómetro, mas Paulo Oliveira algo trapalhão em meia dúzia de lances, Miguel Lopes bem a atacar mas com duas ou três distrações que causam calafrios, Jefferson com um jogo em que não se viu a atacar e deu metros e metros de espaço a quem lhe aparecia por ali.

Em suma, quando a equipa funciona, até podemos ter 3 ou 4 elementos desinspirados - o coletivo resolve!

Uma nota para mais um golo para os registos do anedotário: como perguntava Jozic depois de um célebre jogo em Chaves, "yo solo pregunto, hasta la cuando?" Até quando vamos levar golos como os do Restelo, o 1º do Penafiel em Alvalade e este de ontem? Sendo que, nestes dois últimos, já se sabe que a pancada é sempre a triplicar: toma lá livre perigoso, toma lá expulsão e toma lá golo (nem que a bola entre às carambolas - e by the way, Patrício: sabes que és o único que pode usar as mãos dentro da área para chegar às bolas?). E nem falemos de arbitragem: no estádio, nem parecia nada de especial; na TV vi bem que a entrada do Paulo Oliveira foi completamente disparatada e o amarelo (o segundo) é justíssimo.

Enfim - feito o balanço, creio que pela primeira vez temos uma distância para o 2º inferior à distância que temos para o 4º. Ou seja, por muito difícil que seja o nosso calendário (e é) se o FCP perde na Luz e nós fazemos todos os pontos até aí, acabamos o campeonato a disputar o 2º lugar. Não é bom. Mas é melhor do que termos o Braga a pisar os calcanhares...

PS: A foto é em homenagem à Juve Leo. Estão sempre lá, desde que me lembro. Sempre. Nunca falharam. Têm os seus problemas, eles e os outros. Mas sem eles o estádio não seria igual. Eles fazem a curva (?) sul ter outra vida. Dão cor e som ao estádio. O problema da liderança é lá com eles, resolvam-no. Enquanto adepto, sei que gosto de os ter lá.

12/03/2015

Memórias (III - ou será IV?)


As frases são duas, mas podem ter inúmeras variáveis. Oiço-as desde que sou pequeno e habituei-me a reproduzi-las. Hoje, mais do que reproduzi-las, afirmo-as com a pretensa convicção da verdade. Mas não há verdade nenhuma nelas.

Todos sabem de que frases falo:
- "De facto, ao Sporting tudo acontece"
- "Isto só acontece mesmo ao Sporting".

Reparem que estas frases partem de uma premissa totalmente errada, a meu ver: a de que as pessoas coletivas têm um destino traçado. A lógica de que a personalidade (ou o ADN) de um clube o tornam mais atreito à derrota ou à vitória, ao sucesso ou ao fracasso, ao encolhimento ou à superação. O que não faz qualquer sentido.

Pensem noutra frase feita, esta dos nossos adversários. O Sporting "falha sempre nos momentos decisivos". A sério? E o que são momentos decisivos? O jogo de Vidal Pinheiro em 2000? E a final da Taça com o FCP? Uma meia-final na UEFA é um momento decisivo? Ou só a final? É que se falamos em finais, o Benfica, por exemplo, poderia cair também neste saco, porque supostamente (também) falha nos momentos decisivos há 50 anos. Mas não falhou nos igualmente decisivos momentos em que se disputava o acesso a essas finais.

Estas frases são absurdas. E eu próprio as profiro, atenção! Ainda ontem proferi uma, a propósito do FCP. "Aqueles tipos, quando é mesmo preciso, não falham". Mas "não falham" porque ao longo do tempo tiveram Mlynarczyk, Baía, Helton; João Pinto, Paulo Ferreira, Danilo; Inácio, Branco, Alex Sandro; Aloísio, Fernando Couto, Jorge Costa, Jorge Andrade, Ricardo Carvalho, Mangala; isto para falar só em defesas. Lembram-se, certamente, das dificuldades que tive em construir uma defesa de sonho no Sporting. Não foi por acaso. Foi porque no FCP, de há 30 anos para cá, as equipas têm sido sistematicamente melhores. E a qualidade, parecendo que não, dá jeito quando se quer ganhar.

As frases não fazem sentido. Simplesmente porque as pessoas coletivas, e os clubes em particular, são liderados por pessoas. Pessoas essas com diferentes personalidades, estratégias, formas de gerir. Não há, sequer, uma linha condutora. Não há clubes "destinados" a ganhar. O Sporting estava destinado a ganhar até à decada de 60 e depois deixou de estar? O FCP não estava até 1977 e passou a estar? O Parma parecia estar na década de 90 e agora, afinal, concluímos que estava destinado a desaparecer? E o Nottingham Forest? E o Chelsea, em contraponto? Podia dar 100 exemplos e não saíamos daqui.

Isto tudo a propósito de uma memória que me surgiu no último jogo. Reduzidos a 10 na primeira parte, ganhámos o jogo. Sim, ao Penafiel, último classificado, pernas-de-pau e tal, mas ganhámos. Lembro-me bem de isso ter sucedido quando voltámos a defrontar um assustador fantasma do nosso passado: o Rapid.

Em 95/96, com uma equipa incomparavelmente superior, conseguimos a proeza de levar 4 batatas em Viena e ir de vela quando tínhamos a suposta pretensão de vencer a Taça das Taças. Demos um banho de bola cá e descansámos ao 2-0. Lá, aconteceu tudo. "Tudo acontece ao Sporting". Mas obviamente quem vai à Áustria em 93 e em 95 com Costinha na baliza, arrisca-se a que aconteça "tudo"...

Em 2004/2005, quase 10 anos depois, foi com eles (sim, com eles!) que iniciámos a nossa caminhada para a final europeia tragicamente perdida para o CSKA.

E tudo começou com uma expulsão, se não estou em erro, de Anderson Polga. Com o fantasma a pairar em Alvalade, o silêncio era sepulcral. Até que Tinga (lembram-se?), a meio da segunda parte, faz o 1-0. E mais tarde Liedson, perto do fim, o 2-0. 10 para 11 mas assumíamos o jogo e éramos melhores. Claramente.

O problema é que ressuscitámos o fantasma: 2-0 tinha sido, como disse, o resultado da 1ª mão em 95/96. E em Viena deparámo-nos com a nossa grandeza: o Rapid, único clube austríaco a ganhar o campeonato da Alemanha, em plena II Guerra Mundial, celebrava a eliminação do Sporting em 95/96 como um feito épico, talvez o maior da sua história. Os jogadores foram homenageados, reviram-.se os golos de Didi Kühbauer, Stumpf e Jancker (esse que mais tarde jogou no Bayern - também o Elber tivemos o "azar" de apanhar no Grasshoppers antes de se juntar ao Bayern... "só ao Sporting"), a atmosfera era ensurdecedora. Sim, nesse ano de 95/96 o Rapid foi mesmo à final da Taça das Taças (que perdeu para o PSG), mas o que se homenageava não era essa campanha. Era a eliminação do Sporting.

À imagem de 95/96, levávamos na bagagem um Pedro Barbosa "com-vontade-de-brincar-na-areia", além de uma versão 2.0 de Costinha (com upgrade, apesar de tudo), o GR Ricardo. Por isso, sofri, a bom sofrer. Aos 80 minutos, com o resultado em 0-0, eu só pedia que marcássemos um golo. Mas a bola não entrava. E eu, como sinto que "tudo pode acontecer ao Sporting", mesmo que não seja verdade, achava ainda possível que aos 90+1 e aos 90+2 Ivanschitz, o único dos austríacos que sabia distinguir uma bola de futebol de uma pedra da calçada, disparasse duas bombas que pusessem Ricardo em sentido, o Sporting em terror e a minha TV no estado em que ficou aquela em que vi o jogo de 95/96 depois de levar umas murraças.

Mas Ricardo aguentou-se, o Sporting aguentou-se, manteve esse 0-0 (quantos mais nessa época, será que algum?) e depois foi o que se sabe: grupo com Sochaux, Panionios, Newcastle e Tbilisi, eliminatória com Feyenoord superada com classe (e que grande jogo no De Kuip), eliminatória com Middlesbrough "à Sporting" (com 3-0 fora e a eliminatória resolvida, oferecem-.se 2 golos para apenas resolver tudo, em definitivo, ao minuto 90 da segunda mão), reviravolta épica com Newcastle, com o estádio em ebulição, aquela meia-final imprópria para cardíacos com golão de Pinilla (vai ter post, um dia destes) em Alvalade e o milagre de Miguel Garcia em Alkmaar e, finalmente, a tragédia russa em Alvalade.

Acredito que o Sporting sairá, um dia, do coma em que se encontra e voltará a fazer grandes campanhas europeias. Mas, com tudo o que tem de bom e de mau, esta foi, indiscutivelmente, a melhor a que pudemos assistir nos últimos 30 anos. Houve vários momentos decisivos:
- com o Rapid, 10 para 11, 2-0 em casa (estava 0-0 11 para 11, recordo);
- o grupo, em que o Sporting precisava de empatar em Newcastle para se apurar, e conseguiu-o graças a um golo de Custódio;
- a vitória no de Kuip, com margem de erro igual a 0 depois de um golo encaixado em casa;
- a vitória sobre o Newcastle de Given, Nicky Butt, Kieron Dyer, Shearer e Kluivert, depois de derrota em Inglaterra e começar a perder em Alvalade;
- a meia-final com o AZ, que escuso de comentar.

É este o clube a que tudo acontece?

PS: O primeiro jogador a marcar um golo nessa caminhada? Tinga. Merece a foto. E merece que nos lembremos dele. Vá, de vez em quando...

02/03/2015

Tentando ser frio

1. O Sporting está neste momento no lugar em que seria normal que estivesse há mais tempo: em 3º, a uma distância que não lhe permite lutar pelo título. A prestação do Braga, apenas a 1 ponto do Sporting, também é relativamente normal, muito embora eu não contasse com uma performance tão sólida de uma equipa que tem o Sérgio Conceição ao volante.

2. O facto de ser "normal" não significa que seja bom ou que eu goste. Significa apenas que corresponde àquilo que é razoável esperar deste plantel ou, se preferirem, destes três (ou quatro) planteis.

3. Eu próprio alimento o sonho todas as temporadas. Ainda que racionalmente entenda que nas atuais circunstâncias (suas e dos rivais) o Sporting pode estar a caminhar para o maior jejum da sua história (daria tema para um longo post, mas não hoje), e não está a aproveitar a oportunidade que essas mesmas circunstâncias lhe deram para se repensar, para se redefinir e para se preparar (e evitar esse jejum), alimento o sonho. Por uma razão simples: ADN. A vitória e a perseguição desta está no ADN deste clube e o ADN não se apaga ou transforma. O que se pode mudar, isso sim, é a forma como se persegue a vitória ou a paciência enquanto a mesma não chega. Mas encarar 30 jogos contra adversários que não consideramos rivais e não "esperar" fazer 90 pontos é algo que não nos passa pela cabeça...

4. Não é ainda hora de fazer balanços, há a Taça de Portugal para conquistar. A sua conquista será sempre um fator de diferenciação relativamente às últimas 6 temporadas. Convém que nos concentremos nisso. Não que o 3º lugar não seja importante, claro que é. Até porque podemos ter sorte (é raro, mas pode acontecer) no sorteio da pré-eliminatória. Mas olhando aos calendários (nosso e do Braga) acho até que o jogo da jornada 33 não vai decidir nada, já seremos 3º antes disso (isto obviamente se fizermos a nossa parte, mesmo perdendo pontos - e vamos provavelmente perder pontos). Mas onde não podemos falhar é na Taça de Portugal, um troféu é um troféu.

5. Eu tento escrever estes textos sem ler outros blogs mas às vezes não resisto. E sinceramente fico incrédulo com as coisas que leio por aí. Quando vejo sportinguistas a desejar o regresso de Sá Pinto, só concebo duas possibilidades: a primeira, o deboche - são benfiquistas ou opositores de BC a gozar o prato; a segunda, mais preocupante, são condicionadores de opinião, colocados sabe-se lá por quem em certos blogs para virar a opinião contra o Marco Silva (e pior do que "até o Sá Pinto era melhor" não consigo imaginar). De qualquer modo, embora todos já tenhamos percebido que Marco Silva tem os seus problemas, eu tenho muita pena que não seja ele (e não vai ser, já o sabemos todos) o treinador na próxima temporada. Por todos os motivos e mais dois, que deixo para reflexão dos que veem Marco Silva como "o" problema: depois de Paulo Bento, Paulo Sérgio, Domingos, Sá Pinto, Leonardo Jardim, vamos para a 7ª temporada consecutiva com uma equipa técnica diferente (e todos os processos inerentes); e vamos para o 12º treinador em 7 temporadas, porque aos nomes acima teremos que juntar Carvalhal, Couceiro, Oceano, Vercauteren e Jesualdo. Não sendo resultados fantásticos e não tendo um grande futebol, lembrem-se qual foi a última fase em que o Sporting conquistou títulos. Pois, essa mesmo, com o mesmo treinador em 4 temporadas. E nem esse treinador nem essas equipas eram melhores do que os atuais. Alguém pensa o contrário?

6. Da mesma forma que li barbaridades, li também os "experts". E quanto a esses tenho a dizer o seguinte: infelizmente, concordo com a apreciação a Adrien Silva, fez um jogo terrível. A lentidão que coloca em (quase) todos os lances chega a ser exasperante. O desarme de Evandro, de ontem à noite, é um lance que nunca vi sequer no All Stars... Isto dito, pela minha parte, acho que estamos a começar a entrar numa fase em que temos que proteger este jogador que vale muito mais do que tem mostrado nos últimos jogos. Eu não sou maluco, não ando aqui a defender que ele vá ao Mundial para depois dizer que nem titular do Sporting deve ser. Eu acho o Adrien um bom jogador. Mas tem feito uma temporada muito abaixo do seu nível. Apenas isso.

7. Ainda quanto aos "experts", convém apenas lembrar que o Tobias Figueiredo jogou pela primeira vez no Estádio do Dragão, está há pouco mais de um mês na equipa principal e obviamente sente (talvez mais do que os outros, pela idade, pela inexperiência e pela posição que ocupa em campo) as dificuldades da equipa. Não ter isto em linha de conta explica porque é que relativizo as apreciações dos experts. Como já disse em tempos, percebem enormidades de futebol. Mas às tantas parecem deixar de lado a bic picture à volta de uma equipa de futebol. Não os critico porque eles no fundo estão apenas a analisar; mas quem os lê, por vezes, retira conclusões que vão para além da análise deles. Preocupa-me mais este fenómeno do que propriamente as críticas ao Tobias Figueiredo.

8. Quanto ao jogo de ontem, apenas dois comentários:

a) A partir da meia hora de jogo o Sporting foi cilindrado como já não via há muito tempo. Faltou tudo: concentração, segurança, experiência, qualidade, tranquilidade, organização, classe.

b) Marco Silva, desta vez, viu o mesmo jogo que eu vi. Ficaria muito mais descansado para o futuro, não fosse a parte final do ponto 5 supra.


PS - Dois aditamentos:

I. Leiam o mais recente post do A Norte de Alvalade, aqui. Vale muito a pena. E relembra uma coisa muito importante relativamente ao Tobias - foi o segundo jogo que fez com a companhia do Jonathan Silva.

II. Em jeito de aditamento ao ponto 5, e só para reforçar o que aí foi dito: no período decorrido entre 2009/2010 e a presente data, os três grandes tiveram os seguintes percursos:

Sporting: 3 presidentes (JEB, GL, BC), 6 diretores para o futebol (Pedro Barbosa, Costinha, Couceiro, Carlos Freitas, Jesualdo, Inácio) e os tais 11 treinadores.

Benfica: 1 presidente, 2 diretores para o futebol, 1 treinador

Porto: 1 presidente, 1 VP com pelouro futebol, 6 treinadores (Jesualdo, Villas-Boas, VP, Fonseca, Luís Castro, Lotapeg). Destes 6, 1 saíu depois de ganhar tudo, 2 porque terminaram contrato (1 deles bi-campeão), 1 ainda pode ser campeão e 1 é o homem da casa que aparece para apagar fogos. No fundo, houve 1 (Fonseca) que correu mal. É um bom treinador. Vamos ouvir falar dele no futuro, neste blog...