04/06/2013

Um clube, um presidente


O Sporting tem que dar, rapidamente, um passo em frente na forma como olha para si mesmo. É urgente fazê-lo, sob pena de a autofagia se tornar incontrolável. O Sporting tem muitos inimigos fora do Sporting mas estou convencido que os seus piores inimigos estão dentro de casa. E o presidente BC precisa urgentemente de dar a volta a esta situação. Ele, que é um grande sportinguista, tem que ser o motor desta mudança. E, a meu ver, tudo deve começar nas suas palavras e nas suas ações.

Vamos por pontos, porque este é talvez o mais sério e relevante post que escrevo neste blog desde que por aqui comecei a debitar atoardas:

1. Para muitos sportinguistas, o Sporting viveu 17 anos num regime, citando Luís Filipe Menezes, "sulista, elitista e liberal" (os mais novos terão que googlar isto para perceber onde quero chegar). Um regime fechado sobre si mesmo, onde os mesmos iam rodando entre si a cadeira do poder, numa pura lógica de continuidade.

2. Para esses sportinguistas, o sportinguismo afere-se em função do momento em que "acordámos para a realidade":
a) uns, os (supostos) "grandes sportinguistas", viram logo (génios...) que o "projeto Roquette" ia levar o clube para o abismo;
b) outros apenas acordaram com a saída de Dias da Cunha, são bons sportinguistas;
c) outros, ainda, após a saída de Soares Franco (onde me incluo, serei um sportinguista de meia-tigela);
d) os que apenas acordaram para a realidade com JEB são um pouco otários, "mas ainda bem que viram a luz";
e) os que ainda votaram Godinho são os "lambuças" (que apoiavam os "croquetes").

3. Esta forma de analisar e viver o Sporting e o sportinguismo repugna-me. Mais: enoja-me. É típica de quem não percebe o Sporting enquanto clube e o futebol em particular. É típica dos que não percebem que a paixão por um clube vai muito para além de vitórias e conquistas, é um sentimento de paixão, de comunidade, de valores que vai muito para além disso. Diria que é típica dos adeptos dos nossos rivais (e não incluo aqui os meus companheiros de blog, razão pela qual, aliás, tenho a honra de com eles partilhar este espaço) que continuam sem perceber porque carga de diabos um clube que nada ganha continua a ter 3 milhões de adeptos e simpatizantes.

4. Para mim, que entendo que o Sporting precisa de novas ideias e novas estratégias pelo menos desde 2009 (razão pela qual não votei nessas eleições, JEB vs PPC), o presidente eleito foi sempre o "meu" presidente. Sim, JEB foi o "meu" presidente. Sim, Godinho Lopes foi o "meu" presidente. E, claro está, BC é o "meu" presidente. Presidentes esses que fui sempre criticando, claro está, porque nenhum deles esteve ou está imune à crítica. E porque nem sempre me revi na postura, na estratégia ou na política desportiva. Mas desejei sempre o sucesso de cada um, porque o sucesso de cada um seria, em qualquer caso, o meu sucesso.

5. Esta postura dos sportinguistas que acima descrevi agudizou-se nos últimos meses do mandato de Godinho Lopes. E agudizou-se, tristemente, em função dos resultados da equipa de futebol profissional. Porque ninguém se lembrou dos "lambuças" e dos "croquetes" quando arrumámos o City. Aí, todos estavam felizes. Já este vosso amigo, apesar de feliz, escreveu isto em Março de 2012, por razões apenas relacionadas com a estratégia desportiva. Ou seja, critiquei, e muito, a direção de Godinho Lopes. Disse que não acreditava nele. Disse que não acreditava em Sá Pinto, aliás disse-o várias vezes. Mas uma coisa é criticar, outra bem diferente é julgar os outros por parvos só porque apoiam. Aí é que está o grande problema.

6. A partir de Outubro de 2012, o clube partiu-se em 2 blocos: os "lambuças" e os "brunistas". Os primeiros acusados pelos segundos de apenas quererem manter a dinastia do "croquete", os segundos acusados pelos primeiros de quererem a revolução a todo o custo. E fomos para eleições.

7. Ganhou Bruno de Carvalho. A partir daí, pensava eu, o Sporting unir-se-ia à volta do novo presidente, de novas ideias e de novas estratégias. Mas nada disso aconteceu. E porque não aconteceu? Essencialmente, por 3 motivos:

(i) com muita pena minha (porque, apesar de não ser um entusiasta, simpatizo com BC e porque já lhe disse que lhe darei todo o apoio de que precisar), não posso deixar de responsabilizar BC em primeiro lugar. O presidente do Sporting mantém uma linha de discurso que não tem como prioridade alcançar todos os sportinguistas mas apenas manter a sua base de apoio. Se não é assim, é o que parece. O discurso de BC, sinceramente, faz lembrar o de um político a trabalhar para as próximas eleições. Não se lhe ouve palavras de um "presidente de todos os sportinguistas". Ouve-se "o Sporting é nosso outra vez". Se é "nosso", significa que já não é "deles"? Quem somos nós? Quem são eles? Enfim, deixemo-nos de brincadeiras: compete a BC fomentar um discurso de união, tão apregoado durante a campanha eleitoral. O atual discurso de BC não está apenas a por de lado quem geriu os últimos 17 anos de Sporting: está a alienar quem, no seu pleno direito, apoiou essa gestão (e se sente insultado, magoado e esquecido por BC). É urgente um virar de agulhas para um discurso unificador, pacificador e agregador.

(ii) o segundo relaciona-se com a postura dos "vencedores". Os "brunistas", a cada intervenção positiva de BC, não se regozijam com o facto de o clube estar a ser gerido como eles querem. Nada disso. Regozijam-se com o facto de "finalmente" termos um presidente, ao contrário do que diziam os "lambuças" e ao contrário do que faziam os "croquetes". E a cada intervenção menos feliz de BC, temos a histeria dos "brunistas" perante aqueles que se limitam a dizer, cordatamente, que não concordam. Podem ver diversos exemplos aqui, nas caixas de comentários, ou neste post, em que o insupeito blogger, para não variar, é acusado de ser (guess what?) "lambuças". Em suma, atiram à cara dos "lambuças" o que BC faz de bom; e acusam de ser... "lambuças" todo aquele que simplesmente diga que não concorda com BC, ainda que o faça de forma séria e construtiva (como é, muito em particular, o caso do blog A Norte de Alvalade, já linkado). Aos "vencedores" recomendaria, apenas, que percebam que não ganharam nada. Só ganham quando o Sporting ganhar. Que é o que desejam eles, mas é também o que desejam todos os sportinguistas. Todos.

(iii) o terceiro relaciona-se com a postura dos "vencidos". Poucos aceitaram a derrota com fair-play, é verdade, e alguns não se conformam com a postura de BC e dos brunistas. No entanto, os "vencidos", a meu ver, reagem pior aos brunistas do que ao próprio BC. É que BC, apesar de tudo, limita-se a não os "procurar". Já os brunistas procuram os vencidos para lhes atirarem à cara o que de mau foi feito antes e o que de bom se faz agora. E isso gera a revolta dos "vencidos". Aos vencidos recomendo, apenas, que esqueçam os brunistas e se concentrem no Sporting. Não é preciso apoiar tudo o que faz BC ou sequer deixar de criticar as suas palavras ou as suas ações. Basta que percebam que a estratégia "anti-brunistas", como qualquer estratégia que tenha como único móbil o "antiqualquercoisismo", não pode trazer nada de bom.

Enfim, fica aqui o meu modesto contributo, com uma nota zandingueira: enquanto os sportinguistas não derem a volta a isto, vamos continuar a assistir, com tristeza, a uma luta desigual: um Sporting dividido contra um Benfica muito próximo da união e um Porto cada vez mais unido. Eu nunca deixarei de criticar BC ou quem quer que seja porque penso pela própria cabeça. Mas fá-lo-ei numa lógica construtiva e não para derrubar BC. Tenho dito.

4 comentários:

  1. Muito bom post.
    Concordo com tudo.

    Só acrescentava aí um sub-tipo de sportinguista: aquele que se refere ao estádio antigo, e aos 80 e 90 com grande saudosismo, como se tivessem sido os tempos mais gloriosos do Sporting e, incomparavelmente melhores que os últimos dez anos.

    Há quem diga que um dos maiores flagelos do Sporting terá sido a lampionização dos seus adeptos (refira-se a diferença óbvia entre benfiquista e lampião).

    Relativamente ao Bruno Carvalho, penso que os sportinguistas que não o veneram (como eu), apenas desejam que ele faça as coisas com competência e que se deixe de bazófia e arrufos, concentrando a energia e o tempo na tarefa hercúlea que tem pela frente. E isto é precisamente o que sempre exigi às direcções anteriores. Ainda que para os "lambuças anti-lambuças" a minha atitude seja apenas ser lambuças.

    ResponderEliminar
  2. JPDB, obrigado pelo seu comentário

    A sua última frase define tudo: hoje em dia um sportinguista não consegue tomar uma posição (seja de concordância, discordância ou neutral) sem ser imediatamente catalogado. E é esse ambiente divisionista que tem que acabar. Acredito que BC, quando se aperceber das consequências das suas palavras (porque nas suas atuações tenho pouco a apontar-lhe), vai corrigir a rota. Tenho que acreditar nisto sob pena de me envolver (ou ser envolvido) na guerra fratricida que está em curso.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  3. Elas só existem, porque não ganhamos e assim todos se tentam rever em alguém, ou então catalogamos com quem não concordámos.

    A sabedoria popular ajuda-nos e esclarece-nos nesta reflexão. Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

    No dia que formos campeões, desaparecem as várias facções, qualquer que seja o Presidente.

    Por isso, desejo que BdC seja campeão o mais rapidamente possível. É possível em curto espaço de tempo? Claro que sim.

    Isto de se dizer que é preciso tempo e um projecto a longo prazo para construir uma equipa é uma falácia. Basta ver o exemplo das ultimas vezes que fomos campeões- Em 1999/2000 começamos com Materazzi e acabámos com Inácio. A meio da época fomos buscar o Mpenza, Cesar Prates e Di Fancesci que juntámos ao Peter, André Cruz, Ducher e Acosta e pronto, em 6 mese fomos campeões. Em 2001/2002 juntámos João Pinto ao Jardel, acompanhados por Sá Pinto, Nicolae, Pedro Barbosa, etc... E pronto fomos campeões. Então o que faz uma equipa campeã? O tempo ou a qualidade dos jogadores?

    Quem compra os jogadores? O Presidente. Não é preciso mt dinheiro. Basta saber comprar. É isso que espero de BdC.

    Viva o Sporting

    Ed

    ResponderEliminar
  4. Ed,
    Sem retirar um pingo do nosso mérito naquilo que foi o momento desportivo mais feliz da minha vida, deixe-me dizer que em 1999/2000 o Benfica estava miserável e tanto o Porto como o Boavista apanharam um ano particularmente exigente na Champions (duas fases de grupos consecutivas).
    Isto mudou bastante - os nossos rivais estão incomparavelmente mais fortes e o Braga (que faz o papel de Boavista, digamos assim) está bastante sólido também. Para ganharmos nas circunstâncias atuais, ainda que fizéssemos uma boa equipa, seria preciso que ambos os rivais tivessem anos francamente negativos e que o Braga fizesse uma campanha semelhante à deste ano.
    E uma nota final: acredito que BC tem tudo para unir o clube mesmo sem ganhar nada. E acredito que irá fazê-lo.

    ResponderEliminar