15/05/2014

Quatro fatores decisivos no desempate por penalties

Este é longo e já estava na forja há algum tempo. Vou aproveitar o facto de o Gorbyn estar de regresso de Turim para o postar porque o tema foi discutido à exaustão após o jogo de ontem.

Reza assim:

Penalties e desempates por penalties são duas realidades completamente distintas. A carga emocional do penalty durante um jogo até pode ser equivalente à do desempate por penalties (de qualquer forma, apenas em casos extremos). Mas vejo pelo menos quatro fatores de diferenciação que podem efetivamente ser decisivos num desempate. Ontem, a meu ver, foram-no.

1º - O papel psicológico do GR

Compreende-se que num só penalty, durante um jogo, um GR tente adivinhar o lado para onde vai a bola. Quem marca, em regra, é o melhor marcador de penalties do adversário. Que sabe que tem que contar com o facto de o GR adversário o conhecer. E idealmente deve bater de forma a que o GR não chegue à bola, mesmo que espere (não foi durante o jogo, mas o penalty de ontem de Bacca é um bom exemplo).

Veja-se o exemplo de Adrien, no Restelo e em casa com o Estoril. No primeiro caso, Adrien enganou Matt Jones batendo para o lado que usa menos (ter-se-á apercebido que alguém foi dizer a Jones como ele andava a bater os penalties); ainda com essa referência na memória, Adrien hesitou em usar o mesmo truque contra o Estoril. Jones arriscou o lado habitual e Adrien enganou-o; já Vagner adivinhou o lado.

De todo o modo, Adrien não é um grande marcador de penalties, como o não era Matias Fernandez, que em 90% das ocasiões arriscava o mesmo lado. Um grande marcador de penalties, reconheço-o, era aquele pequenote formado no Sporting e que depois jogou no Benfica. Decidia onde colocar a bola no último momento, depois de o GR denunciar a queda. E colocava a bola bem junto ao poste, o que impedia o GR de lá chegar mesmo que só se lançasse depois de o remate sair (o que ocorre poucas vezes durante o jogo). De que me lembre, terá falhado um penalty em toda a carreira.

Num desempate por penalties, o GR não deve arriscar o lado, deve esperar até ao último momento para cair. Alguém, em 5, poderá bater não tão colocado ou denunciar o remate. Adivinhar o lado é lotaria, de facto. Esperar até ao último momento é um jogo psicológico com o qual o marcador do penalty lida mal. Porque naquele momento, com as pernas a tremer, depois daquele terrível percurso desde o meio-campo, depois de 120 minutos, com todos os olhos postos nele, a única coisa que lhe pode dar consolo é ver o GR a cair para um lado, oferecendo o lado contrário para o remate.

Repare-se que um GR que defende 2 penalties em 5 fez muito bem o seu trabalho. Se esses 2 forem marcados pelos jogadores que são a 4ª e 5ª opção para marcar durante um jogo, ninguém se vai lembrar. Tal como ninguém se vai lembrar, nem interessa, que esses jogadores, durante o jogo, nem se aproximariam da marca de penalty.

2º - A ratice do GR

Não, não me refiro ao condicionamento psicológico de chatear o árbitro e o adversário porque a bola não está na marca. Com isso lidam bem eles, que já têm todos os motivos e mais alguns para ter as pernas a tremer. Refiro-me ao encurtar do ângulo (com 1 ou 2 passos à frente no momento do remate), de legalidade muito duvidosa, mas que nenhum árbitro assinala porque, sub-conscientemente, tende a proteger o elo mais desfavorecido da equação (supostamente o GR, o que é mentira...) e, já conscientemente, não tem coragem de anular o lance após a defesa.

Isto não é bem assim num penalty durante o jogo. Já vi dezenas de penalties repetidos durante o jogo, só vi um penalty repetido num desempate (um dos que Ricardo acabou por defender em 2006 e, ainda assim, não foi propriamente uma repetição porque o árbitro nem tinha apitado). Verdade seja dita que, normalmente, são repetidos por invasão da área, algo que não é aplicável ao desempate por penalties. Mas, psicologicamente, na cabeça do árbitro está o seguinte: no penalty durante o jogo, tem que controlar a legalidade do lance; no desempate por penalties, só tem que apitar e ver no que dá. Porque também o árbitro está esgotado, é bom não esquecer.

O jovem GR Oblak é o melhor que vejo no Benfica desde Robert Enke e provavelmente é superior a este último. É frio, calmo, seguro e comete poucos erros na decisão (ontem cometeu um, mas não interessa agora) e no posicionamento (um erro também, no mesmo lance), os dois fatores mais relevantes num GR. Mas a sua inexperiência (terá sido o primeiro desempate por penalties?) levou-o a ficar preso à linha, numa interpretação literal das leis do jogo. Resultado: no lance do penalty de Coke, em que esperou até ao último segundo, ainda toca na bola mas não consegue defendê-la. Um passinho à frente e a bola era defendida... Faltou alguma "ratice". Creio que Artur, pior GR mas mais experiente, ontem teria sido mais útil ao minuto 118 do que Ivan Cavaleiro (esta é só deboche, não liguem...).

3º - A marcação do penalty

Em regra, o jogador, durante o jogo, deve esperar pelo GR. Se o GR cai, bola no outro lado. Um clássico.

No desempate creio que isto não faz sentido. Até porque, se do outro lado o GR souber o que está a fazer, aplica os princípios acima: espera e encurta o ângulo. Os jogadores mais rotinados a bater penalties escolhem um lado, colocam a bola, rematam em força e nem olham para o GR, porque sabem que naquelas circunstâncias há muitos GR que esperam até ao limite. Não hesitam. O jogador menos rotinado dá ao GR o papel que ele quer ter de elemento decisivo. Espera, hesita, olha para o GR e fá-lo perceber que espera o seu movimento. O GR espera e só cai quando vê a bola partir. O penalty mal colocado ou com pouca força (ou ambos no mesmo) é defendido.

De todos os penalties ontem marcados pelos jogadores do Sevilla, só o de Coke era defensável (mesmo assim, dependeria do tal passinho em frente e seria uma grande defesa). Os restantes não tinham defesa possível. E em dois deles Oblak até adivinhou o lado. Os jogadores do Sevilla, tal como Luisão, não hesitaram. Escolheram um lado e partiram decididos. Nessa circunstância, o GR é tentado a abandonar a sua postura de espera (não deveria, mas aquilo é para seres humanos e não para máquinas): vê que o jogador não vai esperar por ele e vai ter mesmo que arriscar um lado. Resultado: Beto, um GR que sabe esperar, foi "enganado" duas vezes. Este tipo de marcador até pode arriscar o meio da baliza porque em 99% dos casos o GR cai.

4º - O estatuto do marcador de penalties

Quem marca durante o jogo é o jogador que reúna a melhor "média" na avaliação das seguintes características (por ordem de importância na minha modesta opinião): frieza, confiança, colocação do remate, noção do tempo de queda do GR, estatuto do jogador, potência do remate.

A frieza mantém-se como a principal característica seja no jogo ou no desempate e a confiança também é relevante. Mas no desempate o estatuto ultrapassa os demais fatores (e a noção do tempo de queda do GR desaparece da equação - porque o jogador deve marcar o penalty sem contar com ela).

Como dizia o grande fluminense Nelson Rodrigues, "penalty é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube". Metaforicamente, concordo!

A relevância do estatuto do jogador percebe-se bem com um exemplo simples: Messi pode ser o primeiro marcador de uma série de 5, no Barcelona, e até pode falhar; não o pode fazer pela seleção argentina (aos que dizem que ultrapassou o estatuto de Maradona: este último podia falhar penalties no desempate onde quisesse - e falhou mesmo). O estatuto é algo que permite ao jogador ir um nadinha mais descansado naquele percurso do meio-campo até à marca de penalty.

O jogador que já deu tudo, um Luisão, um Garay, um Enzo sabe que, apesar de tudo, pode falhar; um Montero, um William, um Jefferson podem falhar. Um Carrillo, um André Martins, um Rojo não podem falhar. E os jogadores sabem-no e sentem-no. O William até pode marcar "pior" do que o Carrillo; mas de acordo com a lógica descrita acima, confiaria 100 vezes no William para um desempate antes de dar a decisão ao Carrillo. Porque até os espíritos à volta do estádio ficariam mais descansados...

JJ sabe isto e ontem, manifestamente, tinha as suas opções muito limitadas. JJ nunca arriscaria André Gomes, André Almeida ou Cavaleiro para os primeiros 5. Não tinha Enzo, teve que tirar Siqueira e ficou com a tarefa muito dificultada.

Ainda assim, creio que Cardozo não se devia ter aproximado da marca de penalty. Pelas mesmas razões que disse, há 2 anos, que Moutinho nunca deveria ter sido o primeiro marcador no desempate com a Espanha. Um jogador que falha insistentemente penalties no jogo "jogado" (em que faz muito mais sentido esperar pela queda do GR) dificilmente tem estaleca para um momento daqueles, em que o GR vai jogar até ao último segundo com a tensão do jogador. Se fosse o Cardozo de 2008 ou 2009 que batia em força e colocado (muito embora também falhasse alguns) fazia sentido incluir. Este, que até mudou a forma de marcar para ser mais eficaz nos penalties... do jogo jogado, parece-me que não.

Sei que Garay falhou no Dragão recentemente, mas Garay é Garay (JJ pode ter sido confrontado com a recusa do jogador...). Lima deveria ter sido o primeiro, como foi; Luisão tanto poderia ter batido mais cedo como sido deixado para último; a seguir Rodrigo, percebo (muito embora o histórico nos diga que falhou recentemente um penalty, é um jogador que "pode" falhar); depois Garay; Ruben Amorim também podia bater. Mas reconheço que era complicado, até nesse aspeto as ausências e vicissitudes do jogo foram desfavoráveis ao Benfica.

No Sevilla, só Coke saiu das previsões, porque não conheço suficientemente o seu perfil, o seu estatuto no plantel e o seu histórico com penalties. Os outros, estando em condições (admiti que Bacca não batesse porque estava a dar as últimas), percebi. E o último, obviamente, seria Rakitic.

Tudo isto dito: sim, também é uma questão de sorte. Em 2004, no Portugal-Inglaterra, foi uma questão de sorte. Em 2006, noutro Portugal-Inglaterra, não teve nada a ver com sorte. Ora revejam esses penalties, releiam se tiverem paciência e digam lá que não tenho razão...

5 comentários:

  1. Piada de um dia só: hoje, 15 de maio


    Benfiquista A....
    - Faz hoje um ano que o slb perdeu a final da liga Europa.

    Benfiquista B
    - PARECE QUE FOI ONTEM

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  2. Excelente post. Desmistificando a tese da "lotaria". Muito bem, merecia melhor discussão, que eu não infelizmente não consigo porque nada posso acrescentar.

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  3. Obrigado Duarte

    Acrescento o seguinte: a propósito do ponto 2, acabei de falar com um árbitro que me explicou outro motivo para os árbitros nunca mandarem repetir um penalty no desempate. É que o rigor de mandar repetir um penalty durante um jogo aplica-se, em princípio, a um penalty; o rigor num desempate aplicar-se-ia a 10 penalties.

    A partir do momento em que mandasse repetir o do Beto (que foi apenas o 3º penalty no total), teria que ser escrupuloso em todos os demais penalties. Atrairia o foco para ele e passaríamos a discutir os centímetros que os GRs podem avançar nos penalties.

    Percebo a revolta dos benfiquistas, mas ninguém manda repetir aqueles penalties...

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  4. Ontem, no desempate por penalidades no Holanda-Costa Rica, recordei-me deste post e observei com ironia estupefacta a “acção desportiva” do Tim Krul e dos jogadores costariquenhos. Deliciosas coincidências! Científico, Koba! ;)

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  5. Ontem, no desempate por penalidades no Holanda-Costa Rica, recordei-me deste post e observei com ironia estupefacta a “acção desportiva” do Tim Krul e dos jogadores costariquenhos. Deliciosas coincidências! Científico, Koba! ;)

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