16/03/2012

Só nós sabemos sofrer assim

Antes de mais, queria dizer que ontem se assistiu a um grande jogo de bola em Manchester. Mesmo quem não é do Sporting, ou do clube anti-Sporting, ou do Man City, certamente terá vibrado com um dos jogos mais emocionantes dos últimos anos. Foi daqueles jogos de deixar mãos a tremer e corações a vibrar até aos 90+5. Mas podia muito bem não ter sido assim...

O Sporting fez uma primeira parte absolutamente fantástica. O City levou um banho de bola que, acredito, fez os adeptos recordar os tempos pré-Sheikh. Sheikh que, aliás, ao intervalo enviou um sms para o seu assistente pessoal em que dizia "عربي/عربى " o que basicamente significa "eu disse-te que queria no plantel todos os gajos do planeta que joguem muito à bola, como é que deixaste escapar este 14 do Sporting?". Dito de outra forma, o mago Matias fez um jogão que, por si só, deveria dar-me o direito de dar a este post o título "eu bem dizia", como aliás venho prometendo a propósito de diversos temas. Mas não o vou fazer. Em primeiro lugar, e desde logo, porque não é preciso ser um génio para perceber que Matias é um craque; em segundo lugar, porque quando assumi o meu narcisismo e o terrível defeito de ceder sempre à tentação de dizer que tinha razão pensei que estava a falar para meia dúzia de gatos pingados, nunca imaginando que as visualizações do blog subissem de semana para semana...

Para além de Matias, grandes jogas de Pereirinha, Insua, Izmailov e van Wolfsvinkel, que desde que readquiriu confiança parece outro (ou melhor, parece o de Setembro, Outubro e Novembro). Falta "adquirir" jogo de cabeça em frente da baliza, porque nas bolas pontapeadas por Patrício é impressonante a quantidade de lances que o holandês ganha pelo ar.

Na segunda parte, ao contrário do que se possa pensar, o City não massacrou o Sporting logo de entrada. Mancini tirou Johnson e pôs De Jong, equilibrando o meio-campo com Touré mais adiantado e com Micah Richards a fazer de extremo direito face ao imenso desgaste de Capel. Com 3 (Touré, De Jong, Pizarro) contra 2 (Carriço e Schaars) no meio, Matias foi forçado a recuar e o meio-campo passou a defender mais atrás. Ainda assim, não resultou em grande pressão para o Sporting, que conseguia sair para o ataque e até criou, nessa fase, a jogada de maior perigo por Insua.

A partir da entrada de Dzeko é que a coisa se complicou: sai Pizarro, Aguero fica solto atrás dos avançados, Balotelli e Dzeko em 2x2 na área contra Polga e Xandão (grande segunda parte a limpar tudo o que aparecia pelo ar), Kolarov praticamente a extremo esquerdo, grande pressão na saída da bola. Sá Pinto demorou a reagir e Aguero, numa altura em que Polga marcava implacavelmente um pedaço de relva pelo qual nutre especial carinho, reduziu para 1-2. O Sporting tremeu e precisava de uma mensagem clara do treinador.

É claro que ninguém quer dizer isto hoje, quando se festeja a eliminação do Mansheikher, desculpem, Manchester City. Mas Sá Pinto nesse momento deu cabo da equipa, tal como já o tinha feito em Varsóvia. A substituição de Capel por Jeffren aceita-se. A de Matias por Renato Neto só se compreende à luz do cartão amarelo do chileno... Não tanto pela substituição em si, mas pelas implicações em termos de recuo da equipa e de construção, uma vez que Neto foi ocupar a posição de Schaars mas não tem a capacidade de recuperar e construir com a mesma qualidade. A segunda linha de pressão, que tantas bolas recuperou na primeira parte, tinha em Schaars o elemento que dava critério à recuperação. Com a troca, perdeu-se Schaars, que desapareceu do jogo, e passámos a perder a bola logo após a recuperação. E nem falo do penalty cometido por Neto, porque se trata de um erro que atribuo exclusivamente à inexperiência do jogador.

Enfim, a partir daí foi o sufoco e nem a entrada de Carrillo por Wolfsvinkel deu a volta ao tema, simplesmente porque não havia bolas jogáveis para lá da linha de meio-campo. 2-2, 2-3 (com Carrilo, precisamente, a por Aguero em jogo), cabeceamente de Balotelli ao lado, Jeffren a reter a bola à frente o mais que podia (e pôde bastante, grande Jeffren...) e uma mágica defesa de Patrício no último segundo do jogo a um cabeceamento de Joe Hart (Wolf, não quero ser chato com este tema, mas até o redes do City cabeceia com mais intencionalidade à baliza do que tu, pá!). Acabou, passámos, somos os maiores mas... ninguém me tira esta sensação esquisita de alegria partilhada com a frustração de não termos ganho depois daquela primeira parte.

No meio disto tudo, houve um momento em que mantive a confiança: quando Pereirinha se lesiona no braço e, fazendo lembrar a história do mítico Azevedo, guarda-redes do Sporting nos anos 40, continua em campo, com o braço todo feito num oito, apenas para ser mais um a ajudar a defender. Foi um campeão e merece totalmente a foto neste post, bem como a inspiração para o título. Diz-se que só há vencedores com sofrimento e até deve ser verdade. Nós, quanto a sofrimento, já temos dose de cavalo e acredito verdadeiramente que mais ninguém sabe sofrer tanto como nós. Falta, agora, mudar a frase para que possamos dizer "quem mais sofre é quem mais ganha". Se for assim, saíremos muitas vezes vencedores. Mas, cá para nós, preferia sofrer menos e ganhar mais...

E agora... bom, agora venha o Gil para continuarmos na senda das vitórias!

PS1: Gostei que Sá Pinto, no final, tenha dado a entender que podíamos e devíamos ter ganho o jogo. Compreendo que não tenha sido tão assertivo como eu fui neste post, porque ele tem que moralizar as tropas, mas sinceramente subiu mais um ponto na minha consideração. Como líder, tem-se revelado melhor do que Domingos, não custa reconhecer. A montar a equipa, também tem dado um bigode ao Paciência. No decorrer do jogo, às vezes faz disparates que não se compreendem (e vai ser ele a pagar à minha família a indemnização pelos dias de vida que ontem perdi). Enfim, é o problema que temos quando os treinadores vêm para Alvalade para aprender...

PS2: Saíu o Metalist. É de desconfiar porque estão aqui depois de terem eliminado o Olympiakos, que nunca é fácil. Se menosprezamos estes tipos, é certo e sabido que vamos de vela. Se jogarmos a sério, sinceramente, não acredito que não passemos.

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