26/07/2016

"Pibe" Valderrama



[A propósito de um post que acabo de comentar no "A Norte de Alvalade"]

Sempre olhei para Valderrama como um fenómeno de marketing sul-americano, que tinha uma imagem poderosa mas pouco futebol nos pés.

Mas os anos passam e hoje existe o youtube. E por vezes, quase sem querer, deparamo-nos com coisas que nos deixam a pensar "Espera lá, eu na altura não reparei nisto?".


Não, não reparei, nem podia reparar. Desde logo porque no Mundial de 90 estava a torcer pela Alemanha (é uma longa história e fica para outro dia).

Mas este lance do Valderrama é de sonho. E o relato é brutal.

11/07/2016

Por agora, só isto

Uma análise tentativamente fria virá mais tarde, acabo de vir da Alameda e ainda estou em "modo euforia".

Por agora, fica a foto de um jogador relativamente a quem eu próprio escrevi que levaria ao Euro só por não haver outro que pudesse fazer o seu papel. O futebol tem esta magia e esta imprevisibilidade.

O que nos aconteceu não acontece sempre... mas não podia estar mais feliz por nos ter acontecido desta vez (e, ainda mais, nestas circunstâncias) e se é verdade que tivemos sorte neste percurso, também é verdade que ontem fizemos por merecê-la.

Três palavras apenas, muito rápidas:

- a primeira, para Fernando Santos: um gigante na leitura de jogo nesta final. Adrien não estava a dar e a equipa melhorou muito com Moutinho; e Éder (ao contrário do que pensavam 10 milhões de portugueses quando entrou) veio fazer com que a equipa jogasse uns bons metros mais à frente (e a França tremeu quando isso aconteceu). Já o tinha elogiado muito como selecionador e já o tinha criticado muito como treinador. Na final, foi treinador como nenhum outro neste Euro.

- a segunda, para CR7. Ontem foi um verdadeiro capitão de equipa. Já o tinha sido noutras ocasiões (basta lembrar os penalties com a Polónia) mas ontem fica na nossa memória não como o enorme jogador que é, mas como o enorme capitão que não conhecíamos assim tão bem. Mereceu muito levantar aquela Taça.

- a última para Patrício: ninguém merecia tanto ganhar este Euro como ele. Nunca poderei dizer, porque seria mentira, que "sempre acreditei" que íamos à final (parece que era o único que não acreditava...) ou que "tinha uma fezada" relativamente à nossa vitória no Euro. Mas posso dizer que com a Polónia confiei que Patrício resolveria e que ontem, descrendo num golo nosso no prolongamento, estava a por as minhas fichas em Patrício para os penalties. a sua frieza e determinação, para além das qualidades como GR, deram-me tranquilidade durante todo o torneio.


23/06/2016

Teimosia 3 - Alma e Coração 3 (com apuramento graças à Albânia e à Turquia)

Começo por dizer que a Albânia e a Turquia facilitaram a vida a Portugal. Sendo terceiros nos respetivos grupos com diferenças de golos negativas (ainda para mais de dois golos), permitiram autênticos passeios a todos os terceiros classificados. A partir daí, qualquer terceiro com diferença de golos nula ou de apenas 1 golo negativo sabia que estava apurado desde que fizesse 3 pontos. Portugal tinha dois empates e as contas eram simples: bastava empatar. Aliás, o empate podia chegar para ser segundo, se a Islândia também empatasse e o nosso número de golos fosse superior (o que aconteceu até aos 90+3 do Islândia-Áustria, quando um islandês deu o golpe de misericórdia nos pobres austríacos, que saem do Euro com derrotas com duas das seleções mais fracas da competição, o que diz muito do seu valor).

O não apuramento dependia, pois, de uma derrota com a Hungria. A acontecer, convém dizer que teria sido tão humilhante quanto a derrota com Marrocos em 86. Mas não aconteceu e agora, à boa moda lusitana, festeja-se o facto de estarmos na parte mais fraca da grelha, como se os resultados até agora indiciassem que limpamos sem problemas as Croácias, as Polónias (das seleções que mais gostei de ver, esta Polónia, grande joga com a Alemanha) e por aí fora. Enfim, somos mesmo assim.

Ontem não pude ver o jogo, por motivos profissionais. Uma reunião marcada por espanhóis insensíveis ao nosso jogo deu-me cabo do esquema. Espanhóis que, diga-se, estão verdadeiramente aterrorizados com a Itália. Era o pior adversário que lhes podia calhar. Dizem eles que os italianos vão querer vingar a tareia da final do Euro 2012. Eu lá lhes disse que que a Itália é sempre a Itália mas em condições normais a Espanha passa. Não ficaram muito otimistas...

Como dizia, não vi o jogo em direto, mas fui acompanhando, incrédulo, a marcha do resultado. Vi-o à noite, com calma, já sem emoção. E reconhecendo eu que obviamente vejo as coisas com lentes verdes, outros verão com lentes vermelhas e outros ainda com lentes azuis, queria dizer que isso pode afetar discussões como Renato vs Adrien, por exemplo, mas há coisas demasiado evidentes que uma lente de qualquer cor permite ver de forma muito clara.

Por isso mesmo, vou deixar de lado que considero que o Adrien devia jogar; que acho que as rotinas defensivas de Cedric serão seguramente superiores às de Vieirinha; que entendo que o Nani podia jogar no meio-campo, na ala esquerda, com o João Mário do lado contrário; que o Rafa devia ser titular ao lado do Ronaldo; que o Quaresma deve de facto entrar no decurso do jogo, para trazer algo diferente à equipa, mas dificilmente pode ser titular.

Agora, é impossível deixar de lado duas coisas que, permitam-me a imodéstia, já aqui escrevi há quase 3 meses:

- uma, que João Moutinho só deve jogar se estiver em forma, porque ao contrário do que nos tentava vender Paulo Bento, há opções para o seu lugar (e agora ainda há mais do que havia quando PB era selecionador). Custa acreditar que João Moutinho seja titular por outra razão que não o seu estatuto no grupo e o seu percurso na seleção. Mas as seleções não podem viver destes fenómenos, porque nestas competições curtas quem facilita num jogo, pode ficar fora (e tão perto que ficámos disso...);

- a segunda, que André Gomes na posição em que está colocado é totalmente inútil à equipa. Eu até poderia aceitar que André Gomes jogasse no lugar de Moutinho (acho que devia jogar o Adrien ou o Renato, mas adiante, aceitaria...). Agora, não vejo nada nada que o recomende para uma "ala", seja em losango ou noutro modelo, ainda para mais quando não me parece em grande forma.

Numa equipa que joga com 4 jogadores naquela zona, ter metade do meio-campo em modo "Taça-de-Portugal-contra-clube-do-CNS", quando do outro lado estão jogadores cheios de alma e coração, a viver o melhor momento das suas vidas, com um público entusiasta e vibrante (confesso: sinto inveja dos adeptos irlandeses e dos húngaros, como senti dos gregos na final do Euro 2004), é meio caminho andado para ter problemas. Se a isso se junta alguma nabice e algum azar (dois golos às três tabelas quase de rajada), podem acontecer resultados como o de ontem.

Sucede que, como todos tínhamos antecipado, Ronaldo fartou-se e resolveu. A exasperante reação ao terceiro golo dos húngaros diz tudo: "****-**, ando eu aqui com isto às costas e estes broncos nem conseguem evitar que a Hungria nos meta 3 batatas". É o que ele pensa, não duvidem. Continuou, como se viu várias vezes na segunda parte, a tentar chutar de todo o lado, estragando algumas jogadas. Mas apareceu, resolveu e até ia mesmo marcado de livre direto, ainda na primeira parte.

Outro destaque: João Mário. Bastou ter Renato em campo, e não Moutinho, para render o que se espera dele. Com este João Mário, com a inteligência de Nani, com um Ronaldo minimamente motivado e focado, com jogadores com energia no meio-campo, acredito que seja possível ganhar à Croácia. Com Moutinho e André Gomes a passar para o lado e para trás, desculpem-me mas não acredito.

PS: Ouvi um pouco do fórum TSF esta manhã. Primeira intervenção, o insuspeito Pedro Marques Lopes, fanático tripeiro. Pensei que fosse trazer à baila o William (para defender o Danilo), mas nem ele teve esse despudor. Limitou-se a dizer que o Moutinho joga a passo e que o André Gomes está fora da posição dele. Enfim, é por demais evidente.

19/06/2016

Tiro ao Boneco 0 - Catenaccio Tirolês 0

Cristiano Ronaldo é um enorme jogador de futebol. Um super-homem, super atleta, exímio rematador, cabeceador, etc. Um jogador de sonho, com um super-rendimento e que sozinho, por exemplo, levou Portugal ao Mundial do Brasil. Sem ele, ou com ele a meio-gás, foi o que se viu.

Não consigo ver o mundo pelos olhos dos experts que dizem que "tirando os golos, não dá nada à equipa". Desde logo, porque não é verdade, essencialmente por dois motivos:
- condiciona obviamente a atuação do adversário, e só isso já dá imenso à equipa;
- no Real Madrid Ronaldo envolve-se no jogo da equipa como qualquer outro jogador.

Mas ainda que fosse verdade, haveria sempre que perceber se o Real marcaria tantos golos sem ele em campo e com outros protagonistas no seu lugar, o que constitui um exercício impossível de realizar. Fala-se da seca de títulos do Real, como se não tivesse acontecido já noutras fases da história, esquecendo que o adversário é, apenas, o Barcelona de Messi.

Os factos são estes: CR tem batido todos os recordes de golos no Real, mas é verdade que o Real tem ganho menos do que era suposto ganhar (ainda assim, CR tem mais champions no bucho do que o Sr. Luís Figo, esse enorme desayunero, desculpem, patriota); e tem batido todos os recordes na seleção sem que a seleção, sob o seu "comando" tenha atingido algo de muito diferente do que sucedia no passado (tem as "meias" do Euro 12, mas já lá tínhamos chegado em 84, 2000 e 2004 - numa seleção a que ele pertencia mas de que não era líder e capitão).

Ora, na seleção, diz-se que Ronaldo decide sempre mal e estraga inúmeras jogadas da equipa. Eu aqui já posso ser tentado a concordar. Não concordo é com a conclusão "lá está, sem golos não vale nada". Isto não é verdade: Ronaldo já levou a seleção às costas inúmeras vezes, como disse acima. Mas é verdade que CR parece aquele miúdo que, por ser o mais forte do grupo ou o dono da bola, pode fazer o que quer. Não apenas marcar penalties, livres e até pontapés de baliza se for preciso, mas também chutar de qualquer zona do campo.

Creio que isto sucede porque Ronaldo assume alguma sobranceria na seleção portuguesa e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de fazer sozinho o que o coletivo não consegue. No Real ele sente que tem uma equipa ao nível dele; na seleção, deixaram-no assumir um estatuto tal, que Ronaldo crê (num misto de sobranceria e excesso de responsabilidade, como disse), que tem que ser ele a resolver tudo.

O que é importante que perceba é que isso nunca vai acontecer - Ronaldo na seleção nunca vai conquistar nada sozinho. Os experts podem dizer o que quiserem de Messi, mas nem Messi é capaz de o fazer, e numa seleção muitos furos acima da portuguesa em termos de soluções de qualidade. O único que foi capaz de o fazer, e é por isso o melhor de sempre na história do futebol, foi Diego Armando Maradona. Não apenas na seleção argentina, mas também no Napoli, que conduziu ao título por duas vezes. Esse sim era de outro planeta, os outros têm que se contentar em disputar o título de melhor deste planeta.

Isto dito: não sei que tipo de discurso é possível adotar com Ronaldo relativamente à sua postura em campo. Provavelmente, nenhum. O selecionador que abra a boca para falar da sua sobranceria está condenado ao conflito com o melhor jogador português; o discurso do excesso de responsabilidade não funciona, como se viu noutras ocasiões.

Resta pois a Ronaldo fazer o que pode e sabe, marcando golos decisivos à Hungria e fazendo esquecer todo o post até aqui. É o que acho que vai acontecer. Digo mais: um vai ser de livre direto. E o país volta a venerá-lo e a esquecer tudo o resto. E é assim que vamos até à próxima fase, rezando para que o próximo adversário abra um pouco mais e deixe Portugal jogar em contra-ataque, como supostamente será melhor para Ronaldo. Mas sabendo que não vai dar para muito mais do que isso, se a seleção continuar a jogar desta forma.

No meio disto, vai ficando no banco João Mário. Nem comento. Fernando Santos tem feito os mesmíssimos erros que às tantas fazia Paulo Bento. Dá que pensar se é ele que os comete ou alguém que decide por ele(s).

Uma última palavra para Raphael Guerreiro: Fernando Santos tem o enorme mérito de o ter chamado, depois de uma fase em que iam sempre os mesmos. Mas a dada altura estávamos no ridículo de ter meia Europa a querer o jogador, e o rapaz estar sentado no banco a ver o Eliseu, com quem o Benfica hesitava em renovar. Felizmente que apareceu o Dortmund e foi possível convencer o selecionador de que o rapaz deveria ser titular. Quando fiz aqui os meus convocados, pus Guerreiro à frente de Eliseu (que só seria chamado na ausência de Coentrão). Mas ainda ontem alguém me dizia, e provavelmente com razão, que se o Coentrão estivesse em forma, Raphael nem teria sido convocado. Temo que seja verdade. Estes fenómenos verdadeiramente bimbos não consigo mesmo compreender ("esse Guerreiro não pá, não tem estaleca... ah o Dortmund anda atrás dele? eh pá, então se calhar é bom"). E em Fernando Santos são uma verdadeira desilusão porque, como já disse 100 vezes, começou por dar a impressão contrária, de que ia limpar as teias de aranha e arejar a casa...

15/06/2016

Estatuto 1 - Seriedade 1

Disse aqui em posts anteriores que ir passear estatuto normalmente dá mau resultado. Referia-me a jogadores, mas aplica-se também a equipas. Portugal marcou e achou, como tantas vezes acham os grandes em Portugal, que o mais difícil estava feito. Descansou e pagou caro.

As seleções de nível médio aproximaram-se das grandes por um simples motivo: definem uma estratégia para os jogos e trabalham-na, ao passo que as grandes se vão fiando no estatuto e o jogo coletivo é quase inexistente (as exceções são Alemanha e Espanha, que efetivamente têm um futebol que vale a pena ver  e que é difícil de contrariar- na altura disse que também a Bélgica o tinha, pelos vistos nessa parte estava enganado).

Daí que o resultado mais desnivelado da 1ª jornada do Euro seja 2-0, em 3 jogos, sendo que apenas num deles (o Alemanha-Ucrânia) o resultado foi o "normal". O Hungria-Áustria foi um jogo entre seleções de nível semelhante, assim como o Itália-Bélgica (nunca se menospreza a Itália, há malta que não aprende...).

Mas não foi só o estatuto da equipa que a seleção foi passear. Foi também passear o estatuto de alguns jogadores, em particular Moutinho, que claramente não tem lugar. A dúvida neste momento é entre Adrien e Renato Sanches. Outros, como André Gomes e Danilo, não rendem mais porque não podem: André Gomes naquela posição nunca achei que valesse a pena (porque não recuar Nani para aquele papel, como peço há meses?); e quanto a Danilo, que sempre considerei um jogador interessante para suplente do William, como se recordarão os que me acompanham há mais tempo, tem vindo a provar que deveria ser isso mesmo, suplente do William (e, já agora, suplente do Ruben Neves no Porto, mas aí felizmente que ninguém me dá ouvidos).

Para que não pareça um 11 faccioso, deixo à escolha do freguês Adrien ou Renato. Mas de resto no próximo jogo seria Patrício, Cedric, Guerreiro, Pepe, Carvalho, William, Adrien/Renato, João Mário (péssimo jogo mas não tem alternativa à altura), Nani, Rafa, Ronaldo.

Isto assumindo que a ideia é obter o apuramento sem ser pela via do 3º lugar no grupo, claro... Porque caso o empate chegue, não vale de facto a pena ter João Mário de um lado e Nani do outro. Mantenha-se lá o André Gomes, num papel ingrato para o próprio (e até poderia jogar, também ele, no lugar do Moutinho), que lá rendeu a assistência para o golo, é verdade, mas pouco ou nada mais.

Teimosamente, acho que o selecionador vai jogar com o mesmíssimo 11, tirando Vieirinha por Cedric. Não deixa de fazer pena que um selecionador que, mesmo com tão pouco futebol, tinha mostrado ideias arejadas nas convocações, chegue ao Euro e faça o mesmo que todos antes dele fizeram: cria o 11 ideal e só os tira quando o INEM os leva ou, pior, quando um viking sai da crio-preservação para nos marcar um golo num Euro.


25/05/2016

Memórias (VI)


Vivíamos uma época de (injustificada) euforia. O Sporting tinha discutido o campeonato 93/94, com uma grande equipa, mas perdeu para o Benfica; tinha discutido o campeonato 94/95, com uma equipa ainda melhor, mas perdeu para o Porto; tinha de facto conquistado a Taça de Portugal em 94/95, depois de um jejum de 8 anos sem títulos, mas o facto de o adversário ser o Marítimo gerava a dúvida sobre a efetiva capacidade de bater os rivais.

Eis que chegamos a 95/96. Carlos Queiroz ao leme, depois de uma renovação que esteve tremida devido a motivo$ pe$$oai$. Na altura, Santana Lopes insistiu na renovação. E perante as saídas de Peixe, Figo, Balakov, Juskowiak (enfim, perante a destruição de uma equipa), fez chegar Pedro Martins, Pedro Barbosa, Assis e ... Ahmed Ouattara.

Pedro Martins durou três épocas. Não duvidando do seu profissionalismo, nunca lhe vi qualidade para representar o Sporting (o que a carreira pós-Sporting sobejamente demonstrou). Pedro Barbosa era daqueles enervantes jogadores cujo talento estava muito acima do rendimento. Acredito que não fosse apenas um problema dele. Nas mãos de um JJ, acredito que se tivesse tornado um jogador estratosférico. Mas os treinadores do Sporting naquela altura foram os que foram...

Quanto a Assis e Ouattara, terão sido supostamente roubados ao Porto. Na altura o Sporting tinha de facto dinheiro (o que não impediu que tivesse que dar Capucho a Pimenta Machado para ficar com Barbosa, ainda assim...). Davam-se os primeiros passos do que hoje se designa por "Projeto Roquette" e falava-se de "reestruturação", "profissionalização", etc. mas, quanto aos artistas do Sion, a verdade é que ninguém os conhecia. Assis tinha marcado um livre ao Porto, pelo Sion, uns anos antes. Ouattara era um perfeito desconhecido.

Mas enfim, o Sporting vinha de um período em que perdia tudo para os rivais - jogos e jogadores. Quando se fez passar a mensagem de que tínhamos ultrapassado o Porto nesta corrida aos dois "craques", ficámos convictos de que tínhamos dado grande golpada. Quando os jogadores chegaram, percebemos que não era bem assim...

Quanto a Assis, revelou-se um brasileiro do estilo "brinca-na-areia", que nunca rendeu no Sporting o que se poderia esperar dele (em 97/98 marcou um grande golo ao Porto, de livre direto, mas considerando que na baliza estava o Rui Correia, dou algum desconto). Já Ouattara, pese embora tenha tido um percurso sofrível, merece umas palavras honrosas.

Porquê? Explica-se facilmente. Tendo o Sporting vencido a Taça 94/95, ganhou o direito a disputar a Supertaça. Na altura, o troféu era disputado a duas mãos. Na primeira mão, no início de Agosto, Sporting e Porto empataram a 0, em Alvalade. Na segunda mão, 2-2 nas Antas. E o Sporting fez um jogão nas Antas, merecia claramente ter ganho o jogo, mas contou com uma arbitragem "à Porto", com direito a expulsão do GR Costinha por nada de especial e a terminar o jogo com Oceano na baliza (OK, o Oceano a GR não era muito pior do que o Costinha, mas é bom lembrar que lhe faltava rotina na posição).

Aqui fica o video com o resumo do jogo: https://www.youtube.com/watch?v=oglm90jAOiU.

No início do jogo, 1-0 para o Porto, por Domingos. Remate que bate no poste, depois no corpo de Costinha e pimba lá para dentro. "Só ao Sporting"... Mas o Sporting, com grande personalidade, empata com uma enorme jogada de futebol: Naybet vem com pezinhos de lã desde o nosso meio-campo, combina com Dominguez, que toca para Ouattara e aparece Naybet na área para um toque de classe sobre Vitor Baía.

Segunda parte, penalty para o Porto (e foi mesmo, há que dizer). Domingos, novamente, sendo que nesta altura o Porto já não praticava a modalidade "ora-defende-lá-esta-enquanto-levas-com-um-foguete-na-baliza" (https://www.youtube.com/watch?v=3uDS-fy5Qx4).

Mas a 15 minutos do fim, meus amigos, dá-se um daqueles momentos que põe qualquer sportinguista a saltar da cadeira e a venerar um jogador. Jogada pela direita, Ouattara desmarca-se, livra-se de um central, galopa para a área (é mesmo o termo, "galopa", vejam o video), Baía sai, Ahmed tira Baía do caminho com o pé direito, ajeita com o esquerdo e empurra para a baliza, perante o desespero de um adversário que ainda tenta impedir que uma obra de arte se conclua (um tipo sem carácter, obviamente, e culturalmente pouco evoluído). Um golo de antologia. Em pleno Estádio das Antas.

Tudo empatado novamente e assim ficou até ao fim (Oceano na baliza deu mais segurança do que Costinha), sendo que na Supertaça os golos fora não davam vantagem. Acabámos por ganhar o troféu, numa finalíssima disputada em Paris, já no final da época, com Octávio Machado no comando. Dois golos de Sá Pinto e um de Carlos Xavier. E para a história o que fica é esse jogo, ganho por 3-0.

Mas no imaginário sportinguista, a Supertaça foi ganha naquele momento em que Ouattara desprezou por completo o estádio das Antas e todo o sistema do futebol português, borrifando-se para o estatuto de um Baía estendido no chão, tratando-o como se não fosse ninguém e dando-lhe um nó cego, de pé para pé, que seguramente traumatizou por muitos anos o então GR do Porto (e assim se explica o seu desastroso percurso em Barcelona, para os que ainda não tinham percebido).

Claro que a veneração não terá durado assim tanto, porque Ouattara, nas épocas em que representou o Sporting, não deve ter feito mais do que 4 ou 5 golos (a wikipedia refere 5, vale o que vale), sendo que metade deles foram feito ao Porto e nas Antas (marcou um na primeira jornada do campeonato, precisamente o de 95/96).

Mas aquele momento perdura. Aquele momento em que, talvez por ignorância, talvez por ingenuidade, Ouattara ousou galopar nas Antas, deitar Baía e levar a decisão para a finalíssima.

Nesse dia, Ouattara foi gigante; Ouattara foi Sporting.