09/08/2014

Um de nós

Já todos nós, que seguimos bem de perto o futebol e os nossos clubes, nos imaginámos a jogar pelo emblema do nosso coração, com o estádio cheio de adeptos fervorosos, num jogo importantíssimo, a marcar o golo da vitória numa jogada de génio e a levar as bancadas à loucura. Num momento que não deixaríamos, com toda a certeza, de festejar com o estádio inteiro. Eu não sou excepção. Enquanto miúdo, era uma sequência fabulosa que me passava muitas vezes pela cabeça. Era a ideia de ser o responsável por proporcionar a milhares de adeptos como eu uma alegria sublime. Não era por dinheiro, reputação ou por vaidade. Não era interesseiro. Era genuíno. Era de coração.

O romantismo de criança já lá vai e hoje não tenho dúvidas que o futebol e os futebolistas têm tanto de romântico como uma auditoria às contas do BES. Mas há excepções. Não deixam de olhar pela sua carteira e a sua estabilidade financeira após o final da carreira mas não deixam de chegar bastante perto ou mesmo igualar o sentimento de um qualquer adepto. E isso reflecte-se na forma como sabem ler as bancadas, na forma como reagem para as bancadas e na forma como nunca, mas mesmo nunca, esquecem que o principal do clube que defendem, está nas bancadas. A minha grande excepção e ídolo de criança é Rui Costa. Não deixou de fazer grandes contratos e a apenas voltar ao Benfica no final da carreira mas acho que ninguém duvida que o sentimento em relação ao clube está acima de qualquer suspeita. Depois há os estrangeiros que chegam e encarnam completamente a mística. Podia começar por Mozer, passar por Javi Garcia ou David Luiz e terminar no Salvio. Tenho a certeza que eles partilham dos sentimentos dos adeptos e de que as vitórias e derrotas não são apenas estatísticas nos seus curriculums.

Agora imaginem que tinham um jogador que tinha feito a sua formação no clube, que estava em vias de chegar à equipa principal e que era a principal promessa da formação do clube, talvez dos últimos 15 anos. E que ainda por cima era um adepto fiel desse clube. Que quando já jogava na equipa B e era a estrela da equipa, não deixava de fazer longas viagens para ir para a bancada dar o seu apoio como qualquer um de nós. Que o seu sonho era tão simplesmente jogar pela equipa principal no seu estádio. No fundo não deixava de ser como qualquer um de nós como disse no início, mas que provavelmente imaginava a tal sequência nos seus sonhos mil vezes mais do que nós, já que estava bastante mais perto da realidade e assim não ia perdendo força ao longo dos anos até por fim desaparecer como aconteceu comigo. Pois bem, o clube simplesmente acabou com o sonho desse jogador. 

Como tinha referido no último post e que parece confirmar-se na imprensa deste fim de semana, os três miúdos não foram emprestados mas simplesmente vendidos a um fundo e agora colocados por Jorge Mendes. Afinal, nenhum jogador que vai apenas rodar para outro clube diz como Cavaleiro "Se Deus quiser, um até já" (afinal bastaria que um Jesus quisesse) ou como diz Bernardo "Espero muito sinceramente que não seja uma despedida para sempre"

Mas para mim, o que mais me revolta é ler a seguinte frase: "um dia espero ainda poder concretizar um dos meus sonhos de criança: jogar no ESTADIO DA LUZ com a camisola do BENFICA". Desculpa Bernardo. Como adepto, tenho vergonha que o meu clube te roube o sonho assim, sem o mínimo de vergonha e de forma dissimulada. E muita pena de não ter a oportunidade de te aplaudir desde o Terceiro Anel quando cumprisses o teu sonho. Mas o futebol dá muitas voltas e acho que os adeptos não se vão esquecer. Ainda vais ter a oportunidade de ser aplaudido pelo Estádio da Luz. Se não for com a águia ao peito, será com outro qualquer emblema, mas serás com toda a certeza aplaudido. Agora faz-nos um favor a todos e transforma-te no grande jogador que todos queríamos e que continuamos a querer.   

Estou ansioso pela entrevista de quinta-feira.




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