27/05/2013

A comunicação de BC


Um dos pontos mais criticados na gestão do Sporting ao longo dos anos foi a comunicação. Eu próprio a critiquei aqui muitas vezes, quer apontando a falta de uma política de comunicação (boa ou má), quer assinalando o facto de ser impossível controlar tantos papagaios (eram mais do que muitos, todos a dizer de sua justiça).

Reparem que a comunicação é um pouco como o futebol: todos achamos que percebemos imenso do tema mas, na realidade, há tipos mais preparados do que outros, quer porque tiveram formação, quer porque passaram pela experiência de ter que comunicar (e obter um resultado dessa comunicação), quer simplesmente porque têm mais jeito (veja-se o caso de José Mourinho que transmite nas suas comunicações uma confiança que José Peseiro, por melhor assessorado que esteja, nunca vai conseguir transmitir).

Assim, e tal como no futebol, há matérias que parecem evidentes e outras que nos escapam. Por exemplo, é evidente que Jorge Jesus é um excelente treinador, capaz de por uma equipa a jogar bom futebol; não é assim tão evidente o porquê de ter falhado em três momentos decisivos (insuficiências físicas? desmotivação depois de duas derrotas aos 90+2? um balneário a pegar fogo como pareceu no fim com aquela reação de Cardozo? a falta de um apoio claro no anúncio da renovação?). Mas, ainda que sem o conhecimento de todos os contextos, vou arriscar um pré-balanço quanto ao que me parecem ser as ideias de BC quanto a comunicação.

O tema dos papagios abordarei depois, mais em detalhe, quando perceber que BC está efetivamente a pegar nele (parece-me que ainda não pegou totalmente, ainda recentemente o atual PMAG falou da transferência do Minorca e o antigo PMAG continua em roda livre falando do que quer e bem lhe apetece, nomeadamente divulgando salários de ex-treinadores, informação a que apenas teve acesso quando exerceu funções).

Mas podemos já tirar algumas conclusões quanto à visão de BC sobre o que deve ser a comunicação do Sporting:

1. A primeira conclusão, ainda que possa ser a menos relevante, está relacionada com a profusão comunicativa. O Sporting de BC, talvez numa tentativa de operar uma revolução ao nível da transparência das atuações dos seus órgãos executivos, faz diversas intervenções semanais, sendo que, regra geral, uma delas é através de comunicado (o que confere um tom "oficial" ao que se pretende comunicar). Aqui, acho que BC está a ir por um caminho complicado. Porque muitas vezes vai ser preciso ficar em silêncio mas os adeptos vão estar à espera que o Sporting comunique. A gestão dos silêncios é muito importante. Comunicar muito não é necessariamente transparente e não é necessariamente bom. Até porque a maioria dos comunicados emitidos, na minha opinião, foram repetindo os lugares comuns típicos do futebolês.

2. A segunda conclusão, mais relevante, é que o tom mudou. O Sporting é hoje mais agressivo, parece-me claro. O que, uma vez mais, não é necessariamente bom: os timings da agressividade têm que ser escolhidos a dedo, assim como os alvos dessa agressividade. A título de exemplo, a boca inicial dos "pássaros" devido a uma arbitragem da equipa B foi um mau começo (o timing não foi bom e o tema talvez não justificasse); da mesma forma, a boca à inteligência de "alguns jornalistas" é infeliz porque todos, em tese, se podem sentir atingidos - e o Sporting precisa (e, mais do que o Sporting, BC também precisará) de boa imprensa, ainda mais numa fase em que se sabe que estamos a desinvestir; por fim, o ataque a (mais uma vez) "alguns empresários" tem a mesma maleita. Mas com mais uns meses creio que BC aprenderá não só a gerir silêncios como também a guardar um tom mais agressivo para quando o mesmo seja necessário.

3. A terceira conclusão diz respeito à assertividade em dois temas que eu considero muito relevantes: arbitragem e relações com rivais. E aqui tenho que dizer que aplaudo as intervenções de BC, em particular após o Benfica-Sporting e agora a propósito da transferência do Minorca:

a) no Benfica-Sporting, gostei do tom assertivo e da justificação para falar sobre a arbitragem do jogo. Não estava em causa se Capela tinha errado ou não, nem isso interessava muito porque o jogo tinha acabado. Interessava salientar que nos 6 ou 7 lances mais relevantes do jogo, Capela decidira sempre para o mesmo lado. Até poderia ter acertado na maioria desses lances, ficaria sempre em causa o porquê de ter errado nos restantes. Mais: BC falou e ficou-se por ali. Quem depois alimentou o festival, se repararem, foram os paineleiros e o FCP (porque tinha interesse nisso e não por sentir as dores do Sporting, não sejamos ingénuos). BC falou, foi claro, foi assertivo mas não entrou na calimerice, nem relembrou o tema no final da época para justificar o fracasso que foi o 7º lugar.

b) no tratamento dado a PC, gostei da serenidade e do facto de não ter alimentado demasiado o tema com conversas "para radical ver" (do tipo "vamos até às última consequências, queixas à FIFA e bla, bla, bla"), percebendo que ao FCP foi deixada margem para brincar com a situação e que, na realidade, o erro foi cometido antes, e não agora, quando se fez uma transferência em que a situação não ficou devidamente precavida (aliás falou-se disto há 2 anos quando AVB saiu do FCP e ponderou contratar Alvaro Pereira e João Moutinho para o Chelski). E repare-se que BC nem isto salientou, quando lhe era fácil puxar da K7 "anti-corja" e dizer "a culpa não é do Porto mas sim do JEB". Esteve muito bem.

4. A palavra final vai para o mais importante: o conteúdo implícito às comunicações. Recordo o que Guardiola dizia a Mourinho: "na conferência de imprensa, já ganhou; agora vamos ver dentro do campo" (e na altura ganhou Guardiola). Não chega ter os aplausos dos radicais, é preciso que a comunicação corresponda a uma nova atitude. Como muito bem me salientaram hoje de manhã a propósito do "Caso Minorca", mais do que responder às graçolas de PC (e, by the way, até aqui muito bem, mais do que isto não é preciso - se PC retorquir deixemo-lo a falar sozinho), BC terá que demonstrar, nas suas atuações, que as palavras têm um conteúdo que lhes corresponde. O mesmo se aplica a todos os restantes casos. Num contexto um pouco diferente, lembremo-nos do ditado que diz que "à mulher de César não basta ser, é preciso parecer" - mas a premissa essencial é que a senhora seja a mulher de César! Ou seja, só parecer é que não dá mesmo. Por isso, BC que pondere muito bem as suas intervenções, porque se as suas atuações desmentirem os seus comunicados, vai perder margem de manobra, interna e externamente. Mesmo a sua linha radical de defesa cederá a negócios duvidosos com o FCP, por exemplo. A minha opinião, a carecer validação, é a de que, na maioria dos casos (e em particular no "Caso Minorca"), BC sabe o que está a dizer e percebe as consequências do que diz. Mas nalguns outros (como os acima citados dos "alguns jornalistas" e "alguns empresários") pareceu-me que BC estava a comunicar "para dentro" (para os sportinguistas, em particular a sua linha radical de apoio), esquecendo a consequência "para fora" (os jornalistas não gostaram e à primeira oportunidade espetam-lhe a faca).

Enfim, deixo o tema para o debate dos especialistas sem tirar, por ora, uma conclusão definitiva. Mas genericamente, e em termos puramente comunicacionais, o pré-balanço é positivo. Se BC aprender a gerir os silêncios e a moderar o ímpeto, se mantiver a assertividade não calimérica nos temas essenciais e fizer as suas atuações corresponderem ao que diz nos comunicados, creio que vamos ter um Sporting mais assertivo e a comunicar melhor. Resta o tema dos papagaios mas esse não posso exigir que seja resolvido em 2 meses.

PS - sobre as conferências de imprensa com a sala cheia de radicais apenas uma nota: se algum dia correr mal e um jornalista sair de lá com um banano nas trombas, o responsável é quem abriu as portas. Por muito que eu considere que o jornalismo desportivo em Portugal anda pelas ruas da amargura, acho que este tipo de pressão, além de contra-producente no curto prazo, pode gerar situações muito complicadas. Disto é que BC não precisa seguramente. Mas ao abrir as portas duas vezes, pode estar a gerar um problema para o dia em que as quiser fechar. Que as feche já e vá habituando a malta a ver na TV ou ler no site.

Sem comentários:

Enviar um comentário