20/08/2012

Uma ideia diferente de futebol


Começaria por dizer que não sou daqueles que dizem que nunca assobiam. Já assobiei em Alvalade algumas equipas do Sporting. Sinceramente, fi-lo poucas vezes e às vezes sinto que o deveria ter feito mais vezes. Sempre no final dos jogos, nunca durante. Mas num Sporting-Gençlerbirligi (0-3) ou num Sporting-Brondby (0-2), que me desculpem os técnicos e jogadores que participaram nesses jogos, um voto de protesto exige-se! Há mínimos, mesmo para o Sporting dos últimos 30 anos. 

Há quem diga que em Inglaterra não se assobia, por uma questão de educação. Em primeiro lugar, é mentira que nunca se assobie, basta recordar os jogos do Blackburn Rovers do ano passado ou mesmo alguns do Arsenal. Aliás, aos menos atentos basta recordar a saída da equipa do City ao intervalo no jogo contra o Sporting da época passada! Em segundo lugar, não é por uma questão de educação, mas de reconhecimento de esforço. Não assobiei o Sporting que perdeu 2-5 com o Barcelona porque os jogadores deram 100% e não dava mesmo para mais. Mas o Sporting que perdeu 0-3 com o Spartak de Moscovo não merecia a mesma condescendência. Em Inglaterra, regra geral, dá-se 100% e isso merece reconhecimento. Banhos de bola em casa sem suar a camisola, ah isso garanto que dá tanto direito à assobiadela como cá.

Isto tudo para dizer que dificilmente assobiarei este Sporting de Sá Pinto. Porque os jogadores se empenham, porque dão tudo, porque estão comprometidos com o treinador e jogam até aos 90 minutos com a concentração exigida a um profissional do Sporting. E porque, a jogar assim, acredito que o Sporting vai perder poucas vezes.

Sinto, no entanto, que este Sporting de Sá Pinto põe em causa muito do que escrevi até hoje sobre o que deveria ser um Sporting que luta para (tentar) ser campeão.

E, depois de ver ontem o Guimarães-Sporting, parece-me que  o que põe em causa os meus posts e as opiniões que aí escrevi não é o central a mais, ou o avançado a menos, ou as eventuais renovações de Patrício, Carriço e Adrien. O que põe em causa tudo o que escrevi até agora é, por parte de Sá Pinto, uma ideia diferente de futebol. Diferente relativamente àquilo que esperávamos dele e relativamente àquilo que o próprio Sá Pinto foi referindo no final da época passada.

Parece-me óbvio que Sá Pinto começa a revelar tratar-se de um treinador cauteloso. Que prepara bem as equipas e estuda bem os adversários, sempre numa lógica de segurança e de minimização do risco. Daí que tenham corrido particularmente bem os jogos mais complicados na época passada e não tão bem os restantes (com exceção, curiosamente, do jogo realizado contra o Vitória de Guimarães, em casa). Aquilo que atribuíamos a uma forma particular de montar a equipa para determinados jogos é, afinal, resultante de uma ideia de futebol diferente daquela que, imaginava eu, era supostamente a defendida por Sá Pinto.

O que quero eu dizer com este texto complicado e filosófico? Muito simplesmente que os adeptos esperavam que Sá Pinto pusesse o Sporting a jogar um futebol dinâmico, ofensivo, rápido e no limite do risco. E Sá Pinto está a apostar numa ideia de futebol que não recolhe algumas destas características, em particular a aposta no risco.

Sá Pinto pretende ter um Sporting seguro a defender e cauteloso na construção do jogo, esperando as linhas de passe (que, por ora, não vão surgindo porque me parece existir pouco "trabalho" por parte de quem não tem a bola), as rupturas resultantes das subidas dos laterais (o futebol está muito "flanqueado", neste Sporting) ou o erro do adversário (e ontem, por exemplo, o Vitória errou pouco).

Isto exige muito trabalho de casa, muito treino e muita paciência, especialmente nos jogos em casa (contando muito em particular com a intolerante turba de Alvalade). E exige concentração defensiva a níveis próximos da perfeição (ontem até estivemos perto disso).

Podemos gostar mais ou gostar menos desta ideia de futebol, mas não posso deixar de salientar o seguinte:

1º- Desde 95/96, época em que a vitória passou a valer 3 pontos (ou seja, desde que o empate passou a representar 33% dos pontos correspondentes a uma vitória, deixando de representar 50% desses pontos), o campeão teve sempre o maior número de vitórias, com uma única exceção (o Boavista de 2000/2001 teve menos uma vitória do que o segundo, FCP).

2º- Este facto assume especial relevância nas épocas de 98/99, 2004/2005 e 2006/2007 em que, independentemente do número de vitórias, o campeão não teve menos derrotas do que o 2º classificado. Curiosamente, em 2004/2005, o Benfica, que terminou em 1º, teve o mesmo número de derrotas que o 8º classificado (Rio Ave, a 18 pontos de distância). E em 2006/2007, o Sporting, 2º, teve 2 derrotas, menos 3 - três! - do que o campeão FCP, com 5.

3º- Ou seja, podemos construir uma equipa para não perder e aumentam obviamente as probabilidades de terminar em 1º. Mas essas possibilidades aumentam para níveis próximos dos 100% se a equipa, ao invés de construída para raramente perder, for construída para ganhar quase sempre. O que me parece é que construir o segundo modelo dá mais trabalho, e leva muito mais tempo, do que construir o primeiro.

Assim, de duas uma: ou o nosso "instinto" inicial relativamente a Sá Pinto estava certo, e teremos que aguardar pela criação de rotinas para que um futebol dinâmico e ofensivo seja jogado em Alvalade; ou estávamos todos enganados, e Sá Pinto vai construir um Sporting mais cauteloso e que não joga perto do risco. Se for o primeiro caso, temos que ser pacientes; se se tratar do segundo, podemos não gostar tanto, mas teremos que aguardar pelos próximos jogos para ver como resulta.

Em qualquer dos casos, pela minha parte, vou apoiando a equipa.

Venham, por isso, os dinamarqueses do Horsens, para a primeira vitória oficial da época. A atacar mais ou menos, este jogo é claramente para ganhar!

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