29/01/2015

Notas rápidas sobre a Taça Lucílio

Só algumas notas rápidas sobre a Taça Lucílio porque me parece que há alguma confusão sobre o tema da utilização de jogadores da equipa B:

1. Não quero tornar o texto muito aborrecido nem estar aqui, como diz o povo, a armar-me aos cucos. Mas acho que faz falta um "back to basics" relativamente à política desportiva dos clubes. Vejamos:

a) a estratégia desportiva é definida pelos órgãos diretivos, no caso do Sporting pela administração da SAD;

b) a administração da SAD, por melhores ou piores motivos, com ou sem fundamentos válidos (para agora pouco importa), decidiu que a participação do Sporting na Taça Lucílio deste ano seria feita com recurso a jogadores da equipa B e, eventualmente, alguns juniores, sem prejuízo do cumprimento dos regulamentos da competição;

c) o treinador, obviamente, tem que respeitar esta opção, que aliás, no caso, até tem contornos políticos com os quais o treinador nada tem a ver;

d) tema totalmente diferente é a definição dos convocados, do 11, do sistema de jogo, do timing de utilização dos reforços, tudo isso são competências puramente técnicas, nas quais a administração não se deve meter.

2. A competição foi encarada de acordo com as diretrizes da administração sem que, até agora, tenha saído um só rumor sobre a discordância da equipa técnica ou dos jogadores do plantel principal (isto num clube que passou o que passou em Dezembro, com tudo escarrapachado nos jornais).

3. A conclusão lógica que daqui se retira é que a SAD (vamos pessoalizar: Bruno de Carvalho), com toda a legitimidade, informou o treinador do Sporting sobre a estratégia desportiva definida para esta competição. E o treinador do Sporting, aparentemente, aceitou a decisão (se tivesse qualquer problema com isso, seguramente já teríamos tido relatos disso mesmo).

4. Não temos que concordar com a estratégia. Há uns anos, revoltei-me quando Filipe Soares Franco, nas vésperas de um jogo decisivo com o Glasgow Rangers, para os 1/4 final da Taça UEFA/Liga Europa (em que estaríamos a 2 jogos de uma final europeia, se ganhássemos), afirmou que "importante era obter o 2º lugar no campeonato". Obviamente isto faz-me muita confusão. Mas a opção é legítima. Errada, mas legítima. Podemos, pois, discutir as opções estratégicas.

5. Isso é, aliás, o que devíamos discutir, e mais vezes. Neste caso, como sabem, até estou de acordo. Mas aceito argumentos em sentido contrário. Os que façam sentido, claro. O que me custa a compreender, e eu sou insuspeito porque tomei uma posição clara quando o Marco Silva esteve com um pé fora de Alvalade, são as teses em que fica implícito que o Marco queria por a carne toda no assador e BC não deixou. Parece-me absurdo porque o comunicado do Sporting a este respeito, feito alto e bom som no ano passado, foi público e até causou bastante polémica. Mas se assim foi, por uma vez, BC tinha toda a razão (repito se assim foi - não acredito que tenha sido).

6. Ainda assim, e pegando no exemplo de Soares Franco acima citado, há uma gigantesca diferença entre menosprezar a eventual conquista de um troféu europeu (cujo prestígio me dispenso de fundamentar), algo que não acontece desde 1964, e menosprezar uma competição completamente descredibilizada pelos sucessivos eventos relacionados com a mesma. Discutir o primeiro tema parece-me muito pertinente; discutir o segundo não é bem a mesma coisa. Esta competição não interessa assim tanto. Ou melhor, interessa para o que interessa: perceber que o Tobias já podia ter oportunidades na equipa A (como teve); que o Tanaka podia jogar mais na equipa A (como sucedeu); que o Gauld poderia beneficiar de uns minutos na equipa A (como beneficiou). E poderia seguir por aqui fora.

Obviamente que ontem, ao ligar a TV, ao minuto 78 ou 79, e ver o marcador em 1-1, não deixei de querer que marcássemos. Ainda que isso implicasse uma meia-final na Luz em que corríamos o risco de o Benfica fazer alinhar o 11 principal. Mas, racionalmente, o que penso, e aquilo em que verdadeiramente acredito, é que, pela primeira vez, o Sporting cumpriu os objetivos desta competição. Provavelmente vai sair da competição mas o mais importante, a meu ver, está assegurado.

PS: Para os que acham que implico com a Taça Lucílio só porque sim, ou porque o Sporting não a ganhou, ou porque perdeu duas finais, ou porque o Benfica tem não sei quantos troféus, digo apenas isto: não me lembro de uma competição, nenhuma mesmo, que em menos de 10 anos tenha dado tanta barraca e tão diversificada. Só para citar alguns casos: o tema do patrocinador; o formato absurdo da 1ª edição; a discussão sobre a distinção entre diferença de golos e goal average; a escandaleira na final da 2ª edição; o tristemente célebre caso das 72 horas; o dolo sem intenção de prejudicar terceiros. Isto, para mim, mata qualquer competição, mesmo que fosse relevante ou, por exemplo, desse acesso a um lugar europeu. Esta tem uma agravante: não interessa a ponta de um chavelho.

15 comentários:

  1. Koba,

    Isto para mim deixou de ser um assunto a partir do momento em que o Marco Silva, em conferência de imprensa, disse que aceitava incondicionalmente a decisão da direcção, que esta tinha-lhe sido informada ANTES de assinar contrato do Sporting e que ele tinha concordado logo no momento.

    Podem andar a vasculhar as campas, mas parece-me que estas estão vazias...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Férenc, confesso que não dei por isso. O que faz com que se perceba ainda menos certas coisas que às vezes leio por aí...

      Eliminar
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  3. Antes dos "desentendimentos" de Dezembro, o Marco Silva disse (não me recordo se em entrevista ou conferência de imprensa) que a situação da taça da liga ficou esclarecida logo que veio para o SCP e que por ele não tinha nenhum problema com isso. Agora desconheço se face à alteração de circunstâncias (castigo e saída de Maurício) ele não gostaria de ter aproveitado o jogo de Belém e o de ontem para dar tempo de jogo à dupla Tobias/Paulo Oliveira numa competição a feijões e com margem para errar.

    A utilização de jovens jogadores fez-me ver os jogos com redobrada atenção e só tenho pena que face ao nível consistentemente mau de alguns jogadores não tenha sido dada oportunidade a jovens da casa como Nuno Reis, Mica Pinto ou Riquicho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tugarão, não me choca que a competição seja também utilizada para esse efeito (combinar duplas de centrais é só um exemplo).

      Como disse ao Meszaros, não vi essas declarações do Marco Silva. Tenho pena de não as ter visto.

      Incrível o Nuno Reis ter tão poucas oportunidades...

      Eliminar
  4. Discordo.
    É um troféu cujo vencedor tem de jogar pelo menos 5 jogos, mais do que a chamada supertaca. Quase sempre permite um ou mais derbies o que com um campeonato como o nosso é sempre desejável.
    As incongruencias fazem parte da vida.
    árbitros que erraram - e não estou a dizer que isso aconteceu com o lúcido porque para mim ainda hoje foi penalty - e deram títulos ao adversário é coisa pródiga no futebol.
    Acabar com ela só porque de facto quer porto quer sporting não venceram (e já estiveram ambos nas finais) evidencia bem o que o título do post não é capaz de esconder: que quem desdenha quer comprar !

    É que se não ambicionassem ganha-la tinham bom remédio: não jogavam. Porque é que então participam?
    tenho a certeza que esse discurso mudará quando (se) ganharem uma taça da liga. Ou pelo menos que ela não vá para o Benfica.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Meu caro, o meu discurso mudará quando, por exemplo, a competição der acesso à Europa, como (creio que) acontece em todos os países em que a competição existe.

      Repara que eu não preciso de fazer nada para desdenhar a competição, ela fá-lo por si própria. O que dizer de uma competição que no regulamento contém disposições que obrigam os clubes a apresentar um certo número de jogadores da equipa principal? Porque será que isso não é necessário nem para a Taça de Portugal, nem para a Supertaça (e olha que estou de acordo contigo que a Supertaça deveria ser bem mais interessante - porque não, eis outro exemplo, por o vencedor da Taça da Liga a disputar a supertaça, num triangular? Seria outra forma de lhe conferir algum interesse).

      Assinalo ainda isto - quem despreza a Taça da Liga sou eu, não é o Sporting. O Sporting, até este ano, disputou-a (mal, a meu ver) com a equipa principal, salvo 3 ou 4 alterações, o que revela o intuito de a ganhar. Umas vezes não conseguiu, outras houve em que não deixaram. Mas no meu caso particular, ainda hoje disse ao nosso amigo NC que essa final do Lucílio, por exemplo, nem vi. E repara que:
      - tínhamos sido finalistas no ano anterior;
      - eliminámos o FCP nas meias-finais com goleada a jogar 11 principal contra reservas, o que achei lamentável;
      - não sabia, antes de o jogo começar, que íamos ser gamados (como sabes que fomos, mas "gostei" da ironia).

      Ou seja, o Lucílio, as 72 horas e o dolo sem intenção vieram DEPOIS de eu achar que a competição, nestes moldes, não tem interesse. Foi a Taça Lucílio que me deu razão e não o contrário.

      No demais, não me entendas mal: eu gostaria de ganhar a competição. Mas se todos fizessem o que eu acho que se deve fazer. Queres um bom exemplo? Dei valor à vitória do Benfica no ano passado. Se fores pesquisar o post que o Gorbyn escreveu nessa altura, verás que lhe dei os parabéns pelo facto de o Benfica ter feito, finalmente, aquilo que eu acho que se deve fazer: disputar a competição com os jogadores menos utilizados (não é preciso ir ao fundo do baú, basta jogar com os que jogam menos). Se fosse possível ganhá-la assim, também eu quereria. Ir à final depois de golear o Porto por 4-1, quando nós alinhámos com o 11 principal e eles com o Nuno, o Stepanov, o Tarik, o Farías e aqueles argentinos de terceira categoria que lá tinham, desculpa lá mas não me deu gozo absolutamente nenhum...

      Um abraço

      PS: Acabar com ela?!?!? Isso nºao disse de certeza...
      PS2: Não participar em competições organizadas pela Liga, se não me engano, dá despromoção...

      Eliminar
    2. Eu vou responder apenas a este ponto do André,

      "É que se não ambicionassem ganha-la tinham bom remédio: não jogavam. Porque é que então participam?"

      Todos os clubes inscritos na I e II liga são OBRIGADOS a participar na taça da liga. Caso não o façam pode dar despromoção.

      Eliminar
  5. Koba,

    subscrevo na íntegra todo o post. Especialmente o ponto 4 e o PS.
    Muito bem.
    um abraço


    Só uma nota para o André Raposo,

    "É que se não ambicionassem ganha-la tinham bom remédio: não jogavam. Porque é que então participam?
    tenho a certeza que esse discurso mudará quando (se) ganharem uma taça da liga. Ou pelo menos que ela não vá para o Benfica."

    http://www.tsf.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=752362

    destaco esta parte na narrativa do André:
    "tenho a certeza que esse discurso mudará quando (se) ganharem uma taça da liga."

    Foi isso que se passou, não foi? Os "jogos de enfeite e operações de cosmética" (LFV dixit) passaram a ser uma competição levada a sério, ao contrário de outros adversários (JJ dixit).

    ResponderEliminar
  6. Amigo Koba,
    até posso dar-te razão em alguns aspectos que assinalas sempre cirurgicamente e de forma inegavelmente bem estruturada, como é teu timbre. De qualquer modo o meu comentário é mais quanto ao título. Pegando nas tuas palavras, enquanto todos os clubes não levarem a taça a sério, o que inclui o nome que, por desdém (não negues), tu e os teus correligionários insistiram em baptizá-la, não podem pedir que ela seja séria. Os do porto também o fazem. Chamam-lhe a taça das cervejas... Porque razão é que à Taça de Portugal não chamam qualquer outra coisa ? de certeza que também houve (e tem havido) razões de queixa em relação aos árbitros.
    Tudo começa em nós. E nota que acho bem por exemplo que ela tenha efeitos noutras competições (europa ou supertaça).
    O principal é levá-la a sério. O que convenhamos, por umas razões e por outras, não têm sabido fazer.

    Mike Portugal

    Sobre essa nota, trata-se como é óbvio de um falso argumento. O dinheiro e prestígio (no currículo) que envolve qualquer competição é de certeza muito maior aliciante. Remeto para a nota supra. Levem-na a sério e disputem-na a doer.

    Cantinho

    epá por favor. o meu nome não é LFV. Quem me conhece sabe que sou um espírito livre (pelo menos tento). Era o que me faltava que as minhas opiniões dependessem do que um presidente (ainda que do meu clube) postulasse sobre o assunto. Esta minha posição também não é alheia ao relevo que no Benfica damos ao presidente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas, caro André, foi o que disse no anterior comentário: o Sporting sempre levou a competição a sério, eu é que "não". As aspas destinam-se ao seguinte: eu acho que é possível encarar a sério a competição e ganhá-la rodando jogadores. Como o Benfica fez no ano passado, com exceção da final (o que até dou de barato).

      O Benfica fez a meia-final do ano passado, no Dragão, com Steven Vitória, André Almeida, André Gomes, Cavaleiro, Sulejmani - achas que levou o jogo a sério ou não? Eu acho que sim, tanto que o ganhou. É possível levar a competição a sério encarando-o como ela é: no caso do Benfica, em Abril de 2014, era a quarta prioridade (havia campeonato, liga europa e Taça com FCP nas meias-finais). JJ e muito bem geriu a equipa tirando prioridade a que competição? Precisamente esta. E ganhou. Fantástico.

      Eliminar
    2. André,

      Falso argumento???
      Tu é que fizeste a pergunta. Eu limitei-me a responder com o regulamento da Liga. Não é um argumento, é um facto. O regulamento obriga a que os clubes joguem a taça da liga.

      Eliminar
    3. Mike

      numa discussão todos os elementos que se tragam (sejam saídos de regulamentos ou da simples intuição) são argumentos.
      Neste caso, facto ou não facto, tu argumentas que o regulamento proíbe.

      Eu respondo que se trata de um falso argumento, porque quem tanto desvaloriza uma competição pode sempre assumir as consequências e deixar de participar, mesmo que isso depois signifique baixar de divisão.

      joguem mas é à bola e deixem-se de lúcidos e lucílios.

      Eliminar
  7. De facto há uma enorme confusão sobre a utilização dos jogadores da equipa B, que já tinha referido em comentário anterior que não deverá ter sido considerado apesar de evidente: com 9 jogadores da equipa A nos convocados (e terão sido quase sempre 9 os convocados e pelo menos 8 os utilizados) o que se pôde constatar foi que o cumprimento da promessa da utilização de Bs e juniores foi tão pifia quanto a ameaça comunicada.

    Sugiro portanto a reformulação do presente post, com pelo menos a sugestão de que o Sporting deveria - desta feita até para não passar o ridículo de incumprir a sua própria ameaça - a utilizar maioritária ou exclusivamente os jogadores da equipa B e dos juniores nesta competição (porquanto a não constatação deste facto inquina a totalidade do exercício)

    E que os jogadores da equipa A não tenham sequer valor para os da equipa B é questão que pode ficar para segundas núpcias.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Benedito, não sejas positivista pá, o Kelsen está fora de moda :) Há que atender ao espírito do que pretendia o Sporting.

      De qualquer forma, jogaram de início Wallyson, Esgaio e Podence, entraram Sacko, Rubio e Gelson. Por outro lado, no tema "o que é A e o que é B" fica por saber se Geraldes e Rabia são A ou B.

      Last but not least: à imagem do André também gosto de pensar que tenho espírito livre. E o que eu defendo é que joguem os menos utilizados que efetivamente contem para o treinador, sejam eles A, B ou C.

      Eliminar