16/07/2013

Ainda Bruma e o discurso de BC

Fechando (por ora) o círculo no tema Bruma, queria apenas dizer o seguinte:

1. A postura de BC, desde o início, tinha como finalidade marcar a diferença com o passado. Essa diferença era necessária e o Sporting precisava dela, doa a quem doer. BC pode ter ido longe demais por diversas vezes, mas creio que o propósito era, efetivamente, o de exibir com clareza uma marca de mudança. No entanto, num clube com a dimensão social do Sporting, é impossível pensar que as atuações e intervenções públicas não têm subjacentes lógicas políticas de conquista, conservação e reforço do poder. Seja por melhores ou piores razões (no caso do Sporting e de BC, espero, obviamente, que tenha sido pelas melhores razões possíveis). Penso que todos sabemos que o discurso de BC tinha uma fortíssima componente política, mais do que de estratégia desportiva, essencialmente relacionada com a conquista definitiva do seu "eleitorado" (que adora os sound-bytes mas, como sempre avisei, prefere bolas na baliza adversária...). Sempre aqui realcei, e mantenho, que faltou a BC procurar "ganhar" também os que não se reviam no seu discurso (nomeadamente o da campanha eleitoral) e sempre aqui assinalei, e reforço, que o discurso de BC tem características populistas (e, por vezes, divisivas). Vejo agora que alguns dos seus apoiantes o reconhecem expressamente, o que me deixa, pelo menos, com o conforto da convicção de que não escrevo o que escrevo apenas porque não me revejo na doutrina populista de BC (vejam aqui um insuspeito texto que vai no mesmo sentido daquele que eu ontem aqui escrevi - e que só li após ter escrito o meu próprio texto).

2. Isto não significa que tudo o que BC tenha feito tenha sido orientado por essa lógica populista. Pelo contrário. A forma como BC resolveu o tema Holdimo, o facto de se referir aos bancos como "parceiros", a hipoteca da nua-propriedade do estádio, o reencontro com Zahavi, etc. mostram que BC é muito mais realista do que o seu discurso indica. Como sempre, com BC, há que ler nas entrelinhas e, muitas vezes, ler o que nem nas entrelinhas está escrito. Percebo que não seja fácil, porque o discurso é de tal forma marcante que se torna difícil ultrapassá-lo ou ignorá-lo e partir para a análise fria dos factos. Mas temos todos que fazer esse esforço e essa análise. Como muito bem me alertaram há uns dias, é difícil fazê-lo quando o atual presidente, durante a campanha eleitoral, acusou um dos candidatos de ser o "candidato da banca" (ou permitiu que a acusação fosse feita a esse candidato) e depois aparece na TV a referir-se aos "parceiros bancários" como se nada fosse. Mas num país em que qualquer candidato a PM promete não aumentar impostos, assume o cargo, aumenta-os e ainda é reeleito, ficar chocado com isto é não entender que as campanhas eleitorais apenas servem para contar espingardas e não para discutir programas. É a era em que vivemos. E tentar mudar isto é tão realista quanto a tentativa de BC de tentar mudar a conduta dos empresários ligados ao futebol... Por isso, fiquemo-nos pelos factos e ignoremos o discurso.

3. E quanto aos factos, há algumas coisas positivas que já foram feitas, muito em particular a reestruturação financeira (que não está isenta de críticas mas é, em geral, positiva). Já quanto ao facto que tem sido motivo de discussão nos últimos dias, a verdade é que BC falhou claramente na renovação com Bruma. Pode ainda dar a volta, segundo parece, mas, em virtude da atuação de BC, Bruma está hoje mais longe do Sporting do que estava quando BC assumiu o cargo. Negá-lo é negar factos. E os factos são estes: quando BC entrou, Bruma estava sob contrato, supostamente até Junho de 2014 e apenas tinha feito meia dúzia (ou pouco mais) de jogos pela equipa A; hoje, Bruma alega que o seu contrato acabou e que vai prosseguir a carreira noutro clube, fez uma dúzia de jogos pela equipa A e participou num Mundial de juniores onde foi a maior figura da seleção nacional, com vários golos e assistências. Ora, se nos lembrarmos do vendaval de críticas à venda de João Pereira antes do Euro 2012 (eu próprio, que até me queria "ver livre" do jogador, critiquei o timing da transferência), não podemos deixar de estranhar que se espere pelo regresso do Bruma do Mundial para renovar com ele... Bastaria isto para se perceber que algo ia mal na estratégia com Bruma. Mas, como todos sabemos, não foi só isto. Foi todo um discurso e uma postura que complicou a relação com o jogador (em termos que, pessoalmente, considero irremediáveis - o volte-face, a suceder, será no sentido de recebermos uma indemnização mais adequada do que a que receberíamos ainda que a decisão da CAP nos fosse favorável).

4. A retirar de positivo de tudo isto: tornou-se claro para BC (pelo menos assim o espero)que esta postura não resolve todos os problemas; tornou-se claro para os radicais (também o espero) que nem todos os temas são fáceis e se resolvem com murros na mesa; tornou-se claro que gerir o Sporting é muito mais difícil do que muitos imaginavam; tornou-se claro que, à semelhança dos bancos, antes diabolizados, os empresários, na medida certa, podem ser parceiros e não inimigos. E espero que o clube seja gerido, doravante, com base nestas premissas mas, acima de tudo, com base num princípio essencial: o Sporting tem que estar acima de quaisquer discursos, posturas e ganhos de popularidade; e a defesa dos seus interesses obriga a uma flexibilidade na atuação e no discurso que não se coaduna com a alegria dos que adoram o sound-byte pelo sound-byte.

5 comentários:

  1. Agora é mesmo esperar pela decisão (que eu acho que nos vai ser favoravel pois não têm como fugir que o contrato foi assinado em 2011 e está registado e foi já cumprido durante 2 anos).

    A seguir é que não sei o que acontece. Se o contrato for considerado como válido, significa que o jogador não se pode transferir para outro clube ou que o jogador pode mas esse clube tem que pagar uma indemnização a ser determinada pela FIFA?

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  2. O último ponto (4) é claro e determinante. E aí reside o caminho que se quer tomar.
    Se o líder já começou (aparentemente) a evoluir, resta que os acólitos façam o mesmo. Se não souberem pela sua própria cabeça e meios, então que seja o lider a mostrar o caminho.

    ps: a venda de Schaars e Arias merece um esclarecimento. Se a trasparência e rigor são bandeiras de campanha e gestão (parece-me bem), então que se pratique isso mesmo.

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  3. Mike, não sendo um expert em direito desportivo, diria que será a segunda opção (indemnização). Não havendo fundamento para a alegação do Bruma, o Bruma só pode ser inscrito por outro clube desde que o Sporting seja devidamente indemnizado. O problema está no "devidamente". Aí, não sei mesmo se será a CAP, a FIFA ou outra entidade a determinar o valor (a CAP não faz muito sentido neste caso, mas até poderá ser, desconheço). Isto, claro, fora de um cenário de negociação em que, obviamente, tudo é possível, incluindo a renovação do contrato (não acredito, mas em tese ainda é possível).

    Cantinho,
    Há um ponto que ainda precisamos de confirmar: eu tenho a convicção de que o BC aprendeu com o episódio e o mesmo sucedeu com os seus acólitos; mas pode dar-se o caso (que poderá ter consequências desastrosas) de BC não querer mudar a rota e de os acólitos continuarem a aplaudir sound-bytes e medidas de gestão com consequências equivalentes às do caso Bruma. Não acredito, mas pode acontecer. Nem quero imaginar se assim for...
    De acordo com Schaars e Arias.

    SL

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  4. Koba,

    Parece-me a mim que o bom senso manda que a idemnização tenha a ver com o ordenado que o jogador ganha e com a clausula de rescisão.
    Ora se Bruma apenas recebia €2000/mês, e havia propostas no valor de €10M de alguns clubes, não estou a ver a indemnização ser maior do que isso.

    E se assim for, abre-se um precedente perigoso, em que um jogador pode rescindir unilateralmente quando quiser mesmo sem razão, porque se tiver um ordenado baixo o clube que o comprar pode perfeitamente pagar a indemnização.

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  5. Mike, daí, precisamente, as críticas à intervenção precipitada de BC neste processo - é que só podemos ser tarzans quando a liana está bem agarrada à árvore e aguenta com o nosso peso... Por outras palavras, a irredutibilidade pode ser demonstrada quando temos um jogador bem seguro, não quando temos uma situação jurídica duvidosa, um jogador que em janeiro pode assinar por quem bem entender (no melhor dos cenários) e um ordenado miserável (que, contas feitas, não nos protege devidamente para uma eventual rescisão unilateral). Se as consequências forem as piores, os que defendiam que BC tratasse Bruma como um "exemplo" vão de facto ter o exemplo, mas não o que tanto queriam: os Carlos Manés e os Tobias ficam a saber que, forçando um bocadinho, acabam por conseguir sair por meia dúzia de tostões.

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