21/05/2013

E se a época só tivesse uma jornada, e essa jornada fosse a 30ª? Seríamos campeões!


Terminou o pesadelo que foi a época 2012/2013. Todos os clubes têm que ter, nalgum momento da sua vida, o pior momento da sua história e a sua pior época de sempre. Tenho o azar de viver nesta geração em que, para além da pior classificação de que há memória, o Sporting me dá dois jejuns consecutivos: um de 18 anos (dos quais acompanhei "conscientemente" uns bons 13 ou 14) e um segundo, sem fim à vista, mas que, na minha modesta opinião, dificilmente durará menos do que 15 anos (já vamos em 11).

Ou seja, admitindo que comecei a perceber o que era o futebol com o Mundial do México, em 1986 (embora tenha recordações do Euro 84 em França), até à presente data acompanhei de perto (e sabendo o que estava em jogo) cerca de 25 épocas desportivas nas quais o Sporting me deu verdadeiras alegrias em não mais do que 5:
- 94/95 bom campeonato, Taça de Portugal,
- 99/2000 campeonato,
- 2001/2002 dobradinha,
- 2006/2007 bom campeonato, Taça de Portugal,
- 2007/2008 campeonato fraco, mas Taça de Portugal com 5-3 ao Benfica na meia-final e bis de Tiuí (com direito a bicla!) na final contra o Porto.

Houve outras épocas positivas face às expetativas geradas, como 96/97, primeiro apuramento para a Champions quando ninguém contava, ou as boas campanhas europeias de 90/91, 2004/2005 e mesmo 2011/2012, mas na realidade a alegria dessas épocas, no final, deu em desilusão (em particular a de 2004/2005).

Mas, em suma, sem prejuízo de muitas alegrias "momentâneas", alguns jogos europeus memoráveis, muitas goleadas e vitórias nos últimos minutos e alguns títulos (em suma: mais festejos que bocejos), a maior alegria tem sido mesmo a de viver o sportinguismo com paixão em todos os momentos. Com ou sem grandes vitórias, com ou sem títulos, viver o sportinguismo e os seus valores é, por si só, motivo de orgulho, de valorização pessoal e de uma imensa felicidade. E é nisto que temos que nos focar: a paixão por este clube único não pode esmorecer pela pior época de sempre; pelo contrário, tem que sair reforçada.

O que implica viver inconformado. O Sportinguista é, na realidade, e simultaneamente, o mais leal e o mais inconformado dos adeptos. Nunca está satisfeito. Na maioria das vezes, tem razão para essa insatisfação, como agora. E tem que fazer dela - insatisfação - a mola para o próximo passo. Um passo de apoio e de paixão, mas de exigência relativamente ao lema do clube: Esforço, Dedicação, Devoção e Glória.

É nesse sentido que devemos abordar o futuro. E cá estaremos para, seguindo o lema mais bonito da história do futebol mundial, apreciar o que será o futuro. Por ora, friamente, façamos o balanço do passado.

Este ano tem que ser dividido em 4 fases:

1. O início de época (que não augurava nada de bom)

Como sabem, sou dos piores Zandingas da blogosfera. Raramente acerto uma previsão quanto a uma classificação ou à prestação de uma equipa. Ora vejam lá que tinha que acertar nesta, em Agosto de 2012:

"Enfim, não temos futebol. Sá Pinto melhorou algumas coisas relativamente a Domingos, mas houve uma em que não só não melhorou como creio que até fez a equipa regredir: em jogos contra equipas que se fecham, não há fio-de-jogo. Domingos, se bem se recordam, era criticado por não ter ganho a nenhuma equipa da primeira metade da tabela. Sá Pinto, a continuar assim, dificilmente vai ganhar às equipas da 2ª metade da tabela (aqui)".

Ora, os meus textos depois do citado transmitiam a esperança que, na realidade, não sentia. A derrota na final da taça da época passada não augurava nada de bom (atenção Gorbyn - nem eu defenderei o JJ se perder a final da Taça) e a pré-época, pese embora bem pensada quanto ao reforço do plantel (quanto às posições necessitadas), saldou-se por exibições medíocres, quer da equipa, quer dos que já cá estavam, quer dos reforços. Não havia sequer uma chamazita de esperança. Nem a veia goleadora de Wolfswinkel, nem as exibições de Carrillo, nem a afirmação de um patrão na defesa. Tudo mal. O Sporting sofria poucos golos mas jogava horrivelmente. O ponto máximo de crise foi o jogo com o Estoril, em casa, perante uma das maiores assistências da temporada em que só virámos de 0-2 para 2-2 porque o adversário ficou com 10. Depois, o jogo com o Videoton apenas demonstrou que a equipa não estava com Sá Pinto. A saída era inevitável.

2. A turbulência de Outubro e contratação de Vercauteren

Aqui, vemos agora com clareza, tivemos dois erros de Godinho Lopes:
- não se ter demitido e marcado eleições para o final da época no seguimento das saídas de Duque e Freitas;
- uma má (e demorada) escolha do treinador.

Diz o anterior PMAG que Vercauteren ganhava 120k/mês. A ser verdade, é uma loucura... Eu até defendia um treinador estrangeiro, confesso. Mas na realidade ninguém imaginava o quão mal preparada estava a equipa. Não tinha princípios básicos de jogo e o bom do Franky não foi capaz de lhos incutir. Nos primeiros jogos, alguns jogadores deram sinais de vida, mas afinal as prestações resultavam apenas da famosa "chicotada psicológica". Os resultados rapidamente voltaram ao nível anterior (ou pior: se sofrível passámos a miserável), a equipa saiu da Liga Europa e da Taça de Portugal (ainda na fase em que Oceano era interino) e em termos de futebol propriamente dito, pouco ou nada mudara. A equipa, afinal, precisava de um "back-to-basics" que dava total razão aos que defendiam a contratação de Jesualdo Ferreira.

3. O furacão AGE e a remodelação de Janeiro

Quem continuar a pensar que o tema AGE e eleições não mexeu com a equipa vive em Marte. A instabilidade era total, ninguém sabia como seria o dia de amanhã, os salários estavam em atraso, enfim, era o caos. Alimentado externamente pelos nossos inimigos e por muitos que achavam que brincar com o Sporting era a melhor forma de fazer sair Godinho Lopes. Nem se lembraram que podíamos ficar fora da Europa (ontem ouvi dizer que estava perfeitamente ao alcance... a sério: é possível perceber tão pouco de futebol e ainda assim ser paineleiro?) ou, pior, podíamos mesmo, face ao que jogávamos na altura, ter descido de divisão! Mas na altura nada disso interessava...

Há muitos responsáveis pelo clima de instabilidade então vivido, que ainda apanhou o final de Vercauteren, mas essencialmente apanhou o início de Jesualdo. Mas há dois que se destacam claramente: Godinho Lopes (que não se demitiu enquanto era tempo e passou à política da terra queimada) e o PMAG (que falou sempre demais e nunca soube ter dignidade institucional). Nos demais intervenientes, de lamentar algumas das intervenções públicas de Bruno de Carvalho que podia ter feito tudo o que fez sem, por exemplo, se ter envolvido em tricas com Jesualdo Ferreira (que se calhar precipitaram esta rutura).

Simultaneamente, no plano desportivo, o Sporting desinvestiu brutalmente. Já era Jesualdo o responsável técnico e a equipa perdia jogadores (os mais caros) dia após dia, à medida que integrava alguns da equipa B na principal. Ganhava-se em Olhão e ao Beira-Mar, mas perdia-se em casa com o Marítimo. Antevia-se a luta pela manutenção.

4. As eleições e o pós-eleições.

Com o agendamento das eleições o ambiente sossegou e Jesualdo pôde trabalhar em paz. Mérito para os candidatos (Bruno de Carvalho, José Couceiro e Carlos Severino) que não permitiram o ambiente triste das eleições de 2011 e mérito para Godinho Lopes e Eduardo Barroso que finalmente se calaram.

Jesualdo promoveu vários jogadores da equipa B e apostou seriamente em 3 deles: Dier, Ilori e Bruma. Deu confiança (e ensinamentos, demonstrados jogo a jogo) a Cedric, Rojo, Rinaudo, Capel e Wolfswinkel. Deu oportunidades sérias a Joãozinho, Adrien e André Martins. Até Miguel Lopes evoluiu claramente. A equipa subiu de rendimento (só não vê quem não quer ver) e pôde, pela primeira vez na época, lutar por um objetivo (o mais modesto pelo qual lutámos desde que me lembro): o 5º lugar.

E não fosse uma conjugação anormal (porque acima das expetativas) de resultados do Estoril e do Rio Ave, tê-lo-ia conseguido. Sempre disse que precisaríamos de 45 pontos mas que os 42 chegariam se estes dois adversários fizessem campanhas minimamente normais (tanto que considerava como adversários o Marítimo e o Nacional e não estes). Mas o Estoril, em 12 pontos possíveis nas últimas quatro jornadas, fez 10. E o Rio Ave fez os mesmos 9 que nós fizemos. E ficámos fora da Europa. Uma enorme tristeza para mim (que considero fundamental o prestígio europeu), mas um enorme alívio também: ninguém vai poder dizer "mas, apesar de tudo, estamos na UEFA". Não, meus amigos, não estamos. Batemos no fundo, só podemos subir.

Um jogador de que não falei: Patrício. Ele não passou por nenhuma das fases que acima mencionei. Ele manteve, do princípio ao fim da época, um rendimento de nível alto (no fundo, o que deveria ser sempre o do Sporting). Está muitos furos acima dos restantes e vai provavelmente sair. Espera-se que por uns bons milhões.

Uma nota especial para um jogador que, do que me recordo, fui dos primeiros a defender na blogosfera, quando todos diziam que Bojinov é que devia ser aposta (não se riam, recuem e vão ver o que digo porque era mesmo assim): Wolfswinkel. O de Aveiro e de Braga vai deixar saudades. O que falhou golos escandalosos contra o FCP, não. O que continuo a achar é que, com um bom treinador esta época, Wolfswinkel teria sido mais vezes o de Aveiro e Braga e menos vezes o que jogou em Alvalade contra o FCP. Desejo-lhe muita sorte, foi sempre um profissional exemplar e um jogador com uma postura que aprecio: sozinho, na frente de ataque, sem alternativas, sempre titular e quase sempre totalista, nunca se lhe ouviu uma só queixa. Pelo contrário, só deixou palavras de apoio e dedicação ao Sporting (à imagem de Capel que, aliás, merecerá a mesma homenagem aqui se sair). Desejo-lhe sinceramente que evolua e regresse um dia.

Nota final: bom jogo do Sporting em Aveiro a finalizar a época. O Wolfswinkel de que vou ter saudades (e não o outro que foi alternando com este), um Adrien a justificar a posição 8, depois de excelente exibição a 6, um Carrillo a nível razoável (tem que dar um salto na próxima temporada, acredito que Leonardo Jardim tire dele o melhor que tem para dar), até Boulahrouz jogou bem. Seria um bom prenúncio para a próxima época, mas entretanto saiu Jesualdo e já entrou Leonardo Jardim, numa estrutura que contará com o Presidente, Inácio e Virgílio, não sendo (ainda) totalmente claro quem faz o quê e quem manda em quem (refiro-me obviamente aos dois últimos). Mas a este tema dedicarei o próximo post.

Por ora, força Leonardo Jardim, boa sorte!

2 comentários:

  1. Quanto ao Sportinguismo, não posso deixar de dar os parabéns. Hoje vi as estatísticas das assistências em Alvalade e, apesar da péssima época, ficaram apenas a cerca de 70 mil do registado pelo Porto. É de assinalar!

    ResponderEliminar
  2. Gorbyn,

    Se pensarmos que no jogo com o Estoril estavam 35.000 pessoas, bastava ter mantido uma chamazinha de esperança num qualquer objetivo e com essa assistência média até ficaríamos acima do Porto.

    Já agora, o nosso número, no ano passado, foi inferior ao do Porto em 2.000 pessoas.

    Se algum dia o gigante acordar do coma, vai ser um sarilho. Mas há muitos que insistem em deixá-lo a dormir, ligado às máquinas.

    Abraço

    ResponderEliminar