18/03/2014

Sete dias em São Tomé


Sete dias em São Tomé, em cenários idílicos como o da foto, chegaram para recuperar as forças mas não fizeram esquecer o futebol. Por três motivos essencialmente:
- porque o futebol português está bem vivo em São Tomé, em cada rádio, em cada tv, em cada adepto;
- porque hoje em dia as tecnologias, mesmo nos confins da linha do Equador, permitem saber ao minuto o que se passa em Portugal (e não só);
- porque o facto de andarmos lá por cima na tabela leva a que procuremos saber o que anda a fazer o Sporting, mesmo depois de um dia passado entre a Praia Piscina e a Roça de São João de Angolares.

Assim, soube de imediato por um fiel ouvinte da rádio o resultado do Sporting em Setúbal. 2-2. Um insuspeito sportinguista (no sentido em que normalmente vê tudo a verde e branco) deu-me conta do seguinte:
- foi-nos mal anulado um golo, mas marcámos o primeiro golo em fora-de-jogo;
- o nosso penalty que deu o 2-1 foi forçado;
- o penalty que deu o 2-2 ao Setúbal foi ainda mais forçado.

Até agora, acreditem, não vi uma só imagem do jogo. Mas confiando no relato de um sportinguista com lentes verde e brancas, tenho que vos dizer que não percebo o motivo de tanta polémica. Caso ainda entendam pertinente, digam de V. justiça na caixa de comentários.

O que vi, isso sim, foi um clássico muito bem conseguido frente ao FCP. No conjunto dos 90 minutos, fomos efetivamente melhores. E não concordo absolutamente nada com a análise dos portistas de que a primeira parte foi deles e a segunda foi nossa. Nada disso. A primeira parte foi dividida e a segunda também equilibrada, embora com mais domínio nosso (até porque marcámos relativamente cedo).

Na primeira parte, o Sporting e o FCP foram essencialmente separados por dois fatores: (i) Quaresma deixado permanentemente no 1x1 com Cedric (se repararem, na segunda parte Cedric tinha sempre alguém no apoio) e (ii) incapacidade nossa de fazer o último passe em 3 ou 4 lances de desequilíbrio pelas alas do FCP (Danilo, em especial, resolveu explicar porque é que nunca será DD da seleção brasileira). Ou seja, se contabilizarmos as oportunidades reais de golo, efetivamente temos 3 para o FCP e nenhuma para o Sporting. Mas das 3 do FCP, 2 são geradas por lances individuais de Quaresma; e os tais 3 ou 4 lances que tivemos (com extremos ou laterais completamente isolados nos flancos) foram sendo concluídos com passes de má qualidade. Isso, a meu ver, não determina que o FCP foi melhor - apenas que, como todos já sabemos, tem executantes de melhor qualidade. Aliás, se considerarmos a capacidade das duas equipas de construir jogo, vemos que o FCP não conseguia sair a jogar (perdeu inúmeras bolas ainda na defesa) e que a sua pressão na defesa do Sporting (que sente grandes dificuldades para sair a jogar quando é pressionada) foi quase inofensiva.

Na segunda parte, entrámos muito bem e fizemos o golo, depois controlámos mas comprovámos uma vez mais que somos talvez a pior equipa da Liga a jogar em contra-ataque. O Benfica, contra o FCP de Domingo, teria provavelmente goleado, tantos foram os lances de vantagem numérica desperdiçados (alguns deles pelo enorme William, que tem ainda que melhorar a saída de bola nestas situações).

O que mais supreendeu foi a total descaracterização deste FCP: qualquer FCP da década de 90, daqueles que tinham Bandeirinhas, Semedos e Vlks, tinha forçado o Sporting a meia-hora de sofrimento; este FCP, com jogadores de grande categoria como Alex Sandro, Fernando, Jackson, mesmo Quaresma, assustou apenas num momento, numa enorme fífia do Rui Patrício (jogo muito inseguro...). Pinto da Costa foi permitindo a descaracterização do FCP e os últimos dois títulos, caídos do céu, disfarçaram os seus erros. Houve aquele momento-chave da contratação de Lucho (que na altura considerei um disparate do ponto de vista de gestão desportiva, mas hoje reconheço que foi efetivamente uma jogada essencial) mas agora nem Lucho há. E é hoje nítido que faltam referências a este FCP, faltam líderes "à Porto", faltam aqueles jogadores que nós (adversários) detestamos (os Rodolfos, os Andrés, os Paulinhos Santos, os Jorges Costas) mas que são essenciais para a tal mística portista que fez do FCP o que ele é hoje

Quanto à arbitragem, o FCP tem tanto ainda para ser prejudicado para compensar os últimos 30 anos que nem me apetece falar. Mas queria dizer o seguinte:
- para mim, o lance do Cedric sobre o Jackson é de facto penalty;
- no lance do golo do André Martins, percebo que BC tenha assumido o erro a nosso favor para não ficar mal na fotografia, porque efetivamente parece haver fora-de-jogo. Mas eu, por acaso, entendo que é daqueles lances em que o fiscal-de-linha se limitou a aplicar o princípio de que, na dúvida, se beneficia quem ataca. Ainda não ouvi ninguém dizer isto e acho que sei porquê: é que no momento em que a SportTV pára o lance, já a bola saiu do pé do William! Se o lance for parado uns milésimos de segundo antes, com a bola no pé do William, o André está, se tanto, 1 cm fora-de-jogo.
- a expulsão do Fernando é um perfeito disparate, é claramente amarelo.

Nota final para Slimani, que fez a vida negra aos centrais do FCP. Já merecia ser titular há mais tempo. Por muito que Montero seja importante no jogo da equipa, estava a eternizar-se no lugar, como aqui fui dizendo (um bocadinho contra a corrente...).

Temos 5 pontos para gerir e um calendário mais complicado do que o do FCP, o segundo lugar está longe de estar assegurado. Quanto ao título, está entregue e bem entregue - o Benfica tem o melhor plantel, acabou por conseguir formar a melhor equipa e neste momento da época joga indiscutivelmente o melhor futebol. É justo.

PS: Ainda sobre São Tomé - incrível verificar como o Sporting não existe. 90% Benfica, 10% FCP, não conheci uma só alminha que me dissesse que era do Sporting ou sequer que conhecia alguém que fosse. Não acreditava neste tipo de relato de quem vive em São Tomé, mas vi com os meus próprios olhos. O Sporting tem muito trabalho a fazer para estar presente nestes mercados...

1 comentário:

  1. Meu caro,
    O que não falta em São Tomé são adeptos do Sporting. Aliás, os clubes de maior sucesso nos últimos anos no país são o Sporting de Praia Cruz e o Sporting do Príncipe em futebol sénior e o Sporting de São Tomé no futebol de formação que congregam gente apaixonada pelo SCP.
    Se não encontrou adeptos do Sporting em São Tomé é porque não procurou muito por eles e ainda foi enganado por quem lhe disse que não conhecia ninguém do grande SCP.
    Saudações leoninas!

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