13/08/2012

O valor da liberdade de expressão

O atual PMAG do Sporting já era uma figura pública antes de ser PMAG do Sporting. Talvez não tivesse tanto mediatismo perante o que se usa chamar "grande público" antes da sua participação no programa da SIC "Os Donos da Bola" no final da década de 90 mas, pelo menos desde aí, passou claramente a ser uma figura pública com indiscutível repercussão mediática no país. Poucos portugueses não saberão quem é o Dr. Eduardo Barroso. E, por muito injusto que isso possa ser (e é mesmo), o seu mediatismo não advém do facto de liderar um dos mais prestigiados serviços de transplantes a nível nacional (e até internacional), mas sim do facto de ter sido "comentador do Sporting" em programas de televisão.

Certamente devido ao mediatismo que adquiriu nesses programas, foi convidado por Bruno de Carvalho para liderar a lista para a Mesa da Assembleia Geral do Sporting nas últimas eleições. Aceitou. E a verdade é que ganhou, pelo que foi legitimamente eleito PMAG do Sporting.

Não vou aqui discutir se deveria ou não ter solicitado à TVI a suspensão da sua participação no programa "Prolongamento" durante o período de campanha eleitoral. Penso que o deveria ter feito, como fez Dias Ferreira, para não criar uma pouco natural desigualdade relativamente às restantes listas. Tal como o deveria ter feito Rui Oliveira e Costa, que pertencia à lista do Conselho Leonino formada sob a égide de Godinho Lopes. Mas são factos do passado, não interessa agora estar a discuti-los.

O passado pode interessar, isso sim, para percebermos o que foi bem ou mal feito, na nossa vida e na dos outros, de forma a tirarmos ilações para o futuro. E aí, de forma algo paradoxal, permitam-me recorrer precisamente ao passado para recordar um episódio semelhante que teve lugar no Benfica há uns anos. Numa altura em que Vieira era líder do futebol (o presidente era Manuel Vilarinho) e toda a gente no Benfica tinha uma posta de pescada para mandar à 2ª feira, nomeadamente quando a bola não entrava ao Domingo, o referido Vieira mandou calar o PMAG do Benfica Paulo Olavo Cunha (POC), de uma forma não muito elegante (chamando-o de papagaio). Parece que POC ainda terá "esperneado", mas Vilarinho foi solidário com o "homem do futebol" e estabeleceu a regra do silêncio que até hoje vigora nos nossos rivais de Lisboa (nos do Porto vigora há uns bons 30 anos). Os papagaios começaram a calar-se e, ao fim de alguns anos, o resultado é o que se vê: Vieira é o líder indiscutível do Benfica, a voz que a comunicação social quer ouvir e, mais importante ainda, a voz que é ouvida e respeitada no balneário e fora dele. Sabe-se quem manda e percebe-se, recorrendo ao passado, porque manda e porque mantém um clima de (pelo menos, aparente) estabilidade interna.

Isto não existe no Sporting. No Sporting toda a gente fala e tem opinião, o que é muito bonito, mas infelizmente poucos resistem ao microfone. E isso é péssimo, como fui aqui dizendo ao longo deste ano e pouco de Futebol a 3. Mais ainda quando é o PMAG a intervir uma vez que, de uma forma ou de outra, está a representar o clube (e, por mais que tente, não consegue despir a capa de PMAG e tornar-se, de novo, e por breves minutos, o adepto Eduardo Barroso).

E é péssimo porquê? Simplesmente porque uma opinião sobre um treinador, um jogador ou um árbitro dada pelo PMAG pode ter repercussões muito complicadas, quer a nível interno, quer a nível institucional. Reparem que a opinião do Dr. Barroso sobre a venda do Matias é muito parecida com a minha. Mas eu não sou o PMAG. Vinda de mim, é uma posta de pescada; vinda do Dr. Barroso, deu no que deu... E isto sem falar dos prejuízos para a liderança do clube e do futebol, constantemente colocadas em causa com este tipo de intervenção.

O Dr. Barroso falou sobre "liberdade perdida" e tem toda a razão. Perdeu parte da sua liberdade quando assumiu o cargo de PMAG. Deveria ter abandonado o programa Prolongamento e eximir-se de dar opiniões sobre futebol. É injusto (mais uma vez o reconheço) mas é mesmo assim. O valor da liberdade de expressão, em certas circunstâncias, tem que ceder. É assim que se ganham lideranças fortes e se começam a construir resultados.

No futebol, tal como na medicina (onde ninguém tem nada a ensinar ao Dr. Barroso), quem gere tem que perceber verdadeiramente de futebol. E tem que tomar decisões com base nos conhecimentos que tem e que nós não temos. À imagem da política e de tudo o que é mediático, a gestão do futebol está sujeita à opinião de incautos, como eu próprio, que analisam cada fenómeno com a segurança própria da chico-espertice e sem os elementos todos à disposição. É o que faço aqui. E era o que fazia o Dr. Barroso no Prolongamento antes de ser PMAG. Agora já não o pode fazer.

E nem falo apenas de intervir sobre futebol (onde até poderia intervir desde que fosse um pouco mais cauteloso e discreto). Isso não é o pior. O pior são os casos em que pode estar em causa uma política institucional do clube. Dou apenas dois exemplos:

- numa altura em que o Sporting quer mostrar que é um clube grande, independente, livre de subserviências a norte ou amizades sonsas a sul, o PMAG do Sporting, que parece ser uma pessoa confiante e corajosa na sua vida profissional, revela-se um típico calimero quando passa ao comentário futebolístico. Frases como "nós não merecemos que nos façam isto" ou "por favor, deixem o Sporting em paz" são típicas nas suas intervenções. Empobrecem a dimensão do clube (como se não conseguíssemos impor, por nós, a nossa presença e grandeza) e tornam inglória qualquer demonstração de força que se possa fazer perante os rivais e a Liga (nós até precisamos que o PMAG peça publicamente que nos deixem em paz...);

- no comentário da arbitragem, o PMAG não percebe que há uma estratégia, que não lhe é obviamente divulgada, mas que parece passar (e muito bem) por pacificar a nossa relação com os árbitros. Não ganhamos nada em estar em guerra com árbitros, antes pelo contrário. Veja-se Xistra contra St. Etienne e Duarte Gomes contra Olympiakos. Veja-se quantas intervenções tiveram Freitas (poucas) e Duque (nenhuma de que me recorde) sobre arbitragens no ano passado. Veja-se o exemplo de Sá Pinto. Será que o PMAG não percebe que isto é estratégico? E que ter o PMAG constantemente a criticar os árbitros contradiz essa estratégia?

Claro que se poderia dizer que o Dr. Eduardo Barroso só intervém dessa forma porque não tem acesso a informação relevante que lhe poderia ser facultada pela própria SAD. Mas isto é futebol, muitas vezes o silêncio é indispensável para que as coisas se concretizem. Se tivesse havido silêncio, Mourinho teria sido treinador do Sporting, precisamente com Luís Duque. Gato escaldado...

Assim, de duas uma: ou o Dr. Barroso tem acesso a (alguma) informação e aproveita esse acesso para, de forma discreta, e muito esporadicamente, ir pacificando as hostes (como por exemplo agora fez Daniel Sampaio); ou não tem acesso e tem mesmo que ficar calado. Em qualquer dos casos, não é ele que determina o que é melhor para o futebol do Sporting nem determina se é melhor esclarecer isto ou divulgar aquilo. Não foi para isso que foi eleito. Foi eleito para ser PMAG e apenas isso. Se se candidatasse para gerir o futebol, dificilmente faria parte dos órgãos sociais do Sporting.

Finalizo referindo que, se seguisse os meus "bitaites", o Dr. Barroso consideraria que a sua intervenção não seria brilhante, como aliás já teve oportunidade de desabafar; pois eu considero que, como diz o povo (que tudo sabe), a palavra é de prata mas o silêncio, por vezes, é de ouro. E o brilhantismo mede-se pela eficiência das intervenções, não pela quantidade das mesmas. Por vezes, o silêncio pode ser brilhante, se for a atitude mais eficiente. Não é compatível com o programa Prolongamento? Bom, se assim é, parece-me óbvio que há uma opção de vida que tem que ser feita...

Só mais um ponto: eu este post assino com nome e número de sócio, essencialmente porque, sendo sócio do Sporting, e estando a referir-me ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral, pretendo que fique absolutamente claro que não uso este blog como veículo de uma opinião "escondida" sob a capa de nicknames ou heterónimos. Uso-o no habitual exercício da minha liberdade de expressão, neste caso reforçada com a minha qualidade de sócio do Sporting Clube de Portugal.

Miguel Menezes da Silva
Sócio n.º 19.120-1

PS: Por ora, também não vou discutir se um comentador em programas de TV com este formato deve ser remunerado ou não. Nem vou discutir os valores que se referem nos "mentideros" e que são efetivamente substanciais. E não o farei por uma simples razão: não quero acreditar que seja por esse motivo que o Dr. Eduardo Barroso se mantém no programa. Tenho-o por um grande sportinguista, apesar de discordar de muitas das suas intervenções. E estou convicto que um grande sportinguista como o Dr. Eduardo Barroso se mantém no programa porque honestamente entende que dessa forma "defende melhor os interesses do Sporting". Acredito que seja isso, embora esteja em desacordo como resulta claro do post. Se fosse por uns milhares de euros, seria para mim uma grande desilusão.

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