12/05/2014

"Mas é que estava-se mesmo a ver"...

A minha mãe percebe 0 de futebol. Quando estou em casa dos meus pais, só o facto de ver que estamos na sala a ver futebol empurra-a para o escritório, onde fecha a porta para não ter que nos ouvir, sequer, a comentar uma jogada ou festejar um golo. Fá-los nos jogos do Sporting e mesmo nos da seleção. Não tanto pelo jogo em si, que já seria suficiente para a irritar, mas essencialmente - diz a minha mãe - para não ter que nos ouvir.

Uma vez ou outra lá nos ouve. E diz a minha mãe, que não é sportinguista, que o Sporting é um "clube de agoirentos". "Vocês puxam tanto o azar, que ele lá acaba por vir", diz a minha mãe. "Estão sempre a dizer «estava-se mesmo a ver», tantos milhões a desejar que acaba por acontecer".

De certa forma concordo com a minha mãe. Estamos todos tão traumatizados com derrotas inesperadas, golos nos últimos minutos e campanhas europeias desastrosas, que acabamos por ser pessimistas. Duvido é que estejamos a atrair o azar: estamos, na realidade, a ver o que aí vem, porque já o vimos vezes demais. Não consigo explicar isto à minha mãe. Mas desta vez a minha mãe vai perceber.

É que andámos todos, neste final de época, a "fingir" que nada estava a acontecer. Digo "fingir" não por termos tapado o sol com a peneira (aqui e noutros blogs já se diz, de há muito, que jogamos pouco), mas apenas porque não entrámos na onda masoquista que, reconheço, habitualmente nos acompanha (basta ver que a meio da época passada muitos de nós acreditavam que era possível descer de divisão - eu incluído). Ninguém escreveu a verdade toda, ninguém disse tudo o que pensava, ninguém quis "atrair o azar".

Mas, lá está, estava-se mesmo a ver que ia dar nisto, mais tarde ou mais cedo. A descompressão não explica tudo porque como diz, e bem, Leonardo Jardim, aqueles jogadores representam o Sporting. E apesar de tudo estava em causa um objetivo importante: terminar sem derrotas em casa.

Claro que teria que acontecer, um dia, o Jardim tirar o Carrillo antes do intervalo; teria que acontecer, um dia, o Adrien falhar um penalty; teria que acontecer, um dia, perder em casa. E aconteceu, tudo no mesmo dia. Aquilo que agora sabem os adeptos, os jogadores, os treinadores e os dirigentes é que com derrotas, mesmo a feijões, vem tudo o resto. Desde prestações tristes nas conferências de imprensa, a desencontros de posições em que todos passam a reparar. É fácil ir lá depois de ganhar, mesmo jogando mal. Difícil é lá ir quando se perde, mesmo jogando bem (e nem foi o caso).

No demais, digo apenas duas coisas:

- o Sporting tem que jogar muito mais do que jogou ontem... e nos últimos 3/4 meses, não foi só ontem. Preferia que o fizesse com Jardim, pelas razões referidas no post que abaixo linko;

- leiam AQUI tudo o que penso sobre tudo isto e tinha vontade de escrever. Não escrevo porque alguém teve forças para o fazer, e muito bem, antes de mim. À imagem dos que ontem se apresentaram em campo, também eu por vezes cedo à preguiça.

PS: O Marco Silva é um excelente treinador, sem dúvida o melhor em Portugal abaixo dos 3 grandes.

9 comentários:

  1. Como de costuma dizer: "Sem tirar nem pôr"... por isso já comentei hoje na Tasca que aos 5 minutos de jogo já estava arrependido de ter ido e de ter levado o meu filho, logo ontem... é que já se estava mesmo a ver o que ia acontecer ontem...ontem era o dia!

    SL

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  2. Lanterna,
    Quanto a ontem, ainda tenho um problema adicional: é que ao contrário das nossas claques, eu não "quero ir à bola ao Domingo à tarde". O calor que rapo no setor onde vejo os jogos, com o sol a bater de frente... Sei que é uma posição muito egoísta, mas também o são todos os argumentos dos que preferem que joguemos à tarde (desde logo o levar filhos, como é o seu caso e um dia será o meu!).
    E do ponto de vista dos jogadores, então, confesso que não vejo mesmo vantagem nenhuma.
    SL

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  3. eheh Essa ligação do Sporting ao azar... genial, quantos vezes já não pensei no mesmo (e ouvi a minha mãe a dizer o mesmo!)? Grande post. :)

    Quanto ao Jardim, não 'tou preocupado. Não sei ainda explicar porquê, mas não estou. O que, atendendo ao natural pessimismo/realismo dos Sportinguistas, só posso concluir que é um bom sinal. Espero.

    SL

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  4. Captomente,

    A ausência de preocupação aplica-se a ambos os cenários (ficar ou sair)?

    Sou sincero: prefiro que ele fique; mas fico preocupado com alguns sinais resultantes das últimas conferências de imprensa, em particular a de antevisão do jogo. O LJ é sempre muito discreto a contradizer o presidente, creio que na 6ª feira a coisa passou um bocadinho os limites. Parecia que se estava a defender...

    Também fico preocupado se sair. Não tanto pela saída, mas pelo substituto.

    Em suma, vou passar uma pré-temporada de grande ansiedade...

    SL

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  5. Também tenho essa sensação... em pequenas coisas o LJ tem-me desiludido um pouco (bastante ontem).

    Por outro lado se ele saí será que isso significa que vamos andar para trás?

    Quero acreditar que uma boa fatia do mérito desta época se deve à estrutura que se conseguiu montar.

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  6. Koba, estava-me a referir, caso ele saia. Não estou preocupado. Acredito até que, se a escolha for bem feita (do novo treinador), até poderá acontecer com isso um "push" adicional às ambições da equipa/clube. Mas se ele continuar, já o disse antes, não exijo o título (será do Benfica, caso não alterem muito o triângulo treinador-jogadores-€€) e antevejo uma luta com o Porto pelo 2º lugar, portanto... direi que no início da época anterior estava (muito) mais preocupado.

    SL

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  7. Koba,

    Já vimos e vivemos tanta coisa que este filme é só mais uma sequela.
    Schmeichel disse um dia que a direcção do Sporting, logo após ter acabado de vencer o campeonato, reuniu-se numa sala e carregou no botão de "auto-destruição", arrasando com tudo o que tinha levado a equipa a ser campeã (saiu Delfim, Ducher, Vidigal, DeFranceschi, Ayew), Duque saiu em litígio com Roquette e Dias da Cunha, Inácio saiu antes do Natal e contratou-se mais de uma dezena de jogadores (Kirovski, Hugo, Mahon, Bruno Caires, Babb, Dimas, Rodrigo Fabri, Sá Pinto, João Pinto, Paulo Bento e depois Tello, Spehar e outro chileno que não me recordo o nome). Claro que isto para alguém como o dinamarquês, campeão da Europa em clubes e selecção e campeão de Inglaterra (e Portugal), era tudo muito estranho.
    Infelizmente, para nós não. É mato, o dia a dia. É o Sporting. É o "estava-se mesmo a ver".
    Vamos dar, novamente, "mais uma voltinha, mais uma viagem".
    Lá vem mais uma crise, dúvidas, ansiedades e uma clara certeza. Se não eramos candidatos à Liga na próxima época, agora ainda menos (muito menos). Mais um treinador (que nunca será aquele que queremos - e eu ainda quero Jardim), mais um projecto, mais um ano ZERO.
    Já cansa. Fartos de ZEROS estamos nós.

    ps: esta semana li uma entrevista a Adrien onde se dizia que não falhava penaltys, e que em Alvalade só marcava naquela baliza, etc. Pois é... é o Sporting
    ps2: obrigado pela referência ao meu post e pelas palavras que lá deixaste; quando saí do estádio pensei fazer um post só com a foto do Jardim e um título vago, tipo: "Obrigado"; No fundo percebia-se que aquele jogo marcou o fim de algo. Veremos se foi só a temporada oficial de 2013/2014. Não queria escrever mais pois só me apetecia destilar veneno. Mas também não se pode "fingir" que nada se está a passar, como bem dizes. Vamos ver onde isto vai dar...
    ps3: e acho que este debate, posts, comentários, conversas, etc, só está ajudar o Jardim naquilo que ele, verdadeiramente, pretende: sair do Sporting (sem que ninguém o lamente). É pena.

    abraço

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  8. Cantinho,

    Mas vamos parar um bocadinho para pensar... então mas é o Sporting que não quer o LJ ou é este que quer sair?

    E o que fazer? Manter o treinador contrariado?

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  9. Captomente,

    Percebido. Não diria que concordo pois trata-de de um estado de espírito, diria antes que, pela minha parte, me estou a mentalizar para os aspetos positivos caso se verifique a saída. E nesse sentido vejo mais (ou espero mais, creio que será mais correto) um push no nosso futebol (equipa) do que na nossa ambição (clube). Porque, no que respeita à ambição, candidatos, explícitos ou implícitos, somos sempre - a grandeza e o impacto mediático do clube tratam disso, era até dispensável que o presidente do clube fosse por esse caminho de deslumbre comunicacional. Favoritos é que não seremos nos anos mais próximos. Já no futebol, creio que é possível jogar mais do que jogámos nesta segunda volta, com estes mesmos jogadores. Esperava que esse push acontecesse com o próprio Jardim, mas pode ser que aconteça com outro treinador. O problema é o "pode ser que"...

    O que me preocupa, por outro lado, quer Jardim fique quer saia são as constantes contradições entre treinador e presidente. Parece-me evidente que um discurso assumido de candidatura ao título tinha que ser conversado antes com o treinador (ou ser moderado com o twist do não favoritismo). Veremos o que vai suceder se o treinador for outro.

    Cantinho/FCS,

    Percebo ambas as posições, mas tendo a concordar que treinadores contrariados não vale a pena. Além de que o ambiente não deve estar fantástico, a avaliar pelas últimas conferências de imprensa. Convém é perceber que não é Jardim o único responsável.

    Cantinho, se o que pretende o Jardim, verdadeiramente, é sair do Sporting, há pouco que possamos fazer para o impedir. "Poderíamos" ter feito uma coisa, isso poderíamos: acautelar um pouco melhor os timings dos lançamentos de livros em que se elogiam presidentes que não cedem nem sob tortura do sono. Para evitar situações em que, na semana seguinte, têm mesmo que... ceder à saída de um treinador. Porque o treinador, tanto quanto sei, não dá para "por a cortar a relva em Alcochete", como se defende tantas vezes por aí. E essa entrevista do Adrien é mais um exemplo de mau timing - se a tivesse dado daqui a uma semana, ninguém se lembraria se falhasse um penalty na próxima época. É o tal deslumbre comunicacional... A corrigir.

    Quanto ao ano zero, percebo o ponto mas futebolisticamente ando a convencer-me que não será outro ano zero. A segunda volta foi pobre em termos de nota artística (como diria o nosso consócio JJ) mas há princípios de jogo que estão lá. Faltará um futebol diferente, que tire mais rendimento de jogadores como André Martins, Mané e até Carrillo (não é extremo de ir à linha e centrar...) e outros que não conheço bem e de quem se fala, como o Chaby. Mas não está tudo por fazer, este ano estava. O pouco que havia (e já era muito, face às circunstâncias) foi o que o Jesualdo foi conseguindo incutir, na época passada, com a competição a decorrer e no meio de uma revolução no plantel (e no clube, já agora). Este ano creio que há uma base de trabalho que pode ser desenvolvida. A minha esperança era (é?) que fosse desenvolvida por... Leonardo Jardim. Obviamente tudo ficaria mais facilitado. Nesse sentido, claro que lamento a sua saída. O que digo é que pode até outro treinador, aproveitando essas bases, fazer algo mais. Mas se calhar é já o meu processo de mentalização a falar...

    Em suma: não ceder ao deslumbre comunicacional, por os pés na terra novamente, construir uma boa equipa, aproveitar o trabalho já feito e corrigir os erros deste ano. Se possível, com Jardim. Se for sem Jardim, então que seja com o Marco Silva. Se o Marco Silva for para o Benfica, não gostaria de estar no lugar do BC...

    SL

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