30/05/2013

Os "reforços", o plantel e a entrevista de BC


NOTA PRÉVIA: depois de publicar verifiquei que tinha acabado de escrever um dos meus habituais lençóis. Aos que só ultimamente me lêem, recomendo que vão alternando a leitura do post com a atualização da novela Jesus na Bola online. Um must (os papagaios vão voltando a atacar!).

1. "Reforços"

Gosto muito da palavra "reforço". Típica do jornal de pré-época, é usada para todo o jogador contratado. Mas, no seu sentido literal, só devia ser usada para os que vêm trazer algo que uma equipa ainda não tinha. Os que vêm para somar não deviam contar. Por isso mesmo, vou distingui-los no futebola3. E reforços serão apenas os que efetivamente contam.

Foi ontem apresentado o primeiro. Trata-se de Jefferson, ex-Estoril. Defesa esquerdo, assume-se que destinado à titularidade, que pertencia a Joãozinho (entretanto a caminho do Braga), de que nunca fui particular fã (embora reconheça que fez um trabalho esforçado).

Vi poucos jogos deste jogador, do que vi gostei, mas o Estoril é o Estoril e o Sporting é o clube mais difícil do mundo, como já aqui escrevi (e fundamentei) por diversas vezes. Certamente que a integração e o trabalho do treinador serão essenciais. De qualquer forma, defendi aqui dezenas de vezes que se prestasse mais atenção ao mercado nacional e isso foi feito. Obviamente que, noutras condições financeiras, o Jefferson seria um suplente do Marcos Rojo ou de outro DE (basta recordar Insua, por exemplo). Mas quem não tem dinheiro, não tem vícios. O FCP que tem dinheiro, pode ter o vício de contratar 5 jogadores no mercado nacional em que nem um só deles vá para a equipa titular. O Sporting contrata o Jefferson para titular indiscutível. É a vida. Mas não me queixo: da mesma forma que gostei do treinador contratado, gostei do lateral esquerdo escolhido.

2. Plantel 2013/2014

Parece relativamente "oficial" que o plantel terá 20 jogadores + 22 da equipa B. Não conheço suficientemente a equipa B para o exercício que gostaria de fazer (tentar construir um plantel com estes 42 jogadores), mas uma coisa me parece certa: considerando que jogam 11 e que todos terão alternativas, algumas dessas alternativas estarão na equipa B e não serão contratados jogadores para todas as posições deficitárias.

Já tinha aqui e aqui abordado, com alguma leveza (assumo-o), a construção do plantel 2013/2014. Mas há alguns pressupostos assumidos nesses meus posts que, pelo que leio nos jornais, podem não se verificar. Em particular, e considerando os tetos salariais de que se fala, estava a assumir como permanências alguns jogadores que dificilmente ficarão no plantel. Por outro lado, é normal que a reestruturação financeira negociada com a banca tenha por exigência a realização de algum encaixe em transferências.

Por isso, acho que devemos tentar pensar no plantel, neste momento, antecipando o "pior" cenário. E esse "pior" cenário é o da saída de todos os jogadores que estarão acima do teto salarial e, por outro lado, possam gerar a imediata entrada de fundos que iriam direitinhos para os bolsos dos bancos (aqui admito que a situação possa levar uma volta com o que vamos receber de transferências indiretas, como a do Minorca ou mesmo Nani, por exemplo, mas ainda assim vou trabalhar no "pior" cenário).

Uma clarificação adicional antes de entrarmos nos pressupostos: uso o termo "pior" entre aspas porque nalguns casos a saída dos jogadores, mesmo que a custo 0, não é o pior cenário: é o melhor.

Eis os pressupostos do "pior" cenário (não contabilizo valores, nem de entradas nem de saídas):

1. Saem Patrício (transferência), Miguel Lopes (transferência), Marcos Rojo (transferência), Evaldo (dispensa), Boulahrouz (dispensa), Onyewu (dispensa), Pranjic (dispensa), Labyad (transferência), Adrien (transferência), Schaars (transferência), Renato Neto (dispensa), Jeffren (dispensa), Capel (transferência), Diogo Salomão (dispensa), William Owusu (dispensa), Bojinov (dispensa). Saem, portanto, 16 jogadores, dos quais antevejo que se realizem efetivas receitas relativamente a 7. O indiano Sunil nem entra nestas contas.

2. Elias e Gelson mantêm os empréstimos até Janeiro (admito que não tenhamos custos salariais com estes dois).

3. Não são renovados os contratos de William Carvalho, João Gonçalves e Jorge Chula nem é exercida a opção por Ventura.

4. São recuperados de empréstimos Turan, Nuno Reis, André Santos e Wilson Eduardo.

5. Mantêm-se no plantel Boeck, Cedric, Ilori, Dier, Rinaudo, André Martins, Viola, Carrillo e Bruma.

6. Sobem da equipa B Arias, Zezinho, João Mário, Ricardo Esgaio e Diego Rubio.

7. Ficaria algo como isto ("R" corresponde a reforço, assinalo em parêntesis retos os que pertenceriam ao plantel da equipa B):

GR - Boeck + R1
DD - Cedric + Arias
DE - Jefferson + [Turan]
DC - Ilori + Dier + Nuno Reis + R2
MD - Rinaudo + André Santos
MC - R3 + Zezinho + [João Mário]
MO - André Martins + R4
E - Carrillo + Bruma + Wilson Eduardo + [Esgaio (?)]
PL - R5 + Viola + [Diego Rubio]

8. Conclusão: se queremos lutar pelo 3º lugar, e assumindo que saem todos os referidos no ponto 1, faltam 5 jogadores (faltavam 6 mas Jefferson já entrou). Veremos se estou enganado. Se estiver, e os lugares dos RR forem ocupados por Golas, Fokobo e um João Mário assumidamente A (não acredito que não venha um PL e um médio ofensivo), um alerta aos sportinguistas: não é pelo 3º lugar que vamos lutar, é pelo apuramento para a Liga Europa. E acho que nos devemos mentalizar disso mesmo, caso não tenhamos capacidade para um plantel muito diferente deste.

3. A entrevista de BC

Um ponto prévio: eu dou (continuo a dar) o benefício da dúvida a BC apesar de não ser um entusiasta do seu programa eleitoral e do seu estilo (a meu ver) demasiado belicista. Gosto mais de quem convence multidões com argumentos ponderados do que com sound-bytes e um discurso agressivo. Mas reconheço-lhe o mérito de ter percebido o que queriam os sportinguistas e ter mantido um discurso em linha com o que o levaria à presidência. A minha esperança sempre foi que o discurso para ganhar eleições fosse aquele mas a atuação, sem desrespeitar os grandes princípios do seu programa (caso contrário perderia a sua base de apoio), levasse em linha de conta a realidade do futebol profissional e a difícil situação do clube (nomeadamente o ambiente de crispação entre sportinguistas) quando assumisse funções.

Neste contexto, a entrevista que BC deu aos três diários foi, no mínimo, surpreendente. Eu li a versão que saiu no Record e fiquei francamente espantado com algumas declarações. É que, como já dava a entender no meu último post, mais do que ler o que BC diz, é importante perceber onde quer chegar. Com maior ou menos precisão, tenho conseguido atingir os destinatários das mensagens e os objetivos de BC. Mas, desta feita, confesso não perceber (ou não querer perceber, será isso?) a estratégia subjacente às seguintes afirmações

a) desde logo, a cruzada contra os empresários - BC diz que não quer fazer o que toda a gente faz: pagar comissões a empresários nas transferências quando o Sporting atua como comprador. Percebo a lógica de BC, um pouco "ingénua", mas percebo-a: se um jogador tem um valor de transferência de 10, porque deve o clube comprador pagar 12, sendo que os 2 a mais são comissões de intermediação e o comprador na realidade só se interessou por aquele jogador porque ele custa 10 e não 12? Que as suporte, pois, o clube que recebe o dinheiro! Pois, mas nisto BC tem que perceber que o clube que vende também está no mercado com o objetivo de realizar um determinado valor numa venda (no meu exemplo quer realizar 10). Se deixarmos o clube vendedor suportar a totalidade das comissões, será esse a queixar-se que o jogador vale 10 e quer receber 10. Ou seja, se quem vende suporta integralmente as comissões, simplesmente sobe o preço para 12. E o resultado final é igual: pagamos 12 à mesma. É o mundo dos negócios (não apenas do futebol) onde normalmente a história acaba com comprador e vendedor a rachar a comissão devida (por exemplo, comprador paga 10 + 1, vendedor recebe 10 - 1, intermediário recebe 1+1). Ou BC é um visionário e revoluciona o mundo do futebol (e não só) ou na realidade está apenas a fazer passar uma mensagem (acredito mais nesta última). Para quem? Para dentro não será porque quando nos adaptarmos à realidade e pagarmos efetivamente comissões, os adeptos vão dizer "mas e então a conversa da entrevista de Maio?". Para os empresários? Mas a esses BC terá dito isto nas reuniões que com eles manteve, precisava da entrevista para quê, se esta apenas os hostiliza? O tempo responderá a esta pergunta. Por ora, parece-me um tiro na água mas, lá está, por enquanto vou dando o benefício da dúvida a BC.

b) depois, o facto de deixar sempre subjacente nas suas declarações ("isto precisa de uma reestruturação total", "há situações inexplicáveis", "não faço negócios com FCP", etc) um tom crítico relativamente ao passado. O Sporting precisa de um discurso unificador. Chega da distinção entre "brunistas" e "lambuças". Precisamos daquele velho dichote politiqueiro do "agora sou o presidente de todos os sportinguistas". Parece valer pouco, mas vale muito. Não vale a pena recorrer sempre ao passado para salientar como tudo vai ser diferente. É completamente desnecessário por uma simples razão: os sportinguistas já disseram o que pensam do passado ao eleger BC e o seu discurso de rutura com 50% dos votos. Qual o objetivo, então? Manter o apoio de quem o elegeu? Não faria mais sentido "conquistar" quem não votou BC com um discurso de apaziguamento (sem prejuízo da famosa Auditoria de Gestão que, aliás, serviria perfeitamente esse propósito - "não volto a falar do passado a menos que tal resulte necessário das conclusões da Auditoria de Gestão")? Não entendo.

c) também o facto de criticar "entre linhas" as parcerias com empresários e fundos joga mal com o facto de ter contratado Jefferson adquirindo apenas 50% do passe. Os outros 50% são da Traffic, segundo julgo saber. O que é a Traffic senão uma empresa que atua no mercado da mesmíssima forma que empresários e fundos? E o que vai dizer BC aos sportinguistas se Jefferson for o novo Roberto Carlos e receber uma proposta milionária? Como vai explicar que apenas 50% do valor reverte para o Sporting (quando por exemplo tanto se criticou a transferência de Wolfswinkel pelo facto de termos apenas 35% do passe)?

d) outro ponto, o de referir que não estamos em saldos (ontem repetido por Inácio). Acho muito bem que se passe essa mensagem para o mercado, mas é incompatível com o discurso para dentro que vem sendo mantido de que o Sporting vai ter um annus horribilis. Porque o Sporting, não nos iludamos, dificilmente vai vender jogadores pela cláusula de rescisão. Nós, custa dizê-lo mas é verdade, não estamos nos grande mercados, como estão FCP e Benfica. O Sporting dificilmente realiza vendas de 25 e 30 milhões nos anos mais próximos. E nesses momentos como vão reagir aqueles que acreditaram em BC? Se o discurso fosse pacificador e unificador, todos estaríamos com o presidente, acontecesse o que acontecesse. Mas este discurso para agradar só a alguns leva a que, amanhã, mesmo esses fiquem perplexos quando forem tomadas as medidas difíceis. Por outro lado, se não estamos em saldos, deveríamos fazer um esforço adicional nas renovações dos contratos com os nossos putos: se não estamos em saldos (logo não vendemos barato) e não cedermos um pouco nas negociações (logo não renovamos), o Bruma em Janeiro assina por quem quiser. E se o destinatário for FCP ou SLB, de pouco vai valer que o ponham a treinar à parte ou a suplente da equipa B.

e) por fim, a assunção de que efetivamente se terá queixado a Jesualdo da prestação da equipa nalguns jogos que a equipa ganhou (boato que andou por aí e em que poucos acreditaram). Numa época "normal" de um Sporting sofrível (vamos excetuar 3 dos últimos 4 anos em que foi pior do que sofrível) o Sporting em 30 jogos ganha 18, empata 6, perde 6. Faz 60 pontos, é 3º (em princípio). Podemos dizer que numa das 18 vitórias faltou atitude. Numa época como esta em que ganhámos 11 jogos em 30, empatámos 10 e perdemos 9, apenas ganhámos 2 jogos por mais do que 1 golo de diferença (contra o último e o ante-penúltimo) e obtivemos pelo menos 4 vitórias (cerca de 1/3) nos últimos minutos... é razoável concluir que qualquer vitória foi arrancada a ferros. E Jesualdo e os adeptos sabem o quanto cada uma custou obter. Admito que os radicais achem que foi tudo muito fácil e que era possível fazer muito melhor. Mas lembrem-se qual era a nossa equipa, lembrem-se da 1ª volta e lembrem-se que não estávamos a jogar contra bonecos, os adversários também jogam. Era muito complicado fazer melhor. Mas pior do que se ter "queixado" é revelar publicamente que o fez, e nos termos em que o fez, deixando, por exemplo, André Martins, na seleção, à mercê de perguntas de jornalistas sobre "as críticas do presidente à prestação dos jogadores". Esta, então, não entendo mesmo: quem quer criticar os jogadores, fá-lo dentro de 4 paredes. Pensava que este princípio básico do futebol estava mais do que apr(e)endido por todos.

Deixo ainda uma nota final: eu apoiarei BC enquanto BC for presidente do Sporting e vir que está a fazer o melhor para o Sporting (ainda que eu possa não concordar com algumas medidas). Dou o benefício da dúvida a estas declarações que podem ter um alcance que eu, por ora, não atinjo (ou atinjo mas parece-me um "tiro na água"). E eu e os adeptos e sócios do Sporting só faremos, e quando tal for necessário, o balanço dos atos, e não das palavras, do Presidente. Quanto aos atos, até agora, e especulações à parte, tenho vários pontos positivos a assinalar na atuação do Presidente Bruno de Carvalho (estabilização do ambiente quando entrou, reestruturação da dívida financeira, celeridade no processo de contratação do novo treinador, escolha de Leonardo Jardim). Esperemos que, daqui para a frente, todos os seus atos sejam mais eficazes do que estes últimos tiros que, como já disse, caíram na água.

E força Jefferson, para mim és o melhor DE de Portugal!

PS: Zatopek, é ou não verdade que aqui o Jefferson dá uns ares do Gorbyn? É só um fait-divers, mas diz lá o que te parece... Às inúmeras fãs do Gorbyn que ainda não o conhecem pessoalmente mas se derretem só ao ler as suas palavras: "dar uns ares" não significa parecido, o Gorbyn é indiscutivelmente melhor apessoado do que o Jefferson. Só não se veste tão bem, nunca o vi com uma camisola tão bonita quanto a da foto.

5 comentários:

  1. Depois das comparações com Kardec só me faltava mesmo mais esta. Mesmo assim prefiro o Kardec que tem pescoço assim como eu! Estou tramado...

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  2. Bolas... semelhanças impressionantes. Até aquele ar confiante do tipo: "vou ganhar tudo... mas de pois não ganha nada".

    é pá não resisti! Desculpem :)

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    1. Foi o meu momento Manuel Serrão... estou enjoado comigo mesmo...

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    2. Por acaso, não sei se já te tinha dito, mas dás uns ares de Manuel Serrão, mais magro e sem óculos

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    3. Koba... não sei se vou ficar ofendido :)

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