23/05/2013

A troika

Estamos na pré-pré-época de 2013/2014 e já vamos sabendo algumas coisas sobre o Sporting de 2013/2014 mas, pelo menos para mim, há muita coisa que está por perceber. Deixo para outro post o que é mais agradável à escrita e à leitura (a construção do plantel), analisando por ora o que me parece ser o estado (ainda) algo indefinido da nossa estrutura para o futebol.

É curioso que nem este post nem o meu seguinte poderiam ser escritos pelo Gorbyn ou pelo Zatopek em textos sobre os respetivos clubes (provavelmente acham que eu sou maluco por escrever sobre estes temas) mas, na realidade, os clubes deles têm duas vantagens sobre o meu:
- as estruturas, sendo distintas nos dois casos, estão perfeitamente definidas e são claras para todos os benfiquistas e portistas (no caso do Benfica poderia questionar-se o que faz Rui Costa para além de ir a sorteios e ser porta-voz na final da Taça - mas perante a qualidade do treinador, dos reforços e das exibições, o tema cai no esquecimento);
- os plantéis têm muita qualidade e precisam, normalmente, de meros ajustamentos (e mesmo em caso de transferência, sabem ambos que serão sempre por valores substanciais, pelo que a substituição dos transferidos será, em regra, devidamente acautelada).

Mas o Sporting vive um novo ciclo e estas questões, parecendo que não, são muito importantes. Se assim não fosse, ninguém diria, como tantas vezes se diz à boca-cheia, que o problema do Sporting não são os treinadores e os jogadores, mas sim a "estrutura" (esse ente que ninguém percebe muito bem o que será).

Vou, então, tentar explicar as minhas dúvidas recuando um pouco no tempo, para percebermos todo este contexto:

1. Bruno de Carvalho foi eleito por uma confortável (não esmagadora, mas confortável) maioria dos sócios votantes. Apresentava como equipa para o futebol profissional Inácio, Virgílio e o 3º elemento. Depois ainda falou de colaborações pontuais de Freitas Lobo (arre!) e Tomaz Morais. Assim, o 3º elemento passaria a ser o 5º elemento. Comentei oportunamente com amigos que poderíamos ter a sorte de ser a Milla Jovovich. Mas além da piada fácil, isto é mesmo só um pretexto para regressar à tradição de ter o futebola3 como o blog sobre bola lusitana em que mais se fala de mulheres bonitas. Adiante, portanto.

2. Não vou argumentar que esta estrutura foi decisiva para a sua vitória. Pelo contrário: Bruno ganhou por ele e pelas suas ideias de rutura (os sportinguistas estavam fartos de ouvir falar de ativos, SADs, VMOCs e precisavam de um discurso futeboleiro mais terra-a-terra). Se tivesse apresentado Chitãozinho e Xororó como dupla para o futebol, ganharia na mesma. Mas a referência ao 3º elemento como alguém que estava já no Sporting (foi aí que definitivamente eliminei a Milla que, como se recordam, demitiu-se quando percebeu que o Jubas, afinal, não era um leão verdadeiro) foi, para alguns, a certeza de que mesmo dentro da estrutura havia quem quisesse a rutura. Também não foi decisivo, mas foi relevante (não para a vitória, mas para a afirmação desse discurso de rutura que abrangia também alguém que estava já dentro do clube).

3. Com a chegada de Bruno de Carvalho ao poder, fui assinalando, também neste blog, que o próprio estava a atrasar o anúncio da estrutura para o futebol, aparentemente sem grande motivo. Na verdade, mesmo sem apresentar formalmente Inácio (que ainda treinava o Moreirense), BC podia ter esclarecido como seria a estrutura. E afastado algumas ideias que pulularam por aí sobre a integração de Freitas Lobos e outros (ainda não totalmente afastadas). Creio que tardou demasiado este anúncio, mas julgo perceber o porquê: é que, a meu ver, a sua estratégia de comunicação passava por fazer crer que Jesualdo poderia ficar e que o seu papel na estrutura estava ainda a ser discutido. Sinceramente, e mantenho-me na lógica de uma opinião pessoal e meramente especulativa, acho que desde a trica com Jesualdo na campanha, BC afastou Jesualdo como treinador. Manteve-o até final da época - e muito bem - para não gerar mais instabilidade (e BC tem grande parte do mérito, parece-me indiscutível, no ambiente mais calmo que a tomada de posse proporcionou) mas na realidade não contava com ele. Propôs-lhe, eventualmente, funções e competências que, de antemão, sabia que não seriam aceitáveis por JF. O resultado foi o esperado: a recusa de JF.

4. Isto terá sucedido a 9 de maio. O que significa que a estrutura poderia ter sido anunciada antes mas, na lógica que acima descrevi, fazia sentido esperar pelo anúncio da não-renovação de Jesualdo. Assim, a estrutura é anunciada no dia seguinte. Com a seguinte vantagem: já havia um treinador contratado, pelo que se mataram dois coelhos com uma só cajadada. BC anunciou o treinador, Leonardo Jardim, e anunciou que Inácio ficaria com a direção do futebol profissional e Virgílio com a direcção da formação. "Afastou" ainda o terceiro elemento: as funções (logística e negócios...) ficariam a cargo do próprio BC.

5. O problema foi que, mesmo após BC ter puxado o tema do 3º elemento, pouco ou nada se falou de estrutura, afinal o que os nossos OCS consideram ser o calcanhar de Aquiles do Sporting e aquilo que mais o distingue dos rivais. Estando os holofotes no treinador, as perguntas (mais do que muitas) a Leonardo Jardim sobre temas tão "interessantes" como o facto de ter saído dos últimos três clubes em circunstâncias estranhas (não vejo o que teve de estranha a saída do Braga para o Olympiakos, mas tudo bem) fizeram esquecer o que a meu ver devia ter sido perguntado:

a) Inácio e Virgílio vão integrar o conselho de administração da SAD ou serão funcionários da SAD?(isto parece irrelevante mas não é: um membro do CA da SAD sai no final do mandato; um funcionário está nos quadros e só sai por vontade própria ou despedido)

b) Qual será o papel de BC na construção do plantel e em geral no envolvimento com o plantel? Quem escolhe o treinador?

c) Qual é o grau de intervenção do treinador na preparação do plantel? Quem identifica quem falta e quem deve ser contratado?

d) Inácio e Virgílio responderão diretamente a BC? E Virgílio responde perante Inácio? Ou reportam separadamente a BC?

e) Que funções ficam reservadas a Aurélio Pereira? Reportará a Virgílio? Ou será que Virgílio vem fazer o papel de Jean-Paul?

f) Sendo verdadeira a saída anunciada de Paulo Menezes, quem ficará a liderar o scouting?

g) Quais (se alguns) os papéis de Tomaz Morais e Freitas Lobo?

h) O que raio são funções de logística e negócios???

6. E muitas outras perguntas ficaram por fazer. Não sou ingénuo: a muitas delas BC, que já se percebeu que lida muitíssimo bem com os holofotes (ainda que considere o estilo agressivo para com a imprensa contra-produtivo no curto prazo), responderia que é um assunto do foro interno do clube (alíneas b) e c), em particular). Só acho estranho que as perguntas não tenham sido feitas. Pergunto-me, aliás, se BC já tem a estrutura perfeitamente montada e organizada. Caso não tenha, tiro-lhe o chapéu: colocando Leonardo Jardim na conferência de imprensa, lançou uma bela esparrela aos jornalistas presentes, que foram atrás das habituais declarações de circunstância ("venho para ganhar" e outras do género, como se o homem fosse dizer que vinha para perder) ao invés de fazerem as perguntas que verdadeiramente interessam aos sportinguistas (pelo menos os que querem perceber como está montada a equipa que supostamente vai virar o Sporting do avesso).

Enfim, ficam as minhas reflexões e as minhas dúvidas. Fica também uma certeza: pela minha parte, seja qual for a estrutura, vou sempre ter a esperança de que será a melhor para nos levar às vitórias. Porque a paixão de um adepto funciona mesmo assim. Mas gostava, pelo menos, de perceber, dentro da minha consciência, só para o meu "eu" racional, se o modelo adotado tem pernas para andar.

Para já, tudo muito indefinido, a meu ver. Mas gostei, e muito, da escolha do treinador, independentemente de onde surgiu a ideia: como disse num comentário a um post do Zatopek, era o único de que se falava que eu considerava que já tinha pedigree suficiente para o Sporting. BC (ou Inácio) acertou em cheio. É um bom começo. Vamos ver o resto.

PS: Queria por uma foto da troika (Bruno, Inácio, Virgílio) e outra da Milla Jovovich, mas não tendo encontrado nenhuma que me agradasse desta última (a miúda está algo desgastada...), optei por não colocar nenhuma foto. De qualquer forma, sendo o post uma grande chatice para a maioria dos leitores, nenhum se poderá queixar de ter sido dolosamente atraído para aqui por uma foto da Milla.

2 comentários:

  1. Muito bom post que coloca uma série de questões interessantes.
    Apesar de não haver foto, a Milla sempre ajuda a não adormecer enquanto se lê o post :D

    Tens que agradecer ao PLF (bancada nova) o acréscimo de leitores.

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  2. Frederico,
    Obrigado pelo comentário.
    Visito diariamente o Bancada Nova e já tive oportunidade de referir ao PLF que, a cada referência dele, aqui o tasco aumenta claramente a audiência! O dia de todos os records, aliás, foi o dia em que o Bancada Nova esteve aberto (e disponível através do A Norte).
    Um abraço e SL

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