11/02/2013

O que se passa?

Seria fácil estar aqui a puxar as coisas que disse no passado sobre a qualidade do futebol do Sporting ou mesmo sobre o naufrágio que antecipava para a direção de Godinho Lopes. Como fácil seria a quem me lê relembrar os posts que fiz a elogiar contratações e a apontar para um 3º lugar "a olhar para cima", ao invés de um 10º ou 11º "a olhar para baixo". Mas isso de nada ajuda. Uma coisa é usar a etiqueta "Eu bem dizia" para de certo modo gozar comigo próprio. Outra, bem diferente, é usá-la na lógica do profeta da desgraça "eu avisei que isto ia acontecer, como foi possível não terem visto". Esta última é puramente egoísta e arrasta uma lógica de um quase-prazer masoquista com o momento do Sporting que não tem justificação. E poderia ser facilmente objeto de contraditório graças aos inúmeros momentos em que manifestei otimismo e esperança. Não vamos por aí.

Vamos analisar, objetivamente, porque nos encontramos nesta situação quando, obviamente, temos melhores jogadores do que o Paços, o Rio Ave e o Marítimo. Porque é verdade que os temos. Há muitos jogadores destas equipas que nos dariam jeito (e quem me dera que se contratasse um Rafael Miranda em vez de um Elias) mas, implicações pessoais à parte (Rinaudo parece o pior trinco da Liga aos meus olhos neste momento...), não há um único jogador destas equipas que entrasse de caras no 11 do Sporting. Tive esta discussão noutro dia com um amigo e ambos chegámos a essa conclusão: ele, mais radical, defendia que nenhum dos jogadores de uma lista que preparei tinha lugar no Sporting (ou apenas 1 ou 2 e nem esses teriam acesso ao 11); eu, mais moderado, defendia que vários teriam lugar no nosso plantel (e com eventual acesso direto ao 11), ainda que nesta fase, provavelmente, não fosse prioritário contratar um só que fosse. Desafio os leitores, aliás, a fazer este exercício: com exceção do plantel do Braga (nem falo de Benfica e Porto), procurem um só jogador que chegasse a Alvalade e entrasse de caras no 11 do Sporting. Verão que não seria assim tão simples...

Claro que, num exercício necessariamente "aposteriorístico" podemos defender que o plantel precisava de jogadores mais experientes e preparados para este tipo de momentos em lugar de alguns dos jovens do Sporting. Mas isso ajuda a perceber como poderiam as coisas ter sido diferentes, não ajuda a perceber o momento atual.

Então, o que se passa? A meu ver, passa-se o seguinte: ninguém contava que as coisas pudessem estar tão mal; e estes jogadores não estavam (nem estão) preparados para esta situação. Por outras palavras, esta temporada vem, infelizmente, comprovar que o Sporting tem um plantel demasiado jovem para reagir a adversidades e que a aposta na formação tem que ser feita com moderação. Ainda de outra forma: este plantel talvez tivesse capacidade para fazer umas coisas engraçadas se o arranque tivesse sido diferente; mas a 4 pontos da descida, os jogadores não se conseguem soltar, mesmo que tenha chegado um técnico que incutiu aquilo que eu e muitos outros diziam ser o (único?) elemento que faltava: organização.

Parece-me que é por aqui, mas vejamos os outros fatores:

1. A qualidade dos jogadores do Sporting, ou de alguns deles, parece-me indiscutível (e façam o exercício acima para perceber o que estou a dizer). Podemos dizer que a dupla de centrais é fraca, em especial a que atua neste momento. Mas aí convirá relembrar que o Sporting entrou para esta temporada com 4 centrais no plantel e que, por um motivo ou por outro, a verdade é que apenas 1 deles jogou os últimos dois jogos. Imaginem que o Porto tinha que fazer uma dupla com o pior dos 4 centrais do plantel principal (digamos Abdoulaye) e um da equipa B (digamos Tiago Ferreira). Façam o mesmo exercício no Benfica: Miguel Vítor com um central da equipa B. Certamente não estamos a falar da qualidade de uma dupla Otamendi-Mangala ou Luisão-Garay... Ou seja, não é (só) por aí.

2. Podemos também falar da falta de dinâmica coletiva da equipa em termos defensivos. Mas também aí me parece indiscutível que o Sporting melhorou consideravelmente: o Sporting de Vercauteren era, defensivamente, a pior equipa do campeonato e a que mais oportunidades de golo concedia aos adversários; o Sporting de Jesualdo limita-se a ser uma equipa que (ainda) defende mal, como tantas outras (incluindo, por exemplo, o Braga de Peseiro). Mas ontem, por exemplo, teve até mais oportunidades do que o Marítimo - sucede que o Marítimo marcou uma e o Sporting falhou, pelo menos, três oportunidades escandalosas (que, com Vercauteren, nem criava). Mais: o Sporting, acreditem ou não, tem a 4ª melhor defesa da Liga. Também não iria (só) por aqui.

3. Ofensivamente, o Sporting é a equipa que menos golos marca no campeonato. É verdade, é factual. Mas se com Sá Pinto e Vercauteren a equipa simplesmente não produzia, isso deixou de ser verdade com Jesualdo. Não houve um só analista que não tivesse focado o "penalty-em-andamento-e-mais-perto-da-baliza" que Jeffren desperdiçou em Vila do Conde e que faria o 2-0. Tal como ontem Wolfswinkel, antes do golo do Marítimo, teve um lance literalmente de golo cantado e Rubio outro no último suspiro do jogo. Ou seja, é óbvio que o Sporting está onde está porque não marca golos. Mas não deixa de marcá-los porque cria pouco, marca poucos porque neste momento toda a gente treme em frente da baliza.

Em suma, mesmo olhando à qualidade dos jogadores e à organização da equipa, o Sporting não é a 10ª ou 11ª equipa da Liga. É a 3ª ou 4ª, ou a 5ª se acharem que o fator "organização" do Paços superaria em qualquer circunstância o fator "qualidade" do Sporting. Então, o que se passa? Passa-se que nenhum dos atuais titulares do Sporting (com exceção talvez de Joãozinho) tem estrutura mental para lidar com esta situação. Foram formados para uma realidade completamente diferente. E não estão preparados para este tipo de combate.

"Qual combate?", perguntam vocês. "O Sporting todos os anos tem lutado apenas pela Liga Europa!", acrescentam. Pois, mas nós, por ora, não estamos nessa luta. Ninguém o assume, e muito bem, para não gerar ainda mais pressão, mas a luta do Sporting, neste momento, é a da manutenção. Sim, é nessa luta que estamos. Até pode ser que ganhemos em Barcelos e no Estoril (tenho defendido que para o Sporting é mais fácil jogar fora face ao ambiente de "tolerância zero" que se vive em Alvalade)e que certos fantasmas se afastem. Mas, pela minha parte, só penso que precisamos de fazer mais 6 ou 7 pontos nesta Liga para que os jogadores tranquilizem e comecemos a jogar outro futebol.

Claro que me dirão que o Sporting ainda recebe Setúbal, Moreirense e Olhanense pelo que 9 dos pontos em disputa são acessíveis. Mas como o Olhanense ontem provou no Dragão (e o Sporting em Alvalade), no futebol não podemos fazer essas contas. As contas têm que ser mais realistas e o realismo manda (i) assegurar 25 pontos o mais rapidamente possível (dado que no histórico da Liga a 16 nunca uma equipa desceu com mais do que 25 pontos - sim, fui ver isto, nunca na vida me passou pela cabeça ter que fazê-lo...); (ii) e depois, sim, dar o salto para os 30/31 para estar a salvo de qualquer anomalia.

Realismo. Precisa-se de realismo. E de experiência. À falta da experiência dos jogadores para esta luta terrível, valha-nos a experiência de Jesualdo. É nele que deposito a minha fé. Para ganhar em Barcelos e no Estoril. Difícil, mas possível.

PS: Em 21 de Janeiro escrevi o seguinte: "(...) Quando tínhamos 12 [pontos], e estavam por jogar 51, disse que precisávamos de somar aos tais 12 à volta de 35/36 para ir à Europa. Desses 36, 6 já estão. Faltam 30. E faltam disputar 45 pontos. A continuar assim, parece-me um objetivo ao alcance." A continuar assim, dizia eu. Não continuámos assim. Para além dos 6 que referi, fizemos apenas mais 1. Confesso que estava a contar, pelo menos, com mais 7 (vitórias em casa e empate, no mínimo, em Vila do Conde). Teríamos passado para 26, precisando "apenas" de 20/21 pontos dos 36 atualmente em disputa. Mas só passámos para 19 e estão agora 36 em disputa. Desses 36, teríamos, em meu entender, que fazer 29 para ir à Europa. Alguém ainda acredita que é essa a nossa luta?

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