20/01/2014

Arouca, Deslizes & Lesões, Relvados e Arbitragem


Grande vitória em Arouca.

"Grande vitória", perguntam vocês? "Mas este tipo enlouqueceu? Ganhámos em Arouca pela margem  mínima..."

Mas foi mesmo uma grande vitória, por todas as circunstâncias que rodearam o jogo:

1. Equipa do Arouca.

Seria injusto começar pelo relvado ou pelo tempo e não pela excelente prestação do Arouca. Jardim disse, no final, que tinha avisado os jogadores que não seria possível jogar o nosso futebol habitual. Mas Pedro Emanuel, que conhece melhor o campo do que nós, sabia que nos primeiros 20-30 minutos o relvado ainda aguentaria. Por isso, pressão forte na equipa do Sporting, futebol pelo chão nesses primeiros minutos de jogo e o Sporting completamente dominado por uma equipa do meio da tabela para baixo, de uma forma que ainda não tinha visto esta época. Assinale-se, ainda, que o Arouca tem bons jogadores: David Simão, André Claro e mesmo Bruno Amaro (este mais na lógica do "para o que é, bacalhau basta") são jogadores que merecem a I Liga, claramente. E Emanuel aproveita-os para fazerem o que sabem e não para o anti-jogo ou o anti-futebol. Mesmo na segunda parte, o jogo nunca esteve ganho porque o Arouca também o queria ganhar. Parabéns ao Arouca, mostrou que merece ficar na I Liga, claramente. E André Claro, em particular, é jogador para muito mais do que o Arouca.

2. Deslizes & Lesões (do Sporting)

Depois, há que referir que o golo do Arouca, sem tirar qualquer mérito ao André Claro (muito boa visão no passe), ao Roberto (boa assistência, a aproveitar por qualquer dos colegas), ao Serginho (a simulação deixou a defesa e o Patrício às aranhas) e ao Bruno Amaro (muita calma na finalização), começa com duas ofertas do Sporting, uma do Piris (jogo assim-assim) e outra do Maurício (jogo de grande coragem, mas com este lapso que deu num golo) e termina com um William perdido (onde estava? E a pergunta é mesmo sincera, não meramente retórica) e um Adrien que chega atrasado. Outros "deslizes": o erro de casting com Capel naquele relvado e a exibição fraquinha de Montero (mais uma...). Atenção ao colombiano, precisa urgentemente de marcar para recuperar a confiança mas, mais importante do que isso, ultimamente tem sido (regularmente) o jogador da equipa com exibições menos conseguidas...

Acresce que as dificuldades físicas de Jefferson e Maurício foram notórias ao longo do jogo, sendo que Slimani, conforme Jardim confirmou no final, só estava disponível para 30 minutos. E o campo não estava propriamente ideal para jogadores com dificuldades físicas.

Ainda, e também relevante, o disparate do Marcos Rojo ao fazer-se expulsar 5/10 minutos depois de termos ficado em superioridade numérica. Mais um fator a dificultar a nossa vida.

3. Relvados

São vários os relvados que ficam impraticáveis nesta altura do ano e o nosso não é exceção (segundo li por aí, mesmo o da Luz não é exceção). O do Arouca estava terrível, na segunda parte era confrangedor pensar que qualquer remate frontal podia dar golo se a bola ressaltasse naquela zona de terra em frente às balizas. Eu só vejo isto noutros campeonatos europeus quando há verdadeiros dilúvios (à imagem do que sucedeu há dias no Dragão, que ainda vai sendo o melhor relvado em Portugal). Em Portugal, uma chuvada dá cabo de um jogo de futebol. Não seria possível fiscalizar isto e impor regras mínimas para participar na I Liga (já nem digo na II)? Contra mim falo, se o nosso relvado não cumprir os critérios, que seja outro relvado.

4. Arbitragem

Não, não vou criticar a arbitragem. Sinceramente, acho que o Cosme Machado fez o mais importante, para mim, num árbitro de futebol: manteve o critério sempre igual e dentro de limites aceitáveis (excessivamente rigorosos, mas nada de escandaloso). Por isso critiquei acima o Marcos Rojo: ainda que se diga que a falta do Rojo não é para amarelo, um jogador profissional tem obrigação de perceber que vai levar o amarelo em função do que foi o critério do árbitro 5/10 minutos antes (o segundo amarelo do Tinoco foi forçado, claro que foi!).

Face às condições do terreno, o Cosme Machado fez, a meu ver, a arbitragem possível, dentro de um critério que ele entendeu como o mais adequado ao jogo. De que me lembre, não cometeu um só erro grave, nem um. O critério foi sendo equilibrado, o relvado nunca inclinou. Cometeu diversos erros mas, lá está, com um critério sempre idêntico.

Então porque me refiro à arbitragem como tendo dificultado a nossa vida? Simplesmente porque o critério escolhido, que até aceito, foi o de parar o jogo por tudo e por nada - o que até deu jeito, na maioria das ocasiões, na parte final do jogo, mas foi irritando, e muito, até chegarmos à vantagem.

***

Isto dito, grandes jogadores e grande Jardim a contrariar tudo isto. Destaco a resistência de Maurício, o coração de Adrien, a alma de André Martins (impressionante demonstração de força num jogo em que comecei a pedir a sua saída ao minuto 50 e percebi que estava errado!), o sacrifício defensivo de Wilson e a eficácia de Slimani. Quanto a Jardim, corrigiu o erro de casting Capel e quando tirou William ganhou o jogo, contra tudo e contra todos (eu incluído - fiquei em casa a perguntar aos gritos "mas o Martins vai continuar neste relvado?!").

Uma nota final, porque a merecemos sempre: grandes, mas muito grandes, todos os adeptos do Sporting que foram a Arouca. Não me canso de dizer isto: os outros podem ter os títulos, o dinheiro, as vendas milionárias, a reputação internacional, o que quiserem. Ninguém tem adeptos como nós.

6 comentários:

  1. Muito bem!
    E o post podia ser só o último parágrafo que já era muito digno e condizente com o Sporting.

    Também critiquei primeiro o Rojo do que o Cosme.

    Quanto ao relvado, não dúvido que o Arouca tenha lá treinado toda a semana para deixar aquilo em pior estado.
    Arouca tem jogadores e, parece, ter estrutura. Parece ser um clube que merece estar na I Liga.

    Abraço!

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  2. Quanto aos relvados acho que só há uma solução para impedir que fiquem maus. Seria cobrir todos os estádios da Iª Liga.

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  3. Percebo 0 de relvados mas há certamente problemas de drenagem nos nossos, porque nos campeonatos europeus de topo, e em condições atmosféricas quase sempre piores, raramente vejo filmes como o de Arouca

    Deve haver critérios para verificar se um relvado se aguenta ou não

    Mas estou a especular

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  4. Koba,

    1- O Arouca surpreendeu-me quer pela disposição no terreno, revelador do bom trabalho do treinador, quer sobretudo pelos seus jogadores de meio-campo. Na minha crónica do jogo não mencionei o André Claro por ignorar o nome do jogaodor e não por ele não ter dado nas vistas. Discordo relativamente ao Bruno Amaro, por achar que é um jogador para jogar em equipas mais do cimo tabela, a par de David Simão e do já citado Claro. Talvez não tenha tido a sorte em momentos decisivos da carreira, com a lesões graves a cortar-lhe a afirmação.

    2- Piris de facto foi dos jogadores que revelou mais dificuldades, a que não será estranho o facto de ser de todos o que menos tem jogado. Montero tem aquele estilo de parecer permanente meio desligado do jogo e não é um jogador para aquele terreno e para um simples 4x3x3 que o deixa muito isolado na frente. Não sei se estou errado mas também me parece que ele também já foi mais participativo do que actualmente. Vejo-o cada vez menos a descer para participar na construção ofensiva, nem que seja a oferecer linhas de passe, jogando quase sempre mais afundado na defesa contrária. Não me parece apenas um problema de falta de confiança que também parece existir.

    4- Concordo na generalidade. Se os relvados em Inglaterra fossem assim adiavam-se muitos jogos. Valha a verdade também que o nosso clima é diferente do deles e isso muda também as soluções.

    5- Sou obrigado a criticar o Cosme Machado. Por preconceito admito, por não ver nele qualidades para a função. Só concordo em parte com a classificação de azelhice do Rojo por estarmos no campeonato português. A expulsão do jogador do Arouca foi excessiva, embora o amarelo não fosse de todo despropositado. Mas os 2 amarelos a Rojo são-o. Num campo escorregadio os jogadores abrem os braços para se equilibrarem não para cortar a bola. E no segundo lance foi nítida compensação.

    Depois o árbitro passou o tempo todo a defender-se apitando a tudo e mais alguma coisa, ignorando que o estado do terreno proporcionava os contactos. Mas de facto já vimos muito pior.

    Abraço

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  5. Leão,

    2- Preocupa-me o Montero essencialmente porque às tantas parece que os truques que tinha na manga estão identificados pelos adversários. Sem prejuízo da boa exibição global do Arouca, aquela dupla de centrais será talvez a mais limitada do campeonato (um deles nem é central, diga-se). E meteram o Montero no bolso. Obviamente que reconheço que a minha análise é algo limitativa (por se cingir ao ppano individual) e me fazia falta uma análise mais profunda ao coletivo do Sporting para perceber se efetivamente os adversários apanharam as manhas do Montero ou apanharam as manhas do envolvimento do Montero no nosso jogo coletivo. Tratando-se do primeiro caso, há que encontrar (dentro de casa) soluções; tratando-se do segundo, convém criar alternativas no nosso jogo ofensivo.

    5- "Depois o árbitro passou o tempo todo a defender-se apitando a tudo e mais alguma coisa, ignorando que o estado do terreno proporcionava os contactos." Concordo. O que digo, essencialmente, é o seguinte:

    a) não concordo com este critério mas é aceitável naquelas circunstâncias. O contato permanente, a dificuldade em acompanhar as jogadas, prováveis problemas de visibilidade dos lances, tudo isto, levou o árbitro a, na dúvida, apitar sempre. Era preferível que assim não fosse, mas...

    b) ... mas o critério, salvo poucas exceções, foi sempre o mesmo e as equipas sentiram que era igual para todos e cedo perceberam que seria esse o critério. Não mudou ao longo do jogo nem inclinou o campo em qualquer direção.

    Repare, caro Leão, que muito poucas decisões foram protestadas com veemência. Isto, a meu ver, porque os jogadores não só perceberam as dificuldades do árbitro (afinal eles estavam a passar por dificuldades semelhantes) como também notaram que todos estavam a ser tratados por igual. E não houve um só erro grave.

    Isto dito, longe de mim desejar o Cosme Machado no topo da arbitragem nacional. Mas afirmo claramente que prefiro mais 14 arbitragens como a de Sábado do que 13 razoáveis e 1 do Bruno Paixão...

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  6. Koba,
    concordo em relação ao que foi dito sobre a arbitragem, falta de jeito não deve ser confundido com falta de honestidade.
    Uma pequena adenda para dizer que também clamei pela saída do AMartins muito tempo. O Jardim teve todo o mérito em mantê-lo, acabado o puto por fazer um grande resto de jogo mais sobre a direita e menos perdido no campo. Uma das boas exibições, há que dizê-lo.

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