12/11/2012

Regresso às vitórias, à organização e... à sorte


Era fundamental o Sporting ganhar ontem e conseguiu-o. Com dificuldades, é verdade, mas também com mérito e, convém dizê-lo, alguma da sorte que vinha faltando. Mas quase tão importante como a vitória era demonstrar algo que pouco se tinha visto este ano: organização. E também isso o Sporting conseguiu, principalmente na primeira parte.

Mas vamos só voltar um pouco atrás para perceber onde pode ter "começado" esta vitória...

Nunca quis neste blog dar excessiva importância às declarações de adeptos, dirigentes e profissionais do Sporting de Braga relativamente ao tema "três grandes". E nunca o quis fazer porque simplesmente acho o tema imbecil.

Na realidade, só há duas formas de classificar a grandeza dos clubes: dimensão social e títulos. O resto é conversa. Evidentemente que o que interessa em cada momento é o resultado do jogo anterior, da jornada anterior, do campeonato anterior. E que a alegria ou tristeza no futebol tem a ver com esse momento. Mas uma classificação de "grande clube" só pode resultar de um dos dois fatores que referi. Caso contrário, ter-se-ia colocado em causa a grandeza do Benfica, que não deixo de reconhecer ser o que maior dimensão social e número de títulos tem, só porque em 3 ou 4 anos, entre o final do século passado e início deste, ficara atrás do Boavista. Não faz sentido.

Assim, se pegarmos na dimensão social, eu diria que temos dois grandes clubes com verdadeira implantação nacional (não deixando de reconhecer que o Benfica tem mais adeptos do que o Sporting) e um grande clube com uma implantação mais localizada em certas regiões do país (o FCPorto). Depois temos fenómenos como os Vitórias, com forte implantação nas respetivas cidades, ou o Marítimo que é forte na Madeira. E ainda o Belenenses, que ainda tem bastantes adeptos, quase todos eles muito desanimados com o que foram os último 30/35 anos da vida do clube. E talvez a Académica com os seus adeptos "sazonais", ou seja, os que se apaixonam pela Briosa durante a universidade. Só depois destes oito surgiria o Braga, como 9ª potência a nível nacional.

Em termos de títulos, temos os 3 grandes, os únicos que não se limitaram a conquistar títulos episodicamente. A seguir a estes, surgem o Boavista e Belenenses, porque além das diversas Taças que conquistaram, conseguiram ser campeões. E depois destes temos o Vitória de Setúbal e a Académica, que conquistaram mais do que uma vez a Taça de Portugal (e o primeiro ainda tem uma Taça da Liga). Em termos de títulos, o Braga está ao nível do Beira-Mar, do Estrela da Amadora e do Leixões, ou seja, ex-aequo em 6º lugar.

Em suma, a discussão não faz sentido e não vou gastar com ela mais do que os 4 parágrafos que já escrevi. E compete aos sportinguistas, com elevação e inteligência, não cair na tentação de rebater os do Braga com o nosso historial quando basta, para o efeito, utilizar o historial do Vitória de Setúbal. Elevação e inteligência que teve, a meu ver, Godinho Lopes, ao "obrigar" António Salvador a uma visita ao museu do Sporting, assim colocando as coisas no devido patamar sem entrar em bocas desnecessárias.

Mas deixemo-nos de fight-divers, como diria o caro consócio Telmo, e passemos ao que é importante: o Sporting voltou a ganhar.

E voltou a ganhar porque Vercauteren conseguiu em 15 dias dar um pouco de organização defensiva à equipa quando ataca. Isto mesmo: organização defensiva quando a equipa ataca. 80% dos golos que o Sporting sofria eram resultantes de perdas de bola no meio-campo ou ataque que se transformavam em auto-estradas para os adversários. Ontem, a equipa estava organizada e, na primeira parte, de que me recorde, só por uma vez uma perda de bola no ataque deu origem a um lance de perigo do Braga. Isto foi absolutamente decisivo.

Não decisivo (ontem) mas igualmente importante foi a organização ofensiva da equipa. Ainda houve muito charuto pelo ar, mas construíram-se ontem mais jogadas de envolvimento entre os vários setores da equipa, sem recurso a iniciativas individuais, do que em todo o resto do campeonato. Ontem o Sporting falhou, talvez pela primeira vez este ano, aquilo que verdadeiramente são ocasiões flagrantes de golo, ou seja, aquelas em que um jogador nosso aparece isolado à frente do GR adversário. E falhou-as por 3 vezes: Wolfswinkel (o tal que não presta para nada mas deve levar mais de metade dos golos da equipa), Elias e Capel.

Ainda não decisivo foi o principal fator que ainda falta melhorar: a gestão da vantagem. O Sporting recuou em demasia e a partir do momento em que Eric Dier (boa estreia) ficou amarelado, passou a dar muito espaço ao lado esquerdo do ataque do Braga, sem que ninguém ali compensasse e sem que Vercauteren reagisse. Aliás, sobre Vercauteren, convém dizer que as primeiras impressões são quase todas elas positivas, mas há um aspeto de que já me apercebi que me vai irritar particularmente: demora muito tempo a reagir no banco. Até agora, não mudaria uma só das substituições que fez desde que chegou (concordei com todas a 100%), mas o timing pode vir a ser decisivo no futuro.

Finalmente, o tema da sorte. Além das grandes exibições de Patrício, Elias, Capel e Wolfswinkel, o Sporting contou também com uma pontinha de sorte que vinha faltando. Quer o golo anulado (no meio da confusão, se Proença não visse a falta seria relativamente aceitável) quer a bola ao poste no último minuto são lances em que os deuses finalmente estiveram com o Sporting. Convenhamos que já o merecíamos...

Retomando, por fim, a lógica do último post de que temos que ir construindo a equipa jogador a jogador, queria dizer que se contarmos com Insua, Xandão e Rojo ao nível que revelaram ontem; se Adrien (por exemplo) puder ter uma oportunidade ao lado de Elias; se Carrillo regressar à melhor forma; se Pranjic debelar definitivamente a lesão e puder ser o verdadeiro motor da equipa... podemos mesmo fazer uma equipa engraçada e competitiva. Falta o lateral direito, eu continuaria a apostar (e fazer evoluir) Cedric. Tem que ser assim num clube formador. Mas convém que daquele lado lhe seja dado o apoio que ontem também foi faltando, nos últimos 10/15 minutos, a Eric Dier...

Chegam agora os 15 dias mais importante da época. Os 15 dias em que, após uma vitória (sobre uma equipa de qualidade acima da média, diga-se), Vercauteren poderá finalmente trabalhar com calma e com jogadores confiantes. É bom que o próximo jogo seja daqui a 15 dias e é também bom que seja contra o Moreirense, que ainda recentemente nos derrotou. Ter a capacidade de perceber o que correu mal nesse jogo é meio caminho andado para a vitória.

Depois... bem, depois vem o derby, que é sempre jogo de tripla. Encará-lo com confiança será sempre melhor do que a medo.

PS: Agora que Elias está na melhor fase desde que chegou ao Sporting, fala-se na sua saída para o Anzhi, da Rússia. Se for bem vendido, não me oponho, obviamente. Mas tem sido decisivo no meio-campo. Vejo Adrien como substituto natural e vejo em Vercauteren um treinador que, caso seja necessário, poderá também recorrer à equipa B. Por isso mesmo, se Elias continuar a jogar assim, ficarei obviamente com pena que saia. Mas ficaria com muito mais pena se insistíssemos no erro de viver acima das nossas possibilidades quando temos jogadores da casa que podem fazer a posição e uma equipa B recheada de putos com qualidade técnica, formados numa das melhores escolas do mundo, ainda para mais cheios de confiança com a liderança numa liga muito complicada onde, normalmente, quem sobe são os mais experientes. Temos que contar com eles.

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