13/12/2012

O Sporting - mais do que uma equipa de futebol - e a tal húngara (porque as promessas são para cumprir!)

Antes de mais: o Sporting ganhou ao Viodeton na 6ª feira. Não jogou grande coisa nem a vitória serviu de muito (aliás, não serviu para quase nada) mas acarretou duas consequências importantes:

1. Vercauteren rodou a equipa, com exceção de Insua e Capel, dando para ver que a maior parte dos que não jogam não têm, de facto, muito a oferecer à equipa (excecionaria Labyad).

2. O Futebola3 volta a publicar fotos de mulheres bonitas! Neste caso, trata-se de Barbara Palvin, uma modelo húngara que, convenhamos, ficará furiosa comigo quando descobrir que é para aqui chamada a própósito do paupérrimo Videoton (não, Barbara, não é por nos ter espetado 3 na primeira volta que vale alguma coisa...).



Mas falemos do Sporting. Não do (eu bem dizia...) Elias ou do (estoirado) Capel ou do (arrependido?) Labyad ou do (inglório e injustiçado) Wolfswinkel. Nem do Franky, nem do Sá Pinto, nem sequer do Duque e do Freitas. Falemos do SPORTING. Falemos da floresta e não das árvores.

Ora, do que vejo, a "floresta", para crescer, precisa de 3 coisas:
- Uma ideia clara de clube e do seu posicionamento no país (e, em particular, no futebol);
- Uma estratégia que sirva essa ideia e que defina um objetivo;
- A definição de um rumo para atingir esse objetivo.

Parece tudo muito esotérico, não é? Lá estão os sportinguistas com os "projetos", as "estratégias" e sei lá que mais, pensarão alguns. Mas isto não é nada esotérico!... Recuemos agora 30 anos e vejam lá se estou a dizer algum disparate.

Há 30 anos, o FCP tinha nada mais nada menos do que 7 campeonatos conquistados (se incluirmos a competição que teve lugar entre 34/35 e 37/38, que o FCP conquistou por uma vez). O Sporting tinha 16. Nunca passou pela cabeça de ninguém que fôssemos claramente ultrapassados em 30 anos. Seria preciso que:
(i) o Sporting ganhasse muito poucos ou nenhuns;
(ii) o Benfica reduzisse o ritmo de vitórias que tinha tido nas décadas de 60 e 70;
(iii) o Porto ganhasse muitos;
(iv) não surgisse um quarto clube a ganhar o que quer que fosse.

Impossível, não era? Pois bem:
(i) o Sporting só ganhou 2 (muito poucos), passando a ter 18;
(ii) o Porto ganhou 19 (!!!), passando a ter 26 (vantagem de 8, irra...);
(iii) o Benfica ganhou 8 em 30 anos, quando antes conquistava no mínimo 6 por década (passando a ter um total de 32);
(iv) surgiu um quarto clube, o Boavista, mas só ganhou por 1 vez.

Ou seja, em 30 anos, o Porto passa de 3º clube (em títulos) para 2º e nem se coloca a questão da disputa desse 2º lugar! Pelo contrário, o que os benfiquistas temem é que, a este ritmo, o Porto no final da década passe para 1º. Basta pensar nisto: a manter-se o ritmo do costume, em 2020 estarão iguais (o Benfica, ao ritmo que vem trazendo, ganha 1, o Porto ganha 7 e o Sporting nenhum).

Isto aconteceu porque há 30 anos alguém, no Porto, definiu claramente:
- o que era (ou poderia ser) o seu clube - o representante de uma região, segundo ele próprio, maltratada pelo resto do país, o que poderia tornar o clube no elemento aglutinador das vozes descontentes e no exemplo de sucesso dessa mesma região;
-  uma estratégia assente num objetivo muito ambicioso, mas igualmente muito claro - aliás dois objetivos: o primeiro, ultrapassar o Sporting (daí que fosse inimigo fidagal de João Rocha mas grande amigo do presidente do Benfica à época, Fernando Martins) - objetivo infelizmente já conseguido - e o segundo, ultrapassar o Benfica - objetivo que há 10 anos parecia uma miragem e que hoje assusta os benfiquistas;
- definiu qual o rumo para cumprir essa estratégia e atingir esse objetivo - controlar o sistema do futebol português, instituição por instituição; destruir os clubes pequenos do Sul; construir uma plataforma de satélites, primeiro no Norte, depois também no Sul (os tais que ele próprio destruíra e que agora ajudaria a reconstruir); criar aliados à medida de cada guerra, e dispensá-los com a guerra ganha; nunca abdicar do poder ou de influência sobre o poder; ter uma formação baseada nos novos valores do clube, inspirados essencialmente no regionalismo; criar uma mística de clube, também associada a esse regionalismo; ter quadros técnicos obedientes e respeitadores da filosofia do clube; roubar os jogadores aos rivais, incutindo a ideia de incompetência dos seus gestores; ter a comunicação social domada; ter uma comunicação interna ao serviço do clube e não de interesses de protagonismo pessoal; punir severamente os que se atravessam no caminho; ter a cidade ao serviço do clube.

Podemos discutir o rumo, mas não é esse o objetivo deste texto. Já por muitas vezes aqui critiquei a postura do Porto e a forma como chegou onde chegou. O que estou a dizer é que o caminho que percorreu Pinto da Costa foi antecedido de algo, muito importante, e que o Sporting perdeu por completo neste momento: uma ideia de clube. E que foi com base nessa ideia que se definiu a estratégia e o finalidade a que aludi. As quais são postas em prática, dia-a-dia, hora-a-hora, sem descurar qualquer detalhe, percorrendo o caminho que expliquei.

Não quero nem essa ideia de clube, nem sequer, neste momento, posso dizer que o nosso objetivo estratégico deve ser igual ao que Pinto da Costa delineou há 30 anos. E, para que não restem dúvidas, repudio o caminho percorrido e a forma encontrada para atingir esse objetivo (sem prejuízo de muitas delas serem bem pensadas e fazerem todo o sentido). Mas gostava de ver no Sporting um presidente que nos dissesse claramente isto:

- o Sporting é (ou tem que ser) um clube com o posicionamento X (necessariamente não regional no nosso caso, por dois grandes motivos: não somos um clube regional, por um lado; e a região em que temos a principal base de apoio é partilhada com outro clube);

- o objetivo do Sporting é Y e a estratégia do Sporting é Z;

- o rumo, esse, seria revelado na medida do possível. Porque há segredos que são mesmo a alma de alguns negócios.

E seria com base nisto que escolheríamos o nosso futuro. Infelizmente, nisto ninguém pensa; isto ninguém discute; com isto ninguém se preocupa. Eu posso um dia mais tarde dizer quais seriam as minhas propostas, mas o que gostaria era de ouvi-las de Godinho Lopes. Se nunca pensou no que digo... estamos muito mal.

Termino como dizia Pinto da Costa: Largos Dias Têm 100 anos! É verdade meus amigos, em 100 anos tudo pode acontecer. Mas a espera está a começar a magoar. Muito.

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