06/11/2012

Julgamentos precipitados

Lembro-me bem da época em que Luisão chegou à Luz. E lembro-me por uma razão muito simples: tinha um colega de escritório, benfiquista fanático, que me chamou a atenção para o facto de Luisão ter chegado e o Benfica passar a levar golos de toda a maneira e feitio. Ele dizia-me "com o Luisão é chapa 3, vais ver... quando jogarmos com o Sporting, até podemos ganhar mas vamos levar 3 golos".

O jogo na Luz ficou, de facto, 1-3. Foi a estreia dos derbies na nova Luz. Rochemback, Elpídio Silva e Sá Pinto marcaram pelo Sporting, Luisão (curiosamente) pelo Benfica.

Admito que possa ter acontecido o seguinte: condicionado pelos resultados desse Benfica e ouvindo o que diziam os comentadores e vários benfiquistas (não apenas o meu colega), acabei por sobrevalorizar as opiniões negativas sobre o jogador. Como consequência, talvez devido a esses jogos iniciais e a esse derby, demorei anos a rever a minha opinião sobre Luisão.

Ainda para mais, no ano seguinte, o Benfica, apesar de campeão - com um golo decisivo e muito polémico de (curiosamente, lá está) Luisão - sofria golos de toda a maneira e feitio. Nem de propósito (e tomem lá outro curiosamente) no jogo da Taça de Portugal dessa época Benfica e Sporting empataram 3-3 (mais uma chapa 3, portanto). E nessa época e nas seguintes, Liedson, somo se sabe, fazia a cabeça em água ao gigante brasileiro, fosse pelo chão ou pelo ar.

Assim, vivemos uns anos em que os sportinguistas basicamente argumentavam que os benfiquistas gostavam de Luisão só porque ele tinha dado aquele campeonato; e os benfiquistas essencialmente contrapunham que Luisão era internacional brasileiro. Mas ninguém convencia ninguém.

Até que chegou Jorge Jesus. Arrumou a casa, organizou a equipa e pôs o Benfica a defender bem e a jogar bom futebol. A dupla era Luisão-David Luiz e a generalidade dos adeptos só tinha olhos para o segundo. Mas quando a cabeça do segundo foi para Inglaterra e o corpo ficou por cá, foi o que se viu: Luisão era o pronto-socorro da defesa do Benfica. Aí mudei definitivamente a minha opinião (já tinha vindo a mudar ao longo dos tempos, mas esse foi o clic definitivo): Luisão não é apenas um grande central, é o melhor a jogar em Portugal.

O que concluir daqui? Inserido numa equipa bem organizada, numa defesa bem montada, num esquema de jogo que funciona e com a confiança total do treinador, um bom jogador é sempre um bom jogador (e um que não seja grande espingarda até pode parecer muito bom - basta lembrar os clubes em que jogou Jordi Cruyff durante a sua carreira). Pelo contrário, numa equipa desequilibrada, desorganizada e sem fio de jogo, um bom jogador pode parecer um mau jogador.

Crucificar Marcos Rojo pelos erros individuais que tem cometido sem perceber que está, provavelmente, a jogar na equipa do Sporting com pior rendimento em toda a sua história, é extremamente injusto. Injusto pela individualização da culpa e pela falta de benefício da dúvida que merece qualquer jogador, ainda para mais um que é... internacional argentino.

Parece um discurso acrítico (o meu) mas não é: como toda a gente tenho olhos na cara e vejo que Rojo tem cometido alguns erros, essencialmente de posicionamento; mas daí a fazer o julgamento definitivo do jogador vai uma grande distância. Basicamente porque não podemos nunca esquecer os Deivids, os Fabianos e os Stanics desta vida, jogadores que não pareciam nada de especial e que, noutras paragens, tiveram rendimentos de grande qualidade. Mas, se esquecermos estes, não esqueçamos os que, num ou noutro ano, pareciam não merecer a honra de envergar a camisola de um grande clube e depois acabaram por deixar saudades. Ou seja, não esqueçamos os Acostas, os Lisandros e... os Luisões.

PS: Sei que o Luís Freitas Lobo não merece que me refira sempre a ele quando me lembro dos teóricos da bola. Digo mais: o Freitas Lobo é um notório upgrade relativamente aos Antónios Fidalgos e aos Bernardinos Barros desta vida. Vou ainda mais longe: o Luís Freitas Lobo percebe muito mais de futebol do que eu e do que a maioria dos que vêm futebol. Diz muitos disparates, mas eu certamente digo muitos mais. Mas, à semelhança dos clones de Mourinho, que começaram a brotar que nem fungos logo que o original saíu do país, desde que ele (Freitas Lobo) apareceu a falar na TV sobre as teorias da bola, os Freitas Lobos começaram a multiplicar-se (na TV, na rádio e principalmente na blogosfera). Tal como no caso do Mourinho, convém duvidar destes clones. Porque a cópia é sempre pior do que o original mas, mais importante ainda, porque para perceber de futebol o ponto de partida não são as "linhas" e as "transições". O ponto de partida, na minha humilde opinião, é perceber que os jogadores de futebol são pessoas como as outras, inseridas num grupo de 24 ou 25, que precisam, por esse mesmo motivo, de um líder e de uma autoridade (exceção feita ao Coringão do Sócrates, claro) e que o futebol é um jogo de equipa em que a falta de encaixe de uma peça pode estragar tudo, não porque a peça não sirva, mas porque, na maioria das vezes, está mal encaixada. E que esse encaixa, na maioria das vezes, tem que ser feito por quem está fora e não por quem está dentro de campo. Se, ao ler uma qualquer opinião, não deteto isto, confesso que de imediato a desvalorizo. Mas, mesmo desvalorizando, confesso que ando um bocado farto dos clones do Freitas Lobo...

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