18/05/2013

O regresso do Inferno da Luz



Há alguns clubes que se destacam pela paixão e apoio que recebem dos seus adeptos. Este destaque é merecido, não pela forma como festejam as vitórias ou como se fazem ouvir quando a equipa está em grande forma, a dar espetáculo e a acumular golos, mas sim quando nos momentos complicados e de adversidade não deixam de cantar, aplaudir e incentivar. Há alguns exemplos que tenho bem presentes e que concretizam este espírito:
- o Nápoles que conta com um apoio inquestionável e que, mesmo quando desceu às divisões inferiores, não deixou de ter assistências impressionantes. Tem o record de assistência de um jogo da Série C/1 com 51 mil napolitanos nas bancadas;
- quando vejo milhares de adeptos escoceses a cantar o “You will never walk alone” com todo o sentimento e vigor, mesmo quando a equipa está a perder; 
- a Sudtribune do Dortmund que está sempre esgotada com quase 25.000 entusiastas e o próprio estádio que bate records sucessivos de assistência;
- a devoção dos turcos;
- o apoio frenético e cheio de ritmo do San Lorenzo.

Dos mais de 25 anos de constantes presenças no Estádio da Luz, apenas a espaços vivi o conhecido Inferno da Luz. Normalmente associado a enchentes, jogos com os grandes, momentos decisivos ou grandes noites europeias. No entanto, no resto dos jogos é tudo muito mais morno com uma ou duas claques bem delimitadas a cortar o silêncio e o resto do estádio mais numa postura de julgamento do que de incentivo. Só que também existiam motivos para isso. Não se pode desassociar esta postura da fraca qualidade que os plantéis do Benfica da década de 90 e 2000 muitas vezes apresentaram e que, com uma rotação exagerada de jogadores, faziam com que não existisse uma grande identificação entre os adeptos e os jogadores, sendo que a mística não era mais do que uma palavra estranha.


Face ao que tenho presenciado nas últimas épocas mas especialmente nesta temporada, penso que estamos em condições de voltar a assumir o Inferno da Luz com toda a convicção. O jogo contra o Fenerbahce, no que diz respeito ao apoio vindo das bancadas, foi dos jogos mais entusiasmantes em que estive. Foi realmente impressionante! Nesta final da Liga Europa foi ainda mais estrondoso uma vez que estava um número praticamente igual de adeptos do Chelsea do outro lado. Tal, não deixou de ser sublinhado por toda a estrutura do Benfica, dos jogadores à direcção, tendo sido óbvio para todos os que assistiram a este jogo. As várias referências que ouvi e li relativamente a este apoio, sobretudo quando os jogadores foram aplaudidos de pé no final mesmo depois de mais um golpe violento nos descontos, indiciam uma nova mentalidade. Para reforçar esta ideia, quem diria que estariam mil adeptos no aeroporto às quatro da manhã, para receber uma equipa que, nos espaço de 5 dias, deixou apagar dois sonhos da cabeça de todos os benfiquistas?

http://www.keek.com/!pR7ecab (recepção no aeroporto filmada por Salvio)

No fundo, esta recepção reforça que estaremos sempre ao lado de quem dá tudo o que tem, de quem fica com cãibras por força do enorme desgaste, de quem quer tanto como nós e de quem sofre tanto como nós e, quero acreditar, também por nós. Se nos corre da pior maneira possível e mesmo assim aplaudimos de pé e cantamos, num apoio sem reservas, quem é que consegue criticar. Simplesmente não conseguem e só podem sentir inveja. Um apoio assim, de coração cheio e à prova de tudo, transforma esta ligação num fenómeno só nosso, que não temos que explicar. Afinal só nós sentimos assim e só nós sabemos porque sentimos assim. Desde que se sinta que jogadores que dão tudo por tudo, com garra e vontade, não é o azar que nos faz esmorecer. As lágrimas que vemos são as mesmas lágrimas que deixamos cair. Sofremos o impacto, ficamos de joelhos no chão mas logo voltamos a cantar e a aplaudir, acreditando que a vitória acabará por chegar. E isto contagia a equipa. Percebem que se continuarem com o mesmo esforço e disponibilidade, o público estará sempre com eles e não os deixará desamparados. E é por isso que já se perspectiva uma grande casa para o último jogo. E que espero que para o ano, com a Benfica TV, os horários facilitem as grandes assistências. É uma nova cultura, de apoio mútuo, de ligação forte entre jogadores e adeptos. É o que precisamos. É o que queremos. É o Benfica!


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