28/05/2013

O que fazer com Jesus?

Nestas horas, decide-se o futuro do treinador do Benfica. Entre os adeptos, as opiniões ainda se dividem e na estrutura deverá existir uma divergência entre a corrente de Luís Filipe Vieira e a de, arrisco, Rui Costa e quase todos os outros. Já tinha feito referência à minha posição relativamente a este tema no post anterior (saída de Jesus) mas vou tentar aprofundar mais um pouco a minha opção.


Em grande parte dos atributos que um treinador deve registar, Jesus está de facto a um nível bastante elevado. Em primeiro lugar, destaco a sua paixão pelo jogo. Depois o cuidado com que prepara os jogos, estuda os adversários e prepara as diversas fases de um jogo, especialmente as bolas paradas ofensivas, as movimentações de ataque e a pressão alta enquanto há pernas. Por fim, o futebol explosivo, de ataque com que muitas vezes delicia os adeptos. No entanto, regista também poucas mas graves falhas e acho que prefiro um treinador genericamente bom do que um muito bom em muitos atributos e depois com poucas mas graves falhas. Deste lado negativo, destaco a teimosia e sobranceria. Mas vamos a casos concretos.

Na primeira época, o Benfica apresentou o melhor futebol de que me lembro. Mérito de Jesus, sem dúvida. Mas também apanhou o melhor plantel de que me recordo do Benfica. E se fizerem um pequeno esforço, vão recordar-se que o plantel foi espremido sem necessidade até quase à última gota, tendo chegado à fase decisiva da época preso por arames, falhando completamente na Liga Europa contra o Liverpool e não sendo capaz de vencer o campeonato no Dragão a jogar contra 10. Na segunda época não podia fazer nada face à grande forma do Porto de Villas-Boas mas não podia ser humilhado no Dragão, na Taça em casa, permitir que o Porto fosse campeão na Luz, acabar a tantos pontos do primeiro lugar, fazer uma Champions vergonhosa e ser eliminado pelo Braga nas meias-finais da Liga Europa. Na época passada, não podia desperdiçar uma vantagem de cinco pontos ofuscado pelo brilho da Champions e este ano, depois de fazer o mais difícil, não podia não vencer o Estoril em casa. Ou seja, o balanço é claramente insuficiente face à qualidade dos plantéis que teve à disposição. Não é ter memória curta, é recordar-me do que dizia Trapattoni “Graças a Deus que tenho o Simão” porque tinha um plantel fraquíssimo e ver o que Jesus não conseguiu potenciar. O futebol explosivo e o rolo compressor são conseguidos à custa de um desgaste físico da equipa e da aposta sistemática nos mesmos jogadores. Aprendeu um pouco com os erros mas não o suficiente como se percebeu neste final de época em que Matic, Enzo e Salvio não tiveram descanso.


Ponto positivo também o facto de ter valorizado muitos jogadores. No entanto, foi o único que teve à disposição jogadores de 7, 8, 10 e 12 milhões para valorizar. É mais fácil pegar numa promessa e valorizar do que num desconhecido e fazer o mesmo. É certo que há outros que praticamente não tiveram custos como David Luiz e Coentrão mas é tudo mérito dele? Se fosse assim, hoje o Melgarejo valeria 20 milhões e não daria apenas para safar. O argumento da valorização de jogadores entra também em conflito com a sua teimosia. Teimosia em, por exemplo, apostar sempre nos mesmos. O melhor jogador do campeonato desta época (e esta vai surpreender alguns) já cá estava a época passada. Sim, é verdade, esteve a época toda a treinar com Jesus e praticamente não jogou (não me digam que aprendeu a jogar aos 23 anos, com Jesus). Gostariam de ter visto Matic a jogar com Javi Garcia e Witsel? Também eu e que meio-campo fabuloso seria. Mas isto também colidiria com outra teimosia: jogar
com dois avançados. Tática que resulta bem com equipas que estacionam o autocarro na sua baliza ou de pouca sofisticação táctica como as inglesas e turcas, mas que não resulta contra equipas competitivas em que o exemplo mais fácil é o Porto. A estúpida substituição da época passada em que a ganhar por 2-1 tirou Aimar para colocar Rodrigo é, para mim, o
ponto mais alto da sua teimosia. Teimosia também em jogadores que qualquer um colocaria de parte como Emerson e Roberto que rebentam com qualquer objetivo e com outros que todos gostam menos ele. Nolito não é um jogador para os principais jogos mas é um excelente jogador para a rotação e para jogar contra as equipas que apenas se preocupam em defender, marcando inúmeros golos e fazendo várias assistências. Ou Urreta que nunca foi aposta e depois surpreendentemente entra para jogar uma final.

A dinâmica de vitórias que conseguiu esta época também foi assinalável, assim como o número de pontos que conseguiu. Mas na realidade, também nunca a diferença de Benfica e Porto para os restantes plantéis da liga foi tão evidente. Se olharem para todos os jogos que o Benfica fez esta época, quantos equipas poderiam dizer que tinham melhor ou mesmo nível de plantel que o Benfica? Barcelona, Porto e Chelsea? Depois, quando ganha, o mérito é sempre de alguma jogada dele mas quando perde é sempre o futebol ou não aproveitar as oportunidades ou o cansaço físico. Por outro lado, ganha uns jogos e já fala da final da Champions ou qualquer coisa do género. E o que dizer do seu comportamento no banco? Histérico, enérgico e interventivo quando está a ganhar e silencioso, resignado e imóvel quando está em desvantagem. Não faz sentido.

Também não me parece que tenha o balneário com ele. A reacção de Enzo Pérez no final da Liga Europa e de Cardozo no final da Taça, indiciam que os jogadores não confiam no seu líder. E por isso não pode ter condições para continuar. O que acontecerá se o Benfica tiver um deslize no início da próxima época? Desaba logo tudo obviamente. E mesmo que ganhe muitos jogos e chegue de novo, como ele gosta de dizer, à fase das decisões? Os jogadores vão desconfiar de novo da sua capacidade nos momentos mais importantes. Está demasiado fragilizado. Os jogadores gostam e confiam de quem sabe o caminho dos títulos, não de quem claudica quando é mais importante. E não faço a estúpida comparação de o comparar com Quiques ou assim. Estamos a falar de um treinador que está no top dos mais bem pagos, por isso tenho que o comparar com esses. Analisando o custo/benefício, é efetivamente demasiado alto. E com a desilusão tremenda desta época, não quero pensar na possibilidade de renovar o meu cativo para o ver mais uma ou duas épocas a comandar o Benfica no banco e a repetir as falhas que, apesar de algumas melhorias, voltará com certeza a repetir. O Benfica cresceu com Jesus mas não conseguirá dar o passo seguinte com este treinador ao leme.

9 comentários:

  1. Excelente post

    Que alternativas ponderarias? Paulo Fonseca? Rui Vitória? Estrangeiro?

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  2. Eu concordo com o que dizes mas sou da opinião que o JJ deva ficar.
    Há coisas que não são culpa do treinador. Ex:
    - contra o Chelsea que culpa tem o JJ de os seus jogadores parecerem uns amadores a rematar à baliza? O que é que o JJ podia ter feito mais para ganharmos?! Lima em vez do rodrigo? parece pouco para implicar...Eu bem lembro dos tempos em que os benfiquistas até se passavam com o 11 que era escolhido pelos antigos treinadores. Agora é praticamente consensual que os benfiquistas concordam com o 11 que normalmente joga.
    - Contra o Guimarães a culpa não é sobretudo daquele GR? o Guimarães n tava a causar perigo nenhum até à primeira oferta..(embora eu não tenha gostado da atitude da equipa no seu todo e se o benfica ganhasse era sem brilho).

    Critico o jogo contra o Porto (quem joga p n perder acaba normalmente por não o conseguir) e o jogo com o Estoril (apesar de termos pago o cansaço do jogo do fenerbache e termos aquele anormal do Carlos Martins - culpa do JJ k o lançou tb -, era o jogo que não podíamos perder pontos).

    O benfica tem o plantel que tem também graças ao JJ que possibilitou a valorização de jogadores (alguns que já la estavam com o Quique - Di Maria por ex)e a realização de + valias como nunca o benfica teve! Vamos querer por em risco esta fonte de receitas?

    É recorrente dizer isso (eu sei) mas é a verdade!: O benfica continua a jogar num campeonato onde não há verdade desportiva. Mesmo com os erros cometidos devíamos ter sido justamente campeões não fossem as arbitragens e a cumplicidade que o Porto tem com a maiorias das equipas da primeira liga. Este jogo com o PF é inacreditável. Nós é que já vemos isto como normal e não nos revoltamos...

    É um risco muito grande mudar o treinador sobretudo porque não vejo melhor. JJ vai para o Porto e ganha tudo. Não tenho dúvidas. E aí vamos ser novamente humilhados..

    Abcs
    MC

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  3. O Bayern perdeu tudo no ano passado e continuou com o treinador que ganhou tudo este ano. O Borussia (como o benfica) perdeu tudo este ano e o Klopp vai ficar, sendo pretendido por diversos clubes. Será que estes treinadores também não meteram água durante as épocas?

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  4. Koba, nunca optaria por um treinador português. Não vejo nenhum com perfil e carisma/ estofo suficiente para liderar um plantel com jogadores com muito peso e visibilidade. Seria sempre uma opção de um treinador estrangeiro com um adjunto português.

    Grande MC, não deixa de ser verdade os vários factos que indicas. Existe grande risco numa decisão destas e por isso é que não é uma decisão fácil, tanto para um lado como para o outro. De facto, não acho que JJ tenha culpa no jogo contra o Porto ou no jogo contra o Chelsea e foi isso mesmo que escrevi na altura. No entanto, penso que a grande fragilidade esteja na possibilidade de ter perdido a confiança do balneário e essa não é fácil de reestabelecer sem mudança de treinador.

    Caro Anonymous, não estivemos já no quase na época passada? Não se repetiu ou se agravou um filme já visto? Mas repito que é mais uma questão de perceber se os jogadores estão com o treinador ou não. Será que houve reacções dos jogadores contra esses treinadores alemães na altura dos desaires? Desconfio muito do Veiga mas reconheço que percebe de futebol. Ontem dizia que até percebia uma reacção de Cardozo quando era substituído pois estava de cabeça quente. Uma reacção daquelas quando já estava há vinte minutos no banco é que já é muito mais estranho...

    Mas mais uma vez confesso, não é uma decisão fácil...

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  5. Reconheço que JJ ficou com muito poucas condições para ficar. Eu que tanto o defendi de repente fiquei (quase) sem argumentos.

    Mas hoje, quando me disseram que ia mesmo renovar, fiquei chateado.

    O que significa uma coisa: como sportinguista, não quero que ele fique no Benfica.

    E se assim é, a melhor decisão do Benfica seria a de... renovar. Porque se eu não gosto, deve ser bom para o Benfica!

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  6. Fazendo uma analogia entre a época do Benfica e um... restaurante.

    Imagina que vais a um restaurante. É muito bonito. As entradas são deliciosas, o prato principal é magistralmente executado (ou não tivesse sido elaborado por um dos melhores chefs...), o vinho, perfeito, e a sobremesa divinal. Chega ao café, e pronto, tudo estragado. Queimado, torrefacção medíocre, e nem o açucar consegue disfarçar... E esta é a ultima imagem que fica. A do café que não prestava. Ou seja, tudo perfeito, muitissimo bem executado, excepto o café.

    Pergunta: Voltarias a esse restaurante?

    Não achas mais fácil resolver apenas o problema do café do que reformular toda a refeição?

    Abraço

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  7. Aproveitando a analogia, diria que era mais algo como estar a saborear uma das melhores refeições de que me recordava e, como estava a saber tudo fabulosamente, tinha meticulosamente deixado para a última garfada, o melhor que estava no prato. E, mesmo quando preparava para devorar a última garfada, via um pelo púbico (para piorar vamos admitir que não trabalhavam mulheres no restaurante)na comida e tinha que interromper imediatamente a refeição e já nem a sobremesa (Taça) me saberia bem depois de tamanha desfeita. Voltaria ao restaurante? Voltaria se acreditasse que tinha sido apenas um grande azar ou não voltaria se acreditasse que, quem errou, provavelmente o voltará a fazer...

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  8. Compreendo. O que eu pretendo dizer é que chegando aquela fase da época, nas mesmas circunstancias, penso que certos erros não se iriam repetir. E, bolas, se calhar um bocadinho mais de sorte (que não serve para justificar, per si...) também não era mal vinda...

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  9. Sim, vamos acreditar que assim será. E é evidente que a sorte também não quis nada connosco

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