05/06/2012

A bola e o engate


Venho aproveitar a deixa do Gorbyn para escrever um post que há muito está na minha cabeça...

E vou direto ao tema: se pensarmos bem, as similitudes entre a atitude do macho no engate e a atitude do ponta-de-lança no campo são mais do que muitas. E a relevância de cada uma das características que fazem do macho um boss do engate é a mesma quando pensamos nas qualidades que o ponta-de-lança deve possuir: postura, movimentação, intuição, posicionamento, técnica, faro pelo "golo", killer instinct, resposta à pressão.

Creio, por isso, que a malta do engate deve ser qualificada em, basicamente, sete categorias, em função das características que acima enunicie: Bojinovs, Postigas, Cadetes, Acostas, Jardeis, Liedsons e Wolfswinkels (pegando nos jogadores do presente e do passado do grandioso Sporting Clube de Portugal).

Vejamos, então, se isto bate ou não bate certo.

A maioria dos jovens portugueses não passam de Bojinovs. Andam ali com postura de campeões, mas não sabem o que andam a fazer; movimentam-se com à-vontade, mas a posse de bola termina invariavelmente com a saída da mesma pela linha lateral ou final; dentro da área, posicionam-se mal e, regra geral, no local onde a bola nunca vai cair; disfarçam a falta de qualidade técnica com um ou outro toque de calcanhar que não dá em nada, mas de que se gabam o resto da noite ou mesmo durante semanas; quando têm oportunidades claras, até penalties falham. Um golo ou dois por ano é o pecúlio deste espécie de ponta-de-lança. Exemplo a não seguir.

Outros há, como eu, que, mesmo nos tempos em que andávamos nas trincheiras, não conseguíamos superar a equiparação a um Hélder Postiga. Postura impecável, mas algo tímida, designadamente perante as saídas dos guarda-redes (leia-se, os acompanhantes das damas-alvo); uma movimentação irrepreensível fora da área, mas estática dentro da área e tremida nos momentos decisivos; intuição próxima do 0 ("aquela está a olhar para mim, garanto-te, queres ver? olha, afinal enrolou-se com um Acosta" - ver abaixo); posicionamento excelente para os centrais de marcação (leia-se, machos adversários); remate à figura quando colocado a teste o nosso killer instinct. A média de golos é reduzida e varia entre campeonatos a seco e 4/5 golos por temporada. Pecúlio fraco. Os nossos momentos de glória são esporádicos golos em grandes competições e um remate "à Panenka" nos decisivos desempates por penalties. Lances que, aliás, nos garantiram contratos e carreiras (leia-se, o meu casamento). O que essencialmente nos separa dos Bojinovs é a resposta à pressão: os Bojinovs arriscam muito mais mas nos momentos decisivos falham; nós raramente nos arriscamos, mas perante o "doping" que é um discurso de Scolari (leia-se, vários shots de tequila impingidos por um Jorge Cadete - ver abaixo) lá acabamos por ganhar as forças necessárias e não falhar. Enfim, outro exemplo a não seguir.

Depois temos os Cadetes (inspirados em Jorge Cadete, Joca Cadete para os maiores fãs - e aqui não resisto a remeter para um dos melhores blogs de sempre sobre o fenómeno da bola, hoje infelizmente inativo). O Cadete é um ponta-de-lança que vai a todas, não pára quieto, não teme os centrais de marcação, muito menos teme guarda-redes com a agressividade de um Harald Schumacher e o tamanho de um Peter Schmeichel. No engate, curiosamente, o Cadete tem uma característica de Néné, mas não tanto do Joca que o inspira: milagrosamente, o Cadete do engate nunca sujou os calções (leia-se, nunca apanhou um enxerto de porrada dos centrais ou dos redes sem que se perceba muito bem porquê). Não tem grande intuição e muitas vezes movimenta-se entre o primeiro e o segundo poste sem grande critério, caindo a bola junto da área de penalty, onde ele deveria estar e não está. Pouco dotado de pés, raramente faz grandes golos e falha golos muitas vezes, mas rara é a noite em que não sai um golito. Graças ao seu killer instinct, não perdoa uma bola ali a saltitar. E é, por isso mesmo, dos melhores marcadores do campeonato. É certo que muitos dos golos entram aos tropeções e outros há em que o golo surge numa recarga de baliza aberta, após o trabalho do colega de equipa cujo remate esbarrou no poste. E é certo, também, que nos grandes jogos, nos grandes palcos, com a pressão em cima dele, raramente aparece. Mas em 90% dos jogos está lá, no sítio certo, para empurrar. E vezes há, até, em que marca um ou dois belos golos de cabeça que, no entanto, para ele, valem tanto como o marcado à boca da baliza em fora-de-jogo. Para ele, o que conta é o golo. Exemplo a seguir para quem segue o lema "só se perdem as que caem no chão".

Temos, igualmente, os Acostas (inspirados no mais famoso "matador" que passou por Portugal). Têm uma postura sempre agressiva, nada os intimida, à imagem do Joca. Mas movimentam-se com mais critério entre os centrais e o redes adversário, razão que explica com mais propriedade o facto de nunca terem sujado os calções (já sabem o que significa, está lá em cima). Raramente descaem nos flancos porque sabem que, ao sair da área, podem perder preciosas oportunidades de golo. Também na intuição se assemelham ao Joca: eles vão lá sem saber muito bem se a oportunidade surge ou se terão que disputá-la em carrinho com um dos centrais, mas não deixam de ir a todas. É na técnica e na resposta à pressão que encontramos as diferenças mais marcantes entre os Cadetes e Acostas do engate: enquanto que Cadete tem uma técnica equivalente à de um Purovic (espécie que nem merece qualquer análise), Acosta segura a bola com propriedade e é difícil retirar-lha; um Cadete eclipsa-se nos grandes momentos, já um Acosta nos grandes momentos brilha mais alto, muitas vezes aproveitando passes de um qualquer Secretário (outro que não merece análise) para fazer golos impensáveis. Marca a todos, pequenos e grandes, e marca por vezes grandes golos. Um Acosta, meus caros, é do melhorzinho que podemos encontrar por aí.

Faltam três espécies - os Jardeis, os Liedsons e os Wolfswinkels. Deixemos este para o fim e fiquemo-nos, por ora, nos Jardeis e nos Liedsons. Dois goleadores imparáveis com estilos absolutamente distintos: um Jardel não precisa de trabalhar, a bola vem ter com ele, já um Liedson esfalfa-se em todos os jogos; Jardel fica parado à espera da bola, dentro da área, um Liedson pressiona os centrais, vai à luta, descai nos flancos; um Jardel sabe sempre onde a bola cai, um Liedson tem que correr para ir ter com a bola; Jardel não joga "pôrra nenhuma", Liedson tem uma técnica requintada; ambos têm faro pelo golo, killer instinct e resposta perfeita à pressão, mas com uma singular diferença: um Jardel adora todo o tipo de golo, um Liedson só adora o golo bonito. Um Jardel sabe que vai fazer golos, e vai escolhendo o golo que quer fazer (só de empurrar, de cabeça, fora-da-área, de penalty); um Liedson despreza o golo de baliza aberta (embora saiba que o pode marcar e o marque de quando em vez), mas dá-lhe 100 vezes mais gozo marcar um golo decisivo ganhando de cabeça ou fazendo uma rata a um Luisão. Dois bons exemplos a seguir com uma sólita diferença: enquanto que um Liedson, sendo apreciado, tem que trabalhar, um Jardel não tem que fazer um carapau. Todos gostaríamos de ser Jardel, mas não depende de nós. Depende delas caírem ou não ao jeito do nosso pé...

Finalmente, os Wolfswinkels. Os cavalheiros da bola. Não pisam ninguém, não dão cotoveladas, não trabalham por aí além, mas são gentlemen da bola com "babyface" e, por isso, os adversários quase que pedem para que o golo entre. Nem se movimentam especialmente bem, mas parece que estão em todo o lado. Até têm uma postura que uns diriam antiquada e pouco agressiva mas, contabilizando bem a coisa, chegam ao fim do ano com 25 golos marcados. Alguns de penalty, é verdade. Mas muitos em lances de bola corrida. Raramente estão no sítio certo, mas de repente podem lá aparecer e marcar, para supresa de todos. Filósofo do engate, o Wolfswinkel pensa demasiado sobre o que faz e passa noites a vadiar sem marcar golos, noites essas que podem atingir largos períodos no tempo. Até que chega ao fim da época. E aí, mesmo com os seus impecáveis 25 a beijar as redes, os Wolfswinkels andam insatisfeitos porque, na realidade, bem lá no fundo, invejam os Postigas que conseguiram contrato na Liga Espanhola mesmo sem marcar golos. Eis o principal "problema" dos Wolfswinkels: não conseguem resistir quando a bola lhes aparece a saltitar à frente da baliza - pezinho em jeito e espetam-na lá para dentro. É mais forte do que eles...

Quanto a mim, um Postiga sem quaisquer pretensões a Jardel, sem capacidades para ser Liedson, desprovido do arrojo de um Acosta ou da lata de um Cadete, sempre sonhei ser um Wolfswinkel. Mas quando falo com Wolfswinkels ou mesmo com Acostas, todos me dizem que gostariam de ser o Postiga! Fico baralhado...

E só me convenço de que é bom ser um Postiga quando olho para trás e recordo aquele penalty à Panenka que saíu mesmo bem...

3 comentários:

  1. Gosto de imaginar que, tal como a generalidade dos jogadores de futebol, todos nós somos um somatório de características diversas, características essas possíveis de encontrar em variadissimos outros indivíduos. Há dois jogadores iguais a Jardel, Acosta, Postiga ou Wolfswinkel? Penso que haverá muitos que têm uma ou outra característica idêntica mas é a mescla que produz o resultado final.
    Olhando para a analogia do engate, que acho bem elucidativa, não poderemos dizer que o mesmo se passa no engate? O que é que leva um tipo a facturar mais ou menos? São características que muitos tendem a descrever como inatas ou a disciplina e trabalho levadas a cabo? Será que um tipo solteiro grita e salta no banco como o Jorge Jesus, sendo agressivo e determinado em todos jogos, versus um tipo casado que assume uma postura tranquila e passiva como a do mesmo Jorge Jesus que em Vila do Conde tinha a postura de quem estava confortavel com o campeonato perdido? Essa ideia relembra-me a maxima de Ortega y Gasset de que nós somos nós e as nossas circunstâncias.
    Gostava de me imaginar como um Van Basten a tempo inteiro. Ou seja o solteiro Van Basten lutador e autor dos melhores golos que vi na minha vida e o casado Van Basten que luta contra os contratempos e a monotonia, não se conformando com as transformações que o tempo impõem às relações. No entanto, e embora essa seja uma meta fantastica a ter, tenho a noção de que os Van Bastens são especies muito raras.

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  2. Muito raras mesmo, diria que é um mix entre Jardel e Wolfswinkel, mas sem inveja de Postiga... Complicado!

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  3. Este post devia ser lido por todos! Gerações vindouras e actuais deviam sobre ele reflectir. Era engrançado fazer uma analogia para o Benfica. Se me permites, ca vai:
    Bojinov- Pringle
    Postiga- Vata
    Cadete-Isaias
    Acosta- Cardozo
    Liedson-Van hooijdonk
    Jardel-Magnusson (nem se compara, mas foi o que tivemos de mais próximo)
    Van wolfswinkel-Nuno Gomes

    Abraco

    Ass. Galaad
    Jardel-

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