07/11/2016

Tira-teimas?

Há uns anos era recorrente a conversa da "atitude". Quem não se lembra daquela miserável época de 97/98 em que garantimos o apuramento para a UEFA com uma vitória sofrida sobre o já despromovido Belenenses (golo de Vidigal)? Durante essa época, falou-se sobretudo de atitude. Com Octávio e com Carlos Manuel, que a referia constantemente. Até a Juve Leo fez uma tarja "Pela vossa atitude, o nosso silêncio" num jogo em casa com a Académica que até hoje estou para perceber como conseguimos ganhar (golo de Marco Almeida - merece um post, não me posso esquecer dele!).

Entretanto não só o jogo evoluiu como evoluiu (ainda mais?) a capacidade de o analisar. Podemos não gostar de Freitas Lobo (não sou fã), Pedro Henriques (gosto mais) e tantos outros, mas é evidente o contraste com um passado não muito distante em que os jogos eram comentados pelo António Fidalgo (grande campeão pelo Sporting mas um comentador que só dizia banalidades).

Obviamente que este fenómeno acabou também por chegar aos blogs. Há 10/15 anos, não me lembro (mas posso ser só eu) de existir um só blog em que se tentasse fazer uma leitura rigorosa do jogo (aquilo a que eu e os meus amigos chamamos "futebol-processos"). Analisavam-se plantéis, equipas, lances, mas sem qualquer profundidade. Um bom jogador era bom porque fazia o que lhe competia. Nas análises de há 10/15 anos, Jonas era melhor do que Slimani porque marcava mais golos e fazia mais assistências. O seu papel no resto do jogo não era considerado.

Desde então, o aparecimento de blogs como o Lateral Esquerdo, o Posse de Bola, o Entre Dez, o Domínio Táctico (e já não está activo aquele que, para mim, era o melhor de todos: o Bancada Nova, do PLF) mudou a forma como os frequentadores de blogs olham para o jogo. Eu brinco muitas vezes com estes bloggers, chamando-os de experts, mas tenho que reconhecer que fui (e sou) influenciado por eles. Porque o que escrevem faz sentido. Muitas vezes discordo, por motivos que já expliquei noutros posts e que não vale a pena repisar (basta seguir o tag se estiverem interessados nisso). Mas são opiniões que têm fundamentos que vão para além do "não corre", "é um fussão", "não sabe rematar", "não tem cabedal" e isso faz com que os leia atentamente. Acima de tudo, o cliché da "atitude" foi caindo porque, regra geral, todas as equipas entram com a mesma atitude para dentro do campo e o que as distingue são, essencialmente, duas coisas: a qualidade coletiva e a qualidade individual dos jogadores.

Como referi, obviamente não foram os blogs que iniciaram o movimento, limitaram-se a acompanhá-lo. Aquela geração de treinadores que salvava clubes da despromoção (um deles, Jaime Pacheco, fez bem mais do que isso - foi campeão!) graças à "atitude" que incutia nos jogadores, deu lugar a uma outra geração (fortemente influenciada pelo papel de José Mourinho no Porto) que se preocupa com o futebol-processos e sabe que o "bora lá crl" não deve chegar para ganhar muitos jogos (há muitos exemplos, para todos os gostos: Paulo Fonseca, Marco Silva, Jorge Simão, Miguel Leal, etc.).

Isto tudo para dizer o quê?

Em primeiro lugar: sem prejuízo de tudo o que disse acima, no último jogo e m Alvalade com o Tondela, senti pela primeira vez em muitos anos (e incluo a época de 12/13 neste lote, vejam bem!) que os jogadores do Sporting não encararam o jogo com a atitude certa. Aquele jogo era para ganhar, sim ou sim, desde o primeiro minuto. E o Sporting pareceu entrar em ritmo de passeio.

Em segundo lugar: ontem senti que a equipa entrou com a atitude certa, em cima do adversário, a disputar cada lance sabendo que aquela vitória não podia mesmo fugir. E a vitória caiu naturalmente para o nosso lado.

Mas será que esta sensação relativa à atitude dos jogadores faz algum sentido? Ou será que efetivamente a colocação de BRuiz nas costas de Bas Dost, como referi no post anterior, era o detalhe que estava a faltar?

Honestamente: não dá ainda para tirar as teimas. Este jogo foi obviamente melhor, o Sporting entrou mais agressivo e mais pressionante, mas um exercício de honestidade deve levar-me a dizer que marcar num lançamento lateral às três tabelas aos 10 minutos de jogo muda muita coisa. Com o Tondela, Gelson Martins rematou ao poste, logo no início do jogo, e nunca saberemos como seria o jogo se essa bola entrasse.

Mesmo sem tirar todas as teimas, tenho que dizer que, a ganhar 1-0, vi a "atitude defensiva" de BRuiz que já antecipava. Juntamente com Dost e com Adrien cobriam o corredor central por onde o Arouca nunca conseguiu sair a jogar. Mais atrás, Campbell (belo jogo mas sempre melhor à direita e no meio do que à esquerda) e Gelson, mais William como homem mais recuado para uma segunda linha de pressão. Pressão coletiva, seguramente treinada há já muito tempo, mas a que faltavam duas peças: Adrien, que joga com William há mais de 3 anos, e é treinado por JJ desde o ano passado (e antes foi treinado por Jardim, Marco Silva, bons treinadores...); e um segundo elemento que fizesse companhia a Bas Dost e que conheça e entenda o que JJ pede (teria que ser, como disse, BCésar ou BRuiz).

Não podemos ter certezas, mas diria que, pelo menos, foi claro que o jogo estava controlado e que o Arouca só de bola parada criaria perigo (e tanta bola parada houve ontem, para um lado e para o outro, graças ao festival do apito de um dos grandes baluartes do Xistrema). Obviamente que, depois de 3 empates de rajada, Alvalade só descansou com o 2-0, mas o Arouca nunca fez nada que nos incomodasse. É um passo positivo.

PS: Sou totalmente insuspeito na apreciação do Elias. É um jogador que sempre considerei sobrevalorizado pelas chamadas a uma seleção que atravessa de há 10 anos para cá um incompreensível fenómeno de vulgaridade que o atual selecionador está a tentar corrigir a pouco e pouco (basta lembrar quem por lá andou neste período para perceber que Tite está mesmo a mudar alguma coisa). Mas dizer que é sobrevalorizado não significa dizer que é mau. O Juan Mata e o Roberto Soldado são altamente sobrevalorizados; dizer isto significa que são maus? Não, significa apenas que mesmo sendo ótimos jogadores não lhes vejo qualidades para andar em clubes de topo (comparemos com Payet que anda pelo West Ham ou com Kevin Gameiro, tanto tempo suplente no Sevilla e que só agora chegou ao Atletico Madrid). O Elias é um bom jogador e é perfeitamente capaz de desempenhar o papel que lhe está destinado no atual Sporting: ser alternativa a Adrien. Na ausência de Adrien, foi uma das vítimas dos erros coletivos que foram sendo cometidos porque o seu estilo de jogo o põe nos holofotes dos adeptos que querem carrinhos e correrias. Mas não foi seguramente pelo Elias que o Sporting perdeu em Vila do Conde, porque o Elias nem saiu do banco. E essa foi a única derrota no campeonato neste período (e bem expressiva por sinal). Por isto, mas acima de tudo por ser profissional do Sporting, vai sempre contar com o meu vibrante aplauso por cada vez que se levantar um coro de assobios como aconteceu quando entrou em campo com o Arouca.

03/11/2016

Falemos de futebol - os problemas de que se fala

Depois de uma longa ausência, apetece-me voltar a escrever para falar de algo que parece interessar pouco nesta fase (ou pelo menos parece interessar bastante menos do que os 823 textos anti-Benfica que se publicam um pouco por todo o lado, desde logo em páginas ligadas ao Sporting): os problemas que parecem existir na nossa equipa de futebol.

Faço-o depois de um jogo que, a meu ver, foi bem conseguido do ponto de vista coletivo mas que revelou, de alguma forma, em virtude de algumas alterações, parte do que não tem estado bem nesta equipa (pelo impacto positivo dessas alterações nalguns jogadores, como Schelotto e Marvin). Mas o sistema de ontem não serve para resolver todos os problemas, simplesmente porque aquele sistema não ajuda a ganhar ao Arouca em casa. Mais: aquele sistema não impede o Arouca de ser perigoso em Alvalade. Porquê? Porque a meu ver não resolve o maior problema do Sporting nesta fase: o espaço concedido a qualquer adversário para construir jogo pela zona central. Esse espaço expõe a equipa, que fica desequilibrada e desposicionada, e obriga os jogadores do meio-campo não só a correr mais do que era suposto mas também a construir a partir de uma zona mais recuada (porque a equipa dificilmente recupera a bola em zonas altas do campo).

Mas começo por dizer o que tenho ouvido por aí para depois dar a minha opinião:
- "o grande problema está nas laterais, não nos reforçámos"
- "o grande problema foi a lesão de Adrien, Elias não está à altura"
- "o grande problema foram os reforços, não estão à altura dos jogadores que saíram".

Quanto aos laterais, queria recordar que são os mesmos que fizeram a série de vitórias do ano passado. Todos sabemos que têm algumas limitações, mas convenhamos que já as tinham antes e que estão bastante acima da média do campeonato português. O treinador é o mesmo (logo a forma de defender também), os centrais também são os mesmos, o sistema no meio-campo defensivo é idêntico. Eu não iria por aqui. Podemos questionar jogo a jogo se as escolhas são as mais adequadas e acima de tudo questionar se, não tendo Jefferson saído (como parecia ser pretendido por treinador e SAD), não será ainda assim melhor opção do que, por exemplo, Bruno César. Mas mais importante do que isso, a meu ver, é perceber se os laterais este ano estão mais expostos do que no ano passado. Eu acho que estão mas não tem a ver com os bonecos que colocamos a jogar: tem a ver com a forma como a equipa está a jogar. Ontem a equipa protegeu melhor os seus laterais e a verdade é que vimos Marvin fazer mais subidas num jogo do que no resto da temporada.

Quanto a Adrien vs Elias, o problema não é especificamente esse. O problema seria Adrien (ou William) vs qualquer outro jogador do mundo que (i) não conheça o parceiro de sector e (ii) não seja treinado por JJ há pelo menos um ano. Desde a primeira hora o digo aqui, este sistema de JJ é um sistema que, quando está a carburar, dá muitos pontos; quando não está a carburar, é um pesadelo para o meio-campo. No ano passado eu dizia que com Aquilani e Adrien ia ser complicado e teríamos que jogar com meio-campo a 3. Mesmo com Adrien e JMário a equipa não estava a ser segura (e acho que poucos colocarão em causa a qualidade de JMário). Neste sistema, a rotina entre os jogadores do meio-campo é fundamental. Basta pensar no tempo que levou até que jogadores como Matic e Enzo Pérez se afirmassem definitivamente no Benfica de JJ. Por isso mesmo, eu que nunca fui fã de Elias e que considero que o rapaz parece sempre jogar em "modo caipirinha", defendo que não é por Elias que a coisa corre pior mas pelo sistema de jogo, que não foi adaptado à inexistência de rotinas entre os jogadores.

Quanto aos substitutos dos jogadores que saíram: é evidente que nem Dost nem Castaignos são Slimani, mas convém perceber que não estamos a falar da saída de um fora-de-série e que tanto Dost como Castaignos oferecem à equipa algumas coisas que Slimani não oferecia; e a saída de JMário tem sido disfarçada por um início de época fantástico de Gelson Martins (nunca pensei!). Não custa reconhecer que os reforços ainda não encaixaram (alguns vinham de grandes paragens competitivas) e antecipo mesmo uma vida difícil para alguns deles: Campbell chegou porque nem JJ acreditou que Gelson tivesse esta afirmação tão evidente (não terá oportunidades tão cedo); Douglas chegou porque JJ achava que RSemedo não tomaria conta do lugar (mas tomou); Meli viria fazer papel de JMário (naquela posição em que não era extremo nem médio interior) e foi também prejudicado pela afirmação de Gelson. Mas os demais terão o seu lugar e a sua função: Beto veio para ser suplente; Petrovic é alternativa a William; Elias é alternativa a Adrien (mas o sistema não o favorece); Dost será o titular e Castaignos a alternativa; Markovic seria segundo PL e André a alternativa (ainda há Alan Ruiz, mas é um caso à parte de que falarei noutra altura). Não são jogadores sem qualidade ou sequer sem experiência, estamos a falar de jogadores internacionais por Portugal, Sérvia, Brasil e Holanda. São, sim, jogadores com longos períodos sem competir (como disse acima) e "vítimas" de uma dinâmica coletiva que está numa fase menos boa. E o que está a correr menos bem coletivamente está a atrasar aquilo que já seria difícil por si mesmo.

Não estando o problema nos laterais, em Elias ou na qualidade dos reforços, onde está o problema? Como disse, no sistema de jogo e, muito em particular, no espaço que é dado ao adversário. O meio-campo corre mais mas corre pior. Recupera a bola mais atrás e quando inicia a construção tem 9, 10, 11 adversários pela frente. Qualquer equipa constrói em Alvalade, até o Tondela o fez. Os primeiros 45 minutos com o Dortmund, em Alvalade, foram penosos. À imagem do que fez no ano passado quando ficou sem William, JJ não adaptou a equipa à ausência de Adrien. Elias e Markovic têm sido jogadores sujeitos a verdadeiros massacres ao ego em Alvalade sem qualquer necessidade. Bastaria que, na ausência de um dos jogadores que há 3 anos jogam juntos, o treinador tivesse colocado Bruno César ou mesmo Bryan Ruiz nas costas do PL e a equipa teria logo outra dinâmica porque estes jogadores cumpririam um papel defensivo que é impossível pedir a Markovic ou André (nem se fale de Alan Ruiz). Como estamos, há metros e metros para construir. A dupla Slimani-Téo ajudava a mitigar isto, claro que sim. Mas não vale a pena dizer que sem Teo deixámos de defender ou que Slimani corria mais para pressionar do que Bas Dost. O que vale a pena dizer é que com jogadores diferentes temos que nos adaptar, ao invés de exigir a Dost que seja Slimani e a Elias que seja Adrien.

Entretanto este texto parece extemporâneo porque Adrien voltou. Mas não o é. Não o é porque eu entendo que, mesmo com Adrien, a equipa seria mais segura e mais forte tendo Bruno César à frente dos dois do meio-campo (não será por acaso que foi assim que o Sporting fez 80 minutos de enorme qualidade em Madrid). Adicionalmente, tendo regressado Adrien, vamos ver se continuaremos a ouvir queixas dos laterais e dos reforços do ataque. Posso estar enganado mas se JJ fizer regressar Adrien ao 11 com Bruno César ou mesmo Bryan Ruiz entre o meio-campo e o PL, a tranquilidade vai regressar. Poderá não ser imediato, porque o Sporting atravessa (não há que escondê-lo) uma crise de confiança, mas vai acontecer mais dia menos dia. Espero que até lá as vitórias, mesmo que menos tranquilas, nos ajudem a ficar relativamente perto do topo.

26/07/2016

"Pibe" Valderrama



[A propósito de um post que acabo de comentar no "A Norte de Alvalade"]

Sempre olhei para Valderrama como um fenómeno de marketing sul-americano, que tinha uma imagem poderosa mas pouco futebol nos pés.

Mas os anos passam e hoje existe o youtube. E por vezes, quase sem querer, deparamo-nos com coisas que nos deixam a pensar "Espera lá, eu na altura não reparei nisto?".


Não, não reparei, nem podia reparar. Desde logo porque no Mundial de 90 estava a torcer pela Alemanha (é uma longa história e fica para outro dia).

Mas este lance do Valderrama é de sonho. E o relato é brutal.

11/07/2016

Por agora, só isto

Uma análise tentativamente fria virá mais tarde, acabo de vir da Alameda e ainda estou em "modo euforia".

Por agora, fica a foto de um jogador relativamente a quem eu próprio escrevi que levaria ao Euro só por não haver outro que pudesse fazer o seu papel. O futebol tem esta magia e esta imprevisibilidade.

O que nos aconteceu não acontece sempre... mas não podia estar mais feliz por nos ter acontecido desta vez (e, ainda mais, nestas circunstâncias) e se é verdade que tivemos sorte neste percurso, também é verdade que ontem fizemos por merecê-la.

Três palavras apenas, muito rápidas:

- a primeira, para Fernando Santos: um gigante na leitura de jogo nesta final. Adrien não estava a dar e a equipa melhorou muito com Moutinho; e Éder (ao contrário do que pensavam 10 milhões de portugueses quando entrou) veio fazer com que a equipa jogasse uns bons metros mais à frente (e a França tremeu quando isso aconteceu). Já o tinha elogiado muito como selecionador e já o tinha criticado muito como treinador. Na final, foi treinador como nenhum outro neste Euro.

- a segunda, para CR7. Ontem foi um verdadeiro capitão de equipa. Já o tinha sido noutras ocasiões (basta lembrar os penalties com a Polónia) mas ontem fica na nossa memória não como o enorme jogador que é, mas como o enorme capitão que não conhecíamos assim tão bem. Mereceu muito levantar aquela Taça.

- a última para Patrício: ninguém merecia tanto ganhar este Euro como ele. Nunca poderei dizer, porque seria mentira, que "sempre acreditei" que íamos à final (parece que era o único que não acreditava...) ou que "tinha uma fezada" relativamente à nossa vitória no Euro. Mas posso dizer que com a Polónia confiei que Patrício resolveria e que ontem, descrendo num golo nosso no prolongamento, estava a por as minhas fichas em Patrício para os penalties. a sua frieza e determinação, para além das qualidades como GR, deram-me tranquilidade durante todo o torneio.


23/06/2016

Teimosia 3 - Alma e Coração 3 (com apuramento graças à Albânia e à Turquia)

Começo por dizer que a Albânia e a Turquia facilitaram a vida a Portugal. Sendo terceiros nos respetivos grupos com diferenças de golos negativas (ainda para mais de dois golos), permitiram autênticos passeios a todos os terceiros classificados. A partir daí, qualquer terceiro com diferença de golos nula ou de apenas 1 golo negativo sabia que estava apurado desde que fizesse 3 pontos. Portugal tinha dois empates e as contas eram simples: bastava empatar. Aliás, o empate podia chegar para ser segundo, se a Islândia também empatasse e o nosso número de golos fosse superior (o que aconteceu até aos 90+3 do Islândia-Áustria, quando um islandês deu o golpe de misericórdia nos pobres austríacos, que saem do Euro com derrotas com duas das seleções mais fracas da competição, o que diz muito do seu valor).

O não apuramento dependia, pois, de uma derrota com a Hungria. A acontecer, convém dizer que teria sido tão humilhante quanto a derrota com Marrocos em 86. Mas não aconteceu e agora, à boa moda lusitana, festeja-se o facto de estarmos na parte mais fraca da grelha, como se os resultados até agora indiciassem que limpamos sem problemas as Croácias, as Polónias (das seleções que mais gostei de ver, esta Polónia, grande joga com a Alemanha) e por aí fora. Enfim, somos mesmo assim.

Ontem não pude ver o jogo, por motivos profissionais. Uma reunião marcada por espanhóis insensíveis ao nosso jogo deu-me cabo do esquema. Espanhóis que, diga-se, estão verdadeiramente aterrorizados com a Itália. Era o pior adversário que lhes podia calhar. Dizem eles que os italianos vão querer vingar a tareia da final do Euro 2012. Eu lá lhes disse que que a Itália é sempre a Itália mas em condições normais a Espanha passa. Não ficaram muito otimistas...

Como dizia, não vi o jogo em direto, mas fui acompanhando, incrédulo, a marcha do resultado. Vi-o à noite, com calma, já sem emoção. E reconhecendo eu que obviamente vejo as coisas com lentes verdes, outros verão com lentes vermelhas e outros ainda com lentes azuis, queria dizer que isso pode afetar discussões como Renato vs Adrien, por exemplo, mas há coisas demasiado evidentes que uma lente de qualquer cor permite ver de forma muito clara.

Por isso mesmo, vou deixar de lado que considero que o Adrien devia jogar; que acho que as rotinas defensivas de Cedric serão seguramente superiores às de Vieirinha; que entendo que o Nani podia jogar no meio-campo, na ala esquerda, com o João Mário do lado contrário; que o Rafa devia ser titular ao lado do Ronaldo; que o Quaresma deve de facto entrar no decurso do jogo, para trazer algo diferente à equipa, mas dificilmente pode ser titular.

Agora, é impossível deixar de lado duas coisas que, permitam-me a imodéstia, já aqui escrevi há quase 3 meses:

- uma, que João Moutinho só deve jogar se estiver em forma, porque ao contrário do que nos tentava vender Paulo Bento, há opções para o seu lugar (e agora ainda há mais do que havia quando PB era selecionador). Custa acreditar que João Moutinho seja titular por outra razão que não o seu estatuto no grupo e o seu percurso na seleção. Mas as seleções não podem viver destes fenómenos, porque nestas competições curtas quem facilita num jogo, pode ficar fora (e tão perto que ficámos disso...);

- a segunda, que André Gomes na posição em que está colocado é totalmente inútil à equipa. Eu até poderia aceitar que André Gomes jogasse no lugar de Moutinho (acho que devia jogar o Adrien ou o Renato, mas adiante, aceitaria...). Agora, não vejo nada nada que o recomende para uma "ala", seja em losango ou noutro modelo, ainda para mais quando não me parece em grande forma.

Numa equipa que joga com 4 jogadores naquela zona, ter metade do meio-campo em modo "Taça-de-Portugal-contra-clube-do-CNS", quando do outro lado estão jogadores cheios de alma e coração, a viver o melhor momento das suas vidas, com um público entusiasta e vibrante (confesso: sinto inveja dos adeptos irlandeses e dos húngaros, como senti dos gregos na final do Euro 2004), é meio caminho andado para ter problemas. Se a isso se junta alguma nabice e algum azar (dois golos às três tabelas quase de rajada), podem acontecer resultados como o de ontem.

Sucede que, como todos tínhamos antecipado, Ronaldo fartou-se e resolveu. A exasperante reação ao terceiro golo dos húngaros diz tudo: "****-**, ando eu aqui com isto às costas e estes broncos nem conseguem evitar que a Hungria nos meta 3 batatas". É o que ele pensa, não duvidem. Continuou, como se viu várias vezes na segunda parte, a tentar chutar de todo o lado, estragando algumas jogadas. Mas apareceu, resolveu e até ia mesmo marcado de livre direto, ainda na primeira parte.

Outro destaque: João Mário. Bastou ter Renato em campo, e não Moutinho, para render o que se espera dele. Com este João Mário, com a inteligência de Nani, com um Ronaldo minimamente motivado e focado, com jogadores com energia no meio-campo, acredito que seja possível ganhar à Croácia. Com Moutinho e André Gomes a passar para o lado e para trás, desculpem-me mas não acredito.

PS: Ouvi um pouco do fórum TSF esta manhã. Primeira intervenção, o insuspeito Pedro Marques Lopes, fanático tripeiro. Pensei que fosse trazer à baila o William (para defender o Danilo), mas nem ele teve esse despudor. Limitou-se a dizer que o Moutinho joga a passo e que o André Gomes está fora da posição dele. Enfim, é por demais evidente.

19/06/2016

Tiro ao Boneco 0 - Catenaccio Tirolês 0

Cristiano Ronaldo é um enorme jogador de futebol. Um super-homem, super atleta, exímio rematador, cabeceador, etc. Um jogador de sonho, com um super-rendimento e que sozinho, por exemplo, levou Portugal ao Mundial do Brasil. Sem ele, ou com ele a meio-gás, foi o que se viu.

Não consigo ver o mundo pelos olhos dos experts que dizem que "tirando os golos, não dá nada à equipa". Desde logo, porque não é verdade, essencialmente por dois motivos:
- condiciona obviamente a atuação do adversário, e só isso já dá imenso à equipa;
- no Real Madrid Ronaldo envolve-se no jogo da equipa como qualquer outro jogador.

Mas ainda que fosse verdade, haveria sempre que perceber se o Real marcaria tantos golos sem ele em campo e com outros protagonistas no seu lugar, o que constitui um exercício impossível de realizar. Fala-se da seca de títulos do Real, como se não tivesse acontecido já noutras fases da história, esquecendo que o adversário é, apenas, o Barcelona de Messi.

Os factos são estes: CR tem batido todos os recordes de golos no Real, mas é verdade que o Real tem ganho menos do que era suposto ganhar (ainda assim, CR tem mais champions no bucho do que o Sr. Luís Figo, esse enorme desayunero, desculpem, patriota); e tem batido todos os recordes na seleção sem que a seleção, sob o seu "comando" tenha atingido algo de muito diferente do que sucedia no passado (tem as "meias" do Euro 12, mas já lá tínhamos chegado em 84, 2000 e 2004 - numa seleção a que ele pertencia mas de que não era líder e capitão).

Ora, na seleção, diz-se que Ronaldo decide sempre mal e estraga inúmeras jogadas da equipa. Eu aqui já posso ser tentado a concordar. Não concordo é com a conclusão "lá está, sem golos não vale nada". Isto não é verdade: Ronaldo já levou a seleção às costas inúmeras vezes, como disse acima. Mas é verdade que CR parece aquele miúdo que, por ser o mais forte do grupo ou o dono da bola, pode fazer o que quer. Não apenas marcar penalties, livres e até pontapés de baliza se for preciso, mas também chutar de qualquer zona do campo.

Creio que isto sucede porque Ronaldo assume alguma sobranceria na seleção portuguesa e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de fazer sozinho o que o coletivo não consegue. No Real ele sente que tem uma equipa ao nível dele; na seleção, deixaram-no assumir um estatuto tal, que Ronaldo crê (num misto de sobranceria e excesso de responsabilidade, como disse), que tem que ser ele a resolver tudo.

O que é importante que perceba é que isso nunca vai acontecer - Ronaldo na seleção nunca vai conquistar nada sozinho. Os experts podem dizer o que quiserem de Messi, mas nem Messi é capaz de o fazer, e numa seleção muitos furos acima da portuguesa em termos de soluções de qualidade. O único que foi capaz de o fazer, e é por isso o melhor de sempre na história do futebol, foi Diego Armando Maradona. Não apenas na seleção argentina, mas também no Napoli, que conduziu ao título por duas vezes. Esse sim era de outro planeta, os outros têm que se contentar em disputar o título de melhor deste planeta.

Isto dito: não sei que tipo de discurso é possível adotar com Ronaldo relativamente à sua postura em campo. Provavelmente, nenhum. O selecionador que abra a boca para falar da sua sobranceria está condenado ao conflito com o melhor jogador português; o discurso do excesso de responsabilidade não funciona, como se viu noutras ocasiões.

Resta pois a Ronaldo fazer o que pode e sabe, marcando golos decisivos à Hungria e fazendo esquecer todo o post até aqui. É o que acho que vai acontecer. Digo mais: um vai ser de livre direto. E o país volta a venerá-lo e a esquecer tudo o resto. E é assim que vamos até à próxima fase, rezando para que o próximo adversário abra um pouco mais e deixe Portugal jogar em contra-ataque, como supostamente será melhor para Ronaldo. Mas sabendo que não vai dar para muito mais do que isso, se a seleção continuar a jogar desta forma.

No meio disto, vai ficando no banco João Mário. Nem comento. Fernando Santos tem feito os mesmíssimos erros que às tantas fazia Paulo Bento. Dá que pensar se é ele que os comete ou alguém que decide por ele(s).

Uma última palavra para Raphael Guerreiro: Fernando Santos tem o enorme mérito de o ter chamado, depois de uma fase em que iam sempre os mesmos. Mas a dada altura estávamos no ridículo de ter meia Europa a querer o jogador, e o rapaz estar sentado no banco a ver o Eliseu, com quem o Benfica hesitava em renovar. Felizmente que apareceu o Dortmund e foi possível convencer o selecionador de que o rapaz deveria ser titular. Quando fiz aqui os meus convocados, pus Guerreiro à frente de Eliseu (que só seria chamado na ausência de Coentrão). Mas ainda ontem alguém me dizia, e provavelmente com razão, que se o Coentrão estivesse em forma, Raphael nem teria sido convocado. Temo que seja verdade. Estes fenómenos verdadeiramente bimbos não consigo mesmo compreender ("esse Guerreiro não pá, não tem estaleca... ah o Dortmund anda atrás dele? eh pá, então se calhar é bom"). E em Fernando Santos são uma verdadeira desilusão porque, como já disse 100 vezes, começou por dar a impressão contrária, de que ia limpar as teias de aranha e arejar a casa...